O que alguém poderia esperar tendo tanta facilidade desde o começo? Mesmo que até agora tudo fosse muito fácil para Ulisses, acabou se encontrando com uma dificuldade: ele não estava conseguindo ver nada de diferente. Isso o deixou bem frustrado e, com certeza, não estava nada feliz com o seu resultado.

    No final da tarde, ele estava deitado no chão, com uma cara de poucos amigos, olhando para o teto como se estivesse pensando em tudo que estava acontecendo. Porém, o que o deixava mais frustrado não era o fato da sua primeira meditação não ter sido um sucesso, mas sim o fato de Marcus estar rindo da sua cara como se alguém tivesse contado uma piada muito engraçada.

    — Hahaha! Está bravo por não ter conseguido na primeira tentativa?

    — Cala a boca, velho! — Ulisses revirou os olhos com frustração, enquanto se sentava e olhava para o professor — Qual o seu problema? Pare de rir!

    — Me desculpe, é que ver frustração de criança é bom de vez em quando… — Marcus tentou parar de rir, mas Ulisses pôde ver o professor limpar umas lágrimas dos olhos, provavelmente por estar rindo da sua frustração — Tente ver pelo meu ponto de vista.

    “Ah… se esse corpo estivesse mais velho eu iria te quebrar na porrada! Sem me importar se você fosse um velho caquético!” pensou o garoto, enquanto suspirava irritado.

    — Vai me dar dicas para melhorar ou vai ficar rindo feito um idiota?! — Ulisses se colocou de pé e cruzou os braços.

    Marcus respirou fundo e tentou se recompor, mas estava um tanto difícil, já que o professor estava em uma das lutas mais intensas da sua vida: uma luta para manter o controle das suas risadas, que estavam tentando escapar de sua garganta a todo momento. O rosto de Marcus estava se contorcendo em esforço para manter uma expressão séria e controlada, mas o seu rosto estava mostrando a sua verdadeira vontade, o seu verdadeiro desejo de deixar a sua risada sair, e o canto de sua boca, que estava se contorcendo a cada segundo, mostrava exatamente isso. Porém, para manter a postura de profissional, Marcus mordeu o lábio inferior e tentou segurar a respiração para tentar controlar a risada; além disso, os seus ombros estavam tremendo levemente.

    Ulisses podia ver o corpo do seu professor tenso, como se tivesse tentando fazer muito esforço de se conter, mas a risada ainda escapava de vez em quando, e isso deixou o garoto mais irritado do que já estava.

    — Quer calar a boca?

    — Okay, okay… hehe… — Marcus engoliu o seco — Vamos apenas… apenas deixar um pequeno exercício para a noite, que tal?

    Ulisses levantou a sobrancelha, como se estivesse duvidando da capacidade de Marcus ou que tivesse reconsiderando a sua escolha. Nesse momento, o professor ficou automaticamente magoado, já que ele não gostava quando duvidavam da sua capacidade de ensino, ainda mais vinda de um moleque como Ulisses.

    — Ei! Que olhar é esse? Eu sei o que eu estou fazendo, está bem?

    — Você não me mostrou isso até agora — retrucou Ulisses.

    — Eu sou o seu professor, te ensinei até agora, como não mostrei nada?! — Marcus disse com um tom indignado.

    — Ugh… isso não importa… — Ulisses desviou o olhar.

    — Seu… 

    Marcus apertou o maxilar, mas tentou manter a calma, para não falar besteira.

    — Só… só faça o exercício!

    — Certo, certo… e o que eu tenho que fazer?

    — Respire fundo e pense em algo marcante até dormir, toda noite até sentir seu corpo relaxar. Assim, a meditação fica mais fácil. Consegue fazer isso ou vai ficar fazendo birra?

    — Eu não estou… — Ulisses quis falar que não estava fazendo birra, mas logo desistiu, já que isso só iria fazer com que ele perdesse tempo com aquele velho — Não tem um jeito mais rápido? É que eu… eu vou para outro lugar em pouco tempo.

