O alarme soou às 2h17.

    Não o alarme de perímetro — o de nível dois. Invasão confirmada, presença ativa dentro do Santuário, não apenas sinal de campo externo.

    Eiden estava acordado antes do segundo pulso. Não porque havia antecipado — havia algo na qualidade do som que o corpo reconheceu como diferente antes que a cabeça processasse o que era diferente.

    No corredor, passos. Raiji primeiro — sempre primeiro quando havia movimento, com o instinto de alguém que havia aprendido que chegar antes salva tempo que pode não existir depois. Depois Ayame, com a chama interna já presente através da roupa, azul e quieta. Miyu apareceu da direção oposta com o caderno deixado para trás pela primeira vez que Eiden podia lembrar.

    Os quatro se encontraram no corredor central em menos de quarenta segundos.

    Um instrutor passou correndo com o protocolo de emergência no rosto. — Mestre Tsuki foi para o ala leste. Invasão secundária no arquivo — ele foi conter.

    Raiji olhou para os outros três.

    — Divisão deliberada. — Miyu disse, antes que alguém perguntasse. — O ala leste e o pátio central são distantes o suficiente para que Daeron não consiga cobrir os dois.

    — Eles sabem como ele se move. — Ayame disse.

    — Ou sabem que ele vai sempre para onde a ameaça parece maior. — Eiden disse. — O arquivo tem registros que o Santuário não pode perder. Daeron foi porque tinha que ir.

    — O que deixa o pátio para nós. — Raiji disse.

    Não era pergunta.

    Foram.

    I.

    A névoa estava no pátio antes de eles chegarem.

    Não a névoa natural de madrugada — mais densa, com a cor errada. Violeta escura que absorvia a luz dos postes do Santuário em vez de refletir, que se movia com a lentidão deliberada de algo que não tinha pressa porque sabia que o tempo estava do seu lado. Cobria o pátio inteiro até a altura do joelho e estava subindo enquanto os quatro pararam na entrada.

    A árvore central havia desaparecido dentro da névoa.

    A rachadura no chão — onde tudo havia começado — pulsava com luz violeta a cada três segundos, rítmica como respiração.

    No centro do pátio, onde a névoa era mais densa, havia algo.

    Murasaki não tinha presença imediata da forma que espíritos poderosos costumavam ter — não o impacto visual de algo que chegava querendo ser visto. Era o oposto. A silhueta vagamente humana flutuava no centro da névoa como figura vista através de vidro grosso, quase discreta, quase paciente. Os olhos brancos sem pupila encontraram os quatro com a calma de algo que havia chegado sabendo exatamente o que ia acontecer a seguir.

    — Tipo-1. — Miyu disse, ativando o Olho da Distorção. A pupila vertical apareceu no olho direito dela e ela ficou quieta por dois segundos lendo o campo. — Campo de névoa ativo em nível médio-alto. Núcleo no centro da silhueta — energia concentrada, vulnerável a ataque direto. A névoa é o problema. Dissolve coesão energética progressivamente. Quanto mais tempo dentro, menos força os ataques chegam.

    — Quanto menos. — Raiji disse.

    — Dentro da névoa densa como está agora, ataque concentrado chega com menos da metade da força. — Ela disse. — Se a névoa continuar subindo, em dez minutos está no nível do peito. Nesse ponto a dissolução vai ser suficiente para desfazer técnicas antes de se formarem completamente.

    — Então temos dez minutos para terminar isso. — Raiji disse.

    — Temos menos. — Miyu disse. — O Olho está lendo intenção motora. Murasaki ainda não agiu porque está avaliando. Quando terminar de avaliar, vai usar o pulso de área para limpar o campo antes de mudar de fase.

    — Pulso de área. — Ayame disse.

    — Comprime toda a névoa de volta ao núcleo e libera em impacto único. Raio amplo, suficiente para cobrir o pátio inteiro. — Uma pausa. — Mas depois do pulso o núcleo fica vulnerável. Janela de trinta segundos sem o campo protetor. É onde atacamos.

