Uma semana.

    Sete dias desde que o inferno no abismo cuspiu o Esquadrão Gravios de volta à superfície. Sete dias de poções amargas, ossos estalando para voltar ao lugar, ataduras manchadas de sangue velho e noites onde o silêncio parecia gritar.

    As feridas físicas começavam a fechar sob as túnicas militares. Mas a mente do General Gravios ainda caminhava por aquelas ruas mortas.

    A Grande Câmara de Lancrey não era um salão projetado para ostentar riqueza. Não havia ouro nas paredes ou tapeçarias tecidas com fios de seda. A sala circular era talhada na mesma rocha negra vulcânica que compunha a Muralha, feita para resistir a um cerco. No centro do teto abobadado, um colossal candelabro de ferro forjado sustentava correntes grossas que desciam até quatro brazeiros ardentes. O cheiro de lenha de lei e resina de pinheiro perfumava o ar, pesado e sufocante.

    De pé no centro do salão, com as mãos cruzadas nas costas e a postura perfeitamente reta que camuflava a dor em suas costelas fraturadas, estava Gravios.

    À sua frente, o Rei Aldric repousava sobre o Trono das Brasas. O monarca parecia dez anos mais velho do que realmente era. As olheiras fundas sob seus olhos castanhos narravam o cansaço de um homem que governava um mundo à beira do fim. Ladeando o Rei, em cadeiras de encosto alto, estavam as mentes que ditavam o destino de Lancrey: o Lorde Comandante Baelon, um homem largo e com o rosto desfigurado por queimaduras antigas; o Arquivista-Chefe Silas, cujos olhos miúdos e cruéis avaliavam Gravios por cima de pequenos óculos de leitura; e mais alguns escribas e lordes menores.

    A tensão no salão era densa o suficiente para entortar uma lâmina.

    — Uma cidade inteira… — a voz do Rei Aldric falhou por uma fração de segundo. Ele inclinou o corpo para a frente, os anéis de ferro arranhando os braços do trono. — Você tem certeza do que está me dizendo, General? Vocês não despencaram em um abismo natural. Vocês caíram em uma capital engolida pela terra?

    — Intacta, Majestade — respondeu Gravios. A frieza de seu tom contrastava com o pavor da revelação. — Fachadas de lares, praças amplas, arcos góticos de catedrais abandonadas. O Exímio não apenas reduziu aquele lugar a pó, como sempre acreditamos que fizesse. Ele o engoliu. Como se a própria terra tivesse se aberto para devorar a memória de quem viveu ali, preservando os ossos da cidade no escuro perfeito.

    Um baque surdo ecoou. O Arquivista-Chefe Silas havia deixado seu pesado tomo de registros escorregar das mãos.

    — Mas isso é um absurdo tático! — bradou o Lorde Comandante Baelon, ajeitando-se bruscamente na cadeira. — Se o chão abaixo do Fronte é oco… se as Terras Exímias não destroem, mas soterram… nós estamos marchando sobre um cemitério oco! O peso da nossa própria muralha poderia…

    — O Exímio é um estômago, Comandante — interrompeu Gravios, a voz cortando o pânico inicial com a precisão de um cirurgião. — Ele devora o mundo à medida que esquecemos as eras que vieram antes de nós. O chão que pisamos hoje é o teto das civilizações que o Exímio já digeriu.

    O silêncio que se abateu sobre a câmara foi sepulcral. Apenas o crepitar do fogo ousava falar.

    O Rei Aldric esfregou o rosto com as duas mãos, suspirando pesadamente.

    — Deuses nos ajudem… — murmurou o monarca. Ele ergueu o olhar novamente para a lenda à sua frente. — E a besta, Gravios? O relatório preliminar do portão mencionava um Alfa. Quero os detalhes. Todos eles.

    Gravios não piscou.

    — Não era apenas um Racrydoth adulto, senhor. Era uma anomalia em proporções calamitosas. A pelagem não carregava o tom azul típico. Era de um violeta escuro, doentio, saturado com energia estática capaz de entortar o aço forjado em nossas fornalhas. O tamanho… — Gravios fez uma pausa calculada, deixando o peso da imagem se formar na mente dos homens sentados. — Ele usava os pilares de sustentação de pontes antigas como meros galhos. O escudo de cerco de Vorn foi esmagado com um único toque casual da criatura.

    O Comandante Baelon cerrou os dentes. Um Xemio Maior padrão já exigia o sacrifício de dezenas de homens para ser contido. Um Alfa daquele porte transitando sob seus pés era a definição de uma catástrofe iminente.

