Índice de Capítulo

    O primeiro corredor das ruínas tinha apenas o vão onde uma porta havia estado, os gonzos ainda  restavam presos à pedra de um lado, o outro lado liso e nu. Sophia ergueu a erva-da-lua e o brilho azul alcançou três, quatro metros à frente antes de se perder na curva. Além da curva, escuridão compacta.

    Licaão passou à frente sem pedir permissão. A espada de empréstimo saiu da bainha com um som seco e ele a segurou de forma relaxada, o fio para baixo, a ponta apontada para o corredor como se ele soubesse de antemão o que encontraria lá dentro. Teseu caminhou atrás, ainda um tanto cansado. Sophia e Plutarco fecharam o grupo.

    — As sombras tomaram este corredor. — Licaão disse, sem parar. — Eu as sinto no chão.

    — Como assim, sente? — Plutarco perguntou.

    — Séculos de maldição deixam um tipo de coceira sobre a pele que nunca sai. Elas passaram aqui. Há pouco.

    O rei franziu o cenho.

    O corredor virou à esquerda e desceu. As paredes de pedra eram antigas, do castelo original, cortadas com o máximo de precisão e cuidado que qualquer mão escrava conseguiria. Frisos decorativos corriam na altura da cintura, parcialmente destruídos, o que sobrava deles revelando animais em marcha, guerreiros em batalha, lobos com as bocas abertas. Licaão, diferente dos outros, não olhava.

    Sophia seguiu o brilho das raízes. Raízes velhas, das fundações, que passavam pela pedra como veias secas. Elas não brilhavam, mas refletiam como uma sintonia com a flor que carregava. Conseguia vê-las, e as raízes velhas indicavam onde a pedra cederia mais rápido se a urgência exigisse.

    Não comentou isso com ninguém, mas ficou de olho nos passos de todos.

    A primeira forma surgiu na curva seguinte.

    Licaão parou. A espada subiu de forma instintiva — ponta para frente, punho firme. A forma estava a seis metros, imóvel no meio do corredor, com os contornos que não se fixavam no olhar, um tremor que existia entre ver e não ver. Ficou parada, como uma estátua de sombras.

    — Afasta-te. — Licaão ordenou.

    A forma não se moveu.

    O rei deu um passo à frente e a espada cortou o ar em um arco horizontal, rápido e preciso, a lâmina passou pelo meio da forma com um som de metal contra o vento, sem qualquer resistência. A forma se desfez por uma fração de segundo e se reconstituiu dois metros mais adiante, intacta.

    Licaão parou. Olhou para a espada. Depois para a forma.

    — Não adianta. — Teseu disse atrás dele. — Elas não são físicas.

    — Eu percebi.

    — Então vamos parar de perder tempo.

    Licaão empurrou a espada de volta à bainha e avançou diretamente sobre a forma.

    A sombra se dissolveu antes do contato. Reapareceu atrás deles, no corredor pelo qual haviam vindo, e escorregou pela pedra na direção que o grupo havia chegado — de volta para cima, para o pátio. Teseu a viu partir sobre o ombro.

    — Elas não estão nos guardando. Parecem querer algo mais… — Ele olhou para Licaão. — Precisamos correr. Não dá pra esperar e descobrir.

    Correram.

    Sophia ergueu a erva-da-lua acima da cabeça e o brilho oscilou com o movimento, as sombras nas paredes surgiam e sumiam em saltos que desorientavam a visão periférica.

    O corredor descia, virava, descia de novo. Plutarco correu com a bolsa de pergaminhos apertada contra o peito para não bater nas paredes, a respiração saía em rajadas curtas. Teseu corria com a mão na parede direita para não perder a noção de orientação no escuro. Licaão corria com a naturalidade de alguém que conhecia o caminho; a memória dos séculos, ou algum instinto de rei que reconhecia o próprio castelo mesmo sob a ruína.

    Mais formas apareceram nas encruzilhadas. Três numa bifurcação — duas tomaram o corredor da direita, uma veio pela esquerda em direção ao grupo e se desfez antes do impacto, continuando pelo corredor de cima. Não havia como saber se aquelas encontrariam a câmara antes deles. Não havia como saber quantas havia.

    — Esquerda. — Licaão ordenou na bifurcação sem parar para ouvir resposta.

    — Elas foram pela direita. — Teseu disse.

    — O cofre fica pela esquerda.

    Eles seguiram Licaão.

    O corredor abriu em uma câmara menor, sem decoração — paredes nuas, teto baixo, o chão de pedra polida por décadas de passagem. Três portas. A do centro estava derrubada, a madeira apodrecida virada para dentro. Além dela, escuridão mais densa.

    Licaão atravessou a porta derrubada sem parar.

    Sophia passou a erva-da-lua pela abertura e o brilho azul alcançou o interior.

    Um corredor mais curto. E, no fundo, uma porta de pedra.


    Silvo era o único que enxergava.

    A escuridão mágica pesava até sobre seus olhos, que viam mais do que os outros em qualquer noite natural. Nessa noite, os vultos eram manchas de calor e massa contra o negro compacto, sem definição, sem detalhe; mas manchas eram o suficiente para saber onde estava cada coisa e para onde cada coisa se movia.

    Ele ficou de pé entre Calixto e a linha de escudos com a lança curta na mão direita e os olhos em movimento constante.

    — Calixto. Centauro menor, cinco metros à sua direita. Três soldados no caminho dele.

