Notas de Aviso

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    Com a família reunida ao seu redor, Dounek sentiu-se importante. Um breve lapso, que logo foi substituído pela tarefa que tinha em mãos. A sombra estava encostada na parede ao lado da porta e Leonel fitava o homem, com o canto dos olhos, enquanto este era inquirido.

    — O que decidiram? — questionou Tanya, seguida pela mesma intenção, mas sem palavras, de Calae, que franziu a testa em direção ao pai.

    — Bem — começou o homem. — Foi uma reunião tensa… e difícil.

    “Hurdan levantou-se indignado com o rumo que as coisas tomavam: ‘Como assim, o rapaz é inocente? Que provas têm disso? Estão ignorando a coisa mais importante — o velho está morto!’

    — Ele disse isso assim? — perguntou Calae, fechando a mão sobre a barra da saia.

    “Noam interpôs: ‘Somos testemunhas, os únicos entre nós que estivemos lá, e não podemos mentir. O rapaz não fez nada!’, disse ele.

    Hurdan socou o ar com o punho em riste: ‘Como assim não fez nada? Ele quebrou minha janela, roubou minhas roupas e a sombra dele atacou Goter.’ Suas palavras não continham mentiras.

    Dounek, que abrigava o rapaz, foi requisitado, devido à tensão que escalava, a intervir.”

    — Pai, o senhor conseguiu contrariar Hurdan? — perguntou, o jovem filho perguntou com um brilho nos olhos. Todos sabiam que o sujeito era bruto, e não apenas isso, mas também era bom de briga.

    “ ‘Eu não estava presente no evento na casa de Goter’, argumentou Dounek.

    ‘Hurdan, suas roupas estão na minha casa, lavadas e engomadas, posso entregá-las a qualquer momento’, disse Dounek — ou ao menos relatou que disse. ‘E sobre sua janela, não se preocupe, eu mesmo a conserto.’
    — O quê? Isso vai sair do nosso bolso? — Tanya reclamou, pressionando os braços contra a mesa.

    “Stumded propôs que aceitassem o acordo quanto ao roubo. E como atenuante, como Hurdan mesmo relatou: ‘O moleque não é daqui, ele não conhece nossos costumes.’
    E existe em algum lugar o costume de roubar o que não é seu?’, perguntou Felp, oferecendo apoio a Hurdan.”

    — Isso da janela não importa — contestou Calae, ansiosa. — O que decidiram em relação ao Goter? — A menina tremia levemente, mas sua voz estava firme.

    “ ‘A sombra não é agressiva! Eu mesmo tomei a responsabilidade de investigar’, afirmou Dounek, mentindo na cara dura.”

    — Calae, expliquei para todos que a sombra não fez nada de errado. Que você nos mostrou isso! — atestou Dounek, sem olhar para a filha.

    “ ‘Quando coloquei a faca no pescoço do menino, a sombra avançou!’, revelou o homem. ‘Você fez o quê?’ Os olhos de Noam saltaram da face. Hurdan emudeceu.

    ‘O que o Foro disse? Qual foi a causa da morte?’, continuou o homem, satisfeito com a reação da plateia.

    ‘Colapso do corpo por estresse cardíaco’, disse alguém.

    ‘Isso, isso mesmo’, afirmou Dounek. ‘Noam, o corpo de Goter tem alguma marca ou ferimento?’

    Leonel estava encolhido no canto, observando o relato. A sombra estava com os braços cruzados, ainda recostada na parede.

    “ ‘Um pequeno hematoma no peito’, relatou.

    Felp ergueu a voz: ‘Hematoma mata?’, questionou, em tom de zombaria.

    Um dos presentes sentiu o sangue lhe subir à cabeça: ‘Moleque, o ancião morreu! Mais respeito, seu verme.’

    — Mas então, o que decidiram? — Calae esticou o corpo em direção ao pai, e a energia dela o paralisou. — O que decidiram? — repetiu a moça fustigada.

    “ ‘Você é mago?’ — A pergunta ecoou no ar para Hurdan. O homem gelou.

    ‘É claro que não!’

    ‘Então o que você sabe de magia?’ — Hurdan sentiu o peito apertar.

    ‘Tanto quanto você sabe fazer filhos’, ofendeu, sem medir palavras.

    ‘Calma!’, acudiu Noam. ‘Ninguém aqui é mago, e não sabemos nada sobre magia…’

    Hurdan interrompeu: ‘Goter sabia. Ele disse que aquela coisa é uma maldição.’

    As palavras caíram como água fervente sobre os ouvidos do conselho: ‘Maldição?’

    A engrenagem mental dos presentes explodiu através do silêncio que ecoou pelo salão.”

    Dounek encarou sua filha. Seu semblante verteu impotência velada.

    O pai da família respirou fundo. — Vamos acolher o rapaz — disse, por fim. E, sem escolha, continuou. 

    — Enviaram um chamado urgente para Fordhor, requisitando a presença de um mago e um comboio de supressão para investigar a situação.

    “Dounek, percebendo a gravidade das alegações, contrapôs: ‘Goter não é confiável. Noam, diga a todos o que contou à minha filha. O que disse a Calae.’ Noam perdeu a força nas pernas. Às cegas, buscou a cadeira que acolheu seu corpo abalado.”

