Índice de Capítulo

    Depois de alguns minutos ouvindo Emmanuel Messias, a plateia estava completamente emocionada. As palavras dele eram inspiradoras e faziam as pessoas desejarem serem melhores. Mais justos, mais íntegros, mais humanos.

    O piano e a guitarra, em perfeita harmonia, tocavam aquela melodia doce e calma, do tipo que levava conforto ao coração.

    — Esse episódio… — disse o apresentador Sô Joares com lágrimas nos olhos —… quando isso aconteceu, eu me lembro muito bem! Lembro como se fosse ontem! Você tirando aquela criança desacordada do mar e salvando a vida dela! Você é um herói, Emmanuel! Um herói da vida real!

    O bilionário curvou os lábios num sorriso encantador. Era o tipo de sorriso que se difundia pelo rosto inteiro e brilhava nos olhos.

    — Me dá uma armadura e eu viro o homem de ferro! — brincou ele.

    A plateia riu, divertindo-se com a piada, enquanto ainda tinha lágrimas de emoção pingando dos cílios.

    — Sabe… — continuou o bilionário, afinal, não podia desperdiçar toda essa comoção —, eu sou muito grato a Deus por ter conseguido salvar aquela criança. Eu tinha estudado primeiros socorros há poucos dias e aquilo aconteceu. Acho que foi Deus que me colocou ali naquele dia.

    A plateia aplaudiu com veemência. 

    — Por que não conta pra gente mais das suas ações sociais? Da sua filantropia? — O apresentador o olhava com admiração.

    — Ah, eu não sou muito de falar essas coisas… — Emmanuel fingiu timidez. Desviou o olhar, mexeu no relógio. — Mas, bom, acho que divulgar boas ações pode inspirar as pessoas, não é? Eu tô coletando recursos pra ajudar as vítimas daquela enchente que aconteceu na costa brasileira um tempo atrás. Alimentos, medicamentos, toda ajuda é bem vinda.

    — Impressionante! — Sô Joares meneava a cabeça, com um brilho nos olhos.

    — Também tem um orfanato que explodiu um tempo atrás, sabe? Foi uma tragédia. Crianças morreram… uma tristeza só! Eu tô reconstruindo o prédio e vou reabrir o orfanato, acho que ele é um legado de amor ao próximo e cuidado muito importante. Não pode terminar assim. — Ele olhou diretamente para a câmera. — Não é mesmo, Renato?


    Depois que Renato e Clara saíram do Inferno, não perderam tempo e foram direto para casa. Lírica já os estava esperando na entrada. De pé, com os dedos dos pés sobre as pontas de lanças do portão de aço, era leve como uma pena.

    Ela saltou com habilidade felina e pousou diante deles, sem nem  sequer levantar poeira.

    — Que bom que chegaram. — Seu tom de voz era neutro e sem emoção, como sempre. Mas Renato já tinha aprendido a entendê-la. A pontinha de sua cauda cor de cobre tremia sutilmente, o que indicava felicidade.

    — Espero que não tenham destruído minha casa — disse Clara, com uma pitada de acidez na voz.

    Foi quando Lírica se arrepiou. Ela farejou o ar e olhou diretamente para o garoto.

    — Tem alguma coisa aqui. Alguma coisa espiritual.

    — Ah, é só o Renato sendo assombrado pelo espírito da princesinha sociopata.

    A demi-humana franziu o cenho.

    — Conseguiram trazer a alma dela?

    — Consegui. — Renato balançou a cabeça.

    Lírica fez uma expressão estranha. Parecia confusa. No fundo, ela ficava feliz por Renato ter conseguido o que queria, mas a ideia de ter Tâmara de volta não a alegrava muito. Seu coração estava em contradição consigo mesmo.

    Enquanto subiam as escadas, Mical se aproximou vindo da direção oposta, descendo os degraus, correndo perigosamente. “Um trupicão e ela rola escada abaixo!” pensou Renato, alarmado.

    Irina se aproximava, escorregando pelo corrimão como se ele fosse um escorregador de parquinho. “Um desequilíbrio e ela rola escada abaixo!” pensou Renato, alarmado.

    Jéssica vinha atrás, com uma expressão que lembrava o de uma mãe cansada de vigiar crianças problemáticas.

    Depois de uma recepção calorosa, com abraços e beijos, e uma mão boba que, Renato não conseguiu ver de quem era, mas suspeitou veementemente de Mical ou Irina, eles subiram.

    Jessica sorriu satisfeita. Suas mãos eram ágeis e sorrateiras.

    Assim que chegaram nos aposentos, Renato não perdeu tempo. Foi até o freezer e removeu o cadáver congelado de Tâmara.

