14 — Antes que o Mês Comece
Daeron convocou os quatro na manhã seguinte com o envelope ainda na mesa da sala comum — não havia guardado, não havia descartado. Estava lá como objeto que ainda precisava ser completamente processado antes de mudar de lugar.
Os quatro chegaram com a qualidade de pessoas que haviam dormido sobre algo grande e estavam chegando para continuar a conversa que o sono havia interrompido.
Mu estava no parapeito da janela.
Daeron ficou de pé perto da mesa — não sentou, o que os quatro já haviam aprendido a ler como sinal de que o que vinha a seguir precisava da postura de alguém que estava entregando algo completo, não conversando.
— Vou explicar as regras. — Ele disse. — Todas. Porque já estive lá.
O quarto ficou completamente quieto.
— Você participou. — Miyu disse.
— Sim.
— Quando era jovem. — Eiden disse.
— Sim.
Raiji ficou olhando para Daeron com a expressão de alguém recalibrando informação que havia organizado de uma forma e estava reorganizando de outra.
— E. — Raiji disse. Com o tom que era uma palavra e uma pergunta completa ao mesmo tempo.
— Venci. — Daeron disse. Com a simplicidade de quem está descrevendo fato objetivo, sem peso de orgulho ou de modéstia calculada.
O silêncio que se seguiu tinha a qualidade específica de quando informação muda o contexto de tudo que veio antes dela.
— Você sabe o que é o prêmio. — Ayame disse.
— Sei.
— E não vai dizer. — Miyu disse.
— Não ainda. — Daeron disse. — Porque o prêmio é parte do que o evento ensina. Saber antes muda como você chega lá — e não de forma que ajuda. — Uma pausa. — O que posso dizer é que vale o custo. Cada parte do custo.
Eiden ficou olhando para ele.
— Quando você venceu. — Ele disse. — Quantos anos tinha.
— Dezesseis. — Daeron disse. — Idade de vocês.
O quarto ficou quieto de novo.
Mu mudou de posição no parapeito sem que ninguém tivesse notado o movimento.
— As regras. — Daeron disse. — Ouçam tudo antes de perguntar.
I.
— O território de Musubi é floresta — grande, densa, criada por ele e que não existe no mapa normal. Não segue as leis físicas do mundo fora. Dentro dela, as regras são as dele. — Daeron começou, com o ritmo de alguém que havia organizado isso muitas vezes na própria cabeça antes de precisar dizer em voz alta. — Dez grupos entram. Um grupo vence. O critério é pontuação acumulada do início ao fim — não há eliminação por fase, não há momento específico onde grupos saem. O evento termina quando Musubi decide que terminou, e nesse momento o ranking é revelado. O grupo com menos pontos sai primeiro, depois o segundo, até restar o vencedor.
— Como grupos acumulam pontos. — Miyu disse.
— Espíritos eliminados dentro do território. — Daeron disse. — Cada espírito vale pontos conforme a força. Tipo-4 vale pouco. Tipo-1 vale muito. Espíritos mais fortes habitam zonas mais profundas da floresta — quanto mais fundo você vai, mais pontos disponíveis e mais perigo. — Uma pausa. — Mas espíritos não são a única fonte.
— Grupos podem roubar pontos de outros grupos. — Eiden disse.
— Sim. Confronto direto entre grupos é permitido a qualquer momento. O grupo vencedor do confronto transfere porcentagem dos pontos do grupo derrotado. — Daeron disse. — Isso cria dinâmica onde grupos que acumulam pontos rápido viram alvos.
— Ficar com pontos altos cedo é vantagem e desvantagem. — Raiji disse.
— Correto. — Daeron disse. — A estratégia certa depende do grupo. Grupos mais fortes podem se dar ao luxo de acumular e defender. Grupos com menos força precisam de abordagem diferente.
— Alianças. — Ayame disse.
— Permitidas. Grupos podem cooperar, dividir territórios, proteger um ao outro em confronto com terceiros. — Daeron disse. — Mas pontos não são divididos. Cada grupo acumula o próprio. Aliança é estratégia, não fusão.
— Professores. — Miyu disse.
— Podem ser chamados uma vez por grupo. Só podem lutar contra outros professores — não contra jovens participantes. Decisão irreversível. Uma vez que o professor é chamado, não pode ser chamado de novo. — Uma pausa. — Sou o único professor das Cinco Famílias presente. Os outros grupos terão professores de fora da estrutura principal.
— O que significa que chamar você é carta que nenhum outro grupo tem. — Raiji disse.