    — Direita, três passos, escudos! — Calixto repetiu em voz alta, e os soldados obedeceram antes de entenderem o porquê.

    O centauro colidiu com os escudos e os três homens recuaram dois metros, os calcanhares riscaram a terra e as madeiras rangeram. Mas seguraram. O centauro empurrou uma segunda vez com o ombro — os soldados cederam mais um metro — depois recuou para tomar distância.

    — Deuses… o que é essa coisa?! — Um dos soldados urrou na linha.

    — Ele recuou. Dois metros. — Silvo afirmou.

    — Avancem um metro e fechem o buraco. Ombro a ombro! — Calixto ordenou.

    Era assim que funcionava. Silvo via, Calixto repetia, a linha reagia ao som. Lento, imperfeito, cheio de buracos onde a informação chegava tarde demais — mas funcionava. Nos primeiros minutos da batalha, funcionou.

    Depois o centauro de lança entrou.

    Ele era menor que Nesso, mas mais ágil que os outros três. A lança que empunhava era uma estaca de carvalho de três metros com a ponta endurecida no fogo, grossa como o braço de um homem e pesada apenas o suficiente para que o centauro a manejasse com uma mão só. Ele entrou pelos fundos da linha, pelo ângulo que Silvo não conseguia cobrir sozinho enquanto tinha os olhos nos outros três.

    — Esquerda, pelo fundo! — Silvo gritou, mas tarde.

    A lança desceu em arco e o soldado mais próximo não tinha escudo erguido na direção correta. O impacto o atirou três metros para o lado e ele bateu na parede de pedra do assentamento com um som que encerrou qualquer dúvida sobre o resultado.Dois soldados à esquerda se viraram para o novo ângulo e o centauro já recuara — apenas para ter espaço para o próximo arco. A lança subiu de novo.

    — Afastem! — Calixto gritou.

    Ela já havia se deslocado pelo som — dois passos para a esquerda, o arco erguido, a corda tensa antes de saber com precisão onde estava a criatura.

    — Silvo. Altura do tronco.

    — Um metro e meio acima de onde sua flecha aponta agora.

    Ela corrigiu e soltou.

    A flecha encontrou o ombro da criatura e fez o centauro girar o tronco na direção do impacto por instinto. Rangeu os dentes irregulares e ergueu o braço mais uma vez. O segundo arco veio de qualquer jeito, horizontal e largo, mas meio segundo mais devagar do que teria sido.

    Os homens já se afastavam do golpe, mas não foram rápidos o suficiente.

    Varreu dois homens ao mesmo tempo como se fossem palha. Um deles levantou depois, lento, um braço dobrado de forma que não deveria. O outro ficou no chão.

    Calixto estalou a língua. Estava de mãos atadas, ou melhor, olhos.

    — DROGA! — Silvo gritou.

    Calixto sentiu o rapaz escapar de seu alcance num sobressalto.

    — SILVO!

    Ele avançou.

    Sabia que era insensato. Fez assim mesmo. 

    Uma segunda flecha passou a trinta centímetros da cabeça de Silvo — ele a sentiu pelo deslocamento de ar — e cravou no pescoço da criatura. O centauro não parou, mas o passo seguinte foi torto, o peso deslocado para o lado da ferida por uma fração. Silvo se aproveitou dessa janela.

    Correu com a lança curta à frente, de olhos na junção entre o tronco humano e o corpo equino. A lança de carvalho desceu em sua direção, mas ele mergulhou para baixo e para o lado, sentiu o ar da passagem no rosto, rolou sobre o ombro e ficou de pé de novo com o equilibro instável.

    Sua lança havia rasgado alguma coisa no flanco do centauro; ele sentiu a resistência antes de perder o contato. A criatura resmungou, mais de raiva que dor, e girou no espaço estreito sem vacilar.

    Silvo recuou três passos. A lança de carvalho veio na horizontal de novo, mas desta vez ele estava esperando. Agachou. O tronco passou acima da cabeça com calor de madeira pesada cortando o ar.

    Foi então que Theo chegou.

    Calixto havia disparado a terceira flecha meio segundo ante, guiada pelo som do movimento da besta. O centauro se voltou para a flecha e a pegou no ar. O flanco esquerdo ficou exposto.

    O comandante chegou pelo lado cego do centauro. Usou o próprio corpo como aríete, a massa toda concentrada no ombro esquerdo contra o flanco da criatura, e o centauro desviou dois passos para o lado com um tropeço que revelou que aquele tamanho tinha um centro de equilíbrio alto. Antes que a criatura se reorganizasse, Theo subiu pelo corpo equino com as mãos e os joelhos — uma escalada grotesca e sem cerimônia — e quando chegou ao nível do tronco humano, a espada curta já estava na mão direita.

    O centauro tentou alcançá-lo com os braços. Theo se deslocou para baixo do alcance e a espada entrou duas vezes, rápida, no pescoço da monstruosidade. Limpo como uma faca de caça.

    Logo, a criatura caiu para o lado.

    Theo desceu junto, rolou, ficou de pé. A espada gotejava sangue na mão. Ele respirava fundo, duas vezes, três, depois ergueu o olhar focado para onde sabia que Silvo estava.

    — Quantos restam?

    — Três centauros menores. O gigante não se moveu ainda. — Silvo disse. — Parecem esperar alguma coisa.

    — Droga. — Theo estalou a língua e rangeu os dentes. — O que esses malditos querem?

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