Capítulo 73: Novos participantes
O construto metálico continuava a sair do chão. Partes se desdobravam em busca de apoio para terminar de se erguer, esmagando as feraethers ao redor sem distinção. As criaturas se digladiavam pelo espaço, empurrando umas às outras para chegar mais perto da imensa máquina.
— Vamos morrer se continuarmos aqui — disse Tyla, puxando Lyra pelo braço. Mas Lyra não se moveu. Sentia o mesmo chamado das feras, vindo de onde a máquina se estabelecia, e o corpo recusava a ordem de recuar.
Um tiro devolveu seus pensamentos ao presente. A garota de cabelos brancos abatia as feraethers que se aproximavam demais, posicionada sobre a rampa de embarque da nave. À frente, o Polarion defendia Lyra e Tyla com garras e presas, a pelagem branca manchada de sangue. As criaturas que morriam ali não tinham núcleo para onde retornar — seus corpos permaneciam no chão, sangue e entranhas espalhados pela neve.
A máquina fez um último esforço e terminou de se içar para fora do buraco. Pés pneumáticos se apoiaram no chão e a ergueram. Do corpo principal, uma esfera transparente cheia de fumaça esverdeada se destacou e flutuou para fora. A máquina parou. As feraethers ao redor pararam também, numa espera tensa.
Sem aviso, uma onda de energia explodiu da esfera. Atingiu as feraethers, Lyra, Tyla, Helena e a garota branca, continuando para trás delas sem perder intensidade.
O Polarion se desfez e voltou para o núcleo de Tyla. Ela falou antes de ser perguntada:
— Nossas mentes se desconectaram. Ia ficar perigoso se ele virasse contra a gente.
Tyla sacou seu rifle, Lyra, uma adaga e um bastão. Lyra pensou em convocar seu Kocka. No episódio do Domatorum tinha conseguido mantê-lo sob controle apesar das dificuldades, mas a resposta veio antes do comando, um gorgolejar satisfeito no fundo da mente.
“Se precisar…”
Do outro lado da máquina, um ronco grave de motores. Um grupo de motos-neve se aproximava em alta velocidade. Helena, que tinha descido da rampa, exclamou alto o suficiente para as duas ouvirem:
— Que droga.
Como se obedecendo um comando invisível, as centenas de feraethers paradas se viraram ao mesmo tempo e encararam o grupo de Lyra, o de Helena e as motos que chegavam, e partiram para o ataque.
Fantasma viu de longe sua nave e apertou o gatilho do override de segurança antes mesmo de enxergar as malditas garotas que o tinham enganado.
— Malditas… — rosnou.
O sistema respondeu com um bipe duplo no comunicadorconfirmação de acesso remoto à nave. Velvet tinha sobrescrito os protocolos de segurança quando fugiu com a garota Sylaris, mas não tinha trocado as credenciais de emergência. Erro dela. A rampa começou a subir sozinha, bloqueando o acesso.
Não que isso importasse agora, quando percebeu, estava no meio de um monte de criaturas.
As feraethers atacaram ao mesmo tempo, como se uma única vontade tivesse puxado todas elas por um fio, e se jogaram contra tudo que se movia. A formação das motos se desfez em segundos. A primeira criatura, uma grandalhona, de presas longas, atingiu o grupo pelo flanco, lançando o mercenário da extrema esquerda para longe antes que ele pudesse reagir.
— Dispersem! — Fantasma gritou, já descendo da moto. — Não formem grupo!
Ninguém obedeceu. O instinto de se aproximar dos companheiros era mais forte que qualquer ordem quando o caos chegava assim, rápido e de todos os lados. Viu dois dos seus tentando cobrir um ao outro enquanto recuavam, e uma fera rápida demais os alcançou pelos ombros, atacando eles como se não oferecessem qualquer resistência.
Mudou seu rifle para semiautomático e atirou. Os tiro acertaram a criatura no flanco. Ela demorou alguns passos para parar.
Fantasma se deslocou para a direita, usando o casco de uma moto virada como cobertura parcial, avaliando. O campo à frente era um problema sem solução fácil — feraethers se movendo em todas as direções, seus homens misturados a elas, impossível atirar sem risco. No meio daquilo, duas garotas que ele não reconhecia lutavam lado a lado, uma com um rifle, a outra usando armas de corpo a corpo com uma economia de movimento que chamou sua atenção por um segundo. Vestiam armaduras do Domatorum, mas não podia imaginar como ou porquê estavam ali.
Não tinha tempo para mais distrações. Ia considerar ambas inimigas, pelo menos por enquanto.
