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Capítulo 10. A Luz que Desperta
— Esse foi o começo para o menino. Leonel, certo? Tenho minhas dúvidas quanto ao que relatou em sua bela prosa, amigo prateado, muitas. No entanto, sei que a história continua e que elas podem ser sanadas em breve. Dito isso, deixe-me agora falar sobre o indomável que bem conheço.
Wood é seu nome. Um rapaz alto, de pele escura, boa musculatura e jovialidade — a maior paixão na sua vida, como ele mesmo diria. O barulho seco do machado no tronco da árvore.
Na vastidão de uma floresta de orla, ao lado das montanhas de Homdotar, as pedras rolavam enquanto o terreno íngreme se espreguiçava em mais uma manhã. Do seu instrumento de ofício, golpes ecoaram até o estalo final que vergou o tronco ao solo. Filho de um homem simples, provedor de teto e comida, o rapaz seguia os dias na rotina do suor e da renda.
— Terminou aí? — perguntou o homem de estrutura marmórea, surgindo do ocultamento florestal.
— Sim — respondeu, em bom tom, seu pupilo, enxugando o suor do rosto.
— Então deixa. Depois levamos os troncos. Vamos voltar para a cabana.
A voz solene do lenhador ressoava com a solidez da experiência.
A floresta não era muito densa e as trilhas de cascalho incomodavam os pés dos desavisados, mas para quem entendia dos passos, não havia risco de imprevistos.
Viver na montanha tinha suas vantagens — ninguém o incomodava — e suas desvantagens: não se podia esperar qualquer ajuda. Wood acompanhou seu mentor — um homem cuja meia-idade pesava-lhe sobre a barriga vasta, e as vestes de algodão tingidas em vermelho escondiam sua natureza gentil.
— Ei — chamou o rapaz empolgado. — Vamos puxar os troncos ainda hoje?
— Depois. Sozinhos, é muito trabalho — resmungou o homem, coçando a cabeça. Tinha os cabelos um pouco compridos demais, molhados pelo suor e pelo orvalho da manhã.
— Eu faço — afirmou Wood, displicente.
— Sozinho? — repetiu o homem.
— Sim — enunciou com convicção.
— Dá uma distância considerável até a cabana.
— Eu consigo.
A caminhada não era longa e, ao se aproximarem da morada, avistaram a grande carroça, a pilha de madeira laminada disposta no descampado amplo, o armazém e o estábulo. Mais ao fundo do terreno, duas choupanas — a menor pertencia ao rapaz.
Já acomodados na residência principal, o homem de meia-idade convidou: — Puxa uma cadeira, Wood. Hora do almoço!
Bart não era seu pai de verdade. Quando criança — segundo os boatos — Wood foi encontrado na oficina do velho ferreiro do vilarejo. Não sabiam quem o abandonou, nem entendiam como um bebê pôde surgir do nada sobre a forja de um ofício. Ele surgiu.
— Muita coisa estranha acontece nesse mundo — atestou o ferreiro. — Quem sou eu para questionar a vontade dos dragões?
Ele era um temente — assim como muitos outros — das bestas sagradas que rondavam as terras, o ar e os mares. — A vontade do mundo é a vontade das bestas; nosso rei maior é a vontade do destino — dizia ele.
O ferreiro atendia pelo nome de Steel. Era um velho viúvo de muita fé e idade avançada. Acolheu o bebê por algumas semanas, mas, por experiência de muitos partos, seu legado era requisitado. Com sua morte, Wood, um órfão, não tinha mais lugar no berço do aço.
Nesse mesmo dia, enquanto o corpo do ancião era velado, o solitário lenhador prestava homenagem e, enquanto a fumaça da pira avançava em direção às nuvens, suas mãos acariciavam a pequena criatura com grande encanto.
— Eu cuido — ele falou.
— Você é meu pai — conclamou Wood Steel quando já tinha idade para fazê-lo.
…
A luz cegava-o, umedecendo os olhos. Desviou o rosto para baixo. Não se recordava de azulejos assim: bem trabalhados, vermelhos, amarelos e cravados ao solo com firmeza, não se moviam ao receber seu peso; fixos e sólidos, presos no chão.
Cobrindo-lhe os pés, um calçado sem igual. O motivo pelo qual o calçava? Insondável. A única coisa sentida era um conforto perfeito. Composto por inúmeras costuras precisas sobre as várias camadas de fibras, toda essa estrutura remeteu-o à consciência da plena ignorância.
— Calçados de cidade grande. Capitais organizadas onde os pequenos orifícios, tal qual o do artefato recobrindo os pés, eram as ruelas que conectavam a vida dos habitantes. Reforçados por pequenas argolas metálicas, como pontos de vigia e guarda que zelavam pela segurança urbana; tudo aquilo era inegavelmente muito bem feito.
— Calçados de cidade grande. Os pés sentiam o aperto das amarras que organizavam o tempo e o espaço. Acima dos pés cobria-lhe as pernas a calça, tingida de um preto azulado, que desbotava em passagens que descreveria como esquisitas. Ornada por bolsos em excesso, como casas onde habitavam os cidadãos. Aparentemente o tecido era de qualidade, folgado e maleável, uma metrópole chamada de lar.
Um livro balançava amparado na mão, com uma das bordas em argolas metálicas espiraladas. Ostentava em sua capa uma imagem feita por um pintor, provavelmente hábil e renomado, que sobre a porosidade do papel moldou uma face semelhante a um rosto real, ou será que era real? Poderia ser algum tipo de obra mágica presa em forma de gravura ou quem sabe tivesse mesmo uma pessoa de verdade aprisionada ali… Um grito cortou o devaneio! Espera. Onde?
Um peso viscoso. De um instante sentiu o corpo em chumbo; o ar pegajoso e denso foi invadido pelo ímpeto de uma coisa que descia do topo de uma colina. Uma criatura enorme, desengonçada e que refletia uma luz resplandecente sobre a carcaça. Ela avançava em sua direção, aproximando-se rapidamente. Não consigo me mover. A fronteira escura segurava seu corpo. Não consigo… e girou pelo ar indefeso.
Pelos sentidos emaranhados, a dor percorreu intensa por um momento. Os prédios altos tocavam o céu, exóticos, cinzentos, possuíam espelhos superficiais que ofuscavam os olhos ao refletir o sol multiplicado nos vitrais emparedados. Fios estendiam-se acima conectados a postes de concreto. — Qual era a finalidade daquilo? Varas pregadas no topo de estacas rochosas fincadas ao chão.
— Magnífico. Era inevitável não entreter-se com tudo que girava enquanto o corpo arremessado do solo dançava livre no ar; mesmo que sólido fosse o chão trabalhado que revestia a queda.
Ladrilhos cuidadosamente encaixados em cores que quebravam a monotonia do cinza. Era um descampado sem vida. Apenas bípedes lastreavam o local com suas raízes do cotidiano. Vultos indistintos ao redor. E a dor? Assim como o tempo, paralisou. A estagnação percorria as gotículas de sangue que flutuavam, que lhe pertenciam.Nada se movia. O eu esperava. O agora conhecia o destino, um choque contra o pilar negro da existência que não refletia luz alguma. Opaco, de superfície lisa e límpida, impressionante negror de profundidade carvão em brasa.

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