Capítulo 115: O Passado dos Brincos
Seu cabelo, tão grande quanto cacheado, entregava-se à brisa do vento. Ele, com sopros sutis, sussurrava sutilmente que estava presente.
O objetivo era impedi-la de pensar que estava sozinha, mas tudo era em vão. Cada passo dado chegava aos ouvidos, mas era a mesma coisa que nada.
A rua era cheia de gente, não importava onde via, no entanto, no estado monótono que se encontrava, ter ou não pessoas por perto não faria diferença.
Seus olhos conseguiam enxergar as pessoas, mas estavam opacos demais, como se, na verdade, ela não estivesse vendo coisa alguma.
As vozes vinham por todos os lados, desde os sussurros das conversas às risadas aleatórias, e nenhuma dessas coisas oferecia calor ao seu coração.
O olhar tinha um único objetivo distante, que não estava tão longe quanto pensava: um portal tão grande quanto sua força que lhe ofereceria um passo do progresso.
E assim caminhou Melinoe, passando por cada um dos NPCs como se ela fosse um fantasma da própria existência sendo guiada pelo passado.
Minutos se passaram. Agora, o que era longe estava a um palmo de distância, mas a hesitação no coração era do tamanho de um abismo.
A cabeça baixava com o pesar dos pensamentos:
“Será que eu… Tô realmente pronta pra saber o que era aquela aflição?”
Quanto mais pensava sobre o que poderia encontrar, maiores se tornavam os cortes que preenchiam seu coração, até que uma respiração profunda lhe entregasse o impulso que precisava.
Melinoe apoiou a testa naquele portal. No começo, ele ondulou inocentemente, e logo depois começou a convidá-la para entrar na porta do passado.
Os primeiros passos vieram logo depois. Não demorou nem um pouco para que ela se encontrasse em um lugar completamente ausente de luz.
Ainda assim, continuou andando, mesmo que pensasse que o próximo passo a faria ser engolida por aquele abismo estranhamente convidativo.
Não muito longe de onde estava, as costas de um homem eram visíveis.
Brincos no formato de cruz moravam nas duas orelhas. A pele era morena, mas se destacava mesmo envolta na mais profunda escuridão.
Uma luz cegante nascia conforme ele olhava para trás… Até que as trevas desistiram de lutar e deram adeus àquele mundo desconhecido.
Os olhos de Melinoe estavam arregalados. Seus lábios entreabertos sussurravam “Kiam” enquanto ela nem percebia o lugar em que estava.
O chão gélido a trouxe de volta para a realidade de pouco a pouco. Quando se deu conta, o abismo foi substituído por um cenário cúbico e prateado.
Por pouco tempo, ficou observando os detalhes dos arredores, até que uma porta chamasse sua atenção.
A distância era de poucos metros, mas, por algum motivo, ela tinha uma certeza muito grande de que o que procurava estava atrás daquela porta.
Por um instante, confortou-se no nada. Logo depois, seu mais longo suspiro nasceu para que os passos pudessem crescer sem medo.
Quando se deu conta, a mão já estava na maçaneta, só faltava usar menos de um por cento da sua força para que fosse aberta…
… Nesse momento, percebeu o quão insignificante o seu título de mais forte era.
Ela até podia não se dar conta dos minutos que se passavam, mas isso não impediria de fazer o tempo passar até que o cinco virasse dez.
Sem saber como superar aquele tornado de indecisões, balançou a cabeça para afastar os devaneios que a afogavam em um oceano que só ela podia sentir.
E funcionou.
A porta já estava aberta, só faltava entrar. Dessa vez, um único suspiro, junto do pensamento “eu consigo”, bastou para que ela continuasse em frente.
O cenário não parecia nem um pouco diferente do anterior, a única mudança era que, em uma das paredes, havia uma marca muito escura.
Quando olhou para frente, lá estava um ser aparentemente humano, mas encapuzado. Seu rosto, coberto pelo abismo, parecia ter vida própria.
Uma mesa era a única coisa que os separava de ter contato, mas até mesmo ele sabia que aquilo não era, nem de perto, suficiente para isso.
Agora, Melinoe estava a segundos de distância do único ser que podia entregar o que ela tanto desejava: os brincos de alguém que um dia já foi seu.
