Índice de Capítulo

    Cada passo de Kaim era feito sem pressa. Os olhos levemente caídos existiam apenas para acompanhar o ritmo de seu sorriso discreto.

    Sutil era o formigamento que se levantava na dobra dos braços, lugar esse onde morava o algodão que provava a boa ação que mantém há catorze anos: doação de sangue.

    O dedo moveu-se ao algodão com certo carinho. A semente do bem-estar brotou no peito somente para florescer ao restante do corpo.

    “Espero ter conseguido ajudar mais alguém hoje…”

    Ao recuperar-se de seu breve devaneio, pôde notar a multidão de pessoas ao seu redor, mas apenas uma pessoa chamava sua atenção: uma senhora de idade.

    Estava distante, mas seu cabelinho, tão curto quanto branco, era único demais naquela cidade, talvez mais único do que a bengala que carregava.

    Ainda que andasse em passos lentos, não poderia disfarçar a dificuldade que morava em cada um dos passos que o forçava a se perguntar: “O que ela tá aprontando dessa vez?”.

    No fim das contas, nenhum parágrafo desse contexto o impediu de soltar um riso tão breve quanto discreto, que impulsionou seus passos para que a alcançasse.

    Já estava ao lado da senhora em questão de poucos segundos. Ela, por sua vez, não tinha sequer notado o som de seus passos.

    Foi somente quando o rosto de Kaim se aproximou levemente da senhora que seus olhos puderam detectar a presença do jovem rapaz.

    — E aí, dona Lizangela! Tudo beleza?

    O semblante da Lizangela transitou de neutralidade para surpresa e felicidade em um ritmo ainda mais veloz do que um tornado com pressa.

    — Ô, binino, eu tava te procurando, meu filho!

    Seu abraço veio enquanto ela tentava falar cada palavra sem gaguejar. Kaim retribuiu a gentileza com o mesmo gesto ao mesmo tempo em que ria.

    Não demorou para que percebesse as sacolas que ela carregava em um dos braços. A curiosidade o fez questionar sem que percebesse:

    — E essas compras aí, coroa? O que cê comprou?

    No começo, sussurrou: “Hum?” até que voltasse a sentir o peso no braço. Simultaneamente, recordou-se do porquê o estava procurando.

    — Ah, sim, sim! Fui fazer umas compras, mas também tricotei um presente pra você, perai…

    O abraço foi desfeito aos poucos. Enquanto a mão da senhora se aproximava da sacola, seus olhos brilhavam em um misto de orgulho e expectativa.

    Não demorou muito para que agarrasse o que quer que estivesse lá. Assim que o pegou, tirou e mostrou ao mundo o fruto do seu trabalho: uma capa.

    Não era grande; na verdade, estava ajustado perfeitamente para a altura que Kaim tinha.

    Suas bordas tinham a cor azul. Uma pequena sigla “O-” estava espalhada por ela. No centro da capa, o número catorze tinha seu próprio destaque.

    — Já fazem catorze anos que você é doador de sangue, né? Fiz esse presentinho pensando especialmente nisso.

    Kaim agarrou aquela capa com um conforto estranho no peito. Olhando para ela, uma sensação calorosa parecia vir de dentro da alma, sussurrando que tudo valeu a pena.

    — Obrigado…

    Suas palavras agradeciam o presente, mas a mente, observando cada um daqueles infinitos O-, se perdia no passado, como se cada um daqueles sinais fosse uma vida salva.

    Quando estava prestes a ser levado pela onda do devaneio, sentiu a bochecha arder gentilmente. Logo após, percebeu que se tratava da senhora puxando-o.

    — Nem disfarça que gostou do presente, né, binino?

    Risos satisfeitos saíam dela enquanto falava. Kaim, respondendo que sim, também não pôde evitar de rir com a satisfação crescente.

    — Aiai, tá bom então. Vou voltar pra minha caminhada. Tchau, netinho!

    A despedida foi tão rápida quanto calorosa. Enquanto observava a Lizangela se afastar, dizia para ela tomar cuidado e não andar com muita pressa.

    Não demorou para que tudo retornasse lentamente ao que era antes: a chuva dos inúmeros passos da multidão junto do sussurro de conversas.

    Ao mesmo tempo em que isso voltava aos seus ouvidos, também se afastava conforme ele observava o carinho em forma de capa que lhe foi dado.

    Num suspiro misturado com sorriso, vestiu o presente que tanto gostou. Ele, por sua vez, ficou fixo como uma mochila agarrando-se nas costas.

    Foi só depois disso que seus passos retornaram.

    Algumas pessoas o olhavam com estranheza. Outras, só achavam engraçado ou infantil um adulto carregar nas costas algo tão clichê como uma capa.

    Para ele, o externo pouco importava. Continuava cada passo com um sorriso satisfeito no rosto enquanto observava o céu.

    Havia nuvens, sol brilhante e tudo de mais belo que o mundo conseguia oferecer; entretanto, pouco a pouco, a realidade se moldava em sua imaginação para se adaptar à sua visão de mundo.

    No centro daquele céu, um enorme olhar se destacava sobre tudo. A esclera era escura, e incontáveis pontinhos brancos eram distribuídos na escuridão.

    Aquilo, para nós, é conhecido como o olhar universal; porém, para ele, aquele era o retrato perfeito do olhar do Altíssimo que ele tanto amava.

    Cada estrela naquele imenso olhar era uma vida com uma história já lida pelo Criador. Na imensidão das trevas, morava a história de todos os humanos, sejam os vivos, os mortos ou os que nascerão.

    Essa é a cosmovisão de Kaim.


    POV: Melinoe

    O ambiente de agora se encontra numa sala de estar. O sofá, tão grande quanto macio, aconchegava suas costas enquanto os olhos se perdiam na televisão.

    Além da própria respiração, o único som que existia vinha da TV. Nela, passava uma de suas novelas favoritas em um momento importante.

    O momento era de aconchego e carinho. Um casal jovem, formado há poucos instantes, se entregava aos beijos que só o amor podia oferecer.

    Quando mal esperava, o ranger da porta sussurrou sua voz cansada. Por saber quem havia chegado, um singelo sorriso floresceu nos lábios.

    — Oi, amor, cheguei da doação…

    Antes mesmo de completar a frase direito, foi recebido com um abraço tão caloroso quanto apertado, e bom o bastante para fazê-lo sorrir.

    — Bem-vindoooo

    Enquanto sorria, era levado pelo braço até o sofá. Melinoe, sem conseguir conter um por cento da animação que sentia, dizia caminhando:

    — Vem, vem ver! Aquele casal lá finalmente parou de firula e começaram a dar umas beijocas!

    Kaim, ao mesmo tempo em que respondia: “Eita, sério? Vamo ver…”, sentia sua mente ficar cada vez mais leve, como se estivesse se dissipando.

    Quando percebeu, já estava sentado no sofá; entretanto, sua visão estava embaçada demais para conseguir ver qualquer coisa à frente.

    Melinoe continuava falando alguma coisa, mas estava tudo distorcido demais pra entender. Tudo o que conseguiu fazer foi um breve desabafo:

    — Amor, eu… Acho que tô ficando meio tonto…

    A cabeça pousou no colo de sua amada antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Melinoe, por saber que ele foi fazer doação de sangue, não se preocupou tanto.

    De primeira, sorriu brevemente por ter achado fofo. Logo depois, o aconchegou com cafuné enquanto desejava um bom descanso ao marido.


    Conseguia ouvir o som do ar entrando e saindo. Era capaz de sentir o diafragma se expandir e recuar, mas, enquanto abria os olhos, não podia ver nada além de escuridão.

    O chão, também tão escuro quanto o nada, era gélido demais para que fosse um sonho, e também sólido o bastante para convencê-lo de que era real.

    Erguer o corpo foi rápido, mas o mesmo não aconteceu com a coragem. Não sabia onde estava, tampouco o que poderia estar ao seu redor, e isso era tudo o que o medo precisava para nascer.

    Em um suspiro único, pensou: “Sinto medo, Pai. Meu coração hesita…”, e esse era um de seus maiores hábitos: conversar constantemente com Deus, seja nos momentos bons ou nos ruins.

    Pouco a pouco, uma linha reta da escuridão era substituída por luz, indicando o caminho que deveria percorrer, ainda que o destino fosse incerto.

    E assim foi feito.

    Ainda que seu peito ardesse contra o desconhecido enquanto o coração tremia na própria covardia, ia contra os próprios instintos para que pudesse andar.

    Explosões abafadas vinham tanto da esquerda quanto da direita, conspirando para fazê-lo temer ainda mais, mas não foi o bastante para que parasse de andar.

    Eventualmente, a luz do caminho chegou ao seu limite, mas aquele “sonho” ainda não tinha acabado. A única coisa que conseguia fazer era encarar a escuridão à sua frente…

    … Que ficava, de repente, ciana.

    Partículas cianas nasciam do nada, mas não houve demora alguma para que desaparecessem. Os olhos de Kaim se perguntavam se estava vendo direito…

    … Mas não houve tempo de conclusão ao raciocínio.

    Revelando-se nas sombras, como alguém que abre uma cortina de repente, veio o Sistema Um, tão grande quanto incontáveis televisões fundidas.

    Seus olhos encaravam aquele humano com frieza e desprezo; entretanto, a maior mudança foi revelada pela segunda vez até agora.

    No topo da interface, o que deveria ser “S1” agora era um único olhar universal.

    Próximo capítulo: Negação da Vida ou Teimosia da Morte?

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