    Marcus ficou em silêncio por um momento, mas logo soltou um pequeno riso. Sim, ele sabia que Ulisses iria para o reino dos elfos em breve, porém, isso não o preocupava, já que Haru havia conversado com ele antes e havia lhe dado uma pequena tarefa. Mas, pensando um pouco no pedido de Ulisses para aprender a meditar, algo veio à sua mente, e isso fez um pequeno sorriso aparecer no canto dos seus lábios, como se pudesse uma ideia lhe viesse à mente. Marcus apenas balançou a cabeça e olhou para o garoto à sua frente com um olhar suave. Ulisses até pôde perceber que ele não estava mais rindo e zoando com a sua cara ou a sua indignação por não ter sucesso na primeira vez.

    — Não precisa pensar muito nisso, apenas faça o que eu mandei — disse o professor, se virando para sair —  e não precisa se preocupar também, logo vai descobrir que o tempo não vai ser um problema para o seu aprendizado.

    O professor começou a andar até a porta e Ulisses apenas olhou para as costas de Marcus, observando-o colocar a mão na maçaneta. Por um momento, o garoto pôde perceber que o seu professor idiota havia desaparecido e o seu professor respeitável havia surgido novamente. Foi nesse momento que Ulisses percebeu que Marcus escondia quem ele era realmente e só agora ele pôde perceber o motivo de ter ficado surpreso ao ver Marcus agir de forma tão diferente do que ele próprio considerava “normal”. O motivo era simples: Ulisses apenas viu o eu, que Marcus mostrava, como se fosse uma máscara.

    Por algum motivo, Ulisses se lembrou da sua vida passada, quando tentava esconder quem realmente era. Os dias que colocava uma máscara no rosto para tentar esconder os seus verdadeiros sentimentos e pensamentos, para, ao menos, conseguir ganhar algum olhar de respeito, mas só recebia risadas e zombarias pelas costas ou até mesmo xingamentos, principalmente nos seus dias de trabalho, onde os seus colegas lhe davam os seus trabalhos para que Eddie pudesse fazer, com a desculpa de que teriam algo importante para fazer.

    “Eu sinto tanto te pedir isso…” era assim que as frases começavam, e Eddie (ainda com a sua máscara de bom moço, para ser aceito em meio aquele emprego de sanguessugas, que sempre tinha a fala de que todos eram “família”) aceitava os pedidos dos colegas, fazendo horas extras feito um idiota. Não era apenas ele próprio que se achava um imbecil por fazer o trabalho dos outros, mas também os próprios colegas, que riam dele por aceitar os seus trabalhos como um pateta louco por trabalho. Essa lembrança fez as paredes internas dos sentimentos de Ulisses tremerem como gelatina, e isso o deixou inquieto por alguns segundos.

    Claro, Marcus provavelmente fez tal máscara por outros motivos, mas apenas essa parte fez Ulisses ter lembranças de um tempo pouco agradável. Um tempo que ele queria esquecer, mas às vezes era impossível, já que estava marcado na sua memória como uma tatuagem eterna.

    —  Nos vemos amanhã, jovem.

    Ulisses saiu dos seus devaneios quando a voz de Marcus chegou aos seus ouvidos e logo ele se recompôs.

    — Ah, sim, até amanhã, professor.

    Marcus abriu a porta e se virou para olhar para Ulisses, lhe dando um sorriso suave, antes de fechar a porta e suspirar. No momento que o professor começou a andar pelo corredor da mansão, seus passos começaram a levá-lo na direção do escritório do patriarca da família Urion. Marcus até relaxou os ombros ao perceber que estava chegando cada vez mais perto do escritório. Além disso, a sua mente, por algum motivo, pôde lembrar do tempo em que eram colegas aventureiros do mesmo grupo, viajando juntos pelo continente de Malinis e descobrindo muitos lugares juntos.