    — Trinta segundos com o núcleo exposto. — Raiji disse. Estava calibrando distância, ângulo, o ritmo que havia aprendido na arena. — Dá.

    Eiden ficou olhando para Murasaki.

    Havia algo na qualidade da névoa que a Díade reconhecia — não como aliada, como oposta. A dissolução que Miyu havia descrito era real e presente, e havia algo nela que era o inverso exato do que havia sentido no pátio com a folha, na arena com o alvo. Onde ele havia conseguido coesão, a névoa desfiava. Onde ele havia conseguido equilíbrio, ela dissolvia.

    Murasaki sabia disso.

    Os olhos brancos estavam nele especificamente.

    — Ela veio por mim. — Ele disse, em voz baixa.

    — Sim. — Miyu disse. — Mas não pode chegar até você enquanto nós três estivermos no caminho.

    A névoa avançou.

    II.

    Raiji foi primeiro — sempre primeiro, com o Senko Giri pelo flanco direito tentando chegar ao núcleo pelo ângulo menos coberto.

    A névoa interceptou o corte a dois metros do núcleo.

    Não bloqueou — dissolveu. O fio de energia elétrica do Senko Giri chegou ao núcleo com menos de quarenta por cento da força original. Murasaki recuou meio passo. Apenas meio.

    — Flanco direito tem névoa mais densa. — Miyu disse. — Esquerda está mais aberta.

    — Aberta demais. — Raiji disse, voltando. — Ela quer que eu vá pela esquerda.

    Miyu olhou de novo com o Olho da Distorção.

    — Correto. Névoa preparada no ângulo esquerdo. Se você entrar com velocidade total a dissolução para o Senko completamente. — Uma pausa. — Ela mapeou seu padrão de ataque nos primeiros dez segundos.

    — Quanto tempo temos antes do pulso. — Ayame disse, posicionando os Fios de Fogo Azul em arco ao redor do perímetro da silhueta.

    — Não sei. — Miyu disse. — O Olho não consegue ler intenção em espíritos com a mesma precisão que em humanos. Só consigo ver o campo e o estado energético.

    Os Fios de Ayame chegaram — não em linha direta, em arco envolvendo o perímetro. A névoa os interceptou a três metros. Chegaram enfraquecidos mas chegaram, fazendo Murasaki recuar mais dois passos.

    — Está cedendo. — Ayame disse.

    — Está medindo. — Miyu disse. — Cada ataque que recebe está calibrando a força necessária para o pulso.

    — Ela está usando os ataques de vocês para calcular o próprio ataque. — Eiden disse.

    Silêncio por meio segundo.

    — Sim. — Miyu disse.

    — Então parar de atacar.

    — Se pararmos de atacar a névoa continua subindo. — Raiji disse. — Em dez minutos não temos técnica que funciona dentro dela.

    Eiden ficou olhando para Murasaki.

    Miyu estava certa — os olhos brancos estavam nele. Cada vez que Raiji atacava, cada vez que Ayame posicionava os fios, Murasaki recuava levemente mas os olhos não se moviam. Ficavam em Eiden.

    — Ela está esperando que eu faça algo. — Ele disse.

    — Ou esperando que você não faça. — Miyu disse.

    Murasaki comprimiu a névoa.

    III.

    A compressão foi visível — toda a névoa espalhada pelo pátio se recolhendo para o núcleo como maré acelerada. O violeta ficou mais escuro, mais concentrado, a silhueta se tornando mais densa do que havia estado em qualquer momento anterior.

    — Pulso. — Miyu disse. — Agora. Saiam do raio —

    A Barreira Incandescente de Ayame foi para cima antes que ela terminasse a frase.

    O pulso saiu com o som errado — não explosão, o oposto. Pressão equalizando de forma que o silêncio doía. A barreira segurou a maior parte — as bordas cederam, o chão ao redor rachou em três pontos, Raiji foi arremessado quatro metros para trás e aterrisou de joelhos. Eiden e Miyu ficaram atrás da barreira mas o chão embaixo deles tremeu com força suficiente para fazer os dois recuar um passo.

