Capítulo 114: Impossível de Alcançar
O ar frio caminhava em direção ao seu peito. Quando estava prestes a atingi-lo, espalhou-se pelo corpo e o rodeou, mas ele nada sentiu.
As estrelas dos olhos universais giravam cada vez mais devagar. Entre todas as pessoas que poderia enfrentar, tinha que ser justamente ela?
Seu rosto baixou-se levemente. A recompensa que o aguardava de tudo o que esteve fazendo até agora seria o progresso da sua história e desejo, mas…
“Será que… isso é certo mesmo?”
Tap… Tap… Tap…
As dúvidas, que existiam antes, resolveram se intensificar justo agora. Os seus devaneios podiam até ser duradouros, mas não fariam o tempo parar.
Sem que percebesse, Andressa caminhou por tempo o bastante para estar na sua frente, observando-o de perto enquanto ele ainda fixava os olhos no chão.
Foi só pouco depois que prestou atenção nos passos que nem existem mais. Em sequência, levantou o rosto para que pudesse olhar.
Silêncio existiu durante os segundos que ficaram se “encarando”.
Andressa não sabia o que dizer para que essa situação desaparecesse. Sair andando sem dizer ou fazer nada não parecia certo para ela.
Quando aceitou que não conseguiria encontrar nenhuma resposta, fechou os olhos. Seus ouvidos tinham a atenção voltada para o bater do coração.
Sem que percebesse, sua guarda se levantou. Por algum motivo, nessa única oportunidade, queria vencê-lo dentro das regras do torneio.
E assim, seus olhos, ainda melancólicos, se abriram.
Ônix ainda estava parado no mesmo lugar. Andressa doou uma pequena parte de sua atenção à respiração, e assim deu espaço para o seu primeiro soco.
Ele era tão lento quanto uma folha se deixando levar pelo vento. Dava até impressão que ele estava sussurrando: “Desvie e se afaste”.
E assim foi feito. Ônix precisou de apenas um passo para trás.
Andressa continuou avançando com os mesmos socos fracos. O garoto, por sua vez, persistiu em recuar, um passo de cada vez.
Até que seu pé não encontrasse mais apoio no chão. Ele, sem que percebesse, já havia chegado no limite que a arena permitia.
Não houve contato físico. Um soco sequer tinha a intenção de acertá-lo e, ainda assim, as costas caíam em direção ao chão que determinaria sua derrota.
Andressa, agora com as mãos baixas, o observava cair. Sem que soubesse o porquê, observava tudo de forma tão lenta quanto seu ritmo cardíaco.
Ela fixava seu olhar em cada estrela que existia naquele universo. Quando ele estava prestes a tocar o chão, seu ponto de vista mudou drasticamente.
Puff.
As costas de Andressa atingiram o chão.
A confusão inundou seus olhares, mas ela não pensou em se levantar. Bastou mover um pouquinho seus olhos para que ela conseguisse olhar para ele de novo.
E lá estava: em pé, no lugar em que ela se encontrava antes de ser derrotada pelas regras.
Seus pés estavam virando partículas. Diante dessa situação, sequer pensou em palavras para reclamar, apenas fechou os olhos e deixou-se levar.
O coração formigava tanto que parecia pegar fogo. Um barulho abafado de cacos quebrando parecia vir de todos os lugares… Até ela entender, não muito depois, que vinha de dentro.
O grito de uma janela se quebrando veio pouco depois. Logo ela foi engolida pela escuridão que apenas o silêncio sabia como oferecer.
Ela permaneceu deitada e com os olhos fechados durante um breve momento. As pálpebras, graças ao suspiro profundo, se abriam lentamente.
No teto, havia trevas. O pescoço virou de um lado para o outro, e tudo o que conseguia ver era escuridão.
Até mesmo o chão parecia sem vida e, mesmo assim, era firme o suficiente para aguentar qualquer pessoa que se encontrasse naquele lugar.
Andressa, após um breve momento observando o nada, começou a se erguer pouco depois ao mesmo tempo em que se perguntava:
“Onde que eu tô…?”
