Foi Eiden quem perguntou.

    Não planejou perguntar — a pergunta simplesmente existiu, da forma que algumas perguntas existem depois de você ter ouvido algo que abriu espaço para elas. Mikoto havia partido. O Santuário havia retomado o ritmo. E havia algo no ar do corredor depois que a visitante foi embora que tornava o silêncio sobre o clã mais pesado do que o silêncio sobre outras coisas.

    Eram dois dias depois quando ele encontrou Miyu no pátio, sozinha, sentada na raiz exposta da árvore central com o caderno de anotações fechado no colo — não lendo, não escrevendo. Apenas presente.

    Mu estava no muro. Como sempre.

    Eiden foi e sentou na raiz ao lado, com o espaço que havia aprendido era o espaço certo para Miyu — próximo o suficiente para conversa, distante o suficiente para que ela não precisasse da conversa se não quisesse.

    Ficaram quietos por um momento.

    — Você quer perguntar sobre o clã. — Ela disse, sem olhar para ele.

    — Quero. — Ele disse. — Se você quiser contar.

    Uma pausa.

    — Pergunte.

    — Como começou?

    **I.**

    Miyu ficou olhando para a árvore por um momento — não o olhar do Olho da Distorção, apenas presença. O tipo de olhar que precede algo que vai ser contado de forma específica, escolhendo por onde entrar.

    — Mais de dois mil anos atrás. — Ela disse, por fim. — Antes de os Santuários terem a estrutura que têm agora, quando os primeiros Harmonistas estavam aprendendo o que Yin e Yang significavam na prática e não só na teoria.

    — Havia uma jovem chamada Izanami.

    A forma que ela disse o nome era diferente de quando dizia o próprio sobrenome — mais cuidadosa, com o peso de algo que havia sido dito muitas vezes em contextos importantes e havia acumulado camadas.

    — Ela era aprendiz nos Santuários da Dualidade da época. Dedicada de uma forma que os mestres notavam — não apenas pelo talento, mas pela forma que ela buscava entender o equilíbrio, não só usar as energias. Havia uma diferença entre os dois tipos de aprendiz naquela época. Ainda há.

    — Ela tinha um irmão. Izanagi.

    Eiden ficou quieto, ouvindo.

    — Os dois eram próximos. Treinavam juntos, exploravam os ensinamentos juntos, tinham o tipo de vínculo que se forma entre pessoas que estão aprendendo algo difícil ao mesmo tempo. — Uma pausa. — Durante o treinamento, Izanami manifestou um poder que ninguém na família havia manifestado antes. O Taida na Gensou.

    — As ilusões. — Eiden disse.

    — As ilusões. — Miyu confirmou. — Mas não era só o poder. Era a forma que o poder funcionava — hereditário, passado por marcação. Para adquirir a técnica, o usuário precisa marcar alguém da família. Depois de ser marcado, o usuário morre. O indivíduo marcado tem um filho — e esse filho nasce com o poder.

    Eiden ficou quieto por um segundo.

    — Isso significa que cada manifestação do poder custou uma vida.

    — Cada transferência. — Miyu disse. — O poder em si não exige morte constante. Mas a transmissão sim. — Uma pausa. — O clã passou gerações inteiras aprendendo a carregar isso. A entender que o poder que definemuitos de nós chegou através de perda que não foi nossa.

    **II.**

    — Izanagi descobriu que também tinha um poder hereditário. — Miyu continuou, com o ritmo de alguém que havia contado isso antes mas estava escolhendo a versão certa para este momento específico. — Diferente do da irmã. E quando descobriu — sentiu o que muitas pessoas sentem quando percebem que alguém próximo tem algo que elas não têm e não vão ter da mesma forma.

    — Inveja.

    — Inveja. — Ela confirmou, sem julgamento na palavra — apenas nomeando. — Ele decidiu criar sua própria família. Com poder próprio, linhagem própria, nome próprio. Nasceu aí o Clã Izanagi — e com ele, a rivalidade que existe até hoje.

    — Mas havia mais do que inveja. — Ela disse, depois de uma pausa. — Os dois tiveram um filho juntos. E Izanagi tentou tomar a criança.

