Grande Griffin, 1132.

    A neve caía intensamente sobre o solo, o chão pintado de branco reluzia suavemente com a fraca luz do sol que passava pelas nuvens. É início do ano, o inverno já começou no continente.

    Ali, naquele campo sem nome, uma mão pálida surgiu vindo de baixo do chão, suja de sangue, terra e neve. O solo se revirou enquanto algo forçava seu caminho até a superfície.

    Um respirar profundo ecoou ao vento, enquanto a figura de Ti’metios se erguia depois de seu sono, com bem mais cabelo do que quando adormeceu. Seus músculos doíam como se tivesse segurado o peso de um navio por anos. Seu peito, antes núcleo de sua magia, agora mal podia ser sentido por ele como efeito da chama dourada. Nem mesmo Zigfryd foi capaz de impedir as sequelas.

    Mas dor era algo que o vampiro já estava acostumado fazem muitos séculos. Se levantou, forçando cada fibra sua a despertar. Seus olhos buscaram entender onde estava, e apesar de toda neve não restavam dúvidas.

    — Esse lugar… foi aqui. — O mesmo campo onde a última batalha da guerra aconteceu. Mas agora não tinha nada que sequer indicasse isso, nem mesmo o cheiro de sangue fora o daquele que estava em suas mãos. Sua armadura também havia sumido, provavelmente corroída. Estava vestido em trapos, e descalço. — Santo da Lança bendito. Não fossem suas chamas douradas eu teria ido direto para a parte de aproveitar da minha paz.

    Sem rumo, ele começou a vagar, deixando seu rastro pela neve. Cada pequena diferença no local passava despercebida para ele naquele momento, não se importava com nada.

    Em sua mente, um único pensamento escapou involuntariamente de seus pulmões.

    — O que eu faço?

    O ambiente pareceu escurecer em sua frente, o som do vento cortante e os poucos passos que ele podia ouvir substituídos por um zunido insuportável.

    — O que eu faço?

    Cada passo parecia fazer o zunido aumentar, não sabia quanto tempo ficou dormindo e nem o estado exato de seu corpo. Não sabia o que havia mudado. Não sabia nem quantos países existiam agora. Quem da guerra ainda estava vivo.

    Mas seu foco, ou a ausência dele, foi interrompido. O cheiro de sangue fresco atingiu seus sentidos com tudo. O instinto de sua sede surgiu, e assim como toda criatura faminta ele partiu atrás de sua refeição.

    Cada passo deixava o vampiro mais perto de sua presa. Por mais que instinto fosse o que guiasse ele, sua sanidade supera a selvageria de sua maldição.

    — AAAARGH! — O grito estridente de um homem alcançou os ouvidos de Ti’metios, um grito inegável de dor.

    Largado no chão estava um homem, roupas simples de frio que não eram as melhores mas eram o que ele tinha. As mãos segurando a própria perna, seu pé esquerdo jogado de canto, cortado fora.

    — Esse cara grita bastante, tem certeza que ninguém vai vir? — questionou uma outra voz, com a lâmina banhada de sangue. Um homem de aparência suja, do tipo que fica no campo.

    — E que outra opção temos se não arriscar? A culpa é dele que decide levar essa carroça por aí. Tem comida suficiente para aguentarmos o inverno e mais um pedaço da primavera. — respondeu outro bandido que investigava os conteúdos da carroça, sem um animal para a puxar. — Mas teria sido bom se a gente não tivesse matado o cavalo.

    Um total de quatro bandidos, somente um mercador.

    —É…teria si-Huh? — O bandido com lâmina banhada em sangue foi surpreendido pelo som de passos na neve. Antes que sua cabeça tivesse se virado na direção do barulho, uma dor aguda surgiu em seu pescoço, preso em suas costas e sugando seu sangue como se bebesse água estava Ti’metios.

    Ele começou a se debater tentando se livrar do predador, seus gritos sumiram tão rapidamente quanto sua cor. Seu olhos reviraram e simples assim, seu corpo perdeu a força, já morto. Os outros bandidos não reagiram de imediato, o medo os atingiu enquanto encaravam aquele homem.

