Cap 11 - Aquilo que olha de volta
Soulwail navegava suavemente pelos ares, dentro de seu convés, dois jovens estavam sentados diante de uma mesa, um abacaxi descascado estava sob um prato branco.
A garota tinha uma expressão esquisita enquanto o garoto tentava convencê-la.
— Só experimenta Aisha, pelo amor. Você não vai morrer por isso.
Aisha no entanto discordou.
— Como eu vou saber? Você tirou isso do nada… E daí vem me mandar comer, aqui pra você! — Aisha ergueu os braços e os cruzou sobre o peito, fazendo um sinal de recusa.
Miguel a encarou com impaciência — Se eu comer primeiro, você come também?
Aisha deu-lhe um olhar desconfiado antes de responder.
— Sendo assim… Eu experimento!
Um suspiro de alívio saiu pelos lábios de Miguel.
— Promete?
Aisha o encarou incrédula, por que prometer algo tão idiota? Mas ela não o retrucou.
— Prometo — sua voz impassível.
Os lábios de Miguel se curvaram em um sorriso.
— De dedinho?
Aisha suspirou.
— Vai logo antes que eu perca a paciência!
Miguel soltou uma risada enquanto pegava um garfo que estava ao seu lado.
Levando um pedaço de abacaxi a seus lábios, o cheiro ácido entrou em seu nariz.
O sabor era agridoce, não tão azedo, nem tão doce.
Estava no ponto perfeito… Miguel não sabia se já havia experimentado um abacaxi tão… tão…
“Perfeito”
Seus olhos brilharam.
Percebendo a reação de Miguel Aisha não pode evitar.
— É bom? — sua voz soava desinteressada, mas Miguel percebia a curiosidade em seus olhos.
Neste meio tempo de viagem, Miguel percebeu vários costumes da garota.
Ela gostava de cantarolar por aí, uma canção mais esquisita que a outra.
Uma que falava sobre um mendingo que casou com uma rica… E outra sobre um Deus que teve um filho com um mortal…
Era engraçado até.
Em outro momento, Miguel tentou ver o que Aisha estava lendo… Quando foi por trás dela para dar uma olhada, o livro não tinha nada além de páginas em branco! A garota estava usando o livro para dormir sem ser incomodada.
Miguel bufou com a lembrança. Então respondeu Aisha.
— É muito bom! Definitivamente a melhor coisa que comi desde que cheguei aqui! — sua voz era sincera e alegre.
Aisha arqueou uma sobrancelha antes de responder.
— Esta insinuando que a minha comida é ruim? — sua voz cheia de intenção assassina.
Uma carranca apareceu no rosto de Miguel, porém antes que respondesse, Aisha continuou.
— Me dá um pedaço logo — ela falou isso tomando o garfo da mão de Miguel.
“Maldita bipolaridade”
Aisha levou um pedaço de abacaxi diretamente para sua boca, sem fazer cerimônia.
Ela mastigou lentamente, então ficou em silêncio por alguns segundos.
Miguel sentiu um frio percorrer a espinha.
Então… Seus lábios se curvaram e seus olhos brilharam.
Miguel deu um sorriso, sem perceber.
— Caramba, que negócio bom!! Por que você não me falou para experimentar isso antes? — levando outro pedaço a sua boca ela continuou.
— Desgraçado, me privando das coisas boas da vida.
Enquanto Aisha pegava outro pedaço de abacaxi, Miguel acabou se lembrando da noite anterior.
A primeira vez que viu o sul, magnífico era a palavra. Digno de um filme de fantasia medieval. Castelos gigantes, dragões, barcos voadores. Havia até mesmo um portão gigante de madeira.
A reação de Miguel não foi nada contida… Quando aisha viu sua alegria ela perguntou uma coisa que estava a fazendo coçar a cabeça a tempos.
— Você nunca voou? — ela piscou.
— Não… Eu não era rico. Mas os mais avantajados viajavam constantemente…
Aisha o encarou surpresa, seu rosto afundado em confusão quando ela perguntou.
— Como? Você disse que nem conhecia a vontade… Como vocês teriam poder para voar?
Aisha era curiosa, sempre disparando perguntas aleatórias, como “Como você conhecia os dragões se eles não existiam?” ou “Videogames? O que é isso?”
Miguel apenas respondeu, sem hesitar. Até achava aquilo divertido.
— Bem, nós atravessávamos os oceanos em aviões… — sua voz era de normalidade.
Aisha o encarou sem responder, esperando ele continuar.
— Olha… Eram basicamente gigantes de aço que voavam a base de fogo.
Miguel não entendia sobre aquele assunto, porém, tentou explicar como pode.
— Espera… Como vocês faziam gigantes de aço voar? Só com fogo ainda por cima! — Aisha o encarava incrédula.
— Isso é o de menos na verdade, nós fomos à lua com colossos de ferro! — Miguel fazia uma careta orgulhosa.
A expressão de Aisha mudou, seu sorriso sumindo lentamente.
— Vocês são loucos? — Aisha apontava um dedo no rosto de Miguel.
Tossindo ele respondeu.
— Loucos? Talvez, mas por que? Não tem nada além de pedra lá…
Aisha o interrompeu antes dele conseguir terminar, chegando perto de seu ouvido ela falou baixinho, fazendo Miguel corar levemente.
— As lendas dizem que na lua residem seres malignos — a voz de Aisha não possuía nenhuma diversão.
Miguel foi puxado de suas lembranças pela voz de Aisha.
— Miguel? Você tá bem?
Miguel balançou a cabeça antes de responder com um sorriso.
— Sim, Sim, o que foi?
Levando outro pedaço do abacaxi para a boca, ela o respondeu.
— Ontem a noite eu estive pensando… No seu poderzinho mixuruca — engolindo ela continuou — E pra confirmar minha teoria, preciso que você tente invocar algo novamente.
— Que teoria? — Miguel perguntou cuidadosamente, ele estava ficando cansado de fazer coisas as cegas.
Aisha se levantou dirigindo-se a pia com o prato, pegando a esponja para lavar ela disse calmamente.
— Bem, eu só vou falar se estiver certa!
Miguel a encarou atônito.
— Por que?
Ela respondeu antes mesmo dele terminar.
— Por que não quero errar?
Miguel estava prestes a retrucar, quando Aisha começou a cantarolar.
*****
Fora do convés, Aisha olhava para Miguel pensando em alguma coisa…
— Então… Eu preciso que você tente manifestar seu An pensando no abacaxi desta vem…
— Você não tá pedindo isso só por que quer outro… Não é?
Aisha corou levemente, seus lábios se franzindo.
— Óbvio que não… Eu tenho uma tese, só tenta isso.
Miguel estava duvidando dos planos de Aisha, ela com certeza não era confiável… Pessoas com fome em si não eram. Ele riu mentalmente.
“Eu não posso dizer não, de qualquer forma”
— Tá, tá — bufando ele fez outra tentativa.
Sua mente ficou clara, mais uma vez ele havia parado de ouvir o vento. Sua cabeça só pensava em uma coisa.
“Abacaxi! Abacaxi!” Ele lembrava do sabor agridoce…
Miguel estava lentamente se acostumando com a ideia de mover o An por suas veias, desta vez ele fez quase naturalmente. Fazendo o An sair para a palma de sua mão que estava estendida para Aisha.
Ela observa com atenção, até que uma luz clara se formou na mão de Miguel.
— Sabia! — Aisha soltou um suspiro satisfeito.
Quando Miguel prestou atenção para ver o que tinha sobre a sua mão, seus olhos de arregalaram.
Sobre a palma da mão repousava um pequeno colar. A fina corrente metálica se espalhava entre os dedos como fios de prata, enquanto o pingente de esmeralda descansava no centro da mão. A gema, pouco maior que a ponta de um polegar, capturava a luz e a devolvia em suaves reflexos verde-esmeralda, brilhando como uma gota de água cristalizada.
Seu olho direito brilhou em reação ao pingente. Miguel esfregou as têmporas, mas a coceira não parou.
Estava ficando pior. Até que ele viu algo dentro do pingente.
O que ele viu lhe deu arrepios. Ele não conseguia descrever, era lindo… Assustador, medonho.
Seu olho direito esmeralda brilhou, fazendo a gema se quebrar.
Miguel despencou de joelhos no assoalho do soulwail, suas mãos arranharam a madeira antiga enquanto um grito rouco escapava de sua garganta. Uma dor monstruosa atravessou seus olhos, como se ferro em brasa estivesse sendo pressionado contra eles repetidas vezes.
Seu corpo inteiro estremeceu. Os músculos se contraíram sem controle, e sua respiração falhou por um instante. Era uma dor tão absurda que seu cérebro não conseguia entender, reduzindo todos os pensamentos a um único desejo desesperado…
Fazê-la parar.
Ele apertou os olhos com força, mas isso não ajudou. A sensação continuava, queimando, rasgando, consumindo tudo.
— Merda — Aisha materializou sua wagasa antes de murmurar baixinho.
— Proteja-nos Kurenai — no mesmo momento a wagasa se abriu cobrindo os dois, se transformando em uma enorme tenda, a seda parecia fina o suficiente para ser derretida com uma gota de chuva, mas parecia forte o suficiente para segurar um gigante.
Dentro… Era iluminado por uma luz etérea, era quente… Miguel só queria dormir.
Mas ainda doía demais, ele não conseguiria, alguns minutos se passaram em agonia… Aisha gritava alguma coisa, porém ele não ouvia… Nem sequer queria ouvir.
“Por que é tão quente…”
Então, Aisha o tirou de seu desvaneio. Não com uma fala ou qualquer outra coisa.
Levantando a mão em um tapa, ela usou toda a sua força. O som foi alto, fazendo a seda do wagasa que servia como cabana estremecer.
— Aiaiai, pra que isso!?
Quando se deu conta, estava deitado sobre o colo de Aisha. A respiração dela era pesada, e os batimentos do coração batiam perto demais.
Ela o encarava impassível, suas mãos o apertavam levemente.
— Você não me ouvia, o que queria que eu fizesse? — os olhos de Aisha estavam distantes.
— O que diabos foi isso?
Miguel ainda estava confuso, seu olho direito ainda doía um pouco… Mas bem menos, muito menos. Fechando os olhos para descansá-los ele tentou se lembrar do que viu.
— Dentro do pingente… Era lindo… Eu quer — antes que pudesse terminar Aisha o beliscou.
— QUERIA O QUE MIGUEL? — Aisha gritou, Miguel nunca tinha a visto daquele jeito. Ela estava realmente com raiva.
— Só olhar para o que tinha lá dentro quase te matou… Você sabe há quanto tempo eu estou com você aqui no colo?? — Aisha não parou sua voz cada vez mais assustadora.
— 3 horas, Miguel. Você ficou 3 horas gritando aí, Miguel! — sua voz soou triste desta vez — E você ainda queria algo?
— Ponha-se no seu lugar, ou no meu.
Aisha bufou enquanto o soltava, se levantando, fazendo-o bater a cabeça na madeira gelada.
Ela saiu sem dizer uma única palavra.
Miguel se deixou ir para o abraço dos sonhos.

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