    Ayame ficou de pé com a chama indo para rosa — custo real, não desequilíbrio.

    A névoa recuou.

    O núcleo estava exposto.

    — Trinta segundos. — Raiji disse, já em movimento.

    Senko Giri direto, sem névoa densa na frente, com força total.

    O corte atingiu o perímetro do núcleo.

    Murasaki recuou dois metros — mais do que qualquer ataque anterior havia conseguido. A silhueta perdeu definição nas bordas. Os olhos brancos piscaram.

    — Nidome Senko — agora — Raiji disse para si mesmo, usando o recuo do primeiro golpe como propulsão para o segundo pelo ângulo oposto.

    O segundo golpe atingiu o núcleo diretamente.

    Murasaki parou.

    Por dois segundos, ficou completamente imóvel.

    Depois a névoa começou a se reconstituir.

    Raiji ficou parado olhando para isso.

    — O que — ele disse.

    — Os trinta segundos acabaram. — Miyu disse, com a voz que ela usava quando estava processando informação que não queria processar. — Em vinte e dois segundos.

    — Você disse trinta.

    — Eu disse que o Olho não consegue ler intenção em espíritos com a mesma precisão. — Ela disse. — A janela não é trinta segundos. — Uma pausa. — A janela é vinte e dois. E ela sabe que eu calculei errado.

    A névoa voltou mais densa do que antes.

    IV.

    O segundo pulso veio sem aviso.

    Não houve compressão visível desta vez — Murasaki havia aprendido que a compressão dava tempo de preparação. O pulso saiu de dentro da névoa já espalhada, de ângulo diferente do primeiro, e a Barreira Incandescente de Ayame estava posicionada para o ângulo errado.

    A barreira quebrou.

    Ayame absorveu parte do impacto diretamente — foi arremessada para trás, atingiu o muro do pátio, ficou de joelhos com a chama oscilando entre azul e branco, o que Eiden havia aprendido era o sinal de que ela estava perto do limite.

    Raiji foi atingido pela onda secundária — ficou de pé mas estava respirando de forma errada, com a postura de alguém que havia recebido impacto nos pulmões e estava forçando o ritmo de volta.

    Miyu havia previsto o ângulo errado e não havia saído completamente do raio. Ficou de pé, mas havia algo diferente na forma que ela ficou de pé — com a mão no lado direito da cabeça, o Olho da Distorção ainda ativo mas com a pupila vertical tremendo levemente.

    Eiden havia sido o único a sair completamente do raio — porque Murasaki havia direcionado o pulso para longe dele.

    O que confirmava o que havia pensado antes.

    Ela não queria que ele se machucasse.

    Queria que os outros três ficassem sem capacidade de protegê-lo.

    — Miyu. — Ele disse.

    — Estou bem. — Ela disse, com o tom que ele havia aprendido a reconhecer como ela gerenciando o que estava sentindo para que não afetasse o que precisava fazer. — O Olho está com interferência. A névoa dissolve a camada de percepção que ele usa como base. — Uma pausa. — Preciso fechar por um tempo ou o custo vai ser sério.

    — Feche.

    — Se eu fechar perdemos o sensor principal.

    — Feche. — Ele repetiu. — Encontramos outro jeito.

    Ela ficou olhando para ele por um segundo.

    Depois fechou o Olho da Distorção.

    A pupila vertical desapareceu.

    Ela fez uma expressão rápida — não dor exatamente, o tipo que vem de quando algo que estava sendo forçado além do limite finalmente para e o corpo cobra o custo de uma vez.

    Raiji estava de pé de novo, com o Kaminari Goku começando a se formar ao redor do corpo — o campo elétrico que aumentava velocidade e força, a forma que ele usava quando precisava de resultado imediato independente do custo posterior.

    — Raiji. — Eiden disse.

    — Não me diz para não usar.

    — Você vai precisar de quarenta segundos de janela. — Eiden disse. — E vai sair com tremores nas mãos que duram horas. Se a janela real é vinte e dois segundos e ela pode fazer mais de um pulso —

    — Eu sei o risco. — Raiji disse. — Mas se não usarmos o Kaminari Goku agora a névoa vai subir mais cinco centímetros por minuto e em oito minutos não temos técnica que funciona dentro dela. — Uma pausa. — Então me diz o que você tem.

    Eiden olhou para o pátio.

    A névoa estava na altura do peito agora — subindo.

    Ayame estava se levantando com a chama estabilizando de volta para azul, mas mais lenta do que usual. O Toque Estelar estava ativo na própria mão — cura leve aplicada a si mesma, o que significava que havia tomado dano suficiente para precisar.

    Miyu estava de pé com a postura vertical que ela mantinha sempre, mas com a mão ainda no lado direito da cabeça.

    Murasaki estava no centro do pátio com a paciência de algo que sabia que o tempo era aliado.

    Eiden sentiu a Díade.

    Os dois lados. A tensão. E embaixo da tensão — a qualidade que havia aparecido com a folha, com o alvo na arena, que havia durado sete segundos quando ele havia segurado o núcleo para Raiji.

    Sete segundos contra um alvo que não estava ativamente tentando dissolver o que ele estava fazendo.

    Murasaki era diferente. A névoa era diferente. O campo de dissolução era o oposto direto do que a Díade precisava para funcionar.

    Mas havia algo — havia algo que havia percebido quando os dois lados se encontravam que a névoa não conseguia alcançar completamente. Não a técnica. O reconhecimento embaixo da técnica. A qualidade de Yang e Yin no mesmo espaço sem se destruírem que não era poder — era natureza.

    Natureza não era técnica.

    Técnica dissolvia.

    — Preciso me aproximar do núcleo. — Ele disse.

    Silêncio.

    — Ela vai deixar você se aproximar. — Raiji disse, com o tom de alguém que havia chegado à mesma conclusão que Eiden estava chegando e não gostava dela. — É o que ela quer.

    — Eu sei.

    — Então você sabe que é armadilha.

    — Sei que parece armadilha. — Eiden disse. — Mas ela está desviando os pulsos de mim. Não quer me destruir — quer me isolar. O que significa que se eu chegar perto o suficiente do núcleo, ela vai ter que escolher entre me atingir ou me deixar agir.

    — E se ela escolher te atingir. — Ayame disse.

    — Então vocês três têm a janela enquanto ela está ocupada comigo.

    O pátio ficou quieto com o tipo de silêncio que precede decisões que não têm opção boa.

    — Não gosto disso. — Raiji disse.

    — Eu sei.

    — Mas é o que temos.

    — É o que temos.

    Raiji ativou o Kaminari Goku.

    O campo elétrico se formou ao redor do corpo dele — velocidade aumentando, a energia que havia aprendido a reconhecer como o ponto de não retorno do Kaminari. Quarenta segundos máximos. Tremores nas mãos por horas depois. Ele havia calculado tudo isso e havia ativado mesmo assim.

    — Ayame. — Ele disse.

    — Estou. — Ela disse.

    — Miyu.

    — Estou. — Ela disse, com a mão descendo do lado da cabeça. — Olho fechado mas posso ler o campo visualmente. Diga quando precisar de cobertura de direção.

    — Eiden. — Raiji disse.

    — Hm.

    — Não morra.

    — Estou tentando não. — Eiden disse.

    — Tente mais.

    Eiden foi para o centro do pátio.

    V.

    A névoa estava na altura do peito quando ele entrou nela.

    A dissolução foi imediata — não dolorosa, mas presente, como quando pressão atmosférica muda e o corpo precisa de um segundo para ajustar. A Díade respondeu à dissolução da forma que havia aprendido a responder a resistência — não com força, com reconhecimento. O campo de dissolução e o campo da Díade se encontraram de forma que nenhum dos dois havia encontrado antes.

    Murasaki se moveu.