    — Muito melhor. Quem é o próximo? — O vampiro soltou o corpo e recolheu a lâmina. — Que espada medíocre. — Brandindo a arma para remover o sangue excessivo, ele começou a caminhar na direção dos inimigos.

    Os bandidos ergueram suas espadas, ao menos dois deles. O terceiro começou a correr para longe.

    — Culpem o que eu acabei de matar, sem o cheiro de sangue eu teria passado direto sem perceber vocês. — Um sorriso sinistro se abriu no rosto pálido de Ti’metios.

    Os bandidos, impulsionados pela ideia de sobreviver o inverno, sabiam que tinham que matar o vampiro ou morrer de fome. Avançaram os dois de uma vez com suas espadas.

    O Campeão defletiu os golpes sem dificuldade alguma, parecendo brincar com os dois.

    — Vamos lá rapazes, estão decepcionando este velho homem.

    Guiava a luta como um maestro guia uma orquestra, as lâminas dos bandidos se chocaram e naquele curto instante…a espada de Ti’metios desenhou linhas no ar, cessando com a vida de ambos.

    — Que a morte seja mais gentil com vocês do que a vida foi. — O vampiro lançou sua arma roubada ao chão, enojado. Seu foco se voltou para a vítima do grupo, que o encarava com terror por motivos óbvios.

    Se aproximou com calma, retirou as roupas de cima do bandido que havia devorado e as rasgou. Agachou próximo do homem, acordado somente pela adrenalina, e enfaixou a perna com força para impedir o sangramento. Seus olhos encontraram o da vítima, uma expressão mista de confusão e medo.

    — Você teve sorte, perdeu um pouco de sangue, mas vai sobreviver. É um mercador?

    — S-Sim. — Respondeu com voz trêmula. Ti’metios pegou ele pelo braço e levantou.

    — Te levarei até seu destino, suba na carroça. — O vampiro auxiliou o mercador a subir. Segurou a carroça pelas hastes da frente e começou a puxar ela. — Pra que direção?

    — N-nor-noroeste — respondeu o mercador. Na sua voz era possível notar o efeito da dor que obrigava ele a respirar fundo entre as sílabas. Isso e o medo. Normalmente não confiaria em Ti’metios, mas era a única opção que tinha.

    Ti’metios virou para noroeste, arrastando a carroça pela neve como se cada floco e esforço necessário para movê-la em um terreno difícil não fosse nada. E de fato para ele não era muita coisa mesmo enfraquecido.

    A nevasca pareceu se intensificar ao passar do tempo, o vampiro apressou o passo quando avistou a fraca luz de tochas na distância.

    Na porta, dois guardas observavam a nevasca. Estavam protegendo a entrada da propriedade.

    —Deveríamos fechar as portas. — Disse Luke, o guarda mais jovem.

    — Frederick chega hoje com os suprimentos — respondeu Lloyd, o guarda mais experiente.

    — Olha essa neve, ele pode ter parado para descansar e vir amanhã.

    A conversa foi interrompida pelo som das rodas de madeira girando, eles cerraram um pouco os olhos para identificar o que estava vindo. Se deparando com o pequeno vampiro carregando a carroça com Fred sentado em cima dela, com a mão segurando a perna.

    — Ou não.

    Ti’metios se aproximou com a carroça, e antes dos dois poderem falar alguma coisa ele ordenou:

    — Peguem a carroça e este homem. Bandidos cortaram a perna dele mas eu enfaixei e apertei. Não vai morrer, se cuidarem.

    Ele largou a carroça, e começou a caminhar para longe. Sua mente voltando a divagar sobre seus próprios problemas.

    — Espere! — exclamou Lloyd. — A nevasca não vai passar em breve, deveria ao menos esperar ela diminuir conosco. O barão vai querer te agradecer por resgatar Frederick e os suprimentos.

    O vampiro encarou os céus, um floco gelado atingiu seu olho fazendo com que ele prontamente coçasse o rosto. Soltou um suspiro pesado.