    Eiden olhou para ela.

    — Irmão e irmã?

    — É uma história de dois mil anos. Os detalhes do que eram um para o outro variam dependendo de qual versão o clã conta. — Miyu disse, com a precisão de alguém que havia aprendido a distinguir entre fato histórico e narrativa familiar. — O que os registros confirmam é que havia vínculo, havia filho, e havia traição.

    — O que aconteceu?

    — Izanagi confrontou a irmã. — Miyu disse. — Batalha que os registros descrevem como épica — que na linguagem do clã significa que não havia solução simples e que ambos chegaram ao limite do que tinham. — Uma pausa. — Izanami venceu. Mas não tomou a família do irmão. Não destruiu o que ele havia construído.

    — Por quê?

    Miyu ficou quieta por um momento.

    — Porque ele pediu desculpas. — Ela disse. — E porque Izanami havia aprendido, no treinamento dos Santuários, que equilíbrio não significa eliminar o oposto. Significa encontrar a forma de coexistir com ele.

    O pátio ficou quieto com o som específico de história terminando — não resolução, mas pausa natural entre capítulos.

    — Izanagi morreu depois. — Miyu disse. — E a rivalidade continuou sem ele. Porque as famílias que ele havia criado continuaram. E famílias carregam histórias mesmo quando as pessoas que as iniciaram já não estão.

    **III.**

    — O Taida na Gensou. — Eiden disse, depois de um momento. — Mikoto tem.

    — Mikoto tem. — Miyu confirmou. — É o poder que define a liderança do clã. Quem herda o Taida na Gensou é reconhecido como líder — independente de ser o mais velho, independente de outros fatores. O poder escolhe, de certa forma.

    — E você não tem.

    — Eu tenho o Kage-Yume. — Ela disse. — Que é exclusivamente meu — não está nos registros do clã antes de mim, não seguiu o padrão de transmissão hereditária do Taida na Gensou. Simplesmente manifestou. — Uma pausa. — O clã não sabe completamente o que fazer com isso.

    — Mas te chama de herdeira técnica.

    — Porque tenho o Kage-Yume em proporção e refinamento que excede qualquer manifestação anterior de poder Yin no clã. — Ela disse, com a objetividade de alguém descrevendo dados, não qualidades pessoais. — Isso tem valor para a família independente do Taida na Gensou. Herdeira técnica significa que heredo o conhecimento, a responsabilidade, a posição — sem necessariamente herdar o poder específico que define a liderança.

    — Isso te incomoda?

    Miyu ficou quieta por um momento.

    — Me incomodou por muito tempo. — Ela disse. — A forma que o clã olhava para mim como peça valiosa mas de encaixe incerto. Talentosa demais para ser ignorada, diferente demais para ser completamente integrada ao que a família havia planejado. — Uma pausa. — Aprendi a trabalhar com isso.

    — Trabalhar com não é o mesmo que resolver.

    Ela o olhou.

    — Não. — Ela disse. — Não é.

    **IV.**

    — A tradição da marcação. — Eiden disse, depois de um silêncio. — Alguém te marcou?

    — Não. — Miyu disse. — O Taida na Gensou passa pela linhagem de Mikoto, não pela minha. Minha linha manifesta o Kage-Yume — ainda não entendemos completamente por quê ou como funciona a transmissão. — Uma pausa. — Pode ser que eu tenha um filho com Kage-Yume. Pode ser que o poder não apareça na geração seguinte e apareça depois. Pode ser que seja manifestação única.

    — Isso te assusta?

    — Me interessa. — Ela disse. — São coisas diferentes.

    Eiden reconheceu a frase — a mesma que ela havia usado quando Daeron perguntou se a interferência dele no Kage-Yume a incomodava. *Me interessa. São coisas diferentes.*

    — Você usa isso como escudo. — Ele disse.

    Miyu ficou quieta.

    Não era acusação — era observação com o cuidado de alguém que havia aprendido que a diferença entre os dois importava para ela. Eiden viu isso na forma que ela recebeu a frase — não fechando, processando.

    — Às vezes. — Ela disse, por fim. — Quando o que me interessa também me assusta e é mais útil focar no primeiro. — Uma pausa que tinha qualidade diferente das pausas analíticas dela. — O Kage-Yume não tem precedente no clã. Eu não tenho mapa. Mikoto tem dois mil anos de história e tradição do Taida na Gensou para guiar como usa o poder dela. Eu tenho o que consigo descobrir no campo e o que o Santuário consegue me ensinar sobre Yin em geral.

    — E o que eu represento — ela continuou, mais devagar — é o mesmo problema que você representa. Poder sem precedente catalogado. Sem mapa. Aprendendo em tempo real o que significa existir com algo que não tem instruções.

    Eiden olhou para ela.

    — Por isso você entende.

    — Por isso eu entendo. — Ela confirmou. — Não da mesma forma. Mas o suficiente para que a interferência que você causa no meu poder seja menos ameaça e mais — reconhecimento de algo familiar.

    O pátio ficou quieto.

    Mu havia mudado de posição no muro sem que nenhum dos dois tivesse notado o movimento.

    **V.**

    — O Clã Izanagi. — Eiden disse. — Ainda existe.

    — Ainda existe. — Miyu disse. — Uma das Cinco Famílias Principais. A rivalidade com o Izanami nunca terminou completamente — ficou mais civilizada com o tempo, mais protocolar. Mas está lá. — Uma pausa. — Há membros do Izanagi que olham para o Kage-Yume como anomalia que o clã Izanami não merece ter. E há membros do Izanami que olham para o poder Izanagi como lembrança de traição que não foi completamente resolvida.

    — E você?

    — Eu olho para a rivalidade como história que dois mil anos não foram suficientes para terminar. — Ela disse. — O que normalmente significa que a história tem nó que ninguém resolveu ainda. — Uma pausa. — Nós que duram dois mil anos normalmente têm razão de durar. Algo que as pessoas envolvidas não quiseram ver ou não conseguiram nomear.

    — Você sabe qual é o nó?

    Miyu ficou quieta por um momento.

    — Tenho hipótese. — Ela disse. — Ainda não tenho informação suficiente para compartilhar de forma útil.

    Era a frase de Daeron. Devolvida na voz dela, no contexto dela. Eiden reconheceu isso e não comentou.

    — Quando tiver?

    — Quando tiver. — Ela confirmou.

    **VI.**

    O sol estava mais baixo quando a conversa havia chegado ao ponto de parada natural — não esgotada, apenas no lugar onde continuar seria adicionar quando o que havia sido dito já tinha peso suficiente.

    Eiden ficou olhando para a árvore à frente.

    Havia algo que havia estado tentando entender desde que Mikoto havia partido — não sobre o clã, sobre Miyu. A forma que ela havia confrontado a líder pela primeira vez, a forma que havia admitido o erro sem construir justificativa ao redor, a forma que havia contado a história do clã agora com a qualidade de alguém que estava entregando algo real, não apenas informação.

    — Miyu. — Ele disse.

    — Hm.

    — Por que você me contou isso?

    Ela ficou quieta por um segundo.

    — Porque você perguntou. — Ela disse.

    — Tem mais.

    Uma pausa mais longa.

    — Porque Mikoto me disse algo que faz mais sentido agora do que quando disse. — Ela olhou para ele. — Que eu estava construindo lealdade fora do clã antes de entender completamente o que significa carregar o nome Izanami. — Uma pausa. — E eu passei dois dias pensando que ela estava errada e cheguei à conclusão de que ela estava parcialmente certa. Que construo lealdade antes de entregar contexto. Que espero que as pessoas entendam quem eu sou sem dar a elas o que precisam para entender.

    — Então está dando.

    — Estou tentando. — Ela disse. — É diferente.

    Eiden ficou quieto por um momento.

    Havia algo na frase — *estou tentando* — que tinha qualidade diferente de tudo que havia ouvido de Miyu até agora. Não a precisão clínica, não o processamento arquivador. Algo mais próximo. Mais custoso.

    O ar ao redor deles tinha a qualidade de tarde que está decidindo se vai para o entardecer ou vai demorar mais um pouco.

    Eiden ficou olhando para as raízes da árvore — as curvas que levantavam a pedra ao redor, a forma que o crescimento havia deixado marca permanente no chão sem pedir permissão para isso.