Estava finalmente de pé, mas não fazia ideia para onde ir.
O silêncio parecia estar silenciando ele mesmo. Nada, além do som do próprio corpo, como respiração e batimento cardíaco, chegava aos seus ouvidos.
Tap… Tap…
Isso durou até os passos surgirem.
A ausência de som deixou fácil saber de onde esses passos vinham: das costas. Andressa não pensou duas vezes em olhar para trás.
Quando observou, seus olhos brilharam sutilmente e se ergueram.
Era uma mulher um pouco mais alta que ela. Seu longo cabelo prateado parecia vir de outro mundo. Seu traje, tão branco quanto a pureza, parecia ter luz própria.
O olhar, em tom lilás1, era bonito o suficiente para roubar respirações. Seu semblante, puro e inocente, sorria de bom grado para Andressa.
Suas primeiras palavras foram:
— Olá, tudo bem? Meu nome é Celeste, e eu sou a esposa do Ônix.
Andressa entendia as coisas devagar. Primeiro, concluiu que aquela moça observava os passos de seu marido o suficiente para saber o que ela já tinha dito.
Logo depois, baixou a cabeça levemente por respeito e arrependimento, tanto pelas coisas que falou quanto pelas coisas que fez.
— Entendi… Peço desculpas, Celeste. Se estiver com raiva de mim, eu entendo. No seu lugar, eu… também pensaria muitas coisas de mim.
Celeste, por sua vez, continuou observando-a brevemente, sem um único sinal de raiva. Não por ausência de ciúmes, mas sim porque ela sabia do contexto.
— Tá tudo bem, eu entendo. Antes, você não sabia que ele era comprometido e, depois, mesmo sabendo, quis oferecer refúgio pra ele no torneio depois que ele encontrou com Carlos de novo.
Andressa ficou confusa por um breve momento, mas tempo o bastante para pensar: “Nossa… será que ela é diferente de muitas e não tem ciúmes nenhum?”
Essa era uma pergunta tão óbvia e comum que Celeste conseguia ver isso estampado na cara dela, e isso a fez rir brevemente antes de responder:
— Não é isso não, viu? É claro que eu tenho ciúmes também, mas eu sou muito seletiva, sabe? Sei quem eu escolhi, por isso tenho total certeza que ele não me trairia, e eu também nunca faria isso com ele.
Andressa se assustou por um momento, e logo depois perguntou se estava tão na cara o que ela estava pensando. Celeste respondeu na mesma hora que sim.
— Kkkk… Entendi então. Bom, desculpa de qualquer forma, tá? Eu desejo tudo de bom pra vocês.
Qualquer outra pessoa ficaria em dúvida sobre a honestidade dela agora, mas Celeste, por ser uma divindade, sabia melhor do que ela o quão verdadeira foi em seu comentário.
Assim, aproximou-se em passos lentos, mas não houve demora alguma no seu abraço.
Era caloroso e confortável, como se elas se conhecessem há muito tempo. Sobretudo, fiel o bastante para fazer a retribuição ser genuína.
— Muito obrigada pelo seu caráter, Andressa. Vai dar tudo certo pra você também, tá bom?
Ela não tinha a menor ideia do que dizer naquele momento. Foi só pouco depois do abraço em que ela fechou os olhos para dizer: “Tá bom.”
E assim o tempo passou.
Os sons voltavam pouco a pouco, mas ainda estavam distorcidos. Sua pele era abraçada pelo calor aconchegante do sol enquanto ela despertava.
POP!
Um pequeno sobressalto forçou as pálpebras a abrirem. Confetes cobriam todo o seu corpo e, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, Luna a deu um abraço lateral.
— Parabéns, And! Cê quase conseguiu vencer o torneio! Se não fosse pelo teleporte roubado dele, cê teria conseguido!
Foi o que ela disse, com um sorriso estampado no rosto.
Todo o restante do pessoal a aplaudia de pé, não por realmente se importarem com o torneio, mas sim para tornar aquele momento em algo memorável.
Essa chuva de boas intenções a fez sorrir de volta. A primeira coisa que pensou em fazer foi devolver o abraço lateral e agradecer o apoio dado.
E assim esse grupo se manteve até decidirem caminhar em direção à arena minutos depois. Antes disso, permitam-me narrar a situação de Ônix.
POV: Arena — Ônix.
Os olhos do garoto ainda estavam fixos no chão fora da arena. Seus pensamentos vagavam no nada, ele já não sabia mais o que pensar ou fazer.
Pouco após, as pálpebras se fecharam brevemente só para dar lugar a uma respiração profunda, tentando digerir tudo o que tinha acontecido nesse dia.
O único pensamento que tinha era: “Acho que não tem muito o que eu possa fazer…”. Essa pequena aceitação foi o que o fez virar-se de costas.
Uma pessoa roubou sua atenção antes mesmo dele conseguir dar um único passo: a Segunda Sistema.
Ela estava parada não muito distante dele. Seu olhar, tão compreensível quanto compassivo, parecia convidá-lo a chegar mais perto.
E assim o fez.
Não demorou muito para que ele a alcançasse. Da mesma forma, a Segunda não se atrasou nem um pouco em parabenizá-lo pela vitória nesse torneio curto.
S2
Parabéns por ter aguentado tudo o que passou, Ônix. Depois de tanto tempo, você vai, finalmente, ter acesso à porta de entrada para a sua recompensa.
Ônix ouviu cada palavra cuidadosamente, mas não parecia expressar tanto ânimo. Pouco depois, tudo o que pensou resultou em uma pergunta única:
— Vai ter mais coisa pra fazer, né…? Tudo, até agora, foi só uma parte.
O silêncio perdurou por pouco tempo, mas ela não hesitou em dizer a verdade: “Sim, ainda tem mais coisas, mas você conseguiu passar por metade dos desafios.”
— Entendi…
Após esse curto diálogo, uma porta começou a surgir em partículas escuras. Sua aparência era simples, mas o nome “Zero” estava estampado em sua face.
S2
Zero vai conversar com você atrás dessa porta, Ônix. Lá, você vai conseguir conversar sobre o desbloqueio da recompensa.
Ônix observou a porta por um breve momento. Logo após, ele começaria a caminhar, mas interrompeu seus passos para dizer:
— Muito obrigado por tudo o que fez por mim até agora, Ly.
Os olhos da segunda se espantaram por um breve momento. Antes que ele conseguisse continuar a andar, perguntou:
S2
Por que me chamou por esse nome? Alguém te contou sobre?
Ônix, com olhares confusos, a encarou por pouco tempo. Foi só depois de alguns segundos que ele respondeu:
— Sua gentileza me lembra “luz”. Em inglês, luz é light, né? Ly foi um apelido que pensei agora pra você.
A mente da segunda se esclarecia enquanto ela falava: “Entendi…”. Enquanto o observava caminhar, pensava no quanto ele combinava com Celeste.
Lá estava Ônix: de frente com a porta que o faria conhecer um pouco do que o aguardava no futuro. Suas mãos pousaram na maçaneta, que não demorou para abrir a porta de entrada.
Uma luz infinita vinha daquela porta, mas ela não tinha o menor interesse em iluminar os arredores, apenas o garoto que estava à sua frente.
Todo o seu corpo foi consumido e abraçado por aquele poço de pureza. Em questão de segundos, tanto ele quanto a porta haviam desaparecido.
Os pés tocavam o chão gélido. O corpo era inundado por um ar tão puro quanto frio, mas o incômodo da temperatura não o alcançava.
Seus olhos não tiveram demora a abrir, e logo detectaram aquele mesmo ser em forma espectral ciano que apareceu para ele em um momento não tão distante.
— Bem-vindo, garoto. Te parabenizo por ter chegado até aqui, mesmo com todos os esforços do primeiro sistema.
Ônix agradeceu os parabéns que recebeu. O silêncio abraçou os lábios por um momento curto, mas ele perguntou pouco após sobre o tópico principal:
— Como eu tenho acesso à recompensa prometida…?
Zero respondeu no mesmo instante: “Direto e preciso… pra te falar a verdade, é algo bem simples: você só precisa confirmar o que já foi sacrificado.”
