O navio avançava lentamente pelas águas azul-escuras enquanto Valtherion crescia no horizonte.

    Quanto mais se aproximavam, mais a grandiosidade da cidade portuária se tornava evidente. As muralhas eram enormes, construídas com pedra clara reforçada por metais escurecidos que refletiam o sol da manhã.

    Torres altas observavam o oceano como sentinelas silenciosas, e dezenas de bandeiras coloridas tremulavam ao vento. Navios de todos os tamanhos entravam e saíam do porto.

    Mercantes. Baleeiros. Navios militares.
    Embarcações de exploração.E alguns tão grandes que pareciam fortalezas flutuantes.

    — Então essa é Valtherion… — Delilah comentou, admirada.

    Mesmo Nyara ficou alguns segundos em silêncio.
    — Certo… eu já estive aqui uma vez e esperava algo grande… — Ela apontou para as muralhas — Mas isso parece bem maior do que antes.

    O capitão passou por eles carregando um mapa enrolado.
    — A maior cidade portuária do continente. Se não encontrar algo aqui, não encontrará em lugar algum.

    Ivar observava tudo em silêncio. Mas seus olhos não estavam presos às muralhas.

    Nem às torres.
    Nem ao porto.

    Estavam voltados para algo mais distante.
    Muito além da cidade.

    Como se procurasse alguma coisa.
    Ou alguém.

    Conforme o navio se aproximava das docas, o movimento aumentava. Marinheiros corriam preparando as amarras. Passageiros recolhiam seus pertences. Mercadores já discutiam preços antes mesmo de desembarcar.

    O som de martelos, vozes e gaivotas preenchia o ar.
    A viagem estava chegando ao fim. E isso parecia estranho.

    Após tantos dias compartilhando o mesmo convés, até mesmo grupos que começaram como completos desconhecidos haviam criado algum tipo de vínculo.

    Robert fechou seu grimório e suspirou.
    — Bem… acho que é aqui que nossos caminhos se separam.

    — Finalmente vou dormir numa cama de verdade. — disse Victor.

    — Você dormiu durante metade da viagem. — respondeu Luena.

    — Exatamente. Quero continuar.

    Ingrid riu. Fenrir, deitado em seus ombros, soltou um pequeno latido.

    Ember observou o porto por alguns instantes antes de olhar para Ivar.
    — Então, senhor elfo misterioso…

    — Sim?

    — Vai me dizer agora quem realmente é?

    — Como assim? Sou só um simples elfo.

    — Aff… Imaginei. —Ela cruzou os braços — Sabe, isso está começando a ficar ofensivo.

    — Vou considerar isso como um elogio.

    Ember soltou uma risada.
    — Você é impossível.

    — Já ouvi isso antes.

    — Muitas vezes?

    — Mais do que deveria.

    Nyara gargalhou.
    — Essa foi boa.

    Até Elara sorriu. E por um breve instante, tudo pareceu normal. Mas então…

    Ivar sentiu algo. Um arrepio leve.
    Quase imperceptível.

    Seu olhar mudou imediatamente.
    O sorriso desapareceu.

    A sensação veio novamente.
    Distante. Muito distante.

    Mas real.
    Antiga.
    E quase familiar.

    Algo o observava.
    Não do mar. Não do navio. Nem da cidade.
    De algum lugar além. Muito além.

    Por apenas um segundo, uma voz antiga pareceu sussurrar em sua mente.

    Uma voz que não ouvia há muito tempo.
    Não de Vallfen ou de sua arma.

    Mas era uma voz que ele conhecia… e conhecia bem demais. E ela parecia… satisfeita.

    Ivar fechou os olhos. Quando os abriu novamente, a sensação já havia desaparecido.

    — Ivar? — perguntou Elara.

    Ele permaneceu em silêncio por um instante.
    — Não é nada.

    Mas ela percebeu. Era mentira.

    Pouco depois, o navio finalmente atracou.
    Cordas foram lançadas. Amarras presas.
    A ponte de desembarque foi posicionada.

    O capitão ergueu os braços.
    — Bem-vindos a Valtherion!

    Uma salva de aplausos surgiu entre passageiros e tripulação.

    Alguns comemoravam. Outros simplesmente agradeciam por estarem vivos.

    Depois de monstros marinhos, tempestades e uma batalha entre duas entidades ancestrais, colocar os pés em terra firme parecia um presente dos deuses.

    Um a um, os passageiros começaram a desembarcar.

    Quando chegou a vez deles, Ivar foi o primeiro a atravessar a ponte. Atrás dele vieram Elara, Nyara e Delilah.

    Ember e seus companheiros desembarcaram logo depois.

    Por alguns instantes, os dois grupos permaneceram próximos na entrada das docas.

    O movimento da cidade acontecia ao redor deles.

    Carroças.
    Guardas.
    Mercadores.
    Crianças correndo.
    Pregões ecoando pelas ruas.
    Vida. Muita vida.

    — Então é aqui que nos despedimos? — perguntou Ember.

    — Talvez. — respondeu Ivar.

    — Talvez?

    — O mundo é pequeno às vezes.

    Ember sorriu.
    — Não depois do que vimos no oceano.

    — É, tem razão.

    — Então vou reformular. —Ela estendeu a mão — Até a próxima, Iren.

    Ivar apertou sua mão.
    — Até a próxima, Ember Vance.

    Por um breve instante, os olhos dela se estreitaram. Como se tentasse enxergar através da ilusão. Como se soubesse que aquele não era seu verdadeiro nome.

    Mas ela não comentou. Apenas sorriu.
    — Tente não acordar mais nenhum monstro ancestral.

    — Não prometo nada.

    — Eu sabia.

    Robert soltou uma risada.

    Victor acenou.

    Ingrid levantou a pata de Fenrir como se o lobo estivesse dando tchau.

    Até Ethan fez um breve aceno com a cabeça.

    Então os Heróis partiram. Misturando-se à multidão.
    Desaparecendo entre as ruas de Valtherion.

    Ivar observou até que eles sumissem de vista.
    Então voltou-se para o restante do grupo.

    Nyara colocou as mãos na cintura.
    — Certo. Para onde agora?

    Delilah olhou para as enormes avenidas da cidade.
    — Eu nunca vi um lugar tão grande…

    Elara observou as torres ao longe.
    — E eu tenho a sensação de que nossos problemas só vão aumentar daqui para frente.

    Ivar olhou para a cidade. Para suas muralhas.
    Suas torres. Suas sombras.
    — Sim…

    Um vento frio soprou entre as docas.
    Por alguns instantes, Ivar permaneceu observando o movimento incessante de Valtherion.

    A cidade parecia viva. Não apenas habitada.
    Viva. Como uma criatura colossal feita de pedra, comércio e ambição.

    Carroças cruzavam as ruas carregadas de mercadorias vindas de todos os cantos do continente.

    Mercadores anunciavam seus produtos em dezenas de idiomas diferentes.

    Guardas patrulhavam as avenidas principais enquanto viajantes desapareciam entre becos e mercados.

    Nyara assobiou.
    — Certo… definitivamente vamos nos perder aqui.

    — Você se perderia em uma estrada reta. — respondeu Elara.

    — Isso é um ataque pessoal. Eu sou a guia aqui!

    Delilah sorriu.

    Ivar então voltou sua atenção para elas.
    — Precisamos reabastecer os suprimentos.

    — Finalmente alguém pensando de forma racional. — disse Elara.

    — Mantimentos, água, ervas e rações para viagem. Comprem tudo o que precisarmos para pelo menos algumas semanas. Acho que isso será o suficiente. — Ele entrega à elas uma bolsa com moedas.

    Nyara arqueou uma sobrancelha.
    — E você?

    — Vou procurar outra coisa.

    — Que coisa?

    Ivar deu de ombros.
    — Ainda não sei.

    Nyara soltou um suspiro.
    — Claro que não sabe.

    — Eu saberei quando encontrar.

    — Odeio quando você fala assim.

    — Eu sei.

    Delilah riu baixinho.
    — Vamos, Nyara.

    — Certo, certo…

    Elara lançou um último olhar para Ivar. Ela o conhecia bem o suficiente para saber que havia algo que ele não estava dizendo.

    Mas também sabia que insistir raramente funcionava.
    — Não some.

    — Vou tentar.

    — Isso não foi reconfortante.

    Então elas partiram.
    Misturando-se à multidão.

    E Ivar seguiu sozinho. As horas passaram. Ele caminhou por avenidas largas e mercados abarrotados.

    Passou por lojas de armas.
    Livrarias.
    Casas de alquimia.
    Oficinas de artífices.
    Templos.
    Antiquários.
    Vendedores de artefatos duvidosos.

    Nada parecia chamar sua atenção. Ou talvez ele simplesmente estivesse esperando algo.

    Algo que nem ele próprio conseguia definir.
    O movimento da cidade tornou-se gradualmente menos intenso conforme se afastava das áreas centrais.