    Sentiu, sem procurar, a Díade.

    Não a pressão expansiva de Shinjuku. Não o custo físico da arena. Algo mais quieto — a consciência dos dois lados existindo ao mesmo tempo, Yang e Yin no mesmo espaço, com a tensão habitual entre eles que ele havia aprendido a reconhecer como estado padrão.

    Desta vez, por um motivo que ele não conseguia articular, a tensão era diferente.

    Não menor. Diferente — como quando duas forças opostas param de empurrar uma contra a outra e começam, por um segundo, a empurrar na mesma direção.

    Não fez nada com isso. Apenas ficou.

    A folha da árvore acima deles — solta, já pronta para cair — desceu devagar, com a lentidão específica de objeto que está encontrando o caminho certo para o chão. Passou entre os dois. Pousou na raiz exposta com a leveza de algo que havia chegado exatamente onde deveria.

    Nenhuma distorção. Nenhuma onda. Nenhum custo.

    Apenas presença.

    Miyu ficou olhando para a folha.

    Depois olhou para Eiden.

    Ele estava olhando para a árvore — não havia percebido o que havia acontecido, ou havia percebido de uma forma que ainda não tinha nome para nomear.

    Miyu olhou de volta para a folha.

    O Olho da Distorção não estava ativo. Mas havia algo que ela havia sentido — não visto, sentido — no segundo em que a folha havia descido. Uma qualidade diferente no campo ao redor dele. Brevíssima. Menos de dois segundos.

    Equilíbrio dinâmico.

    Ela não disse nada.

    Arquivou.

    **VII.**

    Raiji apareceu no pátio quando o sol estava quase no horizonte, com a expressão de alguém que havia procurado e havia encontrado.

    — Jantar. — Ele anunciou, para os dois. — Ayame fez aquela coisa com o arroz que eu não sei o nome mas que é objetivamente a melhor coisa que existe.

    — Você diz isso sobre tudo que ela faz. — Miyu disse.

    — Porque tudo que ela faz é objetivamente a melhor coisa que existe. — Ele olhou entre os dois com o olhar que Eiden havia aprendido a reconhecer como leitura rápida de situação. — Estava tendo conversa importante?

    — Estava tendo conversa. — Miyu disse.

    — Isso é sim ou não?

    — É resposta completa.

    Raiji considerou isso por um segundo.

    — Certo. — Ele virou para a entrada. — Jantar em dez minutos. Ayame disse que não espera.

    — Ayame sempre espera. — Miyu disse.

    — Eu sei. Mas ela gosta quando a gente chega no horário de qualquer forma.

    Ele foi em direção à entrada com o passo que tinha a qualidade de alguém que havia processado o que havia precisado processar sobre a situação e havia chegado à conclusão de que jantar era a próxima coisa necessária.

    Miyu se levantou.

    Eiden se levantou junto.

    Mu abriu um olho no muro, avaliou a movimentação, e fechou de volta com a decisão clara de que não havia nada que justificasse mais atenção.

    Eiden olhou para a folha ainda pousada na raiz.

    Depois foi junto.

    *Naquela noite, depois do jantar, Miyu ficou mais tempo acordada do que o usual.*

    *Não processando os registros do clã. Não revisando relatórios de missão.*

    *Ficou com o caderno aberto numa página em branco por um longo momento.*

    *Depois escreveu uma linha.*

    *”Campo estável. Dois segundos. Sem custo visível. Sem intenção declarada.”*

    *Ficou olhando para a linha.*

    *Abaixo, escreveu mais uma.*

    *”O campo não obedece à intenção. Obedece à compreensão.”*

    *Era a mesma frase dos fragmentos que Mikoto havia mencionado. Ela não havia dito de onde vinha — mas Miyu havia reconhecido o tipo de frase que só existe em registros muito antigos, com a qualidade de observação feita por alguém que havia visto algo e havia escolhido precisão sobre elaboração.*

    *Ela fechou o caderno.*

    *Apagou a luz.*

    *No pátio lá fora, a folha ainda estava na raiz onde havia pousado.*

    *O vento não a havia movido.*

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