    No dia seguinte, a agitação ainda angustiava os habitantes de Rendel. Durante a tarde do dia anterior, cremaram o corpo do respeitado e querido ancião. Todos do vilarejo estavam presentes no cortejo e na despedida, exceto Calae, que ficou em casa acompanhando Leonel e a sombra.

    A vida seguia; a lavoura chamava.

    — Filha, nos ajude no campo hoje — chamou sua mãe um pouco antes do amanhecer.

    — E o Leonel? — questionou a jovem.

    Sua mãe a ouviu e, com sinceridade vibrante, indagou:

    — Quem é Leonel?

    — Ah.

    — O quê?

    — Consegui me comunicar um pouco com ele. Ensinei a dizer meu nome — afirmou Calae. O corpo inteiro dela revelava um pequeno orgulho.

    — É.

    — Então?

    — Bem, vamos levá-lo junto — decidiu Tanya, por fim.

    — Pai, quantos dias de viagem são daqui até Fordhor? — Calae estava ao seu lado, seguida por Leonel e a sombra. Estavam a caminho da lavoura, isolados por motivos sombrios.

    O pai, coçando a barba malfeita e mantendo uma distância calculada da entidade, respondeu:

    — Cerca de três dias, dependendo de como se viaja.

    — Quem foi enviado até lá? — indagou a jovem, apreensiva.

    Dounek diminuiu o ritmo dos passos, apertou o cabo da enxada e torceu os lábios.

    — Falgo… — disse, com a voz entrecortada. — E o Hurdan.

    Calae não perguntou mais nada. O padeiro e o melhor “amigo” de Leonel. Que maravilha.

    O caminho para a lavoura coletiva era sinuoso; a estrada de terra abrigava arbustos e gramíneas selvagens entre margens parcialmente arborizadas. Bem à frente de todos, Coremd avançava a passos largos, seguido pela mãe e pelo resto da família.

    O sol ainda estava fraco demais para aquecer a manhã gélida, mas logo seria forte demais para que sentissem gratidão pelo calor.

    Com roupas emprestadas de Dounek, Leonel seguia o grupo cabisbaixo. Não porque as roupas estivessem folgadas, mas pelos olhares que as pessoas lhe lançavam. Era desagradável ser observado e julgado, e, mesmo sem encontrar as palavras exatas para descrever como se sentia, não conseguia ignorar a situação.

    A sombra aproximou-se; Calae também. Caminharam lado a lado, buscando um pouco de calor — fosse humano ou sombrio.

    — Calae! — a voz de Leonel reverberou em busca da moça.

    A garota aproximou-se e entendeu.

    — Espera um pouco — gesticulou ela. — Mãe, trouxe a agulha. O Leonel machucou a mão com uma farpa.

    A mulher revirou rapidamente dentro do lenço que armazenava os seus pertences. — Encontrei — confirmou e, com um sorriso, entregou o instrumento à filha.

    Calae puxou o menino para a borda da lavoura, em direção à bomba d’água do local.

    — Deixa eu ver — disse ela e, com firmeza e delicadeza, analisou a farpa fincada na palma do rapaz, entre o polegar e o indicador.

    Ele resistiu e puxou a mão quando percebeu a agulha que a jovem segurava, mas ela apertou-lhe o pulso com força, fitando-o nos olhos.

    Enquanto Leonel aproveitava a desagradável sensação que lhe investigava a pele, sua sombra brandiu a enxada contra o solo, imitando o que ele fizera há poucos instantes.

    Os aldeões pararam o que faziam, cada qual sentindo, no íntimo, o que uma criança sente ao nascer no mundo.

    A rotina no vilarejo era bem demarcada. A maioria dos aldeões trabalhava no campo, onde metade do que produziam era enviado ao governante da autarquia de Oabag.

    Outros trabalhavam em funções necessárias à subsistência do local: contavam com um médico — o Foro —, ferreiros, tecelões, criadores de animais, entre outros. Comercializavam o que era necessário com as vilas vizinhas e dividiam os recursos para que nenhuma família passasse necessidade.

    Embora Leonel ouvisse Calae relatar curiosidades sobre a vida e as pessoas que ali moravam, quase nenhuma palavra do monólogo da moça era absorvida.

    Mas observar as pessoas da localidade em suas obrigações cotidianas fez com que percebesse que não era uma vida fácil — e pôde experimentar isso com as próprias mãos.

    No final da tarde, todos voltavam da lavoura; era o momento de socializar com a família, resolver pendências ou esgueirar-se para a única taverna do local, buscando engolir as dificuldades com a ajuda do álcool.

    No galpão, aos fundos da residência, uma grande banheira de madeira era usada para limpar o corpo; era relaxante entrar na água morna após um árduo dia de trabalho. O local era grande o suficiente para confortar duas pessoas.

    Calae insistia em ajudar o irmão mais novo a tomar banho direito, então costumava auxiliá-lo nessa tarefa. Leonel também foi auxiliado um dia, mas foi uma experiência desastrada por Calae, o que resultou em um constrangimento desnecessário para ambos.

    Leonel era bem tratado pela família, chegando a pronunciar os nomes de todos os Bradels — sobrenome de Calae e dos demais.

    E, apesar do mal-estar persistente devido à entidade que ali estava, o rapaz sentia-se acolhido e em casa. Foram poucos dias, mas, em sua memória recém-preenchida, esse foi o momento mais tranquilo que Leonel vivenciara.

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