— Exatamente. — Daeron confirmou. — O que torna a decisão de quando e se usar ainda mais pesada.
— Membros que caem. — Eiden disse.
— Saem do evento permanentemente. O grupo continua reduzido. — Daeron disse. — Perder membro é perder capacidade de acumular pontos e de sobreviver em confronto. Em evento que pode durar semanas, cada membro que cai muda o equilíbrio de forma que não se desfaz.
— Pontuação dos outros grupos. — Miyu disse.
— Cada grupo só sabe a própria. Não há ranking visível durante o evento. — Daeron disse. — Você nunca sabe exatamente onde está em relação aos outros. Só sabe o próprio número.
O quarto ficou quieto por um momento com o peso de sistema completo assentando.
— Havia mais alguma coisa quando você participou. — Ayame disse. Não era pergunta — era leitura de alguém que havia percebido que Daeron havia pausado de uma forma específica antes de terminar.
Daeron ficou olhando para ela por um segundo.
— Sim. — Ele disse. — Uma regra que o convite não menciona porque Musubi considera que não precisa ser dita.
— Mas você vai dizer. — Eiden disse.
— Vou. — Daeron disse. — A floresta responde ao que você é. Não ao que você faz — ao que você é. Musubi criou um espaço que amplifica a natureza de quem está dentro. Forças ficam mais presentes. Fraquezas também. — Uma pausa. — Entrar na floresta de Musubi é entrar num lugar que vai mostrar a vocês o que são com clareza que não existe no mundo normal. Às vezes isso ajuda. Às vezes é a parte mais difícil de qualquer coisa que encontrem lá dentro.
O quarto ficou quieto com o tipo de silêncio que vem depois de informação que não tem resposta imediata.
Mu olhou para Daeron do parapeito.
Daeron não olhou de volta.
II.
— Cada um de vocês vai treinar separado por um mês. — Daeron disse, depois que o silêncio havia assentado o suficiente. — O que cada um precisa desenvolver antes de entrar na floresta é diferente. Treinar junto agora seria desperdiçar o que o tempo separado pode fazer. — Uma pausa. — No quarto mês vocês se reúnem. Treinam juntos o que cada um trouxe de volta. E então vão.
— Quatro meses. — Raiji disse.
— Quatro meses.
— Você planejou isso antes de receber o convite. — Miyu disse.
— Comecei a planejar quando a rachadura apareceu no pátio. — Daeron disse. — O convite confirmou o que estava planejando.
Miyu ficou olhando para ele com a expressão de alguém que havia chegado a conclusão que não a surpreendia mas que tinha peso de qualquer forma.
— Miyu. — Daeron disse. — Você vai para o Clã Izanami. Mikoto já sabe que você está chegando. O mês é sobre o Olho — recuperação e refinamento além do que tinha antes. — Uma pausa. — E sobre entender o que vai enfrentar quando a floresta amplificar o Kage-Yume.
Miyu assentiu uma vez.
— Ayame. — Daeron disse. — Você vai para o Clã Kurobani. Shion vai treinar com você. — Uma pausa com qualidade diferente das outras. — Vai haver conversa com o líder do clã sobre o evento. Vai ser difícil. Vá de qualquer forma.
Ayame ficou olhando para Daeron com a calma que havia aprendido a usar quando estava recebendo informação que tinha peso pessoal e estava decidindo não deixar o peso aparecer antes da hora.
— Certo. — Ela disse.
— Raiji. Eiden. — Daeron olhou para os dois. — Vocês dois ficam comigo.
Raiji levantou uma sobrancelha.
— Juntos.
— Juntos. — Daeron confirmou. — O que Raiji precisa desenvolver e o que Eiden precisa desenvolver são opostos de uma forma que faz sentido trabalhar em paralelo. O limite do Kaminari Goku vai ser testado com um parceiro que cria condição diferente de qualquer treino solo. E a convergência da Díade de Eiden se desenvolve melhor com pressão real do que com exercícios controlados.
— Você está dizendo que vamos treinar um com o outro. — Eiden disse.
— Com. Não contra. — Daeron disse. — A diferença importa.
Raiji ficou olhando para Eiden.
Eiden olhou de volta.
Havia algo na troca — não desafio, reconhecimento mútuo de que o que vinha a seguir ia custar de uma forma específica que os dois já estavam calculando.
— Certo. — Raiji disse.
III.
Daeron foi falar com cada um antes que partissem.