    As ruas ficaram mais estreitas. Mais antigas.
    As construções mais altas. As sombras mais longas.

    Foi então que ele entrou em um beco.
    Um simples beco entre dois edifícios de pedra escurecida. Ou pelo menos deveria ser.

    Ivar deu mais um passo. E o mundo desapareceu.
    O som das pessoas sumiu. O cheiro da cidade sumiu.
    O vento parou. Tudo escureceu.
    Não como a noite. Era uma escuridão diferente.
    Absoluta. Infinita.

    As paredes do beco desapareceram. O chão desapareceu. As ruas desapareceram.
    Valtherion desapareceu.

    Ivar permaneceu imóvel.
    Um pouco surpreso, mas sem medo. Como alguém reconhecendo uma velha armadilha.

    Lentamente, luzes começaram a surgir na escuridão.
    Centenas delas. Milhares.

    Máscaras. Flutuando nas sombras.
    Máscaras sorrindo. Máscaras chorando.
    Máscaras gritando. Máscaras gargalhando.

    Algumas humanas. Outras monstruosas.
    Todas observando. Todas vivas.

    Então uma voz ecoou.
    Uma voz divertida. Caótica.

    Como um bobo da corte contando uma piada que apenas ele entendia.
    — Então é essa a criança de Vallfen? — Uma gargalhada explodiu pelo vazio — Hahahahahahahahaha!

    As máscaras começaram a rir junto.
    Milhares de risadas.
    Milhares de vozes. Milhares de ecos.

    — Que intrigante…

    Uma figura surgiu sentada sobre um trono.

    O trono era formado por relógios quebrados.
    Livros queimados. Caveiras sorridentes.

    Rostos distorcidos. Instrumentos musicais despedaçados.
    E coisas que claramente não deveriam existir.

    A entidade que ocupava o trono tinha aparência humanoide.
    Mas apenas à primeira vista.
    Seu rosto mudava constantemente.
    Velho. Jovem. Homem. Mulher. Criança. Monstro.
    Tudo ao mesmo tempo.

    Um chapéu extravagante adornado por sinos negros repousava sobre sua cabeça.

    Cada sino tocava uma melodia diferente. Cada melodia parecia enlouquecer o espaço ao redor.

    Os olhos da entidade brilhavam como estrelas rachadas.

    — Ah… — disse ele, inclinando-se para frente — Você é ainda mais interessante do que os rumores diziam.

    Ivar observou a figura e a reconheceu imediatamente.
    — Malachai.

    O Deus da Loucura abriu um sorriso diabólico.
    — E ele me reconhece!

    As máscaras aplaudiram. Algumas começaram a dançar. Outras choravam enquanto aplaudiam.

    — Maravilhoso! Magnífico! Fantástico!

    Malachai desapareceu.

    E reapareceu ao lado de Ivar.

    Depois atrás dele.

    Depois acima dele.

    Depois em todos os lugares ao mesmo tempo.

    — Filho de Vallfen…
    — Primogênito do caos…
    — Assassino de destinos…
    — Devorador de almas…
    — Pai de tragédias…
    — Colecionador de arrependimentos…

    As vozes ecoavam de direções diferentes.
    Como se várias versões da divindade falassem simultaneamente.

    Então tudo silenciou. Malachai parou diante dele.

    Os olhos agora estranhamente sérios.
    Por apenas um segundo.

    — Você sabe o que está vindo, não sabe?

    As sombras pareceram prender a respiração.
    As máscaras pararam de rir.
    Pararam de se mover.
    Pararam tudo.

    Ivar permaneceu em silêncio.

    Malachai inclinou a cabeça.
    Os sinos de seu chapéu tocaram uma nota desafinada.
    — Ah… — O sorriso voltou. Maior do que antes — Então você realmente não faz idéia.

    Uma gargalhada explodiu novamente.
    Mais alta. Mais insana. Mais perigosa.
    — Hahahahahahahahaha! Isso vai ser divertido. Muito. Muito divertido!

    E pela primeira vez desde que entrará naquele lugar…
    Ivar sentiu que talvez não estivesse diante de um deus que queria apenas brincar.

    Talvez Malachai tenha aparecido por um motivo.
    Talvez ele soubesse de algo. Algo que estava se aproximando. Algo que até mesmo o panteão dos Deuses observavam com atenção.

    E isso… Era muito mais preocupante do que qualquer criatura que poderia habitar os oceanos.

    Phobos continuou rindo. As gargalhadas ecoavam pelo vazio infinito como trovões distorcidos.

    As máscaras ao redor começaram a girar lentamente.
    Algumas cantavam. Outras choravam.
    Outras arrancavam os próprios rostos apenas para revelarem novos rostos por baixo.

    O próprio espaço parecia se dobrar e desfazer ao redor do Deus da Loucura.

    Mas Ivar permaneceu imóvel.
    Seu olhar nunca abandonou a figura diante dele.
    — Você me trouxe até aqui só para rir? — perguntou calmamente.

    Malachai imediatamente parou.
    O silêncio foi tão abrupto que pareceu violento.
    Então ele abriu um sorriso enorme.
    — Não! —A palavra explodiu em centenas de vozes — Eu te trouxe porque estava curioso!

    O deus surgiu sentado sobre os ombros de uma máscara gigante.
    — Curioso! Curioso! Curioso!

    Ele apontou para Ivar.
    — Você deveria estar morto…

    Apontou para outro lado.
    — Louco…

    Apontou para cima.
    — Corrompido…

    Apontou para baixo.
    — Destruído…

    Então voltou a apontar para ele.
    — Mas você continua andando por aí!

    Malachai gargalhou novamente.
    — Isso é maravilhoso!

    Ivar cruzou os braços.
    — Vá direto ao assunto.

    O sorriso da divindade aumentou.
    — Ah… A criança de Vallfen tem personalidade. Gostei.

    Os olhos mutáveis do deus então ficaram mais sérios.
    As máscaras ao redor começaram a desaparecer.
    Uma por uma. Até restarem apenas os dois.
    O vazio tornou-se escuro e silencioso.

    — Os Deuses estão com medo.

    Ivar não respondeu. Mas seus olhos se estreitaram.

    Phobos percebeu. E sorriu.
    — Ah… então isso chamou sua atenção. — A entidade caminhou lentamente até ele. Cada passo fazia nascer flores negras que morriam imediatamente — Não todos… Alguns são arrogantes demais, alguns são estúpidos demais, alguns acreditam que nada pode ameaçá-los. — Ele parou — Mas outros estão olhando para além do véu…

    Ivar permaneceu em silêncio.
    — E o que eles viram?

    Por um instante. A loucura desapareceu dos olhos de Malachai. Restando apenas algo que raramente poderia ser visto em um deus. Preocupação.

    — Nada.

    Ivar franziu a testa.

    Malachai abriu os braços — Exatamente! — A gargalhada voltou — Nada! Absolutamente nada! E é isso que os assusta!

    O vazio atrás dele começou a se rasgar.
    Não como uma ferida. Mas como um buraco.
    Uma ausência. Uma região onde nem mesmo a escuridão existia.

    — Existem coisas que os deuses conseguem enxergar. Existem coisas que os deuses não conseguem enxergar. — O sorriso de Malachai desapareceu — E existe aquilo que está apagando tudo ao seu redor.

    Ivar observou a fissura. Algo dentro dele reagiu.
    Uma sensação antiga. Desagradável. Errada.

    — O que é isso?

    — Eu não faço ideia! — Malachai respondeu imediatamente. Então começou a rir de novo — E isso é a melhor parte! Ninguém sabe! Nem eu! Nem eles! Nem mesmo os antigos!

    Os sinos negros de seu chapéu tocaram sozinhos.
    Uma melodia triste. Distorcida.
    — Algo está se movendo. Algo está acordando. Algo que não pertence a este mundo.

    A fissura desapareceu. Como se jamais tivesse existido.

    Malachai então voltou a sorrir.
    — Mas chega disso! Você não veio aqui para ouvir profecias. Profecias são chatas. Quase sempre estão erradas.

    Ele apareceu diante de Ivar novamente. Perto demais.
    — Quero ver o que você vai fazer. Quero ver o que vai escolher. Quero ver quantos deuses vão morrer.

    Os olhos de Ivar ficaram frios.
    — Então esse é o seu jogo?

    — Jogo? — Malachai pareceu genuinamente ofendido — Não, não, não… — Ele abriu um sorriso monstruoso — Isso é entretenimento. E por isso te darei uma benção…

    O vazio ao redor deles se fragmentou em milhares de pedaços. Cada fragmento mostrava uma versão diferente de Ivar.

    Em uma delas, ele usava uma coroa feita de ossos negros. Em outra, caminhava sobre um mundo em ruínas.

    Em outra, estava ajoelhado diante de um túmulo.
    E em outra… Estava morto.