    — Mas o que o torna a maior ameaça que já registramos… — Gravios elevou ligeiramente a voz, os olhos fixos nos do Rei — …é a forma como ele deturpou as nossas defesas. A fera devorou uma Fogueira inteira, Majestade. O núcleo exímio no peito da besta foi expurgado, substituído pela luz das nossas chamas. Quando ele atacava, ele não expelia ar quente ou ácido. Ele vomitava o calor das memórias corrompidas.

    — Ele estava usando as almas do fogo como arma… — sussurrou o Rei, horrorizado.

    — Exato. Se não fosse pela intuição da recruta Mirel, que detectou o acúmulo daquela… pressão invisível… e a ação rápida do recruta Caelan e do batedor Trok em implodir o teto da ruína antiga sobre o monstro, nenhum de nós teria retornado. As armas convencionais são inúteis contra a carapaça daquela abominação.

    Do fundo da ala dos escribas, um garoto pigarreou. Era Elian, um dos Arquivistas novatos. Ele vestia roupas excessivamente largas para seu corpo magro e segurava uma pena trêmula. Sob os olhares fulminantes de Silas e Baelon, o jovem engoliu em seco, mas levantou a mão.

    — Com… com licença, General Gravios — gaguejou Elian. — Mas os registros não batem com o seu relato.

    Silas bateu a mão na mesa. — Cale a boca, menino. Você está questionando o homem que…

    — Deixe-o falar, Silas — ordenou o Rei, erguendo a mão. — Fale, Arquivista.

    Elian ajeitou os óculos, forçando-se a olhar para Gravios. — Meu senhor… os tomos de Lancrey são claros. Xemios Maiores, como os Racrydoths, são predadores das planícies de cinzas. Eles caçam em espaços abertos. Como uma criatura dessas desenvolve uma carapaça impenetrável de cor violeta, atingindo tamanhos colossais, se estava enfurnada debaixo da terra? Não existe registro de uma mutação biológica tão drástica ocorrer por conta própria.

    Gravios manteve a expressão impassível. Era o momento exato de plantar a explicação que ele mesmo havia forjado. A única mentira lógica que manteria a corte cega para a verdade.

    — A estrutura biológica do Exímio não funciona como a natureza, rapaz — a voz do General não demonstrou incômodo. Assumiu o tom de um professor severo. — Um Alfa não simplesmente nasce grande. Ele evolui através de adaptação forçada. Quando encontramos a fenda na abóbada superior, notamos algo peculiar: as bordas do túnel escavado estavam forradas com centenas de milhares de tufos de pelo azul. A pelagem original dele.

    Gravios deu um passo à frente, e até mesmo o Rei prendeu a respiração.

    — A besta engoliu as chamas da humanidade. Mas o fogo não pertence a ele. Aquela luz das memórias começou a incinerar o monstro de dentro para fora. Para não explodir, ele procurou isolamento. Ele escavou aquele ninho escuro, escondeu-se lá embaixo e entrou num estado de mutação violenta. O corpo dele descartou a pelagem azul e forjou aquele casco grosso e violeta, não para se proteger de nós… mas para conter o calor absoluto das almas que devorou. Ele não cresceu naturalmente. A nossa fogueira o obrigou a mutar.

    Elian arregalou os olhos, processando a brutalidade lógica do evento, e começou a escrever freneticamente em seu pergaminho. Silas pareceu satisfeito, recostando-se na cadeira. A corte inteira comprou a tese sem pestanejar.

    A desculpa perfeita.

    O Rei Aldric reclinou-se no trono, o cansaço parecendo finalmente vencê-lo.

    — Silas. Mande os escribas atualizarem a cartografia do Fronte Imediatamente — ordenou o Rei. — Baelon, quero esquadrões de demolição marchando para a Cratera de Ashfall amanhã ao amanhecer. Qualquer fenda, qualquer rachadura que desça para essas catacumbas, deve ser selada com ferro e pedra.

    — Sim, Majestade — os dois responderam em uníssono.

    Aldric voltou seus olhos cansados para Gravios.

    — O senhor trouxe seus homens de volta, General. Mais uma vez, provou o valor de sua lenda. Mas preciso lhe fazer uma última pergunta, para os registros oficiais. — O Rei o olhou com uma intensidade penetrante. — Há algo mais? Algum detalhe, por menor que seja, algum comportamento atípico da besta antes que as ruínas desabassem sobre ela?

    O ar parou nos pulmões de Gravios.

    Por um milésimo de segundo, o fogo amarelo dos brazeiros da Câmara desapareceu de sua visão. No lugar deles, ele viu o escuro do túnel desabado. Viu o laranja infernal brilhando dentro da garganta rasgada do monstro. Sentiu o arrepio doentio subir por sua espinha, assim como ocorrera na cratera.

    As mandíbulas se abrindo lentamente, não para urrar. Não para matar. Mas para articular uma palavra humana com clareza absoluta.

    — Não.

    A lembrança ecoou no fundo do cérebro de Gravios. Um monstro que imitava a dor humana já era terrível. Mas um monstro que negava verbalmente, que articulava uma recusa no escuro… isso implicava intelecto. Consciência.

    Implicava que o Fronte não era uma muralha contra feras selvagens. Lancrey não estava caçando animais. Estava travando guerra contra uma entidade que pensava e aprendia.

    Se ele pronunciasse aquela verdade agora, a corte desmoronaria. Baelon declararia estado de sítio interno. Silas enlouqueceria os Arquivistas. O pânico obliteraria a ordem de Lancrey, e piores ainda: os quatro que testemunharam aquilo seriam isolados. Caelan e Mirel seriam aprisionados sob a suspeita de contaminação exímia. Ele não podia permitir isso. O garoto que ele criou não morreria trancado em uma cela para confortar o medo de nobres velhos.

    Gravios piscou. O fogo voltou a ser amarelo. O Rei Aldric aguardava a resposta.

    O General travou o maxilar, afundou qualquer resquício de honra cega e engoliu o maior segredo de sua vida.

    — Não, Majestade — respondeu Gravios, a voz profunda, irretocável e absolutamente vazia de hesitação.

    Vinte minutos depois, as pesadas portas de carvalho e ferro da sala do trono se fecharam nas costas do General Gravios.

    O ar gélido do longo corredor de pedra atingiu seu rosto, mas a sensação térmica fez pouca diferença. Ele sentia o peso de milênios nos ombros.

    Ele caminhou a passos duros em direção à ala leste do palácio, onde as sombras das abóbadas ofereciam refúgio. Lá, encostados perto da entrada do arsenal restrito, quatro de seus soldados mais leais e antigos o aguardavam em silêncio de estátua. Eram homens de sua confiança absoluta, com cicatrizes que provavam que seus lábios jamais se abririam sem sua ordem.

    Gravios parou diante deles. De dentro da dobra da túnica, ele retirou quatro pedaços quadrados de pergaminho grosso. Estavam dobrados perfeitamente, selados com pingos de cera negra, sem nenhum brasão ou marca real estampada nela.

    — Quero entregas diretas e exclusivas — ordenou Gravios, o tom baixo, mas que exigia obediência total. Ele entregou a primeira carta. — Essa para o veterano Vorn. Entregue na enfermaria da caserna oeste. Se os médicos perguntarem, mande-os para o inferno.

    O soldado assentiu, pegando o selo.

    — Essa para o atirador Trok — continuou, entregando a segunda. — Ele deve estar nas docas de suprimentos, checando as cordas.

    A terceira carta encontrou a mão de outro soldado. — Para a recruta Mirel. Pessoalmente na ala de alojamentos femininos.

    Ele segurou a quarta e última carta entre os dedos cobertos pela luva de couro negro.

    — E esta… entregue na minha própria casa. Para Caelan.

    Os soldados confirmaram com um aceno rígido de cabeça.

    — Com sua permissão, General… — um dos soldados, o mais velho do grupo, hesitou por um segundo. — Se as patrulhas dos Lordes interceptarem a mensagem. O que devemos declarar sobre o remetente?

    Gravios o encarou com os olhos frios que lhe renderam o título de lenda viva.

    — Se forem interceptados, engulam o papel e aguentem a punição no xadrez — disse ele de forma impiedosa. — Ninguém além dos quatro deve ler o conteúdo. Estão dispensados.

    Os soldados bateram os punhos contra o peito esquerdo e desapareceram pelos corredores escuros, como sombras dissipadas pelo vento.

    Gravios ficou sozinho, olhando para as tochas tremeluzentes do corredor. Dentro de cada um daqueles pergaminhos, escritos com a urgência de um homem que sabia que o mundo estava com os dias contados, havia apenas duas linhas curtas e absolutas:

    Na minha casa. Ao pôr do sol.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota