A tensão no orfanato era palpável.

    Os adultos caminhavam com passadas tensas e cochichavam entre si.

    As crianças, por sua vez, tentavam enlouquecidamente extrair alguma informação deles.

    Mas não importava quantas vezes elas perguntassem o motivo da tensão, a resposta sempre terminava em uma variação de: “Nada com que vocês precisem se preocupar”.

    O que apenas servia para deixá-las ainda mais curiosas.

    Verdade seja dita, eu de fato não estava preocupada.

    Na verdade, toda aquela algazarra já estava me irritando. Sorte a minha. Justo quando resolvo trabalhar nas minhas esculturas de madeira, o orfanato inteiro decide fazer barulho.

    Era um passatempo meu.

    Começou pouco depois de eu chegar ao orfanato. Naquela época, com frequência, havia momentos em que preferia ficar sozinha, então um dos adultos me deu a sugestão.

    Era péssima no começo. Mas, depois de alguns meses de insistência, acabei pegando gosto pela coisa. 

    Hoje, era capaz de talhar todo tipo de animal em madeira.

    Ainda assim, minhas figuras humanas podiam melhorar.

    Estava a instantes de ser dominada pela raiva e arremessar contra a parede o pequeno pássaro que talhava.

    Então, Arthur entrou no quarto, gritando meu nome.

    — Luísa!

    Ele e eu éramos fisicamente parecidos. Ambos tínhamos cerca de 1,60 m de altura, pele clara, um pouco bronzeada, e cabelos castanhos. As únicas diferenças reais eram: a cor dos nossos olhos, o comprimento do meu cabelo e os contornos mais femininos do meu corpo. 

    Seus olhos gastaram meio segundo para me localizar. Um sorriso de triunfo surgiu em seu rosto ao confirmar minha presença.

    Por um momento, fiquei desorientada com sua aparição repentina.

    O suficiente para me fazer esquecer da raiva.

    Então, senti uma pontada no dedo indicador.

    A fúria se espalhou pelo meu corpo como uma avalanche.

    Antes que pudesse retomar o controle, a estatueta já estava voando em direção à parede.

    — Porra, Arthur, meu dedo!

    Uma parte de mim planejava despejar todos os insultos possíveis no garoto. Porém, ao vê-lo correr em minha direção, com preocupação estampada no rosto, resisti à tentação.

    Ele era esse tipo de pessoa. Impulsivo e energético, mas também alguém para quem os amigos significam o mundo.

    Qualquer outra pessoa teria feito pouco caso da situação ao perceber que a ferida era superficial. Arthur não. Ele estava ali, sentado ao meu lado, à procura de se justificar.

    — Me desculpa, Luísa! Estava tão empolgado para te contar…

    Não importava com quanta frequência esse tipo de situação acontecia. Era difícil ficar irritada com ele quando o tom de sua voz deixava tão claro o quanto estava arrependido.

    Pressionei a ferida contra a blusa, manchando-a de vermelho.

    Deixei escapar um sorriso.

    Ficar sentada naquela pequena cama de madeira, uma entre tantas outras, com ele ao meu lado, me fazia sentir felicidade e amargura ao mesmo tempo.

    Por um lado, o velho orfanato era um lembrete do acidente de oito anos atrás. O dia da morte de meus pais.

    Uma lembrança do porquê daquele maldito apelido.

    Por outro lado, conheci meu melhor amigo aqui, sob este teto desgastado pelo tempo.

    Eu era uma garota tímida e gostava de passar a maior parte do tempo sozinha. Ele era o garoto que queria ser amigo de todo mundo e não aceitava um não como resposta.

    Ainda me lembro de como nos conhecemos.

    Tinha acabado de chegar ao orfanato e precisava lidar, ao mesmo tempo, com o luto e com os olhares de curiosidade e julgamento dos outros. 

    No geral, era um dos piores dias da minha vida.

    Então Arthur apareceu e decidiu que eu seria sua amiga.

    Ele não aceitava um não como resposta.

    Tinha tudo para dar errado. No começo, eu o achava um pé no saco. Mas, de alguma forma, nós clicamos.

    Desde então, viramos a “dupla dinâmica” do orfanato.

    Forcei meus pensamentos melancólicos para o fundo da mente e, com um longo suspiro, resolvi livrar meu amigo da culpa.

    — É só um pequeno corte. Esqueça isso. Que tal me contar o que te deixou tão animado?

    — Ah, é verdade! — sua expressão se tornou triunfante. — Eu fiquei três horas escondido dentro do armário da cozinha, e descobri o porquê de todo mundo estar tenso.

    Arthur pode até ter falado com a confiança de quem acabou de ganhar um campeonato. Eu, porém, só conseguia rir ao imaginar a cena.

    Um garoto de quinze anos espremido dentro do minúsculo armário da cozinha. Imóvel. Por três horas.

    — Consigo até imaginar a cena. — disse, entre gargalhadas.

    Ele pareceu ficar irritado. Mas pude ver com clareza o momento em que percebeu o absurdo da situação.

    Sua boca se contorceu em um sorriso largo e me devolveu uma pequena risada.

    — Tá, eu admito. Se abrisse aquele armário e você estivesse lá dentro, encolhida, ia morrer de tanto rir.

    Ele respirou fundo. Recuperou a compostura e prosseguiu em um sussurro.

    — Eu ouvi o velho Alberto e a tia Sônia conversarem. Os guardas estão à procura de uma bruxa.

    Meu corpo gelou.

    Por puro instinto, comecei a me abraçar.

    Eu conseguia compreender o porquê dele estar tão animado. Do seu ponto de vista, enfim teríamos um pouco de emoção naquela cidade pacata onde nada nunca acontecia.

    Mas não compartilhava de sua empolgação.

    Só ouvir a palavra “bruxa” era suficiente para me causar arrepios.

    Era perceptível, a mudança repentina no meu comportamento. Arthur me olhou com espanto. Ele não esperava aquela reação.

    — Luísa… — Ele me envolveu em um abraço gentil. Sua voz estava recheada de preocupação. — Está tudo bem com você?

    Hesitei por um momento.

    Eu nunca contei a real história daquele dia para ninguém.

    Talvez porque quisesse fingir que tudo não passara de um sonho.

    Uma invenção da imaginação de uma garotinha de sete anos.

    Eu poderia inventar uma desculpa. Mas Arthur era meu melhor amigo. E, se alguém tinha o direito de saber a verdade, era ele.

    Agarrei seu braço com força e respirei fundo.

    — O-o que eu vou te contar agora é a verdade… A verdade sobre os acontecimentos de oito anos atrás. Do dia em que ganhei o apelido de Chapeuzinho Vermelho.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota