Os olhos do Miguel brilharam, não por ser um guarda-chuva… Mas por ser simplesmente incrível. Não foi igual a Antônio materializando a rosa, aquilo era um objeto… Uma arma!

    “Por que…? Um guarda-chuva?”

    Havia tantas coisas impressionantes que ela poderia fazer… Aquilo o lembrou de uma coisa que Antônio havia dito.

    “Coisas com que tivessem afinidade quando vivo…”

    Aquilo fez outra questão surgir em sua mente, pelo que Aisha havia dito; a vontade e suas características já existiam em seu mundo… Então, como aquilo funcionava?

    Ele não sabia. Mais uma semente de dúvida foi plantada em sua mente.

    — Que foda! Nunca me canso de ver essas coisas legais — sua voz cheia de entusiasmo.

    Aisha o encarou por alguns segundos antes de perguntar.

    — Você já tinha visto alguém materializar algo? — uma sobrancelha sendo arqueada.

    — Bem, uma vez… — Miguel pigarreou por um segundo antes de completar — Não, na verdade não.

    — Ah sim… Eu já esperava na verdade, se quando eu te encontrei você disse que tinha acabado de morrer… — Seus olhos pesaram.

    — Sim, sim… Mas então, como isso funciona?

    Aisha pensou por alguns segundos, demorando a responder.

    — Bem… Primeiro precisamos saber seu estilo — ficando em silêncio por mais alguns segundos antes de continuar — Você sabe o que é um estilo?

    Miguel a encarou atônito, que pergunta era aquela?

    “Ela realmente está achando que sou idiota.”

    — Você está me fazendo de idiota? É claro que eu sei — murmurando baixinho antes de responder — É uma forma de expressão, como um estilo de roupas…

    Aisha o encarou, seus lábios se curvando em um sorriso.

    — Pelos Deuses, você é realmente um idiota — coçando a cabeça antes de continuar — Na verdade, você não está tão errado…

    — Se colocarmos na balança, é realmente uma forma de expressar sua vontade! — ela respirou fundo antes de continuar — Existem quatro estilos ao total…

    Miguel ouvia sua explicação atento, não deixando sua frustração afetar seus estudos.

    — Primeiro, os Manifestadores… Eles conseguem criar coisas do nada. Assim como eu, manifestando meu wagasa — Aisha fazia uma contagem decrescente com os dedos durante a explicação.

    — Segundo, os Transformadores… Eles utilizam An para transformar seus corpos em bestas, gigantes, por aí vai — Aisha parou por um momento para respirar, dando espaço para Miguel falar.

    Seus olhos brilhavam.

    — Tipo, ele pode virar um dinossauro?

    Aisha o encarou com um sorriso frágil — Não sei que besta é essa… Mas sim, provavelmente.

    — Continuando. Terceiro, os Manipuladores… Eles conseguem controlar o An de forma totalmente livre… Podendo reforçar seus músculos, e atacar An puro a distância — algo parecido com veneração surgiu em seus olhos lilases.

    — E por último, menos importante claramente… Os Types — Aisha tossiu antes de acrescentar — Apesar do nome legal, eles não são nada mais nada menos que exibidos.

    Balançando a cabeça Aisha falou com desdém — Eles são os diferentões, e se acham a última bolacha do pacote… Resumindo, eles têm poderes únicos, são anomalias.

    Miguel não se importou com o drama de Aisha no entanto, pensando no fato de que Antônio provavelmente era um dos Types… Afinal ele fazia muitas coisas estranhas.

    — Entendi… Eu acho. Como eu descubro qual eu sou? — sua voz estava apreensiva.

    Aisha deu de ombros — É bem simples na verdade — ela lhe deu um sorriso — Concentra seu An saindo da sua mão enquanto você pensa em algo que goste… Pra ver o que acontece.

    Miguel a encarou atônito, não poderia ser tão fácil afinal.

    “Sempre tem um contra…”

    — Como isso funcionaria? O que deveria acontecer? — a voz de Miguel soava ainda mais apreensiva.

    — Meo, você pergunta demais… Quem é a professora aqui? Eu ou você? — seus lábios se franziram — Só tenta isso… Daí nós vemos no que dá.

    Aisha foi ensinada assim afinal… Ela estava dando o seu máximo, não tinha como ela saber todas as possibilidades.

    Miguel lhe deu um olhar duvidoso, mas não retrucou… Ele sabia ainda menos que ela.

    Concentrando-se profundamente em fazer seu An se mover por suas veias, quase como fez com o papel… Com uma única diferença, ao invés de direcionar para algo, ele apenas liberou.

    “Uma coisa que eu gosto… Eu gosto de muitas coisas… Aaa, o que o que”

    Então uma luz apareceu em sua mente.

    “Um ioiô? Eu tinha um quando criança, minha vó me deu”

    Fechando os olhos e se concentrando totalmente em um ioiô vermelho, por um segundo ele até parou de ouvir o vento.

    E então, uma luz clara apareceu em sua mão, no mesmo momento que um formigamento reconfortante passava por seu corpo.

    E naquele instante, os olhos de Aisha se arregalaram.

    — Mas que merda é essa? — sua voz não soava nada feliz.

    Na mão de Miguel, um objeto estranho apareceu. Era oval, coberto por uma superfície irregular, formada por dezenas de pequenos padrões geométricos encaixados uns nos outros.

    Em sua cabeça, uma coroa de folhas longas e estreitas se erguia em todas as direções, como lâminas verdes apontadas para o céu.

    Aisha nunca tinha visto nada parecido antes.

    Era um abacaxi e nada mais.

    Quando Miguel abriu os olhos, sua expressão ficou rígida.

    — Isso é um… Abacaxi? Não é óbvio? — Seus lábios se curvaram em nervosismo, ele não sabia o que aquilo queria dizer.

    A Aisha o encarou como se ele tivesse acabado de falar a maior idiotice. O wagasa dela oscilou, demonstrando sua irritação.

    — Um o quê? — Ela arqueou a sobrancelha, um olhar gélido perfurando o objeto esquisito.

    — Um abacaxi.

    — Você acabou de repetir a mesma palavra, seu idiota — Aisha bufou, dando um passo à frente, os olhos lilases estreitos como lâminas.

    — É uma fruta! — Miguel tentou se justificar, girando o abacaxi na mão — Pra comer, sabe? Doce, ácido…

    — Uma fruta? — ela parecia genuinamente ofendida, como se toda a sua aula tivesse sido insultada.

    — Sim… — Miguel lhe deu um sorriso lateral irônico.

    Tentando manter a razão, Aisha perguntou.

    — Frutas têm espinhos no seu mundo? — ela apontou para a coroa de folhas rígidas e serrilhadas que coroava a fruta, que parecia capaz de arrancar um pedaço da mão de alguém.

    Miguel piscou, olhando para o abacaxi, depois para ela, e depois para o nada.

    — Não… quer dizer, algumas têm. Acho que essa aqui veio completinha.

    Aisha soltou um suspiro tão longo que pareceu esvaziar o pouco de paciência que lhe restava.

    Aisha cruzou os braços, os olhos semicerrados enquanto ela alternava o olhar entre o rosto sem graça de Miguel e o abacaxi reluzente.

    — Certo… — ela começou, a voz carregada de um sarcasmo pesado. — E frutas costumam aparecer quando alguém tenta manifestar uma arma?

    — Não… sei? — Miguel respondeu de prontidão, encolhendo os ombros.

    — Uma ferramenta? — ela deu mais um passo à frente, cobrando uma resposta lógica.

    — Acho que não… Depende?

    — E por que, pelo amor dos Deuses, você materializou uma fruta no meio dos meus ensinamentos?

    Miguel deu um sorriso, estendendo o abacaxi em direção a ela com as duas mãos, como se estivesse oferecendo um prêmio de consolação, enquanto dizia com a voz baixinha.

    — Eu estava esperando que você me explicasse essa parte.

    Aisha travou por um segundo, boquiaberta pela resposta, antes de soltar um riso soprado cheio de descrença. Ela realmente estava tentando ensinar o impossível para esse ser?

    Tirando Aisha de seus pensamentos, ele tentou se explicar.

    — Eu tentei focar num ioiô, juro! A minha vó que me deu, era o que eu queria!

    — O que diabos é um ioiô? Fala a minha língua, esquisito maldito.

    Aisha massageou as têmporas. Aquele idiota era, de longe, o ser mais peculiar que ela já tinha visto em sua vida e morte.

    — Miguel — ela disse, com a voz num tom perigosamente calmo — Se você der uma dessas em uma situação séria… Eu juro, pelos meus falecidos, que te mato pela segunda vez.

    Miguel olhou para o abacaxi, que brilhava levemente com o sol, e deu um sorriso meio bobo, meio assustado.

    — Bom… pelo menos é um abacaxi bem bonito, né?

    Aisha só virou as costas, saindo do convés antes que a vontade de dar um soco na cara dele… ou a fruta se tornasse irresistível.

    *****

    Aisha olhava o horizonte com uma luneta, um de seus olhos fechados, o sol se punha à sua direita. À distância, Muralhas gigantescas surgiam, em suas bordas, navios voadores estavam ancorados.

    Ela podia ver, inúmeras casas. Castelos estavam lá… Criaturas enormes voavam à sua volta, caixas e coisas que pareciam carruagens jaziam em suas costas.

    Seus lábios se curvaram em um sorriso. Fechando a luneta, ela deu um salto animado.

    — Finalmente — era quase um grito, sua voz animada — só mais um dia e pouco…

    Eles estavam chegando a maior cidade de Umbrália, a capital sulista, Malei.

    Abrindo a mão, algo branco caiu lentamente sobre ela. Tinha a aparência de um cristal, mas era leve demais para ser pedra e delicado demais para ser vidro. Seus seis braços se estendiam em padrões perfeitos, como uma obra de arte criada pela própria natureza.

    O floco se derreteu quase imediatamente, como se tivesse se fundido à sua mão…

    Aisha olhou para cima. Havia nostalgia em seus olhos.

    — Neve… — sua voz antes alegre estava melancólica.

    Estava nevando.

    *****

    Um homem subia uma montanha com árvores à sua volta, era noite, uma garoa fraca caía lentamente.

    O rosto do homem estava oculto pela escuridão, ele mancava… Seus gemidos sendo consumidos pelo som das folhas.

    Enquanto subia, inúmeros cadáveres jaziam pelo chão, provavelmente de antigos guerreiros que ousaram subir a montanha.

    Cadáveres de todos os tipos de seres… Desde cavalos até homens e até mesmo gigantes.

    O homem murmurava baixinho — louvado seja, antiga montanha… Corpo morto há tempos.

    Em seu topo, algo parecia afastar a escuridão, nem a chuva ousava se aproximar, contornando a estrutura.

    Era uma estátua de jade, seus olhos encaravam a lua.

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