O motor do Mamute deu um último suspiro engasgado e morreu. O silêncio que se seguiu no hangar improvisado da Vanguard foi pesado, quebrado apenas pelo estalo do metal esfriando e pela respiração ofegante de Elian.

    Ele conseguira. Vinte e duas toneladas de carne, osso e gordura de Leviatã estavam amontoadas diante da impressora 3D, uma oferenda grotesca à sobrevivência. Mas o relógio em seu HUD continuava a contagem regressiva impiedosa.

    5 horas e 40 minutos.

    O bebê Krael na Necrópole estava morrendo.
    Elian não perdeu tempo com celebrações. Ele ativou os braços robóticos de manutenção da nave, acoplando serras de disco de diamante nas extremidades. O som das serras cortando a pele blindada e a carne congelada do Leviatã foi um grito mecânico que fez Goliath recuar para o fundo do domo.

    Elian trabalhou com a precisão de um cirurgião industrial e a brutalidade de um açougueiro. O sangue escuro e rico em mioglobina manchava o chão de concreto, misturando-se à graxa e ao gelo derretido. Ele separou grandes blocos de carne vermelha, empilhando-os como tijolos de uma construção macabra. A gordura, branca e espessa como mármore, foi lançada na forja improvisada para ser derretida em biocombustível e lubrificante de alta viscosidade — o “ouro branco” que manteria suas máquinas funcionando.

    Com a impressora 3D finalmente lubrificada, Elian imprimiu paredes modulares de isolamento térmico em tempo recorde.

    Usando o sistema de resfriamento de um dos propulsores auxiliares da nave, ele criou uma câmara frigorífica a -20°C constantes. Ali, a carne do Leviatã foi estocada. Era comida para anos. Goliath, assistindo de longe com olhos famintos, recebeu retalhos de cinquenta quilos como pagamento por sua paciência, devorando-os com sons úmidos de satisfação.

    Mas a carne era apenas o subproduto. O verdadeiro tesouro estava no frasco que Elian segurava agora com mãos trêmulas dentro do laboratório químico.

    O Líquido Cefalorraquidiano do Leviatã brilhava com um azul elétrico, quase hipnótico.

    — M.U.L.A., inicie a síntese.

    “Centrífuga ativa. Aquecendo a 38°C. Adicionando carbonato de cálcio e enzimas digestivas sintéticas.”

    Elian observou o processo através do vidro da capela de exaustão. A centrífuga girou, transformando o azul vibrante em um branco perolado e espesso.

    “Leite K-9 Sintetizado. Pureza: 94%. Viável para consumo infantil,” anunciou a IA.
    Elian transferiu o líquido para um tanque térmico portátil e verificou o cronômetro. Quatro horas.

    Sem combustível para o Mamute, a máquina estava morta. Mas Elian não. Ele vestiu a armadura Atlas. Os servos hidráulicos zumbiram, prontos para a marcha forçada.

    Com as pernas mecânicas bombeando em potência máxima, ele correu. O Atlas não se cansava. Elian atravessou a planície de gelo a 50 km/h, saltando fendas e ignorando o vento cortante que tentava empurrá-lo para trás. Ele era um ponto de metal e fúria na vastidão branca.

    Ao chegar à Necrópole, a porta triangular reconheceu sua assinatura de energia e abriu-se. Ele correu pelos corredores de vidro negro até o Setor Beta. A luz da cápsula da criança piscava num amarelo crítico, quase vermelho.

    Elian quebrou o selo. O cheiro de ar viciado, ozônio e amônia escapou. A criança chorava baixo, um som fraco demais para ser ouvido, mas que vibrava no peito de Elian.

    Ela era enorme para um bebê humano, medindo quase 1,70m, mas suas proporções eram infantis: cabeça grande, membros finos e descoordenados. A pele cinzenta e translúcida mostrava o brilho fraco de seus órgãos internos.

    Elian conectou o tanque de leite ao tubo de alimentação da cápsula. A criança sugou vorazmente, seus quatro braços finos agarrando o tubo e, depois, a luva blindada de Elian. Ele viu a cor voltar à pele da criatura, o azul pálido dos vasos sanguíneos tornando-se mais forte.

    “Sinais vitais estabilizados,” informou a M.U.L.A. “Alerta: A criança não sobreviverá fora da cápsula. A pressão atmosférica da tumba é específica.”

    Elian não hesitou. Ele desconectou a cápsula inteira do pedestal de suporte de vida. O berço tecnológico pesava trezentos quilos.
    “Bateria de suporte de vida interno: 4 horas de autonomia.”
    Para o Atlas, trezentos quilos eram nada. Elian carregou a cápsula nas costas, prendendo-a com cabos magnéticos, e iniciou a maratona de volta. Ele carregava o futuro de uma espécie extinta nas costas.

    A viagem de retorno foi uma batalha contra o tempo e a própria exaustão de Elian. Mas o verdadeiro teste esperava por ele em casa.

    Assim que Elian cruzou a eclusa de ar do domo e entrou na zona segura, Goliath acordou.

    O Titã das Neves, normalmente dócil e leal, parou no meio do caminho. Ele ergueu a cabeça maciça e farejou o ar. Suas narinas dilataram-se, e os pelos de sua nuca se eriçaram.

    O cheiro que emanava da cápsula — mesmo selada — ativou um gatilho genético ancestral no cérebro do animal. Aquele era o cheiro dos Mestres. Dos Opressores. Daqueles que caçavam, escravizavam e matavam os ancestrais de Goliath.
    O Titã rugiu. Não foi o som de boas-vindas ou de fome. Foi um rugido de guerra, puro e aterrorizante.

    O gigante de quatro toneladas avançou, movido pelo pânico cego e pelo ódio instintivo.

    — Goliath, NÃO! — gritou Elian pelos alto-falantes externos, a voz amplificada ecoando no domo.

    Goliath chocou-se contra o Atlas com a força de um trem de carga. CRASH. Elian foi jogado contra a parede de metal do hangar. A cápsula em suas costas apitou com o impacto, a luz de alerta piscando furiosamente.

    Goliath levantou uma pata, as garras de obsidiana prontas para esmagar a cápsula e a abominação dentro dela.

    Elian não podia usar suas armas. Ele não mataria seu amigo.
    Ele largou a cápsula num canto protegido por caixas de suprimentos e ativou os servos do Atlas ao máximo. Quando a pata de Goliath desceu, Elian a interceptou no ar.
    O chão de concreto rachou sob as botas da armadura. Os motores hidráulicos gritaram em protesto contra a força orgânica do Titã.

    — Pare com isso! — Elian usou o peso do próprio gigante contra ele. Com um movimento de pivô mecanizado, ele girou o quadril da armadura e derrubou Goliath de lado.

    O chão tremeu com o impacto das quatro toneladas de carne e osso. Antes que o gigante pudesse se recuperar, Elian saltou sobre ele, prendendo o pescoço de Goliath contra o chão com o braço mecânico. Ele aplicou uma chave de submissão, controlando a força para não esmagar a traqueia do animal.

    Goliath debatia-se, arranhando o metal do traje, uivando de medo e frustração. Elian manteve a pressão, o rosto suado dentro do capacete.

    — Olhe para mim! — a voz trovejou pelos alto-falantes. — Sou eu! Elian! A criança é minha! Minha!

    Goliath parou de lutar, os olhos arregalados fixos na viseira brilhante do Atlas. Ele ofegava, o peito subindo e descendo rapidamente. Aos poucos, o medo ancestral deu lugar ao reconhecimento. Aquele gigante de metal não era um inimigo; era o Alfa.

    Goliath soltou um gemido baixo, um som de confusão e desculpas. Elian aliviou a pressão lentamente, permitindo que o animal se levantasse. O Titã recuou, olhando para a cápsula com desconfiança, mas sem agressividade. Ele aceitaria a presença da criança porque Elian ordenara. Mas nunca confiaria nela.

    Elian levou a cápsula para dentro da nave, onde a atmosfera podia ser controlada com precisão. Ele conectou o berço à rede de energia principal da base.

    A criança dormia profundamente, o estômago cheio de leite sintético. Através do vidro, Elian observou a pele cinzenta tornar-se leitosa e opaca, ganhando uma tonalidade de saúde.

    “Espécie: Homo Kraelis Superior,” informou a M.U.L.A. “Taxa de crescimento: Lenta. Expectativa de vida estimada: 400 anos. Potencial Psíquico: Detectado.”

    Elian tirou o capacete, o ar frio da nave secando o suor em seu rosto. Ele tocou o vidro da cápsula. Do outro lado, a mãozinha de quatro dedos do bebê se moveu, tocando o vidro no mesmo ponto.

    Ele agora era pai de um monstro. E tinha um planeta inteiro para reconstruir para ele.

    Nos dias que se seguiram, a rotina de Elian mudou drasticamente. Ele se tornara uma amálgama estranha de engenheiro, fazendeiro, soldado e pai solteiro. A criança, a quem ele decidiu chamar de Orion, crescia. Não em tamanho, mas em presença. Seus olhos grandes pareciam absorver tudo ao redor, e às vezes, Elian jurava sentir uma pressão suave na mente quando o bebê estava acordado.

    A paz, no entanto, é um luxo frágil em Tau Ceti f.
    Uma semana após o resgate, a M.U.L.A. acendeu as luzes de alerta no painel de comando.

    “Transmissão de dados interceptada. Origem: Necrópole Krael. Destino: Espaço profundo.”
    Elian correu para o console.

    O holograma tático da M.U.L.A. pulsava em vermelho, uma cor que manchava as paredes de gelo da caverna. No centro, um ponto piscava na borda do sistema estelar, muito além da órbita de Tau Ceti f.

    — Identificação desconhecida — disse a IA, sua voz desprovida do sarcasmo habitual. — Assinatura de motor de desconhecida.

    Classe: Nave Batedora. Não é uma sonda de pesquisa, Elian.
    Elian sentiu o frio subir pela espinha, mais gelado que o vento lá fora.
    — alguém nos achou. Quanto tempo temos? Minutos? Horas?
    M.U.L.A. processou os dados astrofísicos. O ponto vermelho no mapa moveu-se milimetricamente.
    — Negativo. Eles detectaram a nossa assinatura de energia quando desligamos os painéis dos Krael da elite, e ligamos a Máquina-Mundo ao máximo, mas estão na heliosfera externa, navegando através da nuvem de Oort do sistema. A densidade de detritos lá fora é imensa.

    — Mula, me dê um número — rosnou Elian.
    — Na velocidade atual de cruzeiro segura… — A IA fez uma pausa, calculando variáveis de arrasto gravitacional. — Doze anos, quatro meses e oito dias terrestres até entrarem em órbita de bombardeio.

    Elian soltou o ar que prendia nos pulmões. Ele olhou para o berço onde o pequeno Orion dormia, alheio do mundo. Depois, olhou para o minério bruto que empilhara lá fora.

    Doze anos.

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