Capítulo 3: Raízes do Ódio
O Sol vagarosamente entrega seu posto no céu a Lua, os últimos raios alaranjados se tornam opacos. Sentado na cadeira, um par de esferas rubras observa a mudança nos céus. Sem admiração, pois sua mente viaja muito além de sua existência. O peso da coroa esmaga qualquer senso de pertencimento. Ozymandias está aflito.
Uma vergonha para o futuro faraó.
Peso esse que não o incomodava tanto, não até ontem. Não até seu pai, Seti, o chamar para conversar em meio as cerimônias de preparação. O frenesi das ervas ainda não tinha deixado seu corpo, amaldiçoa as malditas anciãs por conta disso.
— Filho, como avatar de Shamallah carreguei o peso de todo o deserto na palma de minha mão — a mente entorpecida via o próprio pai como deus e o mundo uma porção de areia. — Foi me dada o dever de escolher o que escorreria entre meus dedos e o que seria preservado. Eu escolhi a nós, o povo superior. Aqueles que carregam o sangue em suas almas. Meu filho, eu escolhi você.
Ozymandias sorriu, como se compreendesse. Sentiu-se amado nos braços do pai. Porém agora sente nojo. O desgraçado o fez questionar se a própria vida vale tanto. Morrer não repararia em nenhum pecado cometido em seu nome. O maldito passado foi erguido sobre sangue. As areias estão imundas. Cheias de almas inocentes.
— Por isso eu executei um grupo rebelde — ele continuou, sereno e impassível. — Matei o máximo de Ivrits que me foi permitido pelo Sol. As crias imundas foram sacrificadas para o futuro ser próspero. As mulheres corrompidas pela liberdade foram devoradas pelo rio. Sobraram somente os saudáveis e submissos.
A visão do genocídio correu pelos seus olhos. Figuras inumanas sendo reduzidas a poças vermelhas. Essa mancha está no seu sangue, nas suas mãos. O brilho carmesim inocente gotejando contra a vontade divina. Um pecado irreparável. Uma ofensa a vida.
— Os que ousaram levantar a voz contra mim novamente, silenciei. Arranquei as línguas e ceguei um dos olhos. Aqueles que não se ajoelharam, cortei os tendões e os decapitei — o que falava consigo era o faraó, não seu pai. —Entenda filho, o coração serve somente para o manter de pé. Suas escolhas devem ser feitas a partir de seus olhos, pois somente eles podem enxergar o futuro. Somente eles revelam a podridão alheia. Então, se for necessário, banha-se de sangue. Porém deixe seus olhos limpos. O carmesim da alma jamais deve ser contaminado com a sujeira mortal.
Viu em seus olhos, sim, sua alma está repleta de morte. Repleta de dor. Repleta de destruição. Mas principalmente de sangue. Muito sangue. Ele tinha a feição de Satesh, deus da desordem. Um ser de focinho alongado e grandes orelhas. Ele se vê como o mal necessário para o equilíbrio. Cruel, sim, mas herói para o seu povo.
— Maldito título — clama aos céus como prosseguir.
Seu irmão, Moshe, tem o direito de saber o que o próprio pai fez com seus semelhantes. No entanto, o que poderá ser feito? O compensar? Há como compensar centenas de vidas? Há como perdoar ou ser perdoado?
—Nos salve — grita uma mulher.
— Ajude-nos — clama um ancião.
— Misericórdia — ajoelha-se o guerreiro.
— Não leve o pouco que me sobrou — chora o órfão.
As preces chegam ao futuro coroado. As águas cristalinas se foram, agora há escamas vermelhas rastejando sobre corpos mutilados. Mas os pedidos de salvação não vêm debaixo, às margens estão preenchidas somente de sapos. Os anfíbios se espalham, poupados da morte invadem os domicílios como mensageiros da morte. Os clamores vêm do próprio palácio. Atrás de si a agonia transborda entre as frestas das portas.
Por Shamallah
O cheiro de podridão corta os outros sentidos. O vômito escapa dos dentes serrados e escorre pelos dedos da mão. As lágrimas salgadas rasgam o rosto. Há dúzias de corpos espalhados pelo corredor. Nenhum deles teve como reagir. Agora, pequenos pontos pretos consomem os corpos. Pulgas tão negras quanto uma noite sem luar.
— Pelos deuses — é um ataque.
Os corredores guardam poças de sangue e carne. As escadas foram deformadas com os corpos mutilados de rãs e pulgas. O gosto fétido saindo da boca não se compara com a chacina.
— Seu verme miserável! — o trovão de vozes reverbera no espaço vazio do palácio.
É claro, um exército. Somente isso seria capaz de tal feito. No entanto, como o rio se deformou daquela maneira? Como passaram e mataram tão rápido.
Traição
Apenas isso explica toda essa morte. Algum maldito nobre se vendeu para algum reino. Sim, era isso que seu espírito precisava. Sua compostura foi restaurada. Caminhou entre a névoa da morte somente imaginando quem poderia trair seu próprio povo. A lança espectral se formou. A cada passo uma fina linha é desenhada nos chãos de concreto. As vozes vieram da sala do trono. O posicionamento dos corpos indica o mesmo. Pessoas boas morreram servindo o avatar do Sol. Seus nomes devem ser gravados em pedra para que nem mesmo o tempo os esqueça. Sim, o futuro rei de Otige irá providenciar isso junto a cabeça do assassino.
As portas de madeira entreabertas exalam um zumbido ensurdecedor. O odor da morte se mantém presente. O suspiro de milhares de almas preenche o ambiente com frieza.
— Eu matei todos eles — a lança vacilou. — Não que isso lhe importe, Seti.
A sua frente um ser de olhos negros derrama o licor da morte no chão. Soluça como se tivesse algo humano dentro de si. A voz leva Ozymandias a dias distantes e belos que, a partir de hoje, se tornaram amargos. A sua frente está Moshe, moscas escapam dentre seus lábios. Sob seus pés está Seti. Sem vida. A carne sendo devorada por moscas. O zumbido é ensurdecedor. Seu pai está morto. Seu irmão derrama lágrimas vazias. O zumbido está cada vez mais alto.
— Traidor — seu espírito não irá vacilar.
Sim. Moshe esperava isso do seu irmão. Sentiu o mesmo quando saiu do subsolo junto ao ódio de tanto. A terceira maldição já foi realizada através das rãs. A quarta foi feita especialmente para Seti. Cada maldita alma que habita seu corpo planejou e executou uma a uma as maldições. O rio se encher de sangue e espantar as rãs infectadas. Elas eram nada mais que casulos vivos. Cada uma portando centenas de pulgas famintas, nada mais que pontos pretos devoradores de carne.
Mas, por um instante
— Moshe, você está bem? — sua mãe adotiva, rainha, toca seu rosto. — O que houve. Não, não importa. Vamos para um lugar seguro.
Fraquejou
Ela analisa os olhos perdidos para o abismo. Os dedos passam pelas feridas mal cicatrizadas. Seu olhar meigo, por um instante, revela o fraco brilho dourado de Moshe.
— Me perdoe — ele chora. — Não era para… não você…
A mãe o abraça. As lágrimas saem de forma natural. Quis deixar toda dor sair, mas…
Não abaixe a guarda…
Não esqueça que é…
Não esqueça o que fizeram…
Não se esqueça do que temos que fazer…
As pulgas rasgam seus casulos esverdeados. Os mais curiosos foram agraciados com a morte rápida. Os pequenos pontos pretos estavam famintos por carne, eles começam pelos olhos para depois reduzir tudo a ossos
— Eu te amo — Moshe a agradece, seu peito dói. — Eu… eu…
Mas é necessário…
— Tudo bem, filho — ela limpa suas lágrimas. — Eu também te amo…
Foi limpo. Tem certeza de que ela sentiu dor alguma. Não se perdoaria. Moshe atravessou dez flechas de sangue na sua mãe adotiva. Crânio e coração foram seus alvos. A face dela está calma.
Perfeito…
Moshe olha para as mãos e vê que há sangue nelas. Ainda quente. As almas o ensinaram rapidamente como obter acesso irrestrito ao próprio corpo, não demorou para descobrir que o talento em manipular sangue tão bem quanto a água. No entanto, a sensação de estar envenenando a própria alma sempre o paralisa.
— Eu… eu… preciso… não… — o príncipe, não, depois de hoje não é mais um príncipe. Traiu a todos aqui. — Nós devemos terminar o que começamos…
Moshe subiu os andares até alcançar a sala do trono. Agradeceu aos céus vazios que grande maioria das vítimas morreu em silêncio.
Avance…
Ao chegar às portas que protegem o trono, percebe os corpos dos guardas. Grande parte deles deve ter tentado proteger os nobres, talvez tenham saído para prestar socorro a civis. Foram devotos até o último suspiro.
— Seti… — o turbilhão de vozes chega até o líder Qabil.
— Eu sabia que era um demônio. Eu sabia que iria rogar maldições nessa terra — ele se levanta do trono. — Deveria ter te matado no momento que vi seus olhos. Você é o meu maior erro.
Seu tom exala orgulho. Suas vestes reais estão exatamente como mais cedo.
— Seu maior erro foi ter nos assassinado… — a quarta maldição começou a ser rogada. — Seu maior erro foi ter manchado seu país com nosso sangue…
Seti ri. Gargalha. Afinal, seu fim chegou. Não há por que resistir. As almas consumidas pelo ódio finalmente vieram retribuir a violência. Não há sentido em resistir.
O zumbido começa a preencher a sala.
— Vamos, prove para mim que vocês são somente bestas sanguinárias. Me mate.
— Cala a boca…
— Saiba que tudo que fiz foi pelo meu povo e não me arrependo. Se um dia sua casca chegar a tal posto, entenderá — está a poucos metros do seu assassino. — Ozymandias já está preparado para herdar o poder de Shammalah. Hoje ele irá entender o que faz um faraó ser um deus vivo não é o título, são as decisões durante as crises.
— Silêncio seu verme miserável!
Moscas rastejam para fora da garganta de Moshe. O zumbido se torna o único som na sala. Cada pequeno ser adentra a pele do faraó, comendo a carne e drenando o sangue.
Então Ozymandias chegou. Atacou antes que seu peito vacilasse. A lança corta o ar atravessando a perna do monstro à sua frente.
O zunido cessa.
Moshe grita. As vozes pela primeira vez se silenciam. Seu corpo se torna pesado. Está cansado. Seu peito está tão aflito. Deseja morrer. Precisa morrer aqui. A vingança já foi executada.
Não…
Parem, por favor
Isso foi justiça….
Seu corpo se move, moscas saem de seu estômago. Seu irmão erra o golpe, agora é uma espada espectral que reside na sua mão. Ele está tomado pelo ódio, é claro. Ele acabou de perder o pai.
Um maldito tirano…
Um pai
Nunca te amou…
Com as mãos nuas o golpe é bloqueado. O sangue quente escorre pela lâmina. Ozymandias treme, seu ímpeto vacila. Pois agora vê brilho dourado nas esferas negras de seu rosto, um brilho crescente irradiando cada segundo mais.
A maldita vingança acabou, me deixem morrer aqui. Tenho que ser julgado pelo que fiz.
Não…
A prole maldita deve morrer…
A espada espectral foi destruída, de dentro para fora. A expressão de raiva no rosto do irmão voltou a deixar Ozymandias alerta.
Ele irá viver
Nosso povo nunca será livre enquanto ele viver…
Mais nenhuma gota de sangue será derramada
Garoto estúpido…
Irá falhar…
Sofrer…
E então a escuridão irá retornar…
Está sozinho consigo.
Não
Sente os olhos. Dezenas, não, milhares. Por todos os lados. Observando o cego se aproximar do precipício. Estão sorrindo. Pacientes, os malditos são pacientes.
— Não irei lutar — o tom vacilou, diferente de seus passos até a porta.
Ozymandias se pôs de joelhos e chorou. O motivo de ter deixado Moshe viver irá o assombrar o resto de sua vida, seu maior arrependimento. Talvez tenha sido o brilho naquela escuridão. O fato dele ter se recusado a revidar. Ele sair completamente indefeso pela porta.
Seu maior arrependimento em vida, é agora motivo de alívio.
Moshe não se virou para testemunhar Ozymandias cair de joelhos. Passar por todos esses cadáveres retira a força de suas pernas. Se recorda dos rostos sorrindo ou das conversas fúteis.
Moshe caminhou em direção ao estábulo. A passada lenta o ajuda a pensar. Sabe como cada um morreu. Os gritos ecoam dentro da mente. As súplicas. As barganhas. As pulgas são seus sentidos, compartilham cada mísera sensação. O gosto do sangue ainda resida em sua boca. Os pontos pretos nos cadáveres se desfazem em uma névoa escura, assim como as moscas, as carcaças das rãs e a serpente no rio Olin. Mas não as vidas, alguém terá que retirar um por um. Enterrar um por um. Limpar corredor por corredor.
— Pelo menos troque suas vestes — a voz aflita assusta o assassino.
Aharon está vivo. Um pedaço de madeira reside na mão direita para servir de apoio. Ele se esforça para sorrir, mas o pavor é nítido em seu rosto.
— Já separei um dromedário — seu olhar teima em focar nos corpos ao redor e fugir da escuridão que agora habita seu amigo.
Não houve resposta. Moshe recusou-se a falar. O sangue em seu corpo secou e junto a Aharon adentrou o deserto com a esperança de limpar as atrocidades que fez.
Em seu rosto a uma marca, a íris dourada permanece radiante. Porém a escuridão ainda o cerca esperando pelo momento correto de, novamente, oferecer auxílio.

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