Com Miyu foi curto — duas frases ditas em voz baixa enquanto os outros arrumavam as malas. O Olho vai recuperar mais rápido do que o médico calculou. Deixa. Ela havia assentido com o tipo de assentimento que significava que havia entendido mais do que as duas frases continham.
Com Ayame foi diferente — Daeron ficou com ela por mais tempo do que com os outros. Eiden conseguiu ouvir fragmentos da conversa em voz baixa: o líder do clã vai dizer coisas que vão doer. Não porque está errado — porque parte do que vai dizer vai ser verdade. Ouça tudo antes de responder. Ayame havia ficado quieta por um momento. Depois havia dito algo que Eiden não ouviu completamente. Daeron havia assentido com o peso específico de quem reconhece coragem sem precisar nomeá-la.
Com Raiji foi mais curto ainda — Daeron olhou para ele por um segundo e disse uma palavra: cinquenta. Raiji havia entendido imediatamente — cinquenta segundos de Kaminari Goku, dez além do limite atual. Havia dito: cinquenta. Daeron havia confirmado com um aceno que era ao mesmo tempo instrução e crença.
Com Eiden Daeron ficou por mais tempo do que com qualquer um dos outros.
Ficaram de pé perto da árvore central do pátio — a mesma onde Eiden havia sentado com Miyu quando ela havia contado a história do Clã Izanami, onde a folha havia pousado por dois segundos de equilíbrio que havia iniciado tudo que veio depois.
— A floresta. — Eiden disse.
— Vai amplificar a Díade. — Daeron confirmou. — Mais acessível e mais instável ao mesmo tempo. O equilíbrio dinâmico que você está desenvolvendo vai ser testado de uma forma que o treino aqui não consegue replicar.
— Como acessível e instável ao mesmo tempo.
— Porque são o mesmo estado em momentos diferentes. — Daeron disse. — Quanto mais a Díade está disponível, mais os dois lados querem ir em direções diferentes. O que você está aprendendo é a segurar os dois lados apontando na mesma direção sem forçar. A floresta vai testar quanto tempo você consegue fazer isso quando o ambiente inteiro está puxando.
Eiden ficou olhando para a rachadura no centro do pátio.
— Quando você participou. — Ele disse. — A floresta amplificou o que você era.
— Sim.
— O que era.
Daeron ficou quieto por um momento — a calibração que Eiden havia aprendido a reconhecer como ele decidindo quanto entregar.
— Era alguém que havia aprendido a carregar peso sozinho por tempo suficiente para confundir isso com força. — Ele disse. — A floresta mostrou a diferença. — Uma pausa. — Foi a parte mais difícil.
Eiden ficou quieto.
— O prêmio. — Ele disse. — Tem a ver com Mikimura.
Não era pergunta.
Daeron não respondeu.
O que era resposta suficiente.
IV.
A manhã da partida chegou com o céu encoberto — não chuva, o tipo de céu que está decidindo o que vai ser e ainda não chegou a conclusão.
Os quatro se encontraram no pátio central às seis da manhã — não por convocação, por hábito. O pátio havia se tornado o espaço deles de uma forma que ninguém havia declarado mas todos haviam reconhecido.
A rachadura no centro estava lá. Menor do que havia sido depois de Murasaki, mas presente. Sempre presente.
Mu estava no muro.
Daeron ficou um pouco afastado — presente da forma que ele ficava quando entendia que o momento pertencia a outros e sua função era ser pano de fundo.
Os quatro ficaram juntos por um momento sem dizer nada.
Era o tipo de silêncio que Eiden havia aprendido a reconhecer como o mais honesto que o grupo produzia — não vazio, cheio de coisas que estavam sendo comunicadas sem precisar de palavras porque as palavras seriam menos precisas do que a qualidade da presença.
Raiji quebrou o silêncio primeiro. Como quase sempre.
— Um mês. — Ele disse. Para todos, para ninguém específico.
— Um mês. — Ayame confirmou.
— E depois mais um junto. — Raiji disse. — Antes de ir.
— Antes de ir. — Miyu disse.
Raiji ficou olhando para o horizonte com a expressão de alguém que estava processando algo que não cabia completamente em palavras e estava tentando de qualquer forma.
— Vai ser diferente. — Ele disse. — Quando voltar. Todo mundo vai ser diferente.
— Sim. — Ayame disse. Com a simplicidade de quem havia chegado a essa conclusão antes e havia tido tempo de se acostumar com ela.
— Isso é bom ou ruim. — Raiji disse.
— É inevitável. — Miyu disse. — Bom e ruim são avaliação. Inevitável é dado.
Raiji ficou olhando para ela.