    Um pequeno sorriso apareceu nos lábios de Marcus ao lembrar desses vários dias, dias que continham muitos momentos diferentes e um tanto divertidos. Mesmo que os integrantes daquele grupo tenham ido para lugares diferentes, ele havia ficado ao lado de Haru, como havia prometido. No passado, ele era apenas alguém que lia muitos livros, se escondendo nas fantasias das letras e histórias, apenas para esconder o seu desejo de conhecer lugares novos. Como ele não tinha muito poder para se tornar um viajante, teve que se contentar em ficar em apenas um lugar, e quando conheceu Haru, foi como se a sua mente tivesse virado uma chave. Marcus havia derrubado um livro na cabeça de Haru ao ficar irritado e jogar o livro para um lado aleatório da biblioteca.

    Os dois conversaram muito e, como naquele dia uma besta apareceu e destruiu metade da cidade em que vivia, incluindo a biblioteca, Marcus ficou sem saber o que fazer. Ele não tinha nada de especial: era apenas o cara que leu muitos livros, sem muito poder de mana.

    “Ei, cara… eu preciso de alguém inteligente o suficiente para me explicar muitas coisas, então quer vir comigo? Eu sou um mago forte o suficiente para proteger nós dois…” foi isso que Haru disse, enquanto lhe estendia a mão, na frente dos destroços do que um dia foi a maior biblioteca do império. Marcus nunca ficou tão grato por alguém, e foi bem ali que a sua lealdade com Haru apareceu.

    — Hum! Alguém deveria elogiar minha lealdade… — um pequeno riso saiu dos lábios do professor.

    Balançando a cabeça suavemente, Marcus colocou as mãos na maçaneta da porta e o abriu sem bater. Ele sabia que Haru sempre lhe dava um puxão de orelha por fazer isso, mas o professor tinha esse hábito ruim desde sempre.

    — Desde quando minha casa virou um bordel sem regras? — comentou Haru, tirando os seus olhos de um documento importante — E se eu tivesse-

    — Dando uns amassos com  a sua esposa? — Marcus riu divertido, enquanto se jogava em uma das cadeiras de couro, que ficavam na frente da mesa de Haru — Hahaha! Isso já aconteceu muitas vezes, então eu iria apenas pedir desculpas e dar meia-volta.

    —  … se eu tivesse em uma reunião importante… —  Haru revirou os olhos ao corrigir o amigo, mas não deixou de rir suavemente — Mas o seu exemplo também pode servir. 

    — Claro que pode servir, é um bom exemplo.

    — Mas a que devo a sua visita repentina?

    —  Presumo que George já deve ter te avisado sobre o pedido repentino do seu filho.

    — Ah, sim… eu soube e, para ser sincero, não entendi o motivo desse repentino interesse —  Haru ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse pensando.

    — Eu também fiquei bem surpreso.

    — Eu nem entendo o motivo de Lisses ter ido a você e não a mim… — murmurou Haru, revirando os olhos.

    Percebendo que Haru não havia gostado nada de saber que o próprio filho havia procurado outra pessoa para ser seu professor, Marcus não pôde deixar de rir, já que o amigo estava claramente com ciúmes. De certa forma, ele até poderia entender, saber que o filho mais velho procurou outra pessoa para lhe ensinar algo tão importante realmente poderia ser um choque para qualquer pai.

    —  Não fique com ciúmes, provavelmente o seu filho só não estava querendo te deixar com mais trabalho.

    — Eu… eu não estou com ciúmes! — Haru cruzou os braços e desviou o olhar — Só acho que os filhos devem pensar na sabedoria do pai.

    — Hum!

    Marcus balançou a cabeça, sem poder conter algumas risadas que escapavam, e o professor pôde perceber a expressão de pouca felicidade no rosto de Haru. Isso o fez lembrar de Ulisses, já que ele também tinha o hábito de lhe dar olhares de raiva quando ele ria dele. Pelo que percebeu, Ulisses havia puxado o pai nesse quesito.

    — De qualquer forma…  Eu queria pedir algo para você.

    — E o que seria esse pedido? — perguntou Haru, com curiosidade.

    — Bem, você havia me pedido para acompanhar o seu filho até o reino de Isclaris, e eu estava pensando de nós dois chegarmos até lá de um jeito diferente.

    Haru ficou surpreso com isso, já que estava pensando em enviar Ulisses de carruagem, acompanhado de Marcus. A viagem de carruagem seriam a mais adequada, já que iria ser rápido e iria ter mais alguns guardas para proteger o filho de possíveis ataques no meio do trajeto e, com o pedido do amigo, ficou com os pensamentos confusos e hesitantes, mas decidiu dar a ele uma chance de se explicar.

    — Como assim diferente?

    — Quero ir a cavalo até o reino dos elfos, só nós dois. Prometo que irei pelos caminhos mais seguros.

    — O que?!

    — Eu sei que é repentino, mas acredite em mim, isso vai facilitar o aprendizado dele, já que vamos fazer paradas importantes em meio ao caminho.

    Haru passou as mãos pelo rosto, como se estivesse muito cético em deixar que Ulisses fosse sozinho com Marcus, sem nenhuma escolta. Sabia que Marcus nunca colocaria Ulisses em perigo e iria escolher as rotas mais seguras possíveis, porém, não podia deixar a preocupação de lado em uma viagem como essa.

    — Haah… como posso ter certeza?

    — Eu juro que não irei colocar Ulisses em risco. — Marcus disse num tom sério e logo uma Marca do juramento  apareceu no seu pulso, uma marca em formato de folha, a marca aparecia quando alguém usava mana para jurar algo para alguém e todos do continente respeitavam muito a marca, como se fosse uma obrigação muito maior do que, até mesmo, um contrato.

    Haru ficou em silêncio, como se estivesse pensando a respeito. Ele suspirou e olhou para as próprias mãos e logo uma pergunta lhe veio à mente. Quando pediu para Marcus acompanhar Ulisses, ele aceitou muito rápido e sem pensar muito. Justo Marcus, seu amigo leal, que sempre se recusou a sair da mansão Urion durante anos, desde aquele dia, e agora havia aceitado facilmente? Havia algo que não estava fazendo sentido. Se sentiu um pouco bobo por não ter percebido isso antes.

    — Marcus… por que aceitou ir?

    Marcus ficou em silêncio. Os seus olhos não mostravam os seus sentimentos e o seu rosto estava neutro, porém, no fundo do coração de homem havia um motivo claro, mas não queria ter que compartilhar com Haru, já que sabia qual iria ser a reação dele, Então apenas balançou a cabeça de modo descontraído e se recostou na cadeira.

    — Porque… acredito que finalmente tenho a coragem de sair.

    Não era mentira, mas também não era toda a verdade, e o professor não iria dizer isso em voz alta. Iria deixar o mais fundo possível no seu coração e não iria compartilhar com Haru. Infelizmente.

    — Então isso quer dizer… —  Haru não conseguiu terminar a pergunta, apenas suspirou e deixou o seu rosto neutro, sem deixar aparecer a sua curiosidade sobre algo em específico. Ao invés disso, apenas mudou o que iria falar — Certo, eu entendo… eu vou pensar sobre o que você disse.

    Marcus ficou em silêncio. Os dois apenas ficaram quietos, nenhum dos dois sabia dizer se o silêncio era desconfortável ou não. Era como se nem um dos dois quisesse deixar os seus verdadeiros pensamentos aparecerem, como medo de que esses verdadeiros sentimentos saíssem caso as suas palavras finalmente fossem para fora. Isso deixava o interior de ambos em conflito e inquietos, como se uma luta interna estivesse acontecendo, uma luta para saber quem iria se abrir primeiro e contar os seus conflitos profundos e intensos.

    Os dois eram muito amigos, se consideravam irmãos, e esse era um dos motivos pelos quais se recusaram a abrir a boca para falar. Haru não queria pressionar Marcus a falar o que não queria ou trazer à tona um assunto delicado, enquanto Marcus não queria deixar Haru preocupado com o que estava querendo fazer. Ele sabia que, se contasse, o patriarca da família Urion iria ficar contra e iria tentar o impedir. Em todo caso, ambos estavam querendo proteger um ao outro da sua própria forma.

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