    Não para atacar — para posição. Se reposicionou de forma que o núcleo estava agora a dois metros à frente de Eiden, com névoa densa entre os dois mas menos do que havia esperado. Como se a névoa ao redor do núcleo especificamente estivesse menos disposta a dissolver o que ele carregava do que o resto do campo.

    Os olhos brancos sem pupila estavam nele com a qualidade que havia notado desde o início — não ameaça. Algo mais complicado. Como reconhecimento que não sabia o que fazer consigo mesmo.

    — Ela está deixando você se aproximar. — Miyu disse, de longe — a voz chegando abafada através da névoa mas chegando. — O núcleo está exposto do seu ângulo. Mas —

    O terceiro pulso veio de dentro da névoa sem compressão prévia.

    Desta vez direto para Eiden.

    A Díade reagiu antes que ele decidisse reagir — Yang e Yin encontrando a onda de impacto com a qualidade de coesão oposta à dissolução, e por um segundo os dois campos se encontraram de forma que o pátio inteiro ficou imóvel, como quando dois sons de frequências opostas se cancelam e o resultado é silêncio mais pesado do que qualquer dos dois sons.

    Eiden ficou de joelhos.

    Não havia sido atingido — havia absorvido. A diferença era que absorver custava de uma forma que ser atingido não custava da mesma forma. Como segurar uma onda com os braços em vez de deixar ela passar — a força era a mesma, mas o corpo pagava preço diferente.

    Ele estava de joelhos com as mãos no chão e os dois lados da Díade em conflito interno que havia aprendido a reconhecer como o prelúdio de perder o controle.

    Não agora.

    — Eiden. — A voz de Raiji, de longe, com a urgência específica de alguém que havia visto e estava calculando se havia tempo. — Você tem janela. O núcleo está exposto do seu ângulo. Dez segundos no máximo.

    Eiden levantou os olhos.

    O núcleo estava a metro e meio à frente.

    Com a névoa ao redor mais fina do que havia estado em qualquer momento da luta — como se o impacto do pulso absorvido tivesse perturbado o campo de dissolução ao redor do núcleo especificamente.

    Ele sentiu a Díade.

    Os dois lados em conflito. Yang querendo expandir, Yin querendo destruir o que Yang estava construindo. A tensão que havia aprendido a reconhecer como estado constante — e embaixo da tensão, a qualidade mais quieta. O reconhecimento que não era técnica.

    Desta vez não deixou os dois lados existirem em paralelo.

    Os deixou convergir.

    Não para o mesmo ponto — para a mesma direção. Yang e Yin não cancelando um ao outro mas apontando juntos para o núcleo à frente com a qualidade de duas forças que haviam parado de empurrar uma contra a outra e estavam empurrando na mesma direção pela primeira vez.

    O campo ao redor do núcleo ficou imóvel.

    Murasaki sentiu — os olhos brancos se abriram completamente, com algo que não havia estado neles antes. Não reconhecimento desta vez. Algo mais próximo de alarme.

    — Agora. — Eiden disse.

    Raiji chegou com o Kaminari Goku em velocidade máxima pelo ângulo que o campo imóvel havia aberto — o núcleo estabilizado no lugar, sem a névoa se movendo para interceptar, sem Murasaki conseguindo recuar porque o campo da Díade estava mantendo tudo ao redor do núcleo em posição.

    O Senko Giri atingiu o núcleo com força total.

    E imediatamente o Nidome Senko — o segundo flash pelo ângulo oposto, usando o recuo do primeiro como propulsão, chegando ao núcleo antes que qualquer defesa pudesse se reconstituir.

    Ayame foi com os Fios de Fogo Azul em linha direta — não em arco desta vez, direto, com toda a Chama Lunar que havia sobrado depois dos dois pulsos absorvidos.

    Os fios envolveram o núcleo.

    Murasaki ficou imóvel.

    A névoa começou a se dissipar das bordas para dentro — lenta no início, depois mais rápida, como quando estrutura que estava sendo mantida por força ativa perde a fonte e começa a ceder pela física.

    Os olhos brancos sem pupila ficaram mais pálidos.

    Mais pálidos.

    Brancos totais.

    E então não havia mais olhos. Não havia mais silhueta. Não havia mais névoa.

    O pátio ficou quieto com o silêncio específico de quando algo que havia estado presente deixa de estar — o tipo de ausência que tem mais peso do que a presença tinha.

    VI.

    Eiden estava de joelhos no centro do pátio com as mãos no chão e os dois lados da Díade em estado que ele não havia estado antes — não conflito, não equilíbrio, algo entre os dois que não tinha nome ainda. Como quando você segura algo por tempo longo demais e os músculos ficam com a forma do objeto depois de ele ter ido.

    Raiji caiu antes de chegar até ele.

    Não de inconsciência — as pernas simplesmente pararam de funcionar da forma que as pernas param de funcionar depois do Kaminari Goku. Ficou no chão com as mãos visíveis tremendo, o campo elétrico completamente dissipado, a expressão de alguém que havia calculado o custo antes de agir e estava vivendo o custo com a consciência de que havia valido a pena.

    Ayame chegou primeiro — aos dois, primeiro a Raiji porque ele havia caído, depois a Eiden porque estava de joelhos. O Toque Estelar foi para as mãos de Raiji primeiro — cura leve, não suficiente para desfazer o custo do Kaminari Goku mas suficiente para estabilizar o tremor. Depois para o peito de Eiden — onde a absorção do pulso havia deixado pressão residual que ele não havia percebido até que o Toque Estelar tocou e a pressão diminuiu.

    A chama de Ayame estava quase completamente branca.

    Ela estava no limite.

    Havia usado o Toque Estelar nos outros dois com a chama quase no limite e não havia usado em si mesma.

    — Ayame. — Miyu disse, de longe.

    — Estou. — Ayame disse.

    — Você não está.

    — Estou o suficiente.

    Miyu chegou até eles devagar — com o passo medido de sempre mas com algo diferente na forma que segurava a cabeça. Levemente inclinada, como quando algo está doendo de uma forma que não é aguda mas é constante e você está tentando não deixar aparecer.

    — Miyu. — Eiden disse.

    — O Olho está com dano. — Ela disse, antes que ele perguntasse. Com a honestidade direta que ela usava quando a informação era relevante e suavizar seria desperdiçar tempo. — Não sei a extensão ainda. Só sei que quando tentei reativar dentro da névoa densa o custo foi além do que o Olho deveria custar. — Uma pausa. — Vou precisar de avaliação médica.

    — Quanto está doendo. — Raiji disse, do chão.

    — O suficiente para mencionar. — Ela disse. — O que para mim é bastante.

    Raiji fechou os olhos por um segundo.

    Quando abriu, havia algo no rosto dele que Eiden havia visto poucas vezes — não raiva, não impulsividade. A qualidade específica de quem havia chegado perto demais de perder algo que importava e estava processando isso com o peso que merecia.

    — Você vai ficar bem. — Ele disse. Para Miyu. Não era pergunta — era a frase de alguém que precisava que fosse verdade.

    — Provavelmente. — Ela disse.

    — Provavelmente não é sim.

    — Não. Mas é mais do que não.

    Ayame sentou no chão ao lado de Raiji com a quietude de alguém que havia chegado ao fim do que conseguia dar de pé e estava aceitando isso. A chama foi para azul muito devagar — minutos, não segundos.

    Os quatro ficaram no chão do pátio no silêncio que havia sobrado.

    VII.

    Daeron chegou quando o pátio já estava quieto.

    Veio do ala leste com o passo que carregava o cansaço de contenção prolongada — não de batalha física, o tipo que vem de segurar algo com precisão por tempo longo. As marcas no casaco que ele não havia trocado desde a missão de Shinjuku tinham a companhia de marcas novas que Eiden notou e não comentou.

    Parou na entrada do pátio.

    Olhou para o chão — a rachadura original que havia crescido. Para a névoa dissipada que havia deixado resíduo violeta nas pedras em padrão que seria visível por dias. Para os quatro no chão.

    Para Miyu com a mão no lado direito da cabeça.

