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Capítulo 6. O Enigma da Sombra 6
O rapaz observava um teto desconhecido sem conseguir pregar os olhos. Estava deitado no chão. Deitada ao seu lado, a sombra.
Calae, enrolada nas cobertas, dormia profundamente na cama. A porta do quarto dela estava aberta por ordens superiores.
Nos demais quartos, os habitantes da casa fingiam dormir. Esforçavam-se para silenciar a imagem do desconhecido que recentemente os atingira.
O tempo passou e, em sua segunda madrugada naquele lugar, o jovem lutava para entender o que estava acontecendo. Quem era ele? O que era aquela sombra ao seu lado? Onde estou? — questionava-se.
Caçava memórias que não estavam ali. Sentia a brisa e ouvia a respiração suave de sua benfeitora. Sentia gratidão. Não estava com fome nem frio, mas não se sentia bem. Faltava algo, ou melhor, faltava tudo.
De batida em batida de seu coração, o cansaço pesou e Leonel adentrou a imensidão vazia do mundo dos sonhos.
Impactos secos na porta ecoaram pela moradia. Com insistência, o evento repetiu-se uma, duas vezes.
Dounek levantou-se sorrateiramente, tentando não fazer barulho, pois não queria acordar a esposa. O que ele não sabia era que de nada adiantaria; ela já estava acordada.
Caminhou pelo corredor escuro e procurou uma vela sobre o móvel da cozinha. Abriu uma gaveta em busca do cristal de luz. Novamente, a porta rangeu.
— Já vai — disse o homem em voz baixa, quase sussurrada. Consternado, pegou a haste metálica que sustentava um pequeno cristal na extremidade, bateu-o sobre a superfície da estante, fazendo-o vibrar. O objeto emitiu uma fraca luz branca. Dounek então encostou a ponta do cristal vibrante no pavio da vela que segurava na outra mão; uma chama se manifestou.
Retirou o ferrolho do trinco e entreabriu uma fresta para iluminar a face do ansioso visitante. Estavam no fim da madrugada, e o olhar sombrio de Noam quase fez o homem bater-lhe com a porta na cara.
— Perdão — entoou o visitante noturno. — Dounek, que bom! — disse ele ao reconhecer o amigo.
— Precisamos conversar. É assunto sério. — A angústia preenchia sua voz; Noam estava abatido. Conheciam-se desde a infância, viviam na mesma vila desde a fundação, quando ali foram alocados pelo Estado de Oabag. O homem só havia visto essa expressão no rosto do amigo uma vez: quando foram vitimados pela invasão de uma manada de búfalos selvagens deturpados pela praga dos Drak.
Noam afastou-se um pouco da porta da casa e indicou que Dounek o seguisse. Observou por cima do ombro do homem, tentando sondar se mais alguém da casa estava à porta. Diminuiu o tom da voz.
— Temos um problema — alertou ele, e suas palavras soaram em tom ainda mais baixo. Segurando a vela tremulante diante do rosto, Dounek ouviu.
— O ancião, Goter. Ele morreu. — Os olhos de Dounek denunciaram sua surpresa. Depois fechou-os, em pesar.
— Por culpa… — tentou elaborar, mas sua garganta estava seca, o estômago, vazio. A brisa noturna levou embora a fraca chama da vela que segurava com demasiada força entre os dedos.
…
Poucas horas depois, o vilarejo acordou, mas o murmúrio de lamentos desfez a rotina. O luto corria pelas ruas e se espalhava, contaminando com apreensão a aurora pálida refletida nos rostos dos moradores. O padeiro, primo de Goter e parente mais próximo do velho na vila, foi chamado para tratar dos ritos. O velho fora temente ao credo dracônico, mas abdicara da fé e virara as costas às suas práticas.
— Como procedemos? — perguntaram ao primo. Segundo os fiéis dracônicos, na morte as chamas devem purificar o corpo. Quem abdica fica à mercê da vontade de quem o vela — explicou ele.
Falgo, o padeiro, que estava vinculado às práticas da fé, escolheu manter a tradição.
A cremação de Goter deveria ocorrer ao final da tarde, como mandava o concílio.
Decretado o luto, o cortejo do corpo de Goter seria liberado após a palavra do Foro — o curandeiro responsável por confirmar a causa da morte.
E era exatamente essa a função que determinaria o destino de Leonel.