    — Eu aceito.


    Sentado atrás de uma mesa de madeira em uma sala fria estava um homem. Cabelos curtos e bem penteados, traje de lã para auxiliar com o frio intenso. A sala não continha muitas decorações, mas tinha um estandarte na parede atrás da mesa que ostentava o símbolo daquela casa nobre, um cardo dourado. Aquele homem era o barão daquela terra, Valerius Severin.

    Ao lado dele, com a mão repousando no cabo da espada de forma tensa. Um jovem cavaleiro, não como os guardas da entrada, aquele rapaz estava bem acima deles no quesito de habilidade e força. Com cabelos platinados e olhos dourados, seu traje vermelho não portava uma peça sequer de armadura. E por mais que seu rosto estivesse normal, ele estava pronto para ceifar a vida de um certo alguém.

    — Senhor…qual o seu nome mesmo? — questionou o barão diante da pequena figura suja em sua frente.

    — Ti’metios. — respondeu o vampiro, sentado com as pernas cruzadas e braço apoiado na cadeira. Esse era o certo alguém.

    — Mestre, esse homem é um vampiro. — afirmou o cavaleiro, com seus dedos se fechando ao redor do cabo de sua arma. “É perigoso manter ele por perto.

    Ti’metios revirou os olhos.

    — Eu não estou tentando esconder isso, pivete. E não é porque sou vampiro que eu sou uma ameaça, não saio comendo o que vier na frente.

    E de fato, não escondeu mesmo. O povo daquela terra naquele ponto já haviam todos escutado sobre o vampiro que trouxe os suprimentos. Verdade seja dita é só por ele ter feito isso que essa conversa sequer está acontecendo.

    — Darian, ele trouxe os suprimentos de inverno e resgatou um dos nossos. Vamos tentar ser cordiais.

    — Isso aí, escuta teu mestre. E tira a mão da espada que eu tô vendo. — A confiança toda de Ti’metios era uma máscara. Anos vendo guerreiros deram a ele a capacidade de medir de forma geral a força de alguém, e aquele jovem cavaleiro ao menos naquele instante realmente podia matar ele sem muito esforço.

    O cavaleiro soltou o cabo, assim que fez isso seus olhos alteraram de cor para prata. Isso intrigou o vampiro profundamente.

    — O que faz aqui afinal? — Questionou Valerius.

    — Nada. Eu acordei não faz mais do que uma hora. Sou uma…ovelha sem pastor, se quiser colocar assim. Qual é a data mesmo? — questionou o de olhos vermelhos, esperando uma resposta de talvez algumas poucas décadas no pior dos casos.

    — É o nono dia de inverno, do ano mil cento e trinta e dois. — O Barão respondeu, curioso sobre como o pequeno iria reagir.

    — Por Zigfryd! Eu passei quatro séculos dormindo?! — Os olhos do vampiro se arregalaram, ele pareceu murchar na cadeira. —Devem estar quase todos mortos nesse ponto.

    Valerius e Darian se olharam brevemente, era melhor desviar o assunto.

    — Você pode ficar aqui até que a neve passe, como compensação por trazer nossos suprimentos. Ou alguma outra opção de sua escolha.

    Ti’metios ergueu o olhar.

    — Seu povo ficaria bem com uma “vil criatura da noite” em seu meio? — Ele mostrou suas presas em um sorriso, parecendo já ter superado a surpresa de alguma forma.

    — Ficariam tensos, mas se ficarão bem com sua presença é uma questão apenas sua. E se suas presas alcançarem alguém, Darian está sempre perto — Apesar da frase, aquilo não pareceu uma ameaça, apenas um aviso claro.

    O pequeno sorriu mais. Tinha plena confiança em sua capacidade de não predar inocentes, mas gostou da confiança do homem.

    — Você é interessante, barão. Aceito ficar aqui por algum tempo.

    — Bem vindo à minha propriedade.

    Darian não disse nada, mas estava curioso sobre o vampiro.

    E assim começa o novo ciclo do vampiro que um dia desafiou os deuses.

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