4: Encontro Inusitado
Foram apenas alguns segundos, mas me pareceram uma eternidade.
Tudo à minha volta era escuridão.
Então as trevas sem fim começaram a se rasgar, como se, na verdade, estivéssemos presos dentro de uma esfera de pano preto. Em poucos segundos, toda a escuridão havia se dispersado, revelando a paisagem ao nosso redor.
Estávamos em uma floresta, rodeados por mata densa e incontáveis árvores. Um lago se estendia rumo ao horizonte à minha direita, e, à minha esquerda, havia um largo paredão de pedra.
Arthur estava sentado de pernas cruzadas, com as costas escoradas no paredão.
Sua expressão era sombria.
Ele fazia um bom trabalho em manter a compostura, mas qualquer um poderia ver o quanto estava preocupado.
Eu provavelmente não seria capaz de aliviar sua tensão. Ainda assim, precisava tentar.
Sentei-me ao seu lado.
Coloquei a mão em seu ombro e comecei a pensar em formas de consolá-lo.
Então senti aquela estranha energia retornar ao meu coração e minguar.
Foi como se todas as emoções suprimidas nas últimas horas tivessem sido despejadas sobre mim de uma só vez.
Eu tremia.
E soluçava.
E chorava.
E lamentava.
— O que eu fiz… O que eu fiz… deuses, o que eu fiz?
Minha mente fez questão de repassar a decapitação do lobo.
Vomitei.
Ao meu lado, Arthur demonstrava grande preocupação, mas não sabia como agir.
Odiava ser vista por ele naquele estado.
Droga! Eu não precisava ser mais um problema em sua cabeça.
— Luísa… você tá bem?
— Eu pareço estar bem?! — gritei.
“Pare.”
— Me desculpe, eu não…
Ele recuou.
— Eu matei um homem Arthur! — gritei outra vez.
“Pare, não é culpa dele.”
Ele me olhou em choque.
— Eu matei um homem — repeti.
— E talvez tenha matado toda a minha família! — Gritei outra vez.
“Droga, por que estou descontando no meu amigo?!”
— Não… Eu não tô bem! — gritei em prantos.
Ele apenas me encarou. Boquiaberto.
— Então… essa é a sua reação normal a tudo aquilo?
Não respondi.
Não conseguia. Minha respiração estava pesada e eu não parava de chorar.
Meu amigo me segurou pelos braços e me ajudou a sentar, apoiando minhas costas na parede com delicadeza.
Ficamos ali por algum tempo, até me acalmar o suficiente para conseguir manter uma conversa.
— Me desculpe por agora há pouco.
— Não precisa se desculpar. Perguntar para uma mulher em prantos se ela estava bem não foi lá a minha melhor ideia.
Ele me deu uma piscada de olho.
Dei uma pequena risada.
— Céus, como você consegue me fazer rir numa situação dessas?!
— O que posso dizer? Sou seu melhor amigo por um motivo.
Um tímido sorriso se formou em meu rosto.
— É… acho que tem razão.
Nós nos levantamos devagar.
Pela posição do sol, já era quase meio-dia e não fazíamos ideia de onde estávamos. Levando em conta quem havia nos jogado ali, isso era um baita problema. Um a ser resolvido o quanto antes.
Arthur apontou para uma colina mais ao sul.
Era o ponto mais elevado nas proximidades.
A caminhada foi tranquila até a metade do caminho. Seguimos pela margem do lago e não encontramos nada além de peixes e pequenos animais. Contagiados pela tranquilidade do ambiente, começamos a conversar para aliviar a tensão.
— Luísa…
— Diga.
Ele coçou a nuca.
— Apenas estou curioso. Tanto você quanto aquela bruxa usaram magia… mas nenhuma de vocês tinha minerais, plantas, pergaminhos cheios de desenhos, poções ou mesmo cristais de mana. Como isso é possível?
Dei de ombros.
— E eu lá sei?
Coloquei a mão sobre o peito.
— Acho… Não, eu tenho certeza. Tem alguma coisa no meu coração. Por isso consigo usar magia.
Ele parou de forma abrupta.
— O-o quê?! — seus olhos se arregalaram. — No seu coração?
— Eu estou bem.
Ele franziu a testa.
— Tem certeza?
— Não — admiti. — Mas eu me sinto bem, fisicamente.
— Bem… — suspirou. — Já é alguma coisa.
— E quanto à bruxa? — continuou. — Seria o mesmo motivo?
Uma voz respondeu no meu lugar.
— Vocês dois não entendem nada sobre magia.
Começamos a olhar em todas as direções à procura da origem da voz.
— Outra voz vinda do além, é a terceira vez hoje! Ou você dá as caras, ou vamos ter um problema — gritei.
— Ei, ei… calma lá. Eu estou aqui em cima. Não precisa ameaçar me agredir!
Olhamos para cima ao mesmo tempo.
Chequei duas vezes para ter certeza, mas não estava vendo coisas.
Um garoto, com no máximo metade da nossa idade, estava esticado de modo preguiçoso sobre um galho. Um que não deveria aguentar seu peso.
— Como… — comecei a perguntar.
Ele pulou desajeitado da árvore e caiu graciosamente em pé.
— O nome é Merlin. Prazer em conhecê-los.