    Para Raiji com as mãos tremendo.

    Para Ayame com a chama quase apagada.

    Para Eiden de joelhos no centro do pátio onde o núcleo havia estado.

    Ficou quieto por um momento muito longo.

    — Tipo-1. — Ele disse, por fim.

    — Murasaki. — Miyu disse, com a voz que ela usava quando estava funcionando em capacidade reduzida e havia decidido que capacidade reduzida ainda era suficiente para relatório. — Campo de dissolução progressiva. Pulso de área múltiplo — a janela de recarga não era trinta segundos, era vinte e dois. Três pulsos no total. Eliminado com cooperação de âncora energética e ataque combinado.

    — Âncora energética. — Daeron disse. Olhou para Eiden.

    — Yang e Yin convergindo para a mesma direção. — Eiden disse. — Não sei quanto durou. Suficiente.

    Daeron ficou olhando para ele por um momento.

    — Miyu. — Ele disse.

    — O Olho tem dano. — Ela disse. — Preciso de avaliação.

    — Agora. — Ele disse, sem hesitação, com o tom que não era instrução mas prioridade absoluta. Virou para os outros. — Raiji — tremores do Kaminari Goku?

    — Vão passar. — Raiji disse.

    — Quanto tempo você ficou na forma.

    — Quarenta e três segundos.

    Daeron fechou os olhos por um segundo.

    — Quarenta e três. — Ele repetiu.

    — Era o que havia.

    — Eu sei. — Uma pausa. — Ayame.

    — Estou bem. — Ela disse.

    — Você usou o Toque Estelar nos outros dois com a chama perto do branco.

    — Sim.

    — Por que não em você primeiro.

    Ayame ficou quieta por um momento.

    — Porque eles precisavam mais. — Ela disse, com a simplicidade de quem havia feito cálculo e havia chegado a conclusão e não encontrava nada de extraordinário nisso.

    Daeron ficou olhando para ela com a expressão de alguém que havia recebido resposta que não tinha contra-argumento mas que carregava peso suficiente para ficar em silêncio antes de seguir.

    — Eiden. — Ele disse.

    — Absorvi um pulso direto. — Eiden disse. — Ayame tratou. Estou com a Díade em estado que não reconheço completamente mas está estabilizando.

    — Dói.

    Não era pergunta.

    — Sim.

    — Vai passar. — Daeron disse. — O que você fez com o campo — convergir os dois lados — deixa resíduo que o corpo precisa de tempo para processar. Não é dano permanente. É custo de algo que ainda não tem forma estabelecida. — Uma pausa. — Vai doer menos cada vez que fizer.

    — Porque o corpo aprende.

    — Porque você aprende. O corpo segue.

    VIII.

    Miyu foi levada para a ala médica com Daeron.

    Os outros três ficaram no pátio.

    Raiji estava de costas no chão com as mãos sobre o peito — tremendo menos do que antes, mas ainda tremendo. Ayame estava sentada ao lado com a chama voltando para azul muito devagar, minutos entre cada mudança de intensidade. Eiden estava de joelhos no lugar onde havia convergido os dois lados da Díade, com a qualidade de alguém que havia feito algo que não havia feito antes e estava entendendo o peso do depois.

    O pátio tinha a qualidade de espaço que havia visto muita coisa e estava deixando o peso disso assentar.

    — Raiji. — Eiden disse.

    — Hm.

    — Quarenta e três segundos.

    — Era o que havia. — Raiji disse, para o céu. — Eu calculei. O custo era certo dado o que estava em jogo.

    — Eu sei. — Eiden disse. — Obrigado.

    Raiji ficou quieto por um momento.

    — Você segurou o núcleo no lugar. — Ele disse. — Sem isso o Senko dispersava. — Uma pausa. — Obrigado você.

    Ayame não disse nada. Mas a mão foi para o ombro de Eiden com o peso específico dela — leve, por um segundo apenas, com o tipo de presença que não precisava de mais do que isso.

    — Miyu vai ficar bem. — Eiden disse. Para os dois. Mas principalmente para Raiji.