    O Deus da Loucura observou todas elas com admiração infantil.
    — Existem muitas formas de abençoar alguém. Algumas são presentes. Algumas são maldições. As melhores são as duas coisas ao mesmo tempo!

    Os sinos de seu chapéu tocaram.
    Uma nota. Duas. Três.

    Então cinco máscaras surgiram diante de Ivar.
    Cada uma representando uma bênção diferente.

    Malachai apontou para a primeira.

    • Os Ecos da Loucura •
    A máscara refletia centenas de versões diferentes de Ivar. Algumas usavam armaduras. Outras estavam cobertas de sangue. Algumas sorriam. Outras choravam…

    — Você poderá criar Ecos. Fragmentos de sua existência.Alguns serão simples ilusões, outros poderão lutar, falar, enganar e até usar parte de suas habilidades. Por algum tempo, um Eco poderá ser confundido com o verdadeiro Ivar.

    Mas Malachai abriu um sorriso perverso.

    — Entretanto, toda vez que um Eco for destruído… — Ele levará uma pequena parte de você… — Ele começa a saltitar e a cantarolar — …uma memória, um hábito, um sentimento, um medo, uma lembrança. E você nunca saberá exatamente qual foi!

    Malachai apontou para uma segunda máscara.

    • A Biblioteca dos Esquecidos •
    Ela era feita de páginas arrancadas de livros. Milhares delas. Todas escritas com letras diferentes. A máscara abriu os olhos. E milhares de vozes começaram a sussurrar…

    — Você poderá acessar conhecimentos que não aprendeu. Idiomas mortos, segredos antigos, magias esquecidas, informações perdidas pelo tempo.

    O sorriso da máscara cresceu.

    — Mas o conhecimento nunca surge do nada. Para aprender algo novo… Você esquecerá algo que já sabia. Talvez o nome de uma cidade, talvez uma canção, talvez o rosto de alguém importante.

    A terceira máscara surgiu.

    • O Rei Sem Trono •
    Ela parecia uma coroa quebrada. Coberta por rachaduras douradas…

    — Você inspirará os desesperados. Soldados lutarão mais bravamente ao seu lado, pessoas seguirão sua liderança mesmo sem entender o motivo, sua presença fortalecerá aliados.

    A máscara então rachou mais um pouco.

    — Mas quanto mais pessoas acreditarem em você… Menos você acreditará em si mesmo. Dúvidas crescerão, inseguranças aumentarão. E quanto maior o líder… Mais vazio ele se sentirá.

    A quarta máscara apareceu diante dele..

    • O Andarilho dos Sonhos •
    Era uma máscara negra sem olhos. Mas atrás dela havia estrelas, milhares delas.

    — Você poderá caminhar entre os sonhos. — Conversar com pessoas adormecidas, descobrir segredos, viajar por memórias, encontrar entidades escondidas entre o mundo desperto e o inconsciente.

    Malachai inclinou a cabeça.

    — Mas os sonhos também observarão você. Coisas antigas, coisas esquecidas, coisas que nunca deveriam despertar. E algumas delas podem decidir segui-lo de volta.

    Por fim, a quinta máscara. E até as gargalhadas cessaram.

    • O Rosto Que Não Existe •
    Ela era simples. Branca, lisa, sem qualquer expressão. Sem emoção, sem identidade.

    Malachai observou a máscara por alguns segundos.

    — Ah… essa é divertida.

    A máscara aproximou-se de Ivar.

    — Você poderá se tornar impossível de lembrar. Pessoas olharão para você, conversarão com você, lutarão ao seu lado, e minutos depois terão dificuldade em recordar quem você era. Caçadores perderão seu rastro, espiões não conseguirão descrevê-lo, inimigos esquecerão seu rosto.

    A máscara tocou a testa de Ivar.

    — Mas há um preço… — A voz tornou-se baixa. Quase um sussurro — Com o tempo… as pessoas que você ama também começarão a esquecê-lo. Malachai ficou em silêncio. Depois abriu um sorriso gigantesco — E essa é a parte que torna tudo especial!

    O Deus da Loucura ergueu os braços. As cinco máscaras começaram a girar ao redor de Ivar.
    — Conhecimento. Sonhos. Liderança. Esquecimento. E os Ecos da Loucura.

    Os sinos negros tocaram uma melodia irreal.

    — Escolha com cuidado, criança de Vallfen. Porque bênçãos concedidas por mim nunca desaparecem. Elas apenas esperam o momento perfeito para cobrar o preço…

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