Eu tinha milhões de perguntas para fazer àquele moleque. Porém, Arthur foi mais rápido.
— Antes de qualquer coisa, tenho duas perguntas. Um: onde nós estamos? Dois: como assim nós não sabemos nada sobre magia?
O garoto levantou o polegar.
— Ok, em ordem, então. Primeiro, nós estamos na Grande Floresta que divide os reinos de Camelot e Watheria. Para ser mais específico, estamos próximos à fronteira de Watheria.
— C-como?! — gritou Arthur. — Nós estávamos no meio de Camelot até pouco tempo atrás. A magia pode mesmo fazer isso?
Merlin fez um gesto para ele esperar e retomou a palavra.
— Em segundo lugar, é como eu disse: vocês não entendem quase nada sobre magia. O esperado do povo de Camelot.
Ele abriu um largo sorriso.
— É melhor nos sentarmos. A explicação será longa.
De fato, a explicação foi longa.
Pelas palavras dele, há muito tempo, a magia existiu no próprio ar, muito diferente de hoje em dia. Agora ela existia apenas de forma cristalizada.
Naquele tempo, os estudiosos da magia eram chamados de magos.
Esses eram capazes de assimilar a magia do ambiente por meio de muito estudo e usá-la para se aprimorar. Segundo Merlin, alguns estudiosos acreditavam que certos magos teriam até movido montanhas com a própria mente.
Porém, um dia a magia simplesmente desapareceu do ar, e seguir o caminho dos antigos magos tornou-se impossível.
Então surgiram as bruxas.
Na esperança de abrir as portas para um poder há muito perdido, uma alquimista genial desenvolveu um círculo mágico nefasto. Um capaz de conceder a quem o utilizasse o poder de drenar a força vital de todos os seres vivos e convertê-la em magia.
Havia uma parte cômica nessa história.
Ela incluiu no ritual uma sequência de comandos para modificar sua aparência. Como ninguém conseguiu modificar essa parte, percorrer o caminho das trevas vinha com o bônus de “mudanças corporais”.
Por isso não existiam bruxos.
Quando Arthur escutou essa última parte, seu rosto se contorceu de forma cômica.
Tive de me segurar para não rir da cara dele.
— Ei — disse, em tom provocativo. — Qual o problema? Tenho certeza de que você ficaria bem bonita.
Ele balançou violentamente a cabeça.
— Nem pensar! Se esse é o preço a se pagar para atravessar um reino em segundos, prefiro viajar a pé!
Fingi indignação.
— Alguma coisa contra as mulheres, hein… Arthur?
— Não — ele olhou para baixo. — Mas eu… prefiro manter algumas coisas.
Sorri de modo malicioso.
— Ah… agora eu entendi!
Merlin bateu palmas, chamando mais uma vez nossa atenção.
— Por mais divertido que seja ouvir a provocação de vocês dois, estamos em uma das florestas mais perigosas do continente. Seria prudente falar mais baixo.
Arthur pareceu um pouco acuado com a declaração, mas ainda mantinha certo ceticismo.
— Não pode ser tão perigosa assim. Não encontramos nada até agora.
O garoto gesticulou um claro: “Vá em frente, mas depois não diga que não avisei.”
Por fim decidimos abaixar o tom de voz.
Arthur prosseguiu:
— Talvez seja melhor continuarmos a caminhar.
Olhou para mim.
— Voltar para Camelot não parece uma opção.
Assenti.
— Para Watheria, então. Se importa de vir conosco, Merlin? Ainda tenho algumas perguntas.
Ele balançou a cabeça em aprovação.
— Uma delas é sobre o tal poder no coração da sua amiga, presumo. Verdade seja dita, estou curioso a respeito.
Merlin tomou a frente do grupo e começou a nos guiar rumo à saída da floresta, sem interromper sua fala.
— Como disse, magos e bruxas podem usar magia para se aprimorar. Mas, até onde sei, o processo cria os chamados núcleos de mana. Esses ficam alojados em uma região próxima ao estômago. Não no coração.
— Bem, essa coisa, seja lá o que for, está no meu coração. Mas não se parece com um núcleo. É mais como se fosse… uma veia.
— Humm…
Merlin permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Enquanto isso Arthur resolveu comentar.
— Sabe de uma coisa? Isso quase faz sentido.
— Faz? — perguntei.
— Um núcleo no estômago e uma veia no coração. Parece até intencional.
— Provavelmente é — comentou Merlin — a magia tende a agir de forma coerente.
— Isso significa? — perguntei, outra vez.
— No seu caso? Não tenho certeza. Mas, se levarmos em conta as funções física e metafísica do coração… talvez seu poder tenha correlação com suas emoções.
— Ele com certeza tem! — exclamou Arthur. — Ela parecia outra pessoa.
— Humm…
Merlin permaneceu em silêncio mais uma vez, tomado por seus pensamentos.
Acelerei o passo até ficar lado a lado com ele.
— O que foi?
— Creio estar esquecendo de algo…
Arthur cruzou os braços.
— Tenho ignorado isso até agora, mas você não fala como uma criança.
— É verdade — comentei.
— Ah… sobre isso…
Antes dele concluir a frase, uma poderosa ventania nos jogou para trás.
Então ouvimos um grasnado tão alto que mais parecia um grito de guerra.

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