— Você sempre faz isso. — Ele disse.
— O quê.
— Tira o drama das coisas com precisão. É perturbador e útil ao mesmo tempo.
— Obrigada.
— Não era elogio.
— Eu sei. Obrigada de qualquer forma.
Eiden ficou olhando para a rachadura — a pulsação violeta que havia se tornado familiar de uma forma que não havia planejado se tornar familiar. Havia algo no que Daeron havia dito — a floresta responde ao que você é — que havia ficado presente desde a noite anterior. Não com ansiedade. Com a qualidade de informação que ainda não havia sido completamente processada e estava esperando.
— Miyu. — Ele disse.
Ela olhou para ele.
— Cuide do Olho.
— Estou trabalhando nisso.
— Eu sei. — Uma pausa. — Cuide mesmo assim.
Algo passou pelo rosto dela — rápido, com a qualidade das coisas que Miyu deixava aparecer por menos de um segundo antes de arquivar. Mas presente.
— Certo. — Ela disse.
Ayame foi para Raiji primeiro — a mão no ombro com o peso específico dela, por um segundo apenas. Depois para Eiden, igual. Depois para Miyu — e com Miyu ficou um segundo a mais, com algo na expressão que comunicava que havia coisas que as duas sabiam sobre o Clã Kurobani e sobre o que Ayame estava indo enfrentar que não precisavam ser ditas porque já eram compartilhadas.
Miyu colocou a mão sobre a de Ayame por um segundo.
Depois soltou.
Raiji olhou para Eiden com o olhar que havia aprendido a reconhecer como a versão séria dele — não a seriedade performática, a real, que aparecia quando algo importava de verdade.
— Não morre treinando com o Daeron. — Ele disse.
— Você também. — Eiden disse.
— Eu sou mais difícil de matar.
— Quarenta e três segundos de Kaminari Goku dizem outra coisa.
Raiji ficou quieto por meio segundo.
— Justo. — Ele disse. — Não morre.
— Não morro. — Eiden confirmou.
V.
Partiram com o sol ainda baixo.
Miyu foi primeiro — com o passo medido de sempre, o caderno debaixo do braço, o Olho da Distorção fechado. Não olhou para trás quando saiu pelo portão. O tipo de ida que comunicava que olhar para trás seria reconhecer que a partida tinha peso, e reconhecer isso em público não era algo que Miyu fazia.
Mas havia parado por um segundo antes do portão.
Apenas um segundo.
Depois foi.
Ayame foi depois — com a chama interna azul e quieta, com a mochila que havia arrumado com o cuidado de alguém que havia aprendido que o que você carrega fisicamente comunica o que está esperando do que vem. Havia dito até logo para os três com o tom que não era despedida — era promessa de que havia volta.
Raiji havia dito: um mês passa rápido.
Ayame havia olhado para ele com o olhar que comunicava que sabia que ele estava dizendo isso tanto para ela quanto para si mesmo.
Depois foi.
Raiji e Eiden ficaram no pátio com Daeron.
Raiji ficou olhando para o portão por um momento depois que Ayame havia sumido pela rua.
— Um mês. — Ele disse. Para o portão.
— Um mês. — Daeron confirmou.
— E depois mais um junto.
— E depois o evento.
Raiji ficou quieto por um segundo.
— Cinquenta segundos. — Ele disse. Não para Daeron — para si mesmo. Como quando alguém fixa um número para que o número se torne real antes de ser alcançado.
— Cinquenta. — Daeron confirmou.
Eiden ficou olhando para a rachadura no pátio pela última vez antes de partir.
A pulsação violeta era lenta — uma vez por minuto, quieta, como respiração de algo que estava esperando com a paciência de quem tinha tempo.
Havia dito alguma coisa para Eiden, naquele pátio, em cada pulsação desde que havia aparecido.
Ele ainda não sabia completamente o que.
Mas estava aprendendo a ouvir.
Virou as costas para a rachadura e foi junto com Raiji e Daeron.
Mu ficou no muro do pátio depois que todos foram.
Olhou para o portão.
Para a rachadura.
Para a árvore onde a folha havia pousado semanas atrás.
O pátio estava completamente quieto — sem os quatro, sem Daeron, sem o peso de presença que havia se tornado constante nos últimos meses.
Mu desceu do muro.
Foi até a rachadura.
Ficou olhando para ela de perto — a pulsação violeta, lenta, paciente.
Depois sentou ao lado.
E ficou.
Como alguém que havia decidido que se ninguém mais ia ficar de olho, ele ficava.

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