3: Bruxa, parte 2
— Quando acordei, já era a manhã do dia seguinte. Um grupo de guardas havia chegado ao local, atraídos pelo barulho. — balancei a cabeça — Não importa. O fato é: eles viram um lobo gigante, um homem com um machado e uma senhora. Todos no chão, sem vida…
O rosto de Arthur se contorceu em uma expressão sombria. Pela décima vez.
— E então eles viram uma garota caída ao lado deles, com a capa de viagem manchada de vermelho. Não é? — completou, de braços cruzados.
Balancei a cabeça em sinal de aprovação.
Ele deitou na cama ao meu lado, com uma das mãos apoiadas no queixo. Por mais séria que a situação fosse, era engraçado vê-lo passar da preocupação à curiosidade extrema em questão de milésimos de segundo.
— Tá, mas e essa poção esquisita? Ela… falhou?
Dei de ombros.
— É possível. acredito que fosse algo experimental. Por isso minha vó me disse para não beber.
Ele não parecia acreditar muito nessa possibilidade.
— Humm…
Decidi me deitar na cama também.
Era melhor dar a Arthur tempo o bastante para pensar.
Podia ser uma boa observadora, mas era ele quem tinha a melhor intuição.
— Conheço essa expressão. Se importa de compartilhar seus pensamentos?
— Me parece estranho. Por que te deixar viva?
Essa era uma boa pergunta. Nunca tinha pensado nisso.
— Não sei — admiti, um pouco confusa.
— Luísa… em qual estado estava a cabana quando acordou?
— Não tinha sobrado muita coisa… Por quê?
Ele virou de lado e olhou para mim.
— Seu comentário, sobre ter sentido um desejo inexplicável de destruição, não sai da minha cabeça.
Ele soltou um grito exasperado, levantou-se e deixou o corpo cair de novo na cama.
— Você não se lembra de mais nada?
Refleti por um instante.
Redobrei os esforços, para não me esquecer de nada, enquanto revisava todas as minhas memórias.
Não eram boas lembranças, nem um pouco, mas sentia que ele tinha razão.
Nada me veio à mente.
— Nada — falei por fim. — Sinto muito.
Arthur soltou um longo suspiro.
— Não. Eu quem peço desculpas… por fazer você se lembrar.
— Ha! — soltei uma pequena risada. — Se fosse qualquer outra pessoa, eu ficaria irritada. Mas você eu deixo.
Estendi o punho fechado na direção dele. Ele devolveu o gesto, colidindo nossos punhos.
Nosso momento de camaradagem foi interrompido por gritos de pânico vindos do andar de baixo.
Levantamos de imediato e nos entreolhamos.
Era visível a confusão espelhada em nossos olhos.
Um rugido ressoou pelo orfanato.
— Merda… — disse, com urgência na voz.
Ele franziu a testa.
— Não é aquilo, é?
Olhei no fundo de seus olhos antes de responder.
— Nunca vou esquecer esse som, não importa quanto tempo passe.
Ele levou o polegar à boca e prendeu a ponta da unha entre os dentes.
— Vou entender isso como um sim — sussurrou.
Tomado por um ímpeto, atravessou o dormitório e abriu um largo baú de madeira.
Do seu interior, retirou uma espada de madeira.
— Por favor, não faça isso.
Ele prendeu a espada ao cinto antes de voltar sua atenção para mim.
— É uma decisão estúpida, eu sei, mas não posso abandonar todo mundo e fugir! Me odiaria por isso.
Queria retrucar. Convencê-lo de alguma forma a não fazer aquilo. Mas conhecia-o bem o suficiente para saber o quão inútil seria o esforço.
Arthur me lançou um sorriso.
— Se esconda em algum lugar. Volto em breve.
E partiu sem olhar para trás.
Fiquei ali, petrificada. Meu melhor amigo estava prestes a encarar a morte com uma espada de madeira. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê?
Então ouvi uma voz.
Era estranha e parecia distante, como se estivesse abafada por uma forte ventania.
– Siga seu coração.
Mas ele apenas me dizia para correr! Estava prestes a perder tudo outra vez. Seria minha sina ser perseguida por bruxas e lobos?
— Não esse coração — falou a voz.
Não fazia sentido. Era apenas um músculo, afinal.
Coloquei a mão sobre o peito.
— O… o… o quê?!
Havia algo ali.
Era difícil de explicar, mas parecia me puxar em direção ao conflito.
Empurrei todos os medos e receios para os confins da mente e agarrei-me àquela sensação.
Corri em disparada pelos corredores.
Guiada como uma vela ao vento.
Desci as escadas.
O questionamento sobre como aquilo era possível ia ficar para depois.
Primeiro, precisava achar Arthur.
Não demorou muito para descobrir de onde vinha toda a gritaria.
Havia um amontoado de pessoas em volta da cozinha.
As crianças corriam de um lado para o outro, enquanto os adultos já haviam improvisado diversas armas.
Tia Sônia derramava lágrimas sem tirar os olhos da criatura.
Arrepiei até os ossos ao ver a fera. Seus olhos esmeralda eram suficientes para revelar sua identidade.
Velho Alberto não merecia aquilo.
Tampouco mereciam aqueles cobertos em feridas.
Como, por todos os diabos, minha mente estava tão calma?
Meu corpo reagia como era de se esperar: as pernas tremiam, a pele arrepiava e mal conseguia respirar direito.
Meus olhos, no entanto, observavam cada detalhe, na tentativa de compreender a totalidade da situação.
— Ah… ali está ele — sussurrei.
O idiota tentava se aproximar pelas costas do animal.
Como meu amigo pretendia nocautear um lobo gigante com uma espada de madeira estava além da minha compreensão.
O que estava dentro do meu entendimento eram as consequências de sua falha.
Ainda incapaz de respirar de forma apropriada, meu corpo se moveu de forma quase sobrenatural. Sem reduzir o passo, peguei uma faca com cabo de madeira na bancada da cozinha.
Arthur já ia tentar a sorte. Felizmente, recuou ao me ver saltar sobre a besta.
Com isso, a morte dele já não era o problema imediato.
Ótimo.
Agora a minha se aproximava em alta velocidade.
Por um momento, pensei ser o fim. Então uma veia de energia vermelha surgiu em meu peito. Ela subiu pelo ombro e desceu toda a extensão do braço.
Minha lâmina brilhou em vermelho.
Raios de energia começaram a surgir enquanto meu corpo se projetava para atacar.
A faca cravou na fera e deslizou como manteiga.
Os raios fluíram para fora do metal e cobriram seu pescoço. Eles ignoraram completamente a grossa camada de pelos.
Pude ver sua cabeça cair com a sutileza de um elefante.
Arthur amorteceu minha queda, se jogando para me alcançar.
Demoramos um momento para nos recompor do impacto. A adrenalina me abandonou com rapidez e minha mente estava um pouco entorpecida.
Respirei aliviada.
Enfim, meu corpo parecia responder como esperado.
Muitas dúvidas começaram a me rondar os pensamentos, agora que a pior parte havia passado.
Tinha acabado de matar uma pessoa.
Não só isso. Não era a primeira vez.
Como podia estar tão calma?
Bem, verdade seja dita, não estava exatamente calma. Meu peito arfava, e cada músculo e articulação do corpo doía.
Mas o fato de ter tirado uma vida não me incomodava.
Era quase como se fosse o natural a se fazer.
— Estranho… muito estranho… — comentei.
— Qual parte? — perguntou Arthur.
Ele tentou virar a cabeça para me olhar, mas como estava esticada em cima dele, foi um esforço vão, resultando em um pequeno gemido.
— Luísa… poderia, por favor, sair de cima de mim?
— Ah? — Minha mente pareceu voltar ao presente. — Ah! Claro. Me desculpe.
Ao se levantar, me encarou com a testa franzida.
— Aquilo foi magia, não foi?
Dei de ombros.
— Nunca estudei alquimia, mas o que mais poderia ser?
— Não tem mais nada a dizer?! — ele me lançou aquele olhar, desacreditado. — Não me entenda mal. Fico feliz com a rápida resolução da situação. Mas você parece inafetada.
Apontei o dedo indicador para ele.
— Isso! É isso!
Uma pequena fagulha de energia vermelha circulou meu dedo.
— Talvez seja por causa disso… — pensei em voz alta.
Ele franziu a testa. Parecia prestes a fazer algum comentário incisivo, mas sua linha de raciocínio foi interrompida por uma voz exasperada.
— Deuses… o que vocês fizeram?!
Tia Sônia encarava o corpo da fera em prantos.
Entre soluços, gritava e apontava o dedo.
— Fazem… vocês fazem ideia… de quem ele era?!
Arthur a encarou.
Por um momento, não disse nada. Apenas observou o lobo.
Seu olhar percorria o corpo de ponta a ponta, em busca de qualquer detalhe. Quando reparou na cor dos olhos, sua boca se contorceu e ele vomitou.
Nesse ritmo, ia terminar com a fama de cruel e insensível.
Fingir não ter ligado os fatos era uma opção. Não ganharia muito tempo com isso, mas, para minha sorte, não precisava.
Uma voz cheia de malícia cortou o momento.
— Então nos encontramos outra vez… aberração.
Todos começaram a girar a cabeça à procura da dona da voz.
Eventualmente, alguém apontou para o topo das escadas.
Lá estava ela.
Com as mesmas roupas daquela noite e com os mesmos olhos cor de fogo.
Senti um calafrio, mas foi só isso.
Agora tinha certeza, algo suprimia minhas emoções.
A bruxa olhou para mim.
— Demorou oito anos para recuperar aquilo que me tomou.
Havia ódio em cada palavra.
— Não acontecerá de novo.
Ela fez um gesto com as mãos e um círculo de fogo, repleto de padrões, surgiu aos meus pés.
Aquilo me pegou de surpresa.
Permaneci imóvel, incapaz de reagir.
Na tentativa de me salvar, Arthur se recompôs e correu em minha direção.
Seu esforço foi em vão.
Fomos envolvidos por um clarão.
No instante seguinte, só havia escuridão.

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