Capítulo 145 | Primeiro Assalto
Magno observou o ambiente ao seu redor. Dezenas de silenos formavam um semicírculo apertado na base da parede de rocha natural.
Os corpos cobertos de pelos grossos se espremiam e trocavam empurrões curtos para garantir uma visão desimpedida da encosta vertical.
O ladrão deixou sua bolsa encostada em uma pedra no chão e se posicionou de frente para o desafio. Ao seu lado direito, Cresto, o sileno magro de pernas longas e delgadas aguardava. A criatura exibia uma postura relaxada, sustentando o próprio peso em uma perna só.
O guia sileno caminhou até o centro e parou entre os dois competidores.
— As regras são exatas e incontestáveis — anunciou com olhos nos dois, mas em voz alta para que a multidão ouvisse. — A subida deve ocorrer com o uso exclusivo dos membros inferiores. O competidor que encostar qualquer uma das mãos na superfície da rocha está desclassificado. O primeiro a pisar no topo vence.
Ambos os competidores acenaram positivamente, assim, o guia levantou o braço direito e o abaixou em um corte rápido no ar, dando o sinal. Em seguida, buscou o aulos em sua cintura e começou a soprar uma cantiga alegre para acompanhar a disputa.
Tão logo, o sileno de pernas longas moveu-se. Encaixou o casco direito na primeira fenda visível da pedra, flexionou os joelhos estreitos e impulsionou o corpo para cima. Após cravar o outro casco em uma saliência superior, firmou a postura e parou.
Magno o encarava com curiosidade, antecipação de que ele fosse desequilibrar. O sileno irou o rosto para baixo e sorriu de forma orgulhosa.
O gatuno soltou o ar pelo nariz de forma ruidosa.
Fixou os olhos em uma pequena falha na base da parede, dobrou os joelhos e saltou, tentando prender a borda da bota na pedra. O solado de couro escorregou na superfície lisa. Magno balançou os braços para frente e para trás em uma tentativa de recuperar o eixo, perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão de terra seca.
Sileno emendou na melodia que tocava três notas destoantes e jocosas que transformavam a cena da queda do participante em algo ainda mais ridículo. O gatuno rangeu os dentes.
Bateu as mãos no pó e levantou-se em um pulo rápido.
— Uma regra de escalada que proíbe o uso das mãos é uma estupidez inteira — reclamou em voz alta, espanando a sujeira das costas das coxas.
Anaxímenes soltou uma risada nasalada. O rapaz de Mileto assistia à disputa de braços cruzados, posicionado ao lado de Hermes e Sêneca na linha de frente da multidão.
— Com todo esse talento… — provocou. — Poderia ter quatro pernas e quatro braços que de nada adiantaria.
Magno cravou os olhos em Anaxímenes e travou o maxilar.
— Fique calado e limite-se a assistir.
Hermes deu um passo à frente. O deus interceptou a linha de visão entre Magno e Anaxímenes, focando diretamente no rosto do ladrão.
— Concentre-se no jogo — Hermes exigiu de forma séria. — Foque no seu adversário. Lembre-se do acordo que fizemos e foque no preço que pagaremos em caso de derrota.
O sileno de pernas compridas alcançou a metade da altura da rocha onde encontrou uma saliência larga, girou o corpo e sentou-se na borda de pedra, de frente para o público.
A criatura encostou as costas na parede, cruzou as pernas e abriu a boca em um bocejo longo e sonoro. Acomodou as mãos atrás da cabeça e olhou para Magno com os olhos semicerrados.
O guia parou a música por um instante, deu um passo à frente e apontou o dedo indicador para o ladrão.
— Parece que o nosso competidor humano tem dificuldades graves em separar os pés do chão! — o guia narrou em um tom estridente e cômico para a multidão. — Ele prefere testar a textura da poeira. O nosso campeão lá em cima tem tempo de sobra para dormir enquanto espera o desafiante iniciar a subida.
A multidão de silenos emitiu risadas roucas e grunhidos. Anaxímenes cruzou os braços e gargalhou junto com as criaturas, expondo seu divertimento direto com o fracasso de Magno.
O ladrão rangeu os dentes e massageou a têmpora. Então, sua expressão mudou num instante. Ele encarou o sileno deitado na pedra acima e mostrou um sorriso de canto.
Andou até a bolsa encostada na pedra, abriu a fivela principal e puxou as sandálias de impulso que obtera nas ruínas de Atlântida. Magno sentou-se sobre a própria bagagem, retirou as sandálias de couro comum e calçou o artefato, apertando as tiras com força ao redor dos tornozelos.
Levantou-se, testou a aderência das solas contra a terra e caminhou de volta para a base da parede.
O sileno sentado no meio da encosta franziu o rosto e tombou a cabeça para o lado. Ele observou a troca de calçados, mas manteve as costas escoradas na rocha.
Magno parou de frente para a superfície lisa batendo com a ponta dos dedos contra o chão, depois, dobrou os joelhos e concentrou o peso do corpo sobre os calcanhares.

O sileno semicerrou os olhos, desconfiado.
No instante seguinte, ele ativou o mecanismo das sandálias e executou um salto único para cima.
O impulso mágico disparou o corpo de Magno em uma trajetória vertical em alta velocidade. Ele subiu rente à pedra, passando direto pelo sileno adversário. A criatura arregalou os olhos amarelados e encolheu os ombros contra a parede pelo susto provocado pelo deslocamento repentino de ar.
Magno ultrapassou a borda superior da parede, estabilizou as pernas e pousou com os dois pés plantados no topo plano da estrutura.
O barulho das risadas cessou de imediato na base da encosta.
O sileno adversário desfez a posição de descanso, prendeu os cascos na rocha e olhou para o topo.
— Trapaça! — ele gritou com a voz esganiçada. — Ele saltou!
Magno olhou para baixo, encarando o competidor e o guia.
— Eu não encostei as mãos na rocha. Eu usei estritamente os meus pés para chegar ao topo — Magno respondeu. — Eu cumpri as condições exatas que vocês impuseram.
O guia sileno piscou devagar, olhando para Magno no topo da parede. A criatura abriu seu sorriso de dentes pontiagudos e soltou uma gargalhada alta, batendo a mão na própria coxa.
Os outros ao redor encaravam-no em silenciosa confusão. Hermes tinha os braços cruzados e fitava-o de canto com desconfiança.
— O garoto tem razão! — o guia gritou para a multidão. — Ele obedeceu às regras ditadas! Que tática! Que sagaz! A primeira vitória pertence aos nossos convidados!
Crasto, aquele que disputara contra o gatuno, reclamava e esperneava do outro lado enquanto todos os outros festejavam com o guia.
Magno saltou de cima da rocha e pousou de frente para o grupo. Hermes o recebeu com um sorriso e toque de palmas. Sêneca o parabenizou pela sagacidade com um sorriso amistoso.
O único divergente era Anaxímenes que, com os olhos arregalados, encarava-o sem palavras.
“Q-que diabos foi aquilo? Será que é como a mi…”
— Entendeu como se faz moleque? — o gatuno zombou com um tapa no ombro dele.
Antes de qualquer resposta, Sileno tocou quatro notas curtas e agudas em seu aulos para chamar a atenção de todos.
— Não há tempo a perder, mas sim vinho a beber!
Com um gesto teatral e alguns pulinhos curtos de uma perna para outra, ele guiou a todos para o lugar da próxima disputa.

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