Localizou Velvet.
Ela e Helena operavam sem muita sincronia. A garota branca cobria os flancos enquanto Helena mantinha a área a frente segura, usando os jatos de calor da mão aberta para criar espaço. Raiva passou pelo peito de Fantasma ao lembrar da explosão que quase o matara.
Ele levantou o rifle.
Uma fera passou entre os dois antes que o dedo fechasse no gatilho. Depois outra. O campo de visão abriu por meio segundo e fechou de novo. Tentou se reposicionar, mas cada vez que encontrava ângulo limpo para Velvet, havia algo no caminho — corpo, criatura, poeira levantada pela neve revolvida. Em um momento ela olhou para ele e sorriu.
— Mas que mulher irritante…
Em volta dele, seus homens caíam em intervalos irregulares. As feras não tinham estratégia, mas o número compensava tudo. Cachorrão levou uma mordida no ombro e ainda conseguiu disparar duas vezes antes de cair. Fantasma não podia ir verificar agora.
Então ouviu o som.
Diferente do resto. Metálico, ritmado, pesado demais para qualquer criatura.
Virou o rosto.
A porta no corpo principal da máquina se abriu com um movimento hidráulico, lenta e sem pressa, como se o que estava dentro não tivesse motivo nenhum para se apressar. A figura que saiu era humanoide na forma, altura, proporções, postura ereta. Mas a superfície era metal escuro, articulado em placas que se ajustavam a cada movimento. E dos antebraços, dos ombros, da base das costas, saíam tentáculos espessos que se prendiam ao casco da máquina em múltiplos pontos, como se a criatura ainda não tivesse decidido se separar completamente dela.
Fantasma ficou parado por um segundo inteiro. O campo de batalha inteiro pareceu parar.
O robô caminhou sem hesitar, ignorando as feraethers que se desviavam da trajetória dele, ignorando os tiros que dois dos seus mercenários dispararam por reflexo e que ricochetearam sem deixar marca. Ele não estava indo para nenhum dos seus homens.
Velvet lançou uma granada aos pés daquela coisa de metal. Neve, fogo e escombros subiram, encobrindo a visão, mas quando clareou, o robô olhava para ela, intocado.
Ela tentou correr para longe quando um dos tentáculos se estendeu rápido demais para ser acompanhado pelo olho, enrolou ao redor dos tornozelos dela e puxou. Os pés saíram do chão antes que ela pudesse fazer qualquer coisa.
Velvet disparou para baixo, na direção do tentáculo. O tiro arranhou o metal sem penetrar. Puxou a faca de monofilamento e cortou. A lâmina deslizou pela superfície sem arranhar a superfície.
O robô sacudiu o tentáculo como se a garota não pesasse nada.
O corpo de Velvet bateu na neve com força, levantando uma nuvem branca. Antes que ela terminasse de pousar, o movimento se repetiu no sentido contrário, e ela foi lançada para o outro lado, o impacto seco no solo chegando até Fantasma mesmo à distância. De novo. De novo. O corpo parou de resistir depois do terceiro impacto, os movimentos se tornando involuntários, os braços sem direção.
Fantasma baixou o rifle. Não por misericórdia. Era puro espanto. Seus olhos acompanhando Velvet se transformar numa massa disforme, e uma certeza surgindo em sua cabeça.
— Estamos fodidos — murmurou.
Outro som alto veio de cima antes que terminasse de pensar.
Uma nave passou rasante sobre o campo, baixa e devagar o suficiente para pressionar o ar contra o chão e achatar a neve ao redor, o deslocamento chegando no corpo como um soco. Fantasma se abaixou por instinto, mesmo sabendo que estava fora do alcance.
A nave inclinou e abriu uma das escotilhas. Ele não reconheceu o modelo imediatamente. Mas reconheceu o emblema no casco assim que a luz bateu no ângulo certo. Eram da Legião.
A escotilha se abriu e o vento entrou de uma vez, carregando neve e o cheiro de metal aquecido que subia do campo abaixo.
Alina saiu primeiro.
A queda foi controlada pelo bruxo, que desceu ao lado deles sem qualquer pressa aparente, os dedos abertos, os tentáculos de energia que ele projetava dos dedos ajustando o ritmo de descida como se fosse algo tedioso de se fazer. O manto de Alina batia contra o corpo, o véu colado à máscara pelo vento. Raphael caia paralelo a ela, o sobretudo de couro pressionado contra o tronco, rifle já na mão.
Ele virou o rosto para o robô e sorriu. O robô parou e olhou de volta, os olhos num brilho vermelho.