    Raiji ficou olhando para o céu.

    — Ela disse provavelmente. — Ele disse.

    — Ela disse mais do que não.

    — Não é o mesmo que sim.

    — Não. — Eiden concordou. — Mas é Miyu dizendo que vai ficar bem com a honestidade dela. O que é mais do que a maioria das pessoas dizendo sim.

    Raiji ficou quieto por um longo momento.

    — Certo. — Ele disse, por fim.

    Depois fechou os olhos.

    Ayame olhou para o céu junto com ele.

    Eiden ficou olhando para a rachadura no centro do pátio — que havia crescido mais uma vez. Visível no escuro de madrugada pela pulsação violeta que havia diminuído mas não havia parado.

    Mensagem enviada. Mensagem recebida.

    Algo que estava esperando resposta e estava sendo paciente porque tinha tempo.

    Por enquanto.

    IX.

    Daeron voltou duas horas depois.

    Encontrou Raiji dormindo no chão do pátio — os tremores haviam diminuído o suficiente para que o corpo decidisse que descanso era mais urgente do que ir para a cama. Ayame estava acordada ao lado dele com o caderno aberto no colo, escrevendo com a chama de volta ao azul quieto. Eiden estava de pé perto da árvore central, com a mão na casca da árvore e a Díade em estado mais quieto do que havia estado durante toda a luta.

    — Miyu. — Eiden disse, antes que Daeron abrisse a boca.

    — Dano real no Olho da Distorção. — Daeron disse. — A névoa dissolve a camada de percepção que a técnica usa como base e ela forçou o Olho dentro do campo por tempo além do limite seguro. — Uma pausa. — Vai recuperar. Não completamente imediato — semanas, talvez um mês para voltar ao nível completo. Nesse período o Olho vai funcionar mas com alcance e precisão reduzidos.

    Ayame fechou o caderno.

    Raiji não havia acordado mas havia algo na tensão do ombro dele que mudou levemente — como quando alguém dorme mas ainda processa o que está acontecendo ao redor.

    — Ela sabe. — Daeron continuou. — Está descansando. Pediu que eu dissesse que — ele parou por um segundo, com a qualidade de alguém reproduzindo algo com precisão — que provavelmente era o que havia de ser dito e que ela não se arrepende.

    Eiden ficou olhando para a rachadura no pátio.

    — A hipótese. — Ele disse.

    Daeron ficou quieto.

    — Você disse que quando tivesse confirmação suficiente ia compartilhar. — Eiden disse. — Murasaki veio de dentro do Santuário. A rachadura cresceu duas vezes. — Ele virou para Daeron. — Isso é confirmação suficiente?

    Daeron ficou olhando para ele por um momento longo.

    Com a expressão de alguém que havia chegado ao ponto que sabia que estava chegando e havia passado tempo preparando o que ia dizer e estava verificando uma última vez se o que havia preparado era suficiente para o que precisava ser dito.

    — Sim. — Ele disse. — É.

    O pátio ficou quieto com o silêncio específico de antes de algo que vai mudar o peso de tudo que veio antes.

    Ayame acordou Raiji com a mão no ombro — suave mas presente.

    Raiji abriu os olhos, leu a situação em dois segundos, e sentou.

    Daeron ficou no centro do pátio — perto da rachadura, com o relatório dobrado na mão que havia carregado por semanas — e começou a falar.

    Mais tarde, quando o Santuário havia retomado o silêncio de madrugada e os quatro haviam finalmente ido descansar, Mu apareceu no muro do pátio.

    Ficou olhando para a rachadura por um longo momento.

    Para o resíduo violeta nas pedras.

    Para o lugar onde Eiden havia estado de joelhos no centro do campo.

    Depois olhou para a janela do terceiro andar onde Daeron estava de pé, sozinho, com o relatório aberto na mão pela última vez antes de dobrá-lo definitivamente.

    Os dois ficaram olhando um para o outro pela janela por um momento.

    Mu desviou o olhar primeiro.

    Pela segunda vez.

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