…
Dounek gesticulava com as mãos freneticamente enquanto conversava em privado com sua esposa. O que pode acontecer? Tanya estava sentada e, enquanto entrelaçava os dedos nos cabelos, cerrava os dentes com intensidade.
Bateram à porta. Dounek, o conselho te convoca.
Com a saída do homem da casa, Tanya foi ao encontro da filha. Calae estava deitada na cama, amparando o irmão mais novo no colo. O olhar penetrante dela contrastava com a gentileza de suas mãos. Leonel estava sentado à beira da cama e, ao seu lado, de pé, a sombra estava imóvel.
— Menino. — A mulher fez um gesto para que lhes concedesse privacidade. Leonel levantou-se e, diante do semblante sério e amargurado de sua anfitriã, seguiu até a cozinha.
Tanya fechou a porta do quarto da filha depois que a sombra seguiu lentamente o rapaz.
Mãe e filha se encararam por um longo instante. Pela janela, a manhã entrava no quarto sem ser bem-recebida.
— O conselho foi chamado — informou Tanya. Enquanto as pernas pediam que se sentasse, ela recusou.
— O que vão fazer? — perguntou Calae. A garota sabia que, quando o conselho fosse convocado, uma sentença seria aplicada.
— Vão decidir a culpa. O Foro anunciou a causa da morte — enfatizou a mulher, apoiando-se no armário com a mão direita. — Colapso do corpo por estresse cardíaco — disse, mantendo o olhar fixo na menina.
— O que é isso? — perguntou Coremd. O menino estava menos apreensivo depois que a sombra saíra do quarto.
A mãe ponderou como responder, mas quem respondeu foi Calae:
— Medo. Ele morreu de medo. — As palavras soaram como uma advertência, seguidas pelo carinho no cabelo do menino.
— Tem que ser corajoso — sussurrou ao ouvido do irmão.
Tanya transbordava tensão, e ouvir tais palavras causou-lhe uma súbita vontade de ir ao banheiro.
— E agora? — perguntou Calae, inquirindo com indignação perfurante.
Tanya respirou fundo. — O conselho… — e, com resignação frustrada, afirmou: — Os homens decidiram.
Embora Tanya e Calae não tivessem percebido, depois que saiu do quarto e a porta se fechou, a sombra permaneceu recostada na parede do lado de fora.
…
Dentro do templo, os homens do vilarejo — os homens de Rendel — dissecavam a questão. O impasse precisava ser resolvido.
A vila era pequena, e sua população total não passava dos quinhentos habitantes, sendo a maioria composta por agricultores alocados pelo Estado de Oabag — arrendatários desprovidos de posses, súditos simples de uma aristocracia secular.
Noam pediu a palavra e levantou-se.
— Estamos em vinte e um. Todos os que se dispuseram estão aqui. — Os presentes concordaram com sua fala. Apesar de a convocação ser um ato necessário, em uma pré-reunião, quem desejasse participar do conselho permanecia.
O pequeno templo da cidade — um local de estrutura firme, paredes de pedras sobrepostas, composto por um grande salão interno ancorado por um teto alto — abrigava os interessados. Dentre eles estavam Noam, Dounek e Hurdan.
— Quem acha que devemos escolher o mais velho entre nós como novo chefe? — perguntou Noam, que estava encarregado de esclarecer a todos o que havia acontecido com Goter.
Apenas cinco se manifestaram favoravelmente.
— O ancião deve ser o mais velho da vila, sempre foi assim — disse Stumded, um veterano da enxada, e, após suas palavras, a concordância imperava.
Noam concordava com o companheiro, mas quem assumiria, por vontade própria, esse fardo?
Na estrutura de poder local, o ancião era o chefe, o conselheiro com maior status dentre os moradores. Ele presidia o conselho dos homens — evento convocado quando uma questão séria acontecia na vila. Em sua ausência, precisavam indicar um novo ancião dentre os habitantes.
Nenhum dos seis homens mais idosos da vila desejou participar.
— Eleger um líder nesta reunião? Poucos estão presentes — alegou Felp, um dos mais jovens entre os homens.
Dounek, que fora um dos que votaram para que definissem um novo líder, pediu a palavra.
— Podemos decidir isso depois. A questão é outra… — E, com angústia na voz, proclamou: — O que fazemos com o garoto?

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