Os dias que se seguiram ao cerco não foram de descanso, mas de uma sobrevivência meticulosa e dolorosa. Lá fora, a tempestade de Inverno Profundo rugia em sua plenitude, um monstro de vento e gelo que atingia -110°C e arrancava a vida de qualquer coisa exposta. Mas dentro da barreira de neve compactada que Elian havia erguido, o mundo era diferente.

    A fortaleza branca funcionava exatamente como a física previra. Os muros altos bloqueavam a convecção forçada, impedindo que o vento roubasse o calor gerado pelo pilar central. A neve, com seus 90% de ar estagnado, agia como um isolante perfeito, refletindo o calor de volta para dentro. O resultado era milagroso: enquanto o planeta gritava de fúria, ali dentro reinava uma temperatura estável de 25°C, um oásis tropical sustentado por meros 15.000 Watts de energia nuclear, graças à eficiência máxima do sistema fechado.

    Elian Vane, porém, sentia o peso de tudo isso não no ambiente, mas em seu próprio corpo. Ele estava sentado no chão da cabine, encostado na parede, com o ombro esquerdo latejando sob as bandagens grossas. A dor não era mais a agonia lancinante do osso deslocado, mas uma dor surda, profunda, que pulsava em sintonia com seu coração, lembrando-o a cada segundo de que ele era frágil, orgânico e reparado com fita adesiva e vontade própria.

    Durante os 14 dias de confinamento, a Vanguard deixou de ser apenas uma nave acidentada para se transformar em seu universo particular. O ar era quente, carregado do cheiro doce da seiva das árvores cristalinas que circulava pelos tubos, misturando-se ao odor metálico de ferro velho e ao cheiro mais forte, animalesco, que vinha da eclusa de ar.

    Ali, na pequena antecâmara que servia de interface entre a segurança da tecnologia e a crueldade da natureza, Elian se transformou em algo novo. Não mais o herdeiro mimado de Marte, que reclamava de pequenos inconvenientes em salões climatizados. Agora, ele era um artesão da sobrevivência, um curtidor de peles alienígenas.

    O chão estava coberto por lonas grossas, retiradas dos revestimentos internos da nave, manchadas de um líquido espesso e escuro, de um azul-violeta profundo — o sangue dos Lêmures de Vidro que haviam sido esmagados durante o ataque.

    — É assim que se faz… — murmurou ele, a voz rouca, enquanto ajustava o cortador laser em sua mão direita. A esquerda estava imobilizada em uma tipoia improvisada, ainda fraca, mas funcional.

    O feixe de luz chiava baixo, como uma vespa gigante. Ele deslizou a lâmina de energia ao longo do corpo do primeiro animal, esfolando a pele resistente, separando a gordura branca e densa. O cheiro era forte, almiscarado e metálico, impregnando o ar.

    Ele trabalhou por horas, dias, perdendo a noção exata do tempo. Cortou, esticou, limpou. Usou a própria gordura derretida para amaciar o material, transformando-o em couro cru, mas infinitamente mais resistente. A costura foi o verdadeiro tormento: sem agulhas de metal, usou lascas de osso afiadas e linha feita de tendões torcidos.

    Cada ponto era uma tortura para seu ombro ferido. A cada movimento errado, uma pontada de dor aguda o fazia cerrar os dentes até a mandíbula doer. Lágrimas escorriam, não de fraqueza, mas de reação involuntária. Ele parecia patético, um homem pequeno e quebrado, costurando peles de monstro como um bárbaro primitivo rodeado por tecnologia de ponta.

    Mas quando finalmente terminou, ergueu a obra-prima: “A Casca da Besta”. Um traje volumoso, de cinco camadas sobrepostas, coladas com seiva das árvores que endurecia como resina epóxi. Pesado, mas capaz de mantê-lo vivo a -80°C.

    Cansado, ele arrastou-se até a janela principal, bebendo água e comendo pedaços da carne escura e fibrosa que, aos poucos, seu estômago aprendia a aceitar. Do lado de fora, dentro da bolha de calor, a figura colossal do Titã se movia lentamente, aproveitando o calor radiante do pilar a 130°C.

    Elian olhou para a besta. Ela era enorme, imponente, um gigante adormecido que poderia esmagá-lo com um movimento, mas que ali estava, dependente dele para se manter aquecida.

    — Você é grande demais para ser só “o Titã” — sussurrou Elian, com a boca cheia, sentindo o isolamento apertar seu psicológico. — Precisa de um nome. Algo que caiba nesse tamanho todo.

    Ele pensou nas lendas da Terra Velha, nas histórias que lia em Marte quando queria fugir da realidade. Histórias de guerreiros e monstros. Um sorriso fraco surgiu em seus lábios rachados.

    — Goliath — disse ele, baixinho, testando o som. — Goliath. Porque você é um gigante, e eu sou só o pequeno que está tentando não ser esmagado.

    A besta, como se ouvisse, moveu a cabeça imensa e soltou um bufo de vapor quente que embaçou parte do vidro.

    — Goliath — repetiu Elian, mais forte, batendo levemente no metal da janela. — É seu nome agora, grandalhão. Nós dois somos sobreviventes, você e eu. Lutando contra o frio. Lutando contra a entropia.

    E assim, naquele momento de solidão e dor, o vínculo foi selado não só pelo calor, mas por um nome.

    A dieta e o trabalho transformaram-no. A carne rica em proteínas reconstruiu seus músculos, definindo-os sob a pele, adaptando-se à gravidade de 2G. A gordura dos animais era ouro líquido: servia para comer, para lubrificar engrenagens, para proteger sua pele do ressecamento mortal.

    Elian passou os dias seguintes lendo para o gigante, ou tentando explicar o mundo. Lia equações de termodinâmica, relatos de exploração, poemas antigos. Goliath respondia com rosnados baixos e vibrações no solo, uma conversa silenciosa que mantinha a sanidade do humano intacta.

    No décimo quarto dia, o uivo parou.

    Não foi gradualmente. Foi como desligar um interruptor. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que doía nos ouvidos.

    — Relatório: Temperatura externa -45°C. Céu limpo — anunciou Athena.

    Elian vestiu A Casca da Besta. O traje o fazia parecer um yeti alienígena, volumoso e estranho, com uma máscara feita de crânio e filtros. Pegou a picareta sônica, recém-impressa, e abriu a escotilha.

    O mundo havia mudado. Dunas de neve de cinco metros de altura transformavam a paisagem em um mar branco e morto. A fortaleza de neve estava intacta, o pilar central ainda brilhava em seu rubor constante, vapor subindo em espirais preguiçosas.

    O chão tremeu.

    Goliath levantou-se. A neve escorria de seu dorso como uma cascata branca, revelando a massa colossal de quatro toneladas de músculo e pelo. Ele aproximou-se da nave, cada passo um martelo surdo no gelo.

    Baixou a cabeça até o rosto de Elian. O ar quente de suas narinas era como uma brisa de fornalha, aquecendo o traje do humano por fora. Ele cheirou-o, sentindo o cheiro das peles dos lêmures, do metal e do homem. Reconhecimento. Aceitação.

    — Bom dia, Goliath — disse Elian, a voz abafada mas firme.

    O Titã bufou, um som que vibrou no peito do humano como um tambor, e virou-se, sentando-se como uma sentinela imponente de costas para a floresta, garantindo que nada aproximasse-se sem permissão.

    Elian caminhou cerca de cem metros para fora da base. O solo ali estava exposto, gelo negro e duro como obsidiana. Ligou a ferramenta.

    WUB-WUB-WUB.

    A picareta sônica fez seu trabalho, pulverizando o gelo em nuvens de cristais. Ele cavou profundamente, sentindo o suor escorrer dentro do traje, os músculos ardendo, mas o corpo suportando.

    A três metros de profundidade, a picareta bateu em algo diferente.

    Toc.

    Um som oco. Metálico. Que ecoou como um sino enterrado.

    Elian limpou o local rapidamente. Não era rocha. Era uma camada de sedimentos negros com veios brilhantes que reluziam como prata. Usou a seiva aquecida que trazia para derreter o gelo restante, revelando a verdade.

    O scanner apitou: Magnetita de alta pureza. Estrutura artificial detectada.

    Era um cabo. Um conduíte de energia imenso, fossilizado na rocha, perfeito após milhões de anos. Ele serpenteava para baixo, em direção à montanha onde a Vanguard repousava.

    Elian sentiu o sangue gelar. Ele não era o primeiro. Alguém construíra aquilo muito antes da humanidade sair da Terra.

    Mas então, o aparelho começou a chiar. Interferência eletromagnética forte. Um sinal pulsava de baixo da terra, rítmico, vivo.

    Bip… Bip-bip… Bip.

    Não era natural. Era código. Era energia fluindo no escuro.

    Ele olhou para cima, assustado. Goliath não estava mais sentado. O gigante estava de pé, todo o seu corpo tenso como uma mola. As orelhas achatadas, os lábios retraídos mostrando as presas de obsidiana. Um rosnado baixo, profundo e carregado de ódio e medo ancestral, saía de sua garganta, direcionado para o buraco onde Elian estava.

    A besta sabia o que era aquilo. Sentia a pulsação mecânica vindo das profundezas. E aquilo não era da natureza. Aquilo era perigo.

    Elian olhou novamente para o cabo brilhante sob seus pés, sentindo o chamado das profundezas misturar-se ao medo do seu guardião.

    — O que vocês deixaram aqui em baixo… — sussurrou ele. — E por que diabos você odeia tanto isso, Goliath?

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