Há certos odores que, por mais que a pessoa se limpe, não são retirados com facilidade. Também há odores que ficam tanto tempo com alguém que viram característica pessoal.

    O cheiro que acompanhava o recém chegado era um desses.

    Uma mistura de descuidado com a higiene junto com violência e fragrância de mulher barata que, nos becos de Brumalva, era relativamente fácil de achar.

    A barba falhada e desleixada evidenciava o desleixo e, se olhasse com cuidado, um pouco de saliva seca, deixando claro que não se deu o trabalho nem de lavar o rosto ao acordar. 

    Kael, ao reconhecer de quem se tratava, não vacilou e já chamou Croco, que recuou dois passos.

    Acompanhando o sujeito, mais dois homens entraram na padaria. Alzira os conhecia. Via-os desde pequenos quando vinham comprar pão a pedido de suas mães.

    As crianças, outrora inocentes, agora eram adultos com olhares endurecidos.

    “O tempo passa mesmo”, ela pensou e um suspiro escapou junto.

    — Garran, o que venho fazer aqui? Os impostos desse mês já foram pagos.

    Sua voz saiu seca ao perguntar.

    Garran não respondeu de imediato, tomando seu tempo para dar uma olhada no lugar, nos móveis, plantas… até no menino e o cão mais ao fundo. Só depois que seu olhar repousou na mulher. 

    — Nem mesmo um ‘bom dia’, velha Alzira? — Um sorriso formou-se nos seus lábios. — Ou mesmo um bem vindo? Não imaginava que você era assim…

    Alzira não respondeu a provocação. Olhando-o nos olhos perguntou mais uma vez:

    — O que quer?

    O tom não era amigável ou hostil. Nele só havia o propósito de encerrar o que quer que tivesse trazido aquela pessoa ali.

    As curvas na boca de Garran logo se afrouxaram.

    — Você sabe, velha Alzira, a situa-

    — Não — Alzira prontamente levantou a mão, interrompendo. — Não sei de situação nenhuma e nem quero saber. Já paguei o que tinha que pagar. Você já veio esse mês. 

    Um longo momento se passou onde apenas olhares foram trocados, primeiro entre os dois guardas, incomodados pelo silêncio e incertos do que vinha a seguir — Garran já era uma figura imprevisível — e depois do próprio sujeito, que mantinha seu olhar firme.

    Verdade seja dita, realmente, ele tinha vindo esse mês.

    Mas e daí?

    As ordens vinham de cima. Tinha que cumprir.

    — Velha, escuta… — Garran pigarreou. — O imposto vai aumentar. Mais um marco.

    — Um marco?! — As pálpebras de Alzira tremeram. — Eu já pago quatro! Quatro! e querem me tirar mais um aqui, nesse fim de mundo?! Isso é quase o imposto de vilas e algumas cidades menores!

    Algumas pessoas, clientes, até tinham entrado na padaria nesse ponto. Olharam por dois segundos e deram meia-volta.

    Isso não passou despercebido pela velha mulher, que só ficou mais frustrada.

    Kael, sentado com o Croco em volta das pernas dele, nunca tinha visto Alzira daquele jeito, mas facilmente entendia porquê.

    Um marco era suficiente para comprar dias de uma pessoa comum. Alimentar uma família.

    Sem perceber, ele já estava contando nos dedos quanto tempo sem se preocupar com comida isso proporcionava só pra ele e pro Croco.

    Seus dedos ainda subiam e desciam conforme contava mentalmente, porém, a porta abriu novamente, atrapalhando o cálculo.

    Garran já ia falar mais alguma coisa quando ouviu o ranger da porta.

    “Você deveria ter demorado mais.” Foi a única coisa que Kael pensou ao ver quem era.

    Elian abriu a porta como de costume, alheio ao que acontecia dentro da loja, mas, ao ver os três homens ali, e em como os três o olharam de volta, seus ombros ficaram rígidos. Foi um reflexo involuntário. Já tinha visto o que um homem podia fazer com o outro.

    — Oh, olha só o que temos aqui…

    A voz de Garran era um misto  de curiosidade e, no fundo, algo mais sinistro.

    Ele se aproximou do jovem com interesse, ficando poucos passos de distância. Só então se agachou antes de perguntar:

    — Quem é você, hein? — Ele lambeu os lábios enquanto fazia a pergunta. — Nunca te vi.

    O cheiro do hálito do homem era forte. Elian teve muita vontade de ir embora.

    Mas não conseguia. As pernas não obedeciam.

    Era inevitável para ele. Garran era assustador.

    — Elian — A voz de Alzira cortou o ar. — Vem pra cá. Agora!

    Ouvindo sua avó, pareceu voltar a realidade, reunindo forças para sair dali. 

    Os olhos de Garran acompanharam Elian por um tempo até o jovem sair do campo de visão.

    — Quem é esse ai, Alzira?

    A resposta veio depois de uma rápida conferida da mulher sobre o menino.

    — Meu neto.

    tsk!

    Garran, ainda agachado, fechou a cara ouvindo aquilo.

    “Que merda…” 

    Mas uma lembrança logo passou na sua mente e que, de repente, lhe arrancou um riso abafado, mas suficiente para ser ouvido por todos ali no recinto.

    Elian não pode evitar recuar mais alguns passos, chegando perto de Kael e Croco.

    — Você tem um azar da porra. — Kael disse.

    Elian não respondeu, ainda olhando pro homem de cicatrizes que se levantou depois de um tempo.

    — Não sabia que você tinha um pirralho, velha — Ele estalou o pescoço, antes de se virar e voltar seu olhar pra Alzira. — Enfim, voltando ao que importa, não se preocupe… eu não vim te cobrar nada. Não agora. 

    Andou mais alguns passos em direção a mulher. Nem tão perto. Nem tão longe.

    — Hoje vim apenas como mensageiro — Fez uma pausa curta, deixando as palavras ecoar. — Mas mês que vem, voltarei como coletor. E é melhor que você coloque mais um marco pra jogo.

    A mulher não parecia mais querer contestar alguma coisa.

    Era irônico. Nem parecia a mesma de alguns instantes para trás.

    Mesmo as pessoas mais fortes e determinadas eram forçadas a recuar e se abster da sua vontade quando algo ou alguém importante para elas era colocado no caminho.

    Assim são os humanos, afinal.

    Garran notou isso e seu sorriso, agora mais convencido, se mostrou de novo.

    — Viu? Não é tão difícil, velha. 

    — É só isso, não é? — Alzira perguntou. — Se sim, pode ir. Eu já entendi.

    — Sim, Sim — Ele levantou as mãos zombateiramente. — É só isso. Vamos embora, rapazes.

    Se encaminhando para a saída, porém, declarou mais uma coisa:

    — O recrutamento obrigatório é valido para todos os meninos, Alzira. Não esqueça disso.

    O baque da porta se fechando não foi forte, mas, de alguma forma, estremeceu o coração da velha mulher.

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