Alina sentiu o foco daquela coisa neles antes mesmo de entender o que estava vendo. O braço direito se desdobrou, as placas se reorganizando com um som hidráulico e contínuo até que a forma de canhão estava completa e já estava apontada para os três.
O disparo veio sem aviso.
Ithrann Vale soltou um palavrão em alguma língua que Alina não reconheceu, ergueu a mão esquerda e o feixe de energia desviou, passando a metros deles. Ele ajustou a descida com a outra mão sem interromper o xingamento.
Alina e Raphael pousaram juntos. O olhar entre os dois durou menos de um segundo, mas era suficiente ela viu que ele tinha chegado à mesma conclusão. Aquele robô era uma entidade do mesmo tipo de I.A. que tinham enfrentado, e quase morrido se não fosse um milagre performado por Vida.
A voz do bruxo não deixou sua mente voltar à sua colega.
— Deixem ele comigo — disse Ithrann, já de pé, alisando a roupa com uma calma que parecia calculada para irritar. — Se encarreguem dos outros. E tentem destruir a máquina. É ela quem vai abrir a ruptura.
Raphael não respondeu, já em movimento. Alina foi para o flanco oposto, tinha que ajudar Lyra, sua filha.
O campo estava em colapso. Feraethers se moviam em todas as direções, sem padrão reconhecível, atacando indiscriminadamente, criaturas, mercenários, qualquer coisa que se mexesse. Alina puxou as duas adagas da bainha nas coxas, o cabo familiar pesando nas palmas como devia, e começou a trabalhar.
As lâminas negras não eram decorativas. Nenhuma matriarca chegava ao grau de Alina sem saber o que fazer com elas, e o treinamento voltava antes que o pensamento consciente pudesse interferir, desvio, corte, passo lateral, desvio. As feraethers eram rápidas mas previsíveis no impulso. Ela abriu espaço em direção às duas garotas.
Lyra estava lutando. Um bastão em uma mão, adaga na outra, postura baixa, se movendo para proteger a outra garota que disparava rajadas com seu rifle. Alina prendeu o ar por um segundo inteiro antes de continuar em frente. Aquela postura, aqueles golpes, não era algo que se aprendia no Domatorum, eram movimentos que se via apenas no Matriacharum.
“Onde ela aprendeu isso?
Não podia se aproximar demais. Não podia falar. Ninguém naquele campo sabia de seu parentesco.
Atrás dela, Ithrann havia bloqueado o robô.
A luta entre os dois era silenciosa de um jeito errado, sem gritos, sem impactos exagerados, apenas duas forças avaliando a outra. Uma pressão invisível saia do encontro dos dois. O ar se encheu de cheiro de aether. O robô abriu o painel central do tórax e retirou um cubo de dentro, e o ergueu acima da cabeça.
O céu começou a escurecer.
Não como nuvens. Não como tempo fechando. Como se a luz estivesse sendo absorvida por algo acima, drenada para um ponto que não existia antes. O escuro chegou do centro para as bordas, lento e constante, e Alina sentiu sua nuca se arrepiar.
Então percebeu Lyra.
A garota tinha parado. Não recuou, não caiu, simplesmente parou, os braços descendo devagar, o bastão e a adaga caindo. Os olhos abertos, o corpo presente, mas a consciência em algum outro lugar. A outra garota notou primeiro e se virou para ela, falando algo que Alina não ouvia à distância.
Alina cortou o caminho entre elas, derrubando uma feraether que cruzou a trajetória, e chegou perto o suficiente para cobrir. A garota loira já havia fechado o lado de fora. Alina tomou o lado interno, as adagas se movendo em arcos curtos, mantendo distância das criaturas que tentavam se aproximar.
Lyra não reagia.
Alina não olhou para o rosto da filha. Não podia se dar esse luxo agora.
Do outro lado do campo, o robô e o bruxo continuavam. O cubo pulsava no punho erguido da máquina, e cada pulso aprofundava o escuro lá em cima.
Sua intuição captou um movimento. Do outro lado, parcialmente encoberta por uma moto virada, uma garota desconhecida abaixou o corpo e mirou com cuidado. O cano do rifle estava apontado para Lyra com uma precisão que misturava oportunidade e decisão.
Alina percebeu que estava longe demais. De Lyra e da garota. Mesmo com seu treinamento, hesitou.
Abriu a boca sem saber o que diria.
O som do disparo cortou o ar.
Tyla também percebera e se jogou sobre Lyra, o impacto jogou as duas no chão.

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