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Capítulo 9. O Enigma da Sombra 9
O mago tomou a dianteira. — Esperem! — disse aos soldados, recuperando o fôlego.
Enquanto Calae amparava Leonel, Fygar apertou com ambas as mãos seu cajado de madeira.
— Não adianta resistir. Entreguem-se de boa vontade! — avisou com seriedade.
— O que você quer com a gente? — berrou a jovem. Nesse momento, Leonel encarou fixamente o homem. A sombra deu um passo para a frente.
Fygar recuou, e de sua boca palavras rítmicas começaram a se propagar. Os soldados imediatamente se afastaram o máximo que podiam do mago, como se uma víbora mostrasse as presas.
O cajado vibrou e a pedra escarlate reluziu.
“Joia do oeste que vaga pela relva no orvalho da manhã,
Suas pétalas desabrocham em perfume pela brisa que…”
Com um impulso traiçoeiro, a distância entre o mago e a sombra se desfez. Surpreso pelo alerta do instinto, Fygar fez a única coisa que um mago jamais deve fazer. Cessou a conjuração antes de terminá-la.
Uma luz intensa explodiu da pedra escarlate e o ar, por um instante, desapareceu. Acima da cabeça do mago, um vórtice em espiral torceu a realidade e ramificou-se até o solo e, ao tocá-lo, múltiplas explosões se manifestaram, lançando poeira e detritos para o alto.
No céu surgiu, do nada, uma gigantesca árvore que despencou sobre a cabeça de todos os que ali estavam.
A sombra ignorou a árvore e, com o punho fechado, atingiu em cheio o ombro do conjurador. Fygar foi lançado para trás girando sobre o calcanhar.
Quando chegou ao solo, a copa verdejante engoliu Leonel e Calae entre as folhagens e galhos. As raízes atingiram com força os soldados mais próximos.
O mago observou, atônito, o tronco que quase o esmagara.
Calae, presa entre a folhagem, amparava Leonel nos braços. Ele estava inconsciente. Ela, por sorte, sofreu apenas alguns arranhões.
Fygar levantou-se, seus olhos instintivamente buscaram a sombra e, com surpresa renovada, ele encontrou o espectro parcialmente preso sobre o caule robusto da árvore, com as pernas comprimidas contra o chão.
— Senhor — chamou um combatente próximo às raízes expostas. Seu semblante estava tomado pela tristeza.
O mago caminhou em sua direção e logo percebeu que cinco bons soldados encontravam-se esmagados pela estrutura massiva. Os corpos retorcidos não permitiam qualquer esperança.
Fygar abaixou a cabeça e repousou a mão sobre as raízes, apoiou o peso do corpo na árvore e refletiu por um instante.
— Cinco mortos em uma missão de escolta. Que fracasso.
O mago reuniu os soldados restantes — somavam quatorze —; os demais estavam desacordados ou incapacitados.
— Procurem o rapaz. Eu cuido da sombra — comandou Fygar.
Prontamente, o pelotão vasculhou os arredores, e logo encontrou, sobre as folhagens da espessa copa verdejante, a garota e o rapaz. Calae chorava. As lágrimas deslizavam pelo rosto alheias à sua vontade; sentia-se impotente — e isso pesava em seu coração. Acalentava a cabeça de Leonel no colo.
Sem conseguir resistir, foi imobilizada e afastada do jovem.
O mago estava abaixado ao lado da sombra. O espectro puxava a terra sobre o corpo com as mãos, tentando se libertar da maciça árvore que prendia suas pernas, mas seu esforço não surtiu resultado.
Dois soldados trouxeram Leonel desacordado para perto do mago.
— Ele está vivo? — perguntou ao combatente sem tirar os olhos da sombra.
— Sim, senhor. Parece que apenas está desmaiado — respondeu sem pestanejar.
— Amarrem o menino, vamos levá-lo — orientou.
O mago mantinha uma distância segura do espectro. O que era essa coisa? Ele nunca tinha visto nada igual. Aquilo tinha vontade própria. Ela estava viva? Que força estranha a prende ao jovem? Eram questões que instigavam sua curiosidade. Ao que tudo indica, há objetos que ela não transpassa, e outros sim. Era irônico que um tronco acabasse sendo o seu maior inimigo.
Enquanto seus olhos se perdiam analisando a escuridão do espectro, repentinamente uma nova forma se sobrepôs aos braços sombrios. Atando um braço ao outro, um tecido obscuro prendeu-lhe as mãos.
Fygar piscou e abriu os olhos com espanto. A enxada, a espada, o tecido.
— Cadê o rapaz? — O mago sondou os arredores à procura de Leonel.
Dois soldados enlaçavam os braços do menino, amparando com improviso o membro ferido com um pedaço de madeira.
Fygar aproximou-se do rapaz. Depois retornou à sombra presa sob a árvore.
— Amarrem bem as pernas também! — disse, a voz confiante e clara transmitindo o alívio intelectual que dissolvia parte de suas indagações.
…
Com esforço e recebendo o auxílio voluntário dos aldeões, os combatentes retiraram os restos mortais dos companheiros debaixo da estrutura ramificada que ceifou suas vidas. Carregaram os corpos e os prisioneiros até a carroça de transporte. A tropa se reorganizou, amparou os feridos e preparou-se para partir em jornada.
Fygar estava cansado; as coisas saíram completamente do controle. Ser comandante, definitivamente, não era algo natural para ele.
Sentia-se responsável pela morte de seus subordinados; aterrorizara crianças e até mesmo as colocara em risco de vida.
Ele fitou os aldeões murmurantes com atenção, principalmente Calae, que o encarava com um rancor profundo nos olhos.
— Perdoem-me por qualquer exagero cometido — disse o mago, curvando-se levemente.
— Não era minha intenção… Estão seguros agora — declarou em tom solene.
Calae desvencilhou-se do abraço materno e aproximou-se do homem.
— Nunca estivemos em perigo! — gritou, expelindo todo o ar dos pulmões.
— O que vão fazer com o Leonel? — A pergunta da menina despertou a inércia dos familiares.
Tanya caminhou em direção ao comandante; Dounek seguiu a esposa.
— Soltem ele! — disse Coremd, mancando da perna esquerda.
Fygar franziu a testa e comprimiu os lábios; sondou os arredores à procura de Hurdan e Falgo. Dentre as expressões aflitas dos agricultores, localizou-os — distantes, pareciam não querer mais se envolver naquela situação.
— Infelizmente — disse o mago —, não posso ignorar a ameaça da entidade sombria — e, recobrando a autoridade na voz, acrescentou: — como presenciaram, ela é uma intrigante… Uma entidade incomum — corrigiu-se.
— O que vão fazer com o menino? — questionou Dounek, firmando os pés e endireitando a postura.
— Não tenho mais nada a dizer — enfatizou. — Se me dão licença, tenho uma longa jornada a seguir.
— Espere! — Calae, impetuosamente, agarrou o cajado do homem enquanto ele virava as costas.
Fygar sentiu a cólera percorrer-lhe as veias. Fechou o punho esquerdo e, com as costas da mão, desferiu um golpe feroz contra a menina.
Calae abaixou o rosto, esquivando-se do punho agressor. A mãe pulou na direção do homem, e o pai seguiu a esposa.
Confrontado, o mago recuou, tentando desvencilhar-se de qualquer contato, mas o cajado, em disputa, o impedia.
Um combatente próximo empunhou a espada e soltou um grito de aviso, que paralisou os pais da menina.
Distraída pela voz ameaçadora, a jovem enfraqueceu o aperto e, com um tranco, o conjurador puxou o cajado, retomando-o.
— Sua… — Fygar forçou os músculos da face para conter a violência que lhe turvava a mente. Respirou. Afastou-se mais um passo e gritou ameaçadoramente.
— Não me obriguem a machucá-los — disse, controlando o fulgor de sua raiva. — O assunto encerra-se aqui!
Distanciou-se sem olhar para trás, indicando aos soldados que seguissem rumo à estrada.
Calae continuou a segui-los até que a voz do pai ecoou em seu coração, chamando-a pelo nome. Parou, incapaz de prosseguir ou retroceder, guardando, por trás das lágrimas, o semblante inconsciente de Leonel que se afastava.

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