    Devido a rigidez do corpo frio, não conseguiu deitá-la de maneira perfeita no chão, e ela ficou, curvada, parecendo uma vírgula.

    — Precisamos esperar ela descongelar primeiro — disse Clara. — Não vai dar pra ressuscitá-la desse jeito.

    — E o que faremos enquanto isso? — perguntou Renato, limpando dos braços os resquícios de gelo.

    — Preparamos o ritual. Vou fazer um feitiço simples para acelerar o processo de descongelamento.

    Ela puxou um fio de cabelo daquela cabeça imóvel e sem expressões, foi até a cozinha e, usando um isqueiro, acendeu o fio de cabelo, tornando-o incandescente.

    As chamas consumiram o fio, e antes que tocassem nos dedos de Clara, ela o soltou, para que terminasse de queimar no chão.

    — Prontinho. — Ela curvou os lábios num sorriso de lua minguante. — Isso vai acelerar um pouco as coisas.

    Irina meneou a cabeça.

    — Só eu que acho isso meio… macabro?

    Quando voltou, a súcubo trouxe uma jarra de água.

    — Ela vai acordar com muita, mas muita sede!

    Começaram o trabalho. Conforme orientação de Clara, primeiro traçaram um círculo mágico ao redor do cadáver. Dois pentagramas sobrepostos, formando um decagrama, uma estrela de dez pontas. Isso garantiria concentração energética densa sem interferências indesejadas.

    Depois, desenharam os símbolos. No chão, nas paredes… 

    Os sigilos tinham variadas formas: estrelas, luas crescentes, traços conectados, formando cruzes e letras antigas cujo som real foi perdido no tempo.

    Acenderam três velas: uma preta, para proteção do ambiente; uma azul, para cura; e uma lilás para estimular a transmutação, e as posicionaram em volta de Tâmara.

    — Ainda está muito congelada — disse Clara, tocando o cadáver.

    Os minutos seguintes se passaram como a eternidade. Era como se o relógio estivesse congelado tanto quanto aquele corpo morto.

    — Esse tipo de magia — Mical mordiscou os lábios —, é necromancia, não é?

    Jéssica olhou para a sua irmã. Sua expressão dizia tudo. Magia proibida. Um pecado mortal. E mesmo assim, lá estavam elas. Quantas convicções elas já quebraram? Quais crimes, não cometem as pessoas por amor?

    Uma brisa fria soprou as cortinas e arrepiou a nuca.

    A luz da lua entrou pela janela e se derramou sobre Tâmara, como se a própria rainha da noite quisesse participar daquele momento.

    — Está na hora — declarou a súcubo.

    Ela foi até o cadáver e o endireitou, deixando Tâmara deitada com as costas para o chão, e seus braços perfeitamente alinhados ao lado do corpo. Depois, colocou sobre o umbigo dela um saquinho de ervas.

    — Agora vem a parte difícil. Renato, faça a bondade de derramar seu sangue sobre ela.

    O garoto se aproximou.

    Mordeu o pulso, bem próximo a base da mão, até fazer um corte grande o suficiente para sangrar bastante. Ele nem fez careta. Já estava acostumado com a dor e com  ferimentos.

    O sangue verteu em abundância, vermelho escuro, quase arroxeado, e caiu sobre o peito e rosto de Tâmara.

    Irina, de seu lugar, quase se levantou para impedir o irmão, mas Lírica a segurou.

    — É a vontade dele!

    — Eu sei, mas… — Olhou para Mical e Jéssica, e as duas estavam tão apreensivas quanto ela.

    O sangue continuou vertendo. Por um instante, a visão de Renato desfocou e a tontura o abateu, mas ele se recuperou rapidamente.

    Clara deu de ombros.

    — Ai, ai… acho que vou ter que ajudar! — Ela deslizou as unhas sobre o próprio pulso, num movimento rápido. Cortou feito faca.

    O sangue de demônio caiu sobre Tâmara.

    O rosto da garota morta, suas roupas, seus braços… estava completamente vermelho. O sangue a cobria.

    A chama das velas aumentou de tamanho repentinamente, e a luz alaranjada tomou todo o quarto. A fumaça negra se acumulava no ar.

    Finalmente, Clara fechou o punho e, com toda a força que conseguiu, atingiu um soco violento no peito de Tâmara.

    O ar se dobrou numa onda de choque.

    Um frio se desprendeu de Renato e caiu sobre o cadáver.

    E o ventre de Tâmara se mexeu, num movimento de respiração.

    E os olhos âmbares se abriram uma vez mais.

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