Ônix não entendeu no começo, mas zero continuou com sua explicação. Para resumir o que ele disse, a história é que algo foi sacrificado para que ele conseguisse avançar.
Isso não tinha nada conectado com sua família atual; ela não está envolvida nessa proposta, era outra existência que ele nunca viu ou sequer conheceu.
Sua cabeça baixou-se para reflexão. Enquanto isso, a explicação continuava: aquilo já havia sido sacrificado, ele, confirmando ou não, não mudaria nada.
— Tá tudo bem. Por ter te acompanhado até aqui, sei as dúvidas que carrega. Se preferir, pode voltar outro dia com a resposta que encontrar.
Zero, a primeira vista, pensava que Ônix demoraria um tempo para conseguir encontrar algo que, para ele, seria válido; no entanto, o garoto não estava em condições de pensar por muito tempo.
— Não, tá tudo bem, Zero…
O pescoço ergueu-se pouco após, e a confirmação não demorou para chegar:
— Eu… sacrifico.
Fim da Primeira Temporada.
Folhas do Aprendizado, 09/04/2026
Olá, leitores.
Sem notícias ruins hoje, viu? Só vim anunciar o fim da primeira temporada.
116 capítulos com muitas mil palavras aí que eu não faço ideia de quantas sejam… É coisa, né? Pois é, eu também acho.
Aconteceram tantas coisas desde o prólogo até aqui que parece até que foi ontem. Correção de capítulos e tudo mais… Será que ainda tem alguém aqui que me acompanha desde quando eu estava reescrevendo os primeiros 25 capítulos só porque as narrativas deles não me agradavam mais? Aí eu fiquei um tempão reescrevendo e só depois os capítulos voltaram ao “normal”, né? Porque, antigamente, era 1 capítulo a cada 2 dias, hoje é 1 a cada 3.
Bom, eu trago novidades boas e bobas também. Perceberam que eu, até hoje, nunca organizei meus capítulos por volume? Pois é, eu tava com preguiça de ler cada um deles e organizar cada um por uns volumes que façam sentidos, mas eu tenho que ser um bom autor, né? Então eu acabei fazendo.
O último volume, que vai conter os capítulos 115 adiante, se chama: “Segunda Temporada”, mas é temporário. Depois que eu escrever toda a segunda temporada que, por sinal, está nos meus planos ser a última temporada para o fim da obra, aí sim eu organizo em novos volumes tudo de novo.
Se alguém leu até aqui, seria pedir muito a sua opinião da primeira temporada? Eu escrevo pensando que tenho poucos leitores que me acompanham, mas isso não me abala, só me dá mais vontade de caprichar àqueles que me acompanham e gostam da minha obra, espero eu.
Bom, quando uma temporada termina sempre tem um hiato do autor, né? Eu não quero outro hiato não, só quero uma semaninha de “descanso” pra mim. Vai ter capítulo novo só no dia 18, aí volta tudo ao normal: 18, 21… Mas, nesse tempo todo, eu muito provavelmente ainda vou estar escrevendo e adiantando capítulos porque é algo que já faz parte da minha rotina.
Aos que ainda estão lendo até esse parágrafo da carta, eu peço desculpas antecipadamente pela segunda temporada.
Haverá capítulos que eu não gostaria de escrever… Mas, é necessário para o seguimento da obra e desenvolvimento dos personagens. Não vou falar tanto, mas eu garanto que a minha obra terá um final feliz. Eu já fui leitor também, sabia? Sempre me irritei muito com as obras com um final triste ou um final aberto.
Isso conta como spoiler? Espero que não. Ah, sei lá, né? Vai que eu tô mentindo e a obra, na verdade, vai ter um final ruim sim? Cê não sabe, né? Pois é. (Espero que essa desculpa cole com alguém!)
kkkkkk bom, é isso, leitores, acho que já falei demais por hoje. Até dia 18!
♡
Maik
- @Maik: Não é furo de roteiro, viu? Os olhos dela são dessa cor normalmente, mas, quando ela está atuando como divindade, troca para a cor dourada.[↩]

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