Dessa vez, não houve hesitação. Caminhou em passos largos em direção àquele ser enquanto a mente tentava organizar o que os lábios se preparavam para dizer:
— Os brincos de Kiam. Vim buscá-los.
Silêncio. Foi tudo o que ela recebeu de volta no primeiro instante após sua pergunta. Antes que pensasse em pedir de novo, a mesa desapareceu.
Em seguida, aquele ser levantou-se da cadeira sem dizer uma única palavra. O único interesse que tinha era de caminhar para a parede ao lado.
Quando a alcançou, moveu a palma até que a encontrasse, e assim foi feito. A região que tocou começou a desaparecer assim que o contato veio.
O que antes era uma parede transformou-se num vazio retangular, como se ali existisse uma porta invisível preparada só para ela.
Após isso, o ser encapuzado deu alguns passos para trás, posicionou uma das mãos na barriga e curvou-se. Esse era o seu jeito de dizer: “Boa sorte”.
Por um momento breve, os olhos de Melinoe abraçaram a confusão. Graças ao seu não saber o que dizer, o silêncio imperou até seus passos nascerem.
Antes de atravessar aquela “porta aberta”, nada se via do outro lado, senão um cenário tão vazio quanto um céu sem nuvens abrigado no sol.
Tudo mudou quando o pé entrou em contato com aquele lugar.
Um vento aconchegante voou em sua direção feito um cão carente. Antes, o que era o nada, rapidamente se transformou em um quarto completo.
Havia uma cama de casal organizada e uma janela cuja única função era engrandecer o sol do outro lado; contudo, nada lhe chamou mais atenção do que uma cadeira e uma mesa…
… Não pela arquitetura, na verdade, a aparência delas era bem comum, mas sim pelo que a mesa carregava: os dois brincos de alguém amado.
Seu olhar vagava sem rumo naquele objeto que tanto queria encontrar, como se sua existência se resumisse apenas àquele momento.
A respiração profunda influenciou o fechar das pálpebras, que logo se ergueu para guiar seus passos em direção à cadeira.
Sentou-se devagar, como se tentasse ignorar a pressa que sentia, mas tudo isso era apenas uma desculpa para dar espaço a mais uma de suas hesitações.
Quando o dedo tocou em um dos brincos, sentiu calor. Não era qualquer calor, era um que ela já teve contato antes há muito tempo atrás.
Os lábios se apertando tentavam deixar as lágrimas se abrigando no coração. Em um único suspiro seco, pegou os brincos e os posicionou perto da orelha.
Eles se encaixaram no mesmo instante, como se aquele lugar fosse seu. Com o passar do tempo, podia sentir a mente ficando mais e mais fria.
Acima da mesa, partículas azuladas se acumulavam até que formassem a tela retangular do sistema de jogo, carregando a seguinte mensagem:
Sistema de Jogo
Você obteve a essência de um deus selado. Gostaria de assistir e sentir na pele todas as aflições e provações que essa divindade enfrentou?
Melinoe não pensou duas vezes antes de dizer “Sim”. No mesmo instante, o sistema implodiu em farelos que foram carregados pelo vento.
A consciência dela se esvaiu rapidamente. Os olhos opacos não mais enxergavam, e a cabeça ficou pesada demais para permanecer erguida.
Logo após, sua testa encontrou-se com a mesa ao mesmo tempo em que o seu ponto de vista abandonava o presente para visitar o passado.
A brisa daquele dia era estranhamente calorosa. As nuvens pareciam mais preenchidas, e o sol nasceu com um sorriso diferente dos outros.
O cenário era a rua. Nela, muitas pessoas iam e voltavam, mas somente um homem tinha um destaque especial aos seus olhos.
Seu cabelo curto foi bem-tratado com dread. Nas orelhas, dois brincos no formato da cruz se balançavam com o movimento feito.
Na dobra perto do cotovelo, um pequeno algodão era recebido com um curativo para que o local não ficasse exposto e, quem sabe, vulnerável.
A pele morena tinha um espaço guardado no coração de Melinoe, mas o que mais importava era o nome que ele carregava: Kiam.
Próximo Capítulo: O Sistema e o Universo

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