O ar da manhã bateu no meu rosto assim que fechei a porta de casa, mas não trouxe o alívio que eu esperava.

    O peso da conversa na cozinha ainda estava preso na minha garganta, como uma pedra irregular que eu não conseguia engolir nem cuspir. Era um resíduo amargo de silêncios não ditos e verdades engolidas.

    Caminhei pelas ruas do bairro, observando as pessoas apressadas. O sol começava a subir, pintando o céu de um laranja pálido que contrastava com a cinza do asfalto.

    Um vizinho, o Sr. Almeida, varria a calçada com movimentos rígidos. Ao me ver, ele interrompeu o trabalho e abriu um sorriso largo, exibindo dentes brilhantes demais para aquela hora da manhã.

    — Bom dia, querida! Como vai a escola? — perguntou ele, a voz doce como mel artificial.

    Sorri de volta, um movimento mecânico dos músculos faciais que eu havia aperfeiçoado ao longo dos anos.

    — Bem, obrigada.

    Ele acenou, satisfeito, e virou-se para a esposa, que acabara de chegar com sacolas de mercado.

    Eles trocaram sussurros rápidos, seguidos por risadas baixas e olhares discretos dirigidos à casa da esquina, onde vivia uma senhora idosa conhecida por seus gatos barulhentos.

    Conhecia aquele riso. Era o mesmo riso que usavam para falar mal da vida alheia enquanto mantinham a fachada impecável de bons cidadãos. Bom dia, querida. A hipocrisia era tão comum quanto o ar que respirávamos, onipresente e invisível para quem não queria enxergar.

    Continuei andando, sentindo-me uma espectadora invisível em um teatro onde todos sabiam suas falas de cor, menos eu. Ou talvez eu soubesse demais.

    Ao chegar à escola, o cenário não era diferente, apenas mais caótico. Os corredores estavam cheios de risadas altas, gritos de entusiasmo e conversas fúteis que ecoavam nas paredes de azulejo. Para um observador desatento, parecia genuíno. Mas eu sabia ler as entrelinhas.

    Via a menina popular sorrindo para a amiga enquanto seus olhos calculavam friamente quem seria a próxima a ser excluída do grupo.

    Via o professor de Educação Física elogiando um aluno pela frente e revirando os olhos assim que ele virava as costas, compartilhando uma piada cruel com outro colega.

    — Você está aí perdida de novo? A voz do meu colega de turma, Lucas, me tirou do transe.

    Ele estava encostado no armário, mastigando um chiclete com uma arrogância tranquila, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos me analisavam com uma curiosidade misturada a desprezo.

    — Só pensando — respondi, ajustando a alça da mochila como se fosse um escudo.

    — Pensando demais é perigoso — ele disse, dando de ombros, num gesto de falsa filosofia.

    — As pessoas gostam de simplicidade. Você, complicada assim, assusta.

    Assusto. A palavra pairou no ar, pesada e pontiaguda. Não porque eu fosse assustadora fisicamente, mas porque eu me recusava a participar da mentira coletiva. Minha quietude era um espelho que eles não queriam olhar.

    Durante a aula de História, o sr. Mendes falava sobre revoluções, guerras e verdades ocultas. Ele caminhava pela sala, gesticulando com o giz, apaixonado pelo próprio discurso.

    — A história é escrita pelos vencedores — dizia ele, a voz ecoando. — Muitas vezes, o que nos contam não é a verdade completa, mas a versão conveniente. Aqueles que têm o poder decidem o que será lembrado e o que será apagado.

    Olhei para os meus colegas. Eles anotavam tudo freneticamente, aceitando as palavras dele como lei absoluta.

    Ninguém questionava. Ninguém percebia a ironia brutal de um sistema que ensinava a questionar o passado, mas proibia o questionamento do presente. Era como se a crítica fosse permitida apenas quando dirigida a mortos, nunca aos vivos.

    Senti aquela vontade familiar de levantar a mão. De dizer: Eles também mentem agora. Vocês não veem?

    Mas fiquei quieta. Lembrei-me do meu pai ao telefone, falando de “integridade” e “ética profissional” enquanto trapaceava em pequenos acordos.

    Lembrei-me da minha mãe julgando a roupa das outras mulheres na igreja enquanto escondia suas próprias inseguranças.

    Se eu falasse, seria apenas mais uma voz incômoda, uma adolescente “difícil” que não sabe como o mundo funciona. Você não sabe de nada, a voz deles ecoava na minha cabeça, um mantra repetitivo.

    Apertei a caneta com força, os nós dos dedos ficando brancos. Eu sabia. Sabia que os sorrisos eram máscaras. Sabia que os conselhos eram correntes disfarçadas de cuidado. Sabia que a “proteção” deles era apenas controle.

    O sinal tocou, libertando-nos da sala abafada. Saí para o pátio, buscando um canto isolado perto das árvores antigas que margeavam o fundo da escola.

    O vento balançava os galhos, indiferente às minhas angústias humanas. As árvores não precisavam fingir. Elas cresciam, perdiam folhas, enfrentavam tempestades, mas nunca mentiam sobre quem eram. Suas raízes eram profundas, sua existência era honesta.

    Fechei os olhos por um instante, imaginando que podia gritar ali, no meio do pátio cheio de gente. Gritar todas as verdades que engolia todos os dias. Mas não gritei.

    Em vez disso, respirei fundo e guardei tudo dentro de mim, onde ninguém podia tocar.Eles achavam que eu era ingênua. Achavam que eu não via as cordas que me prendiam.

    Mas eu via. E saber a verdade, mesmo que não pudesse mudá-la ainda, era a única liberdade que me restava.

    Foi então que senti uma presença. Alguém se aproximou, quebrando minha calmaria. Abri os olhos e vi uma sombra parar à minha frente.

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