FATAL OVERWRITE
O som do Lollapalooza 2017 era ensurdecedor. O chão do Autódromo de Interlagos tremia sob os pés de milhares de pessoas, e a energia da multidão era quase palpável. Ao lado de Kimichi, Emma pulava no ritmo da música, com os olhos brilhando refletindo as luzes do palco principal, enquanto Toiba gravava um vídeo no celular, rindo de alguma piada interna. Tudo parecia perfeito. O ápice das férias deles no Brasil. O suor do público dominava o odor do local.
Foi quando Kimichi sentiu uma pontada em sua cabeça.
Não era uma dor de cabeça comum. Foi um estalo seco, como se uma agulha fria atravessasse sua têmpora. Ele cambaleou para o lado, esbarrando em um desconhecido.
— Ei, cara, tudo bem? — Toiba perguntou, abaixando o celular e segurando o ombro do amigo.
Kimichi tentou responder, mas a voz não saiu, apenas alguns grunhidos. O som do festival começou a se distanciar, distorcendo-se como um vinil arranhado. As luzes estroboscópicas do palco pareceram congelar no ar. O ar ficou pesado, difícil de respirar, carregado com um cheiro forte de queimado que ninguém mais parecia notar.
Então, a realidade ao redor dele simplesmente quebrou.
Em um piscar de olhos, o show desapareceu. Kimichi não estava mais vendo a multidão pular. Ele via o mesmo cenário, mas tomado pelo pânico. O painel eletrônico que controlava os efeitos visuais na lateral do palco começou a soltar faíscas azuis. Na visão dele, um cabo de alta tensão se desprendia da estrutura metálica superior, caindo exatamente sobre os dutos de gás que alimentavam o sistema de pirotecnia.
O relógio digital no topo do palco travou exatamente em 21:43:02.
O que se seguiu na mente de Kimichi foi uma sequência rápida e aterradora de causalidades acompanhada com o superaquecimento, a falha no disjuntor de segurança que deveria cortar a energia, a faísca encontrando o gás inflamável. Uma explosão em cadeia. O fogo se alastrando pela estrutura metálica, que cedia sobre a pista de dança. Gritos da multidão. Milhares de pessoas aterradas nas chamas enquanto algumas corriam desesperadas.
— Kimichi! levanta! — A voz de Emma ecoou pela cabeça dele.
Ele olhou aos olhos dela e a viu lacrimejando com o rosto ensanguentado. Um pouco ao fundo percebeu Toiba caído ao chão soterrado por placas de metal. Emma agarrou aos braços de Kimichi enquanto cedia em seu peito.
— Vamos sair daqui, o Toiba morreu! Por favor Kimichi vamos! — gritou enquanto soluçava.
Kimichi ainda estava tentando entender o caos quando uma pessoa esbarrou neles. — Sai do caminho — correu desesperado até ser atingido por uma onda de fogos de artifício.
Kimichi respirava ofegante e alto, mas não conseguia dizer nada. Foi quando ele agarrou a mão de Emma e a puxou com força para onde toda a multidão estava correndo. A saída ficava longe das barricadas. Os dois tropeçaram e Emma não parava de chorar e gritar de medo.
Foi quando um rapaz saiu do meio da multidão e veio em direção contrária sendo segurado por dois seguranças.
— Minha filha! Minha filha tá lá! Deixem eu pegar a minha filha! — gritava o homem com o rosto vermelho.
Kimichi parou de correr e olhou para trás vendo a figura de uma menina pequena em meio aos escombros e as chamas chorando sem saber para onde ir. Ele pegou Emma e a empurrou para frente. — Vai correndo, eu encontro você na saída.
— Espera, Kimichi! — Gritou, mas a voz não chegou aos ouvidos dele.
O garoto correu com pressa, esbarrando nos corpos caídos no chão. Ele chegou perto da garota o suficiente para pegá-lá no colo. Ele colocou ela em seus braços e a segurou como se fosse um bebe. Ele se virou e correu até a saída. Atrás dele, o que antes era um palco começou a ceder. O garoto parou e viu um corpo soterrado com o braço estendido.
O olhar do homem embaixo de outros três corpos o assustou, mas ele ainda estava vivo.
Ele soltou a garota e limpou seus olhos. — Escuta, corra em linha reta o mais rápido possível, seu pai vai estar te esperando ok?
A garota assentiu com a cabeça e começou a correr. Kimichi virou os olhos para o rapaz caído. — Me ajuda garoto, por favor, eu não quero morrer aqui.
— Você vai ficar bem, eu vou tirar você daqui — falou tirando os corpos de cima, — só deixa eu tirar esse peso de cima de você. Ao tirar o último corpo ele viu a barriga do homem com uma queimadura que parecia ser de terceiro grau.
Ele segurou a vontade de vomitar e levantou o homem. — Vamos, é só ir em linha reta.
Mas em um momento importuno, uma das vigas sustentada por alguns cabos de aço se rompeu. O cabo se lançou rapidamente na direção dos dois, antes que Kimichi pudesse ter alguma reação, o garoto piscou voluntariamente, com os olhos arregalados, o suor frio escorreu pela sua testa. Ele colocou a mão sobre seu pescoço com força. Olhou para o lado: Emma e Toiba ainda estavam ali, intactos. Ele olhou para o relógio do palco. Faltavam exatamente dois minutos para as nove e quarenta e duas. O tempo estava correndo.
Ele estava inquieto e com uma tremedeira forte, Emma percebendo agarrou sua mão. — Aconteceu alguma coisa Kimichi?
Ele engoliu seco antes de responder, mordendo seus beiços. — E-e-eu acho que uma coisa vai acontecer aqui Emma — Ele falou para ela, sua pupila estava tremulando.
— Q-que como assim? — Ela sorriu, — Claro que vai acontecer, no fim dessa música eles vão soltar os fogos.
Ele soltou sua mão e a agarrou com as duas em seus braços, olhando mais fundo em seus olhos. — Eu to falando sério Emma — Apontou para o palco. — Vai dar algum problema com os fogos e todo o palco vai desabar. Todo mundo vai morrer! — falou no final com um tom mais alto.
Toiba apertou o ombro de Kimichi, — Cara, fica calmo, erros assim acontecem, mas não desse nível.
Kimichi se soltou dos dois olhando para um e para o outro. — Eu não posso deixar isso acontecer, olhem o relógio, falta menos de um minuto.
Kimichi correu em meio a multidão. Emma tentou interferir, mas Toiba negou. — Ele deve só ter fumado um, sabe como ele é.
Kimichi empurrava e passava entre as pessoas de olho no relógio no telão. Faltavam vinte segundos. O garoto chegou nas grades próximo ao palco e pulou. Os seguranças correram para intervir.
Kimichi correu mexendo os braços gritando — Não soltem os fogos, não soltem os fogos!
Um dos seguranças o segurou jogando-o ao chão mas ele resistiu gritando. — Não aperta o botão dos fogos, ou todo mundo vai morrer!
O rapaz que cuidava da pirotecnia olhou para o lado bem na hora em que iria apertar o botão. Eram 21:43:02 e continuando, mas nada aconteceu, apenas um leve estouro na caixa de baterias. Kimichi foi retirado às pressas pelos seguranças até a saída do palco.
Ele viu em meio a multidão Toiba e Emma, assustados com o ocorrido.
No dia seguinte, Kimichi, Emma e Toiba estavam no aeroporto, prontos para pegar a sua passagem de volta para o Japão. Porém ainda tensos com os acontecimentos do dia anterior.
A enxaqueca ainda latejava, mas a certeza em sua mente era absoluta. Aquilo era real demais para ser um sonho.
Já dentro do avião o zumbido constante das turbinas criava uma atmosfera isolada do resto do mundo. Cruzando o oceano de volta para o Japão, a cabine escura forçava a maioria dos passageiros a dormir, mas Kimichi permanecia acordado. A tela do seu celular era a única fonte de luz em seu rosto enquanto ele navegava mecanicamente por fóruns e portais de notícias internacionais, usando o Wi-Fi do voo.
Seus dedos congelaram na tela ao avistar uma manchete de um jornal local da Europa Oriental, traduzida automaticamente pelo navegador:
“Tragédia incomum na Rússia: Jovem de 17 anos é atingido por descarga elétrica isolada em tarde de céu limpo.”
A reportagem era curta e direta. Testemunhas afirmavam que não havia nuvens de chuva ou tempestades na região; foi um evento único e isolado que os meteorologistas locais não conseguiam explicar de imediato, tratando o caso como uma anomalia matemática de probabilidade.
Kimichi piscou, sentindo um leve calafrio na espinha. Ele olhou para o lado: Toiba estava capotado com o protetor de pescoço, e Emma ouvia música de olhos fechados.
“É só uma coincidência bizarra”, pensou Kimichi, tentando acalmar o próprio peito que insistia em bater mais rápido. “O mundo é grande demais. Coisas estranhas acontecem o tempo todo.”
Sentindo o peso do cansaço e da enxaqueca que ainda ameaçava voltar, ele bloqueou a tela do celular, guardou o aparelho no bolso do assento à frente e fechou os olhos, tentando forçar o próprio corpo a pegar no sono e esquecer a sensação estranha de que algo na engrenagem do mundo havia saído do lugar.
Após algumas longas horas de viagem, o trio finalmente chegou ao seu destino no aeroporto de Narita em Tóquio. O ar úmido e a calmaria do Aeroporto Internacional de Narita traziam uma sensação familiar de retorno à rotina. Kimichi, Emma e Toiba caminhavam pelo saguão de desembarque arrastando suas malas, ainda um pouco grogues pelas longas horas de voo. Toiba bocejava alto, esticando os braços, ansioso para chegar em casa e descansar direito.
Emma estava com uma jaqueta corta vento preta com um cabelo levemente bagunçado junto a uma franja, carregando a alça de sua mala de rodinhas. Toiba estava junto com uma calça de moletom e uma camisa larga branca com apenas uma mochila e um boné. Kimichi vestia um moletom preto um pouco maior que o convencional junto a uma calça jeans.
O silêncio do trio foi quebrado pelo som agudo de uma notificação no celular de Emma. Ela puxou o aparelho do bolso da jaqueta, desbloqueou a tela e parou de caminhar abruptamente no meio do corredor.
— Ei, vocês dois, olhem isso aqui — disse Emma, a voz séria e o cenho franzido enquanto os rapazes paravam e se viravam para ela. — Acabou de sair nos canais de notícias. Uma passarela de concreto novinha em uma arena esportiva em Toronto cedeu de repente.
— Mas como? Erro de cálculo na obra? — perguntou Toiba, aproximando-se.
— Não, a estrutura passou por testes rigorosos na semana passada — explicou Emma, mostrando a tela. — O relatório diz que uma vibração de frequência exata causada pelo vento forte da manhã coincidiu perfeitamente com a ressonância do material. Foi um alinhamento físico milimétrico que estraçalhou a base. A notícia confirma que cinco pessoas que passavam por ali foram atingidas pelo colapso. E pelo menos três dela infelizmente vieram a óbito.
Kimichi sentiu o estômago revirar. O que assustava não era apenas o estrago, mas a precisão matemática com que o universo parecia estar criando essas falhas de probabilidade.
— Isso está muito estranho… — murmurou Kimichi.
— Emma desliga isso, vai prejudicar sua cabeça lendo essas notícias ruins — Falou Toiba indo em direção a saída. — Não vai ficar lelé da cabeça que nem o Kimichi — debochou rindo.
— Muito engraçado Toiba, queria ver se fosse com você — respondeu impaciente.
— A única coisa que eu quero que aconteça comigo agora é que uma cama caia do céu só pra mim dormir bem tranquilo.
Emma se aproximou de Kimichi, — Não dá bola, você sabe que o Toiba é debochado desde criança.
— Eu sei, mas acho que isso não é motivo de zoação. O que eu vi foi muito real Emma, eu juro pra você — Explicou apertando a mão contra seu peito. — Eu me senti no meio daquele caos.
Emma suspirou, — Podemos falar sobre isso com mais calma quando cada um estiver em casa ok? — Caminhou para a saída.
Ao saírem do Aeroporto, o ar úmido e o céu cinzento mostravam um dia de garoa e chuva fraca. Toiba estava na calçada perto do meio fio, fazendo sinal para um taxista. As ruas estavam movimentadas com ônibus de translado e carros congestionados pelo tráfego.
— Se cuidem galera, vejo vocês no final de semana de novo — despediu Toiba entrando em um táxi.
— Valeu Toiba, se cuida, manda mensagem quando chegar em casa — despediu Emma.
Kimichi pegou seu telefone e mandou mensagem para sua mãe vir buscá-lo enquanto Emma avistava seu pai já esperando no outro lado da rua. — Tchau Kimichi, a gente se fala pelo telefone.
Kimichi vermelho respondeu, — A, sim. Até logo Emma — sorriu.
Na noite seguinte ao desembarque, o silêncio do quarto de Kimichi era quebrado apenas pelo som das notificações do celular. Ele estava sentado na escrivaninha apenas de calção e chinelo, com a cabeça apoiada nas mãos, encarando a tela do aparelho. O cansaço do fuso horário era pesado, mas a mente não parava.
Ele abriu o aplicativo de mensagens e criou um grupo apenas com os três.
[Grupo: Sem Nome] Kimichi: Vocês estão acordados? Preciso falar sério sobre o que aconteceu no Brasil. Agora que a poeira baixou.
Não demorou dois minutos para os balões de resposta subirem.
Emma: Estou acordada. Não consegui dormir pensando naquelas notícias de Toronto que vimos no aeroporto.
Toiba: Fala aí. Eu estava quase capotando. Ainda achando que você viajou forte no festival kkkk
Kimichi respirou fundo e começou a digitar, medindo cada palavra para tentar parecer o mais lógico possível, embora a situação parecesse absurda.
Kimichi: Toiba, eu sei que parece piada, mas não foi alucinação. Quando a dor de cabeça me deu aquele estalo, eu não apaguei. Eu vi o palco desabar em tempo real. Vi o relógio travar às 21:43:02. Senti o cheiro do queimado antes mesmo do painel falhar.
Kimichi: Se eu não tivesse pulado a grade e berrado para o técnico não apertar o botão, o curto-circuito teria acendido o gás da pirotecnia. O que aconteceu na caixa de baterias que o segurança viu foi só o resto do curto que eu previ.
A tela ficou estática por um tempo. O indicador de “digitando” de Emma aparecia e sumia.
Emma: Kimichi, eu passei a tarde analisando os relatórios técnicos daquela passarela de Toronto que cedeu. A chance da ressonância do vento destruir o concreto daquele jeito era de uma em milhões. É uma coincidência matemática muito bizarra para acontecer logo depois do que você fez.
Toiba: Peraí, vocês estão me assustando. Kimichi, você tá dizendo que salvou a gente de verdade? E o que Toronto tem a ver com isso?
Kimichi: Eu acho que o mundo tem um equilíbrio, Toiba. Nós quebramos a linha do tempo que deveria ter acontecido lá em Interlagos. O que eu temo é que o universo esteja tentando corrigir esse desvio de alguma forma, gerando essas falhas bizarras pelo mundo para compensar o que foi evitado.
Houve uma pausa longa antes da próxima resposta.
Toiba: Cara… isso é pesado demais. Eu não sei o que dizer. Minha mãe até comentou hoje cedo que sentiu uma tontura estranha do nada, mas acho que é só o estresse de eu ter viajado. Vocês estão me deixando paranoico.
Kimichi encarou a última mensagem de Toiba. O estômago dele voltou a embrulhar, a mesma sensação de aviso que sentira antes do festival.
Kimichi: Não é só Toronto ou a Rússia. Eu continuei pesquisando em fóruns de engenharia agora há pouco. Teve outro caso bizarro hoje em um prédio em construção de cinquenta andares em Frankfurt.
Emma: O que aconteceu lá?
Kimichi: Uma das gruas de carga de alta tonelagem simplesmente despencou lá do topo. O relatório preliminar diz que o cabo de aço principal não tinha nenhum desgaste mecânico. O sistema de freios eletrônicos sofreu uma oscilação de energia microscópica na placa-mãe exatamente no mesmo milissegundo em que os sensores de peso travaram.
Kimichi: Os engenheiros disseram na entrevista que a chance de todos esses fatores acontecerem ao mesmo tempo é praticamente nula. É como se a física estivesse quebrando em pontos isolados.
Toiba: Mano, para com isso. Vocês estão pegando casos isolados pelo mundo e tentando conectar com o que houve no show. Isso é paranoia, sério.
Emma: Toiba, três anomalias matemáticas absurdas em menos de quarenta e oito horas não é paranoia. O Kimichi pode estar certo. A probabilidade está agindo de forma hostil. E além do mais, em todas essas notícias, existe pelo menos alguém que morreu.
Kimichi: E pelo que eu andava vendo, em Toronto os outros dois que estavam gravemente feridos, morreram hoje cedo. E se somar as mortes destes três casos, já são oito mortes. Chega a ser assustador ver as imagens do caso de Frankurt, era uma mãe e uma menina. Os corpos delas ficaram irreconhecíveis.
Toiba: Para de falar isso cara, não to afim de saber como o corpo dessa galera ficou.
Emma apareceu digitando novamente.
Emma: E se… apenas uma teoria da conspiração… e se o Kimichi adquiriu um super poder? sabe, de ver o futuro.
Kimichi sem entender respondeu.
Kimichi: Nada haver, não é como se fosse fácil assim. Seria mais uma maldição do que um poder realmente.
Toiba ficou offline.
Emma: Eu vou procurar mais casos que possam parecer estranhos, qualquer coisa mando aqui para a gente ver e discutir. Vou dormir agora, to com muito sono, tive que levar a Mia no veterinário e demorou mais do que eu esperava.
Kimichi: Mas no fim deu tudo certo? sinto saudades de ouvir a Mia ronronar.
Emma: Sim… no fim ela vai ter que comer ração com uns remédios. Enfim, boa noite.
Emma ficou offline.
Kimichi também desligou seu telefone e colocou as mãos em sua cabeça passando pelos seus cabelos, respirando forte.
“Acho que eu deveria ir dormir logo.”
Ele saiu de sua cadeira e deitou-se em sua cama macia, puxando duas cobertas consigo. A chuva lá fora estava confortando sua cabeça que estava a milhão naquele momento. Não demorou mais que cinco minutos para ele dormir.
Porém, ele começou a escutar o som de metal retorcido. Vinha de dentro de sua própria caixa craniana.
De repente, Kimichi não estava mais em seu quarto. O cheiro de desinfetante e a garoa de Tóquio desapareceram, substituídos instantaneamente pelo calor sufocante, pelo odor de
suor da multidão e pelo som ensurdecedor do Lollapalooza.
Ele estava de volta ao exato momento do colapso.
Desta vez, era um sonho lúcido, nítido e real demais. Kimichi percebeu que estava consciente ali dentro, mas, ao tentar correr para mudar o que acontecia, seu corpo simplesmente não respondeu. Ele tentou dar um passo em direção à garotinha no meio das chamas, tentou empurrar as estruturas ou gritar, mas não conseguia alterar absolutamente nada. A única coisa que conseguia fazer era ficar parado, completamente estático, como um fantasma assistindo à fita do caos se repetir sem poder interferir em um único milissegundo do que já tinha acontecido. Ele era apenas uma testemunha ocular presa no próprio passado.
— Kimichi! — a voz de Emma ecoou de algum lugar distante, abafada como se estivesse sob a água.
Com um estalo seco na mente, a realidade quebrou novamente.
Kimichi deu um solavanco na cama, sentando-se abruptamente no colchão. O lençol estava colado ao seu corpo pelo suor frio e seu coração batia violentamente contra as costelas. Ele olhou ao redor, tateando o escuro até focar no relógio digital azul em cima da escrivaninha: 04:14.
A garoa do lado de fora batia de leve contra o vidro da janela. Ele levou a mão ao peito, e respirou de forma ofegante, sentindo os beiços ressecados. Aquilo não era uma evolução e nem um superpoder que dava controle; era o que parecia uma reprise.
— puta merda, parecia tão real — falou pra si mesmo.
Kimichi se deitou novamente, virado ao lado da parede ele apertou mais forte ainda seu travesseiro.
A luz cinzenta da manhã de Tóquio mal conseguia vencer as cortinas do quarto quando o celular de Kimichi começou a vibrar freneticamente sobre a escrivaninha. Ele nem sequer tinha conseguido pregar o olho novamente após o pesadelo. Com as olheiras profundas e o corpo pesado pelo fuso horário, ele esticou o braço e atendeu sem olhar o visor.
— Kimichi? Cara, acorda! — A voz de Toiba veio pelo alto-falante, mas não tinha o deboche de sempre. Estava acelerada, trêmula.
— Toiba? O que foi? Aconteceu alguma coisa com a sua mãe? — Kimichi sentou-se na cama, o estômago afundando instantaneamente.
— Não, ela está bem, está dormindo… mas liga a televisão ou abre qualquer portal de notícias agora. Teve mais um. Outro acontecimento bizarro, igualzinho aos que você e a Emma estavam falando ontem à noite!
Kimichi pegou o controle remoto e ligou a TV no mudo, enquanto abria o navegador do celular com a outra mão.
— O que houve? — perguntou, com o coração acelerado.
— Dois helicópteros na Irlanda se chocaram. Foi bizarro, ninguém conseguiu entender. Tem um vídeo circulando na internet, os dois helicópteros estavam normais, quando do nada um deles avança no outro como se tivesse perdido o controle.
Toiba deu uma pausa, respirando fundo do outro lado da linha. O silêncio durou alguns segundos até ele continuar, a voz quase sumindo.
— Cara… eu lembrei. Quando eu ouvi a notícia, me deu uma luz na mente. Eu lembrei do que você falou no grupo sobre o tempo estar tentando corrigir o desvio de Interlagos. Não dá mais para ignorar isso. O que a gente faz agora?
Kimichi olhou para a tela do celular, onde a manchete internacional confirmava o assunto. O suor frio do pesadelo parecia ter voltado.
— Eu vou ligar para a Emma — falou Kimichi, a voz firme apesar do medo. — Precisamos nos encontrar pessoalmente hoje. Agora mesmo.
Uma hora depois, o céu continuava encoberto por uma névoa fina. Kimichi caminhava em direção ao colégio com as mãos afundadas nos bolsos do moletom, os passos lentos refletindo o cansaço. A calçada cinzenta estava úmida por causa da garoa da madrugada.
Ao longe, perto do grande portão de ferro que ainda estava fechado, ele avistou a silhueta familiar de Emma. Ela usava o uniforme padrão, mas mantinha a jaqueta corta-vento preta por cima para se proteger do vento frio da manhã. Ela estava de braços cruzados, chutando de leve uma pedrinha no chão, claramente aérea e pensativa.
Quando Kimichi se aproximou, ela ergueu os olhos e o encarou com uma expressão séria.
— O Toiba te ligou também, não foi? — perguntou Emma, direto ao ponto, assim que ele parou ao seu lado.
Kimichi assentiu e antes que ele pudesse responder, o som de passos apressados ecoou pela calçada úmida. Toiba vinha correndo na direção deles, com a mochila balançando nas costas e o boné ligeiramente torto na cabeça. Ele parou arquejando, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego, seu rosto estava tenso sob a luz cinzenta da manhã.
— Eu vim… o mais rápido que pude — falou Toiba, limpando o suor da testa com a manga do moletom. — Minha mãe ainda estava dormindo quando saí, o remédio deixou ela bem apagada. Mas eu não consegui ficar em casa.
Emma olhou de Toiba para Kimichi, com os braços ainda cruzados contra o vento frio. O portão de ferro do colégio continuava fechado, e os poucos estudantes que chegavam mais cedo começavam a se aproximar ao fundo, conversando baixo.
Kimichi olhou para os dois amigos, sentindo o peso do pesadelo da madrugada voltar a latejar em suas têmporas. Ele ajeitou a alça da mochila e deu um passo à frente, baixando o tom de voz para que mais ninguém ao redor ouvisse.
— O caso da Irlanda só confirma o que eu senti essa noite — começou Kimichi, com os olhos fixos nos dois. — Eu tive um pesadelo hoje, às quatro da manhã. Mas não foi um sonho comum. Eu estava de volta ao Lollapalooza, exatamente no meio do fogo. Só que, dessa vez, eu estava totalmente consciente de que era um sonho. Eu tentei correr, tentei avisar as pessoas de novo, tentei salvar aquela garotinha… mas meu corpo simplesmente não se mexia. Eu fiquei completamente travado, assistindo a tudo se repetir sem poder mudar um único segundo.
Emma franziu o cenho, absorvendo a informação com os olhos semicerrados, enquanto Toiba apenas escutava, visivelmente desconfortável com o rumo que a história estava tomando.
— Eu não acho que o que aconteceu comigo no festival foi um superpoder ou algo que eu possa controlar — continuou Kimichi, engolindo em seco. — Parece que é uma maldição. E-eu não entendo, qual a probabilidade disso acontecer, ainda mais comigo?
Emma olhou para ele, o cenho franzido enquanto segurava firme a alça da mochila. Ela parecia processar as palavras de Kimichi com o rigor tentando buscar alguma lógica.
— Se considerarmos o que aconteceu no festival como o ponto de origem, a probabilidade não faz sentido porque a causalidade foi corrompida, Kimichi — explicou ela, baixando o tom de voz. — Não há uma explicação matemática simples para o porquê de ter sido você. Mas os eventos estão acontecendo. Toronto, Frankfurt, e na Irlanda… São pontos aleatórios no mapa, mas todos com uma precisão cirúrgica de falhas.
Toiba, que até então apenas ouvia olhando para os lados, visivelmente desconfortável com o rumo sombrio da conversa, tirou as mãos dos bolsos da calça de moletom e deu um leve tapinha no ombro de Kimichi.
— Cara, se for uma maldição ou uma falha bizarra no mundo, a gente vai ter que descobrir o que está acontecendo juntos — explicou, tentando forçar um tom mais leve, embora seus olhos mostrassem a mesma preocupação. — O que importa é que estamos aqui. Mas, sério… como a gente lida com algo que parece estar perseguindo o mundo inteiro?
Antes que Kimichi pudesse responder, o som agudo e estridente do sinal do colégio ecoou pelo pátio, cortando o ar frio da manhã. As grandes portas de ferro começaram a se abrir lentamente, e o fluxo de alunos conversando alto começou a se mover para dentro do prédio, quebrando o isolamento do trio.
Emma guardou o celular e olhou profundamente para os dois.
— Não dá para continuar essa conversa aqui fora com todo mundo chegando. Vamos entrar. No intervalo, nos encontramos na biblioteca, onde é mais calmo. Eu quero revisar as notícias com mais atenção. Precisamos entender o tamanho disso.
Kimichi apenas assentiu, sentindo uma pontada leve na têmpora indicar que a enxaqueca ainda rondava seus pensamentos. O sinal continuava a tocar, empurrando-os para a rotina cinzenta do colégio.
O clima parecia leve, a manhã com garoa leve se transformou e Kimichi que sentava ao lado da janela ignorava as explicações de seu professor. Viajando nas nuvens olhando as gotas de chuva enquanto também dava uma leve espiada em seu telefone que estava ao lado de seu caderno.
O som estridente do sinal do colégio ecoou pelos alto-falantes da sala de aula, cortando o silêncio e interrompendo a explicação do professor. O burburinho dos alunos arrastando as cadeiras e guardando o material começou instantaneamente, quebrando o transe de Kimichi.
Ele guardou o celular no bolso da calça, fechou o caderno ainda em branco e pegou sua mochila. Duas fileiras à frente, Emma já estava de pé, ajustando a alça de sua bolsa e olhando em sua direção com um aceno sutil de cabeça. No fundo da sala, Toiba deu um salto, piscando os olhos pesados de sono e tentando entender se a aula finalmente tinha acabado.
Os três se alinharam no corredor movimentado, caminhando em silêncio contra o fluxo dos outros alunos que seguiam em direção ao pátio. O destino deles era a biblioteca, no final do segundo andar, o único lugar calmo o suficiente para tentarem entender o que estava acontecendo.
O corredor do segundo andar ia ficando mais silencioso à medida que eles se aproximavam da biblioteca. Ao empurrarem a pesada porta de madeira, o cheiro de papel antigo e o estofado das poltronas os acolheram. A biblioteca estava praticamente vazia, iluminada apenas pela luz difusa que vinha das grandes janelas de vidro que davam para o pátio interno.
Emma liderou o caminho até uma mesa redonda nos fundos, cercada pelas estantes de literatura estrangeira — um ponto cego longe do balcão da inspetora.
Toiba puxou uma cadeira de metal, que soltou um rangido incômodo no chão de linóleo, fazendo-o encolher os ombros. Ele jogou a mochila no chão e se sentou, passando a mão pelo rosto para espantar o resto de sono.
— Beleza — falou Toiba em um sussurro tenso, inclinando-se para a frente. — Estamos aqui. O que a gente faz agora? Vai ficar caçando tragédia na internet até achar outra?
Emma não respondeu de imediato. Ela colocou sua mochila sobre a mesa, abriu o zíper e puxou o celular, junto com um pequeno caderno de notas espiral de capa preta. Ela desbloqueou a tela e deslizou os dedos pelas abas abertas no navegador.
— Eu passei o início da aula pesquisando mais algumas catastrofes só pra ver se realmente elas faziam algum sentido e… olha o que eu encontrei — falou Emma, mantendo a voz baixa, quase um fio. — Garoto que andava perto do acostamento de uma rodovia é atingido em cheio por um pneu que se soltou de uma carreta, no Brasil.
Kimichi, que estava sentado quieto olhando para o caderno dela, semicerrou os olhos. — O que?
— E tem mais — Emma falou, olhando fixamente para Kimichi. — Motoqueiro na Rússia enquanto andava nas ruas de Moscou é simplesmente atingido por uma bala perdida do que parece ser de calibre .300. Porém o barulho do tiro foi sentido próximo a outras pessoas, como se simplesmente um tiro tivesse aparecido do nada, isso é o mais estranho. São até o momento quatro localizações:. Rússia, Toronto, Brasil e Frankurt.
Ela abriu o caderno em uma página limpa e desenhou quatro pontos rápidos com a caneta esferográfica.
— Não há uma resolução para isso, Kimichi. Não há um vírus para deletar, não há um padrão geográfico ou uma linha de falha tectônica. A física e a probabilidade de todo o planeta parecem estar… instáveis.
Kimichi sentiu um arrepio gélido subir pela espinha. Ele olhou para os quatro pontos no caderno de Emma, sentindo a mesma pressão na cabeça que precedeu seu sonho lúcido na madrugada. A sensação de impotência era esmagadora.
— E o pior — murmurou Kimichi, a voz falhou levemente enquanto olhava para as próprias mãos sobre a mesa. — É que no meu sonho hoje eu percebi que estou completamente preso a isso. Eu posso ver, posso estar lá consciente, mas eu não consigo mudar nada. Eu sou só uma testemunha de um erro que eu mesmo causei. Se a probabilidade está agindo assim… o que vai acontecer quando ela chegar perto da gente?
Toiba engoliu em seco, olhando de Kimichi para o caderno de Emma, o tom de brincadeira sumiu por completo de suas feições. O silêncio da biblioteca de repente pareceu pesado demais.
O som metálico do celular de Toiba vibrando contra a madeira da mesa redonda pareceu cortar o ar abafado da biblioteca. Emma, que estava com a caneta esferográfica posicionada sobre o caderno preto, congelou o movimento da mão. Kimichi ergueu os olhos lentamente, acompanhando o reflexo da luz azul da tela que iluminava o rosto empalidecido de Toiba.
Toiba deslizou o dedo de forma trêmula para desbloquear o aparelho. A mensagem de texto na tela borrada pelo suor de suas mãos era curta, vinda de seu pai.
Pai: “Toiba, sua mãe teve que vir para o hospital. Venha direto pra cá.”
O rapaz engoliu em seco, sentindo a boca completamente seca. O habitual tom de brincadeira que ele usava como escudo desmoronou instantaneamente. Ele empurrou o celular para o meio da mesa, como se o aparelho fosse um objeto cortante.
— Minha mãe… — murmurou Toiba, com a voz quase sumindo no teto alto da biblioteca. — Pessoal, eu preciso ir agora, podemos discutir isso no nosso grupo. Até amanhã.
Toiba agarrou seu celular e colocou em seu bolso enquanto ajeitava a mochila em suas costas. Saindo com pressa acabou esbarrando em algumas prateleiras antes de sair da biblioteca.
Emma e Kimichi ficaram sem entender, mas não contestaram. — É, acho melhor voltarmos para a sala mesmo. Pelo que parece o professor vai passar um trabalho em grupo hoje — falou Kimichi.
Emma concordou guardando seus materiais. — Não estou muito preocupada com as aulas do Tomioka, as provas dele são muito fáceis.
Os dois depois de dias tiveram uma conversa descontraída até o caminho para a sala de aula. A chuva parecia mais forte.
Os dois entraram na sala de aula bem no momento em que o professor Tomioka começou a organizar os papéis sobre a mesa. O som da chuva forte agora batia com força contra as janelas de vidro, abafando o barulho dos outros alunos que conversavam nas fileiras da frente.
Kimichi e Emma se sentaram em suas respectivas cadeiras. Sem a presença de Toiba, o espaço entre eles parecia maior, e a breve conversa descontraída que tiveram no corredor foi dando lugar novamente àquela sensação de expectativa incômoda.
— Muito bem, pessoal, silêncio por favor — anunciou o professor Tomioka, pigarreando enquanto batia de leve com o giz no quadro. — Como eu havia avisado na semana passada, hoje vamos dar início às diretrizes para o trabalho em grupo do bimestre. Quero equipes de três a quatro pessoas.
Kimichi olhou imediatamente na direção de Emma, que apenas assentiu com a cabeça, apontando discretamente para a carteira vazia de Toiba. O plano era óbvio: colocariam o nome do amigo no grupo para garantir que ele não ficasse de fora devido à emergência familiar.
O restante do período correu sem grandes novidades, com os alunos se movimentando pela sala para definir os temas. Kimichi esforçou-se para manter o foco nas anotações de biologia, mas seus olhos insistiam em se desviar para a janela salpicada de água. O céu de Tóquio estava tão escuro que as luzes fluorescentes da sala precisaram ficar acesas ao máximo.
Ao final do dia, após o sinal da saída ecoar pelos corredores, Kimichi e Emma caminharam juntos até o portão principal do colégio, dividindo o espaço sob os guarda-chuvas com os outros estudantes.
— Você acha que o Toiba vai mandar notícias hoje? — perguntou Kimichi, ajeitando a alça da mochila molhada.
— Duvido muito — respondeu Emma, olhando para a rua movimentada onde os carros passavam devagar por causa do acúmulo de água no asfalto. — O melhor que podemos fazer é dar espaço para ele. Qualquer coisa, nos falamos pelo aplicativo. Se cuida, Kimichi.
— Você também, Emma. Até amanhã.
Eles seguiram caminhos opostos na estação de metrô. Ao chegar em casa, Kimichi tirou os sapatos úmidos, tomou um banho quente e tentou relaxar na escrivaninha de seu quarto. A enxaqueca, que havia dado uma trégua durante a tarde, começou a se manifestar novamente como um leve pulsar atrás da testa.
Ele pegou o celular para verificar o grupo. Nenhuma atualização de Toiba. O status do amigo mostrava que ele não entrava no aplicativo desde o momento em que saiu da biblioteca.
Sentindo um misto de tédio e inquietação, Kimichi sentou-se na escrivaninha de seu quarto e abriu o notebook. A frustração com o silêncio de Toiba e a enxaqueca persistente não o deixavam dormir. Ele precisava entender se o que estava acontecendo em Tóquio tinha algum precedente, ou se ele estava enlouquecendo sozinho.
Ele abriu o navegador em uma aba anônima e acessou um dos maiores imageboards da internet, o 4chan, especificamente a seção /x/, dedicada a discussões sobre paranormalidade, criptografia e mistérios inexplicáveis. O site era um caos de tópicos inúteis, mas Kimichi sabia filtrar as informações.
No campo de busca do fórum, ele começou a testar termos técnicos e palavras-chave baseados na sua própria experiência em Interlagos: “premonition anomaly”, “accident ripple effect” e “statistical breakdown”.
Após rolar por várias postagens irrelevantes de teorias da conspiração batidas, ele encontrou uma postagem arquivada de 2018. O título do tópico era curto: “The 1998 Causal Line Anomaly (The Miller Case)”.
O autor da postagem original descrevia uma teoria sobre como o tecido da realidade reagia quando um evento de grande escala era artificialmente evitado. Anexado ao texto, havia um link para um servidor antigo que continha documentos, recortes de jornais franceses digitalizados e arquivos de mídia da época.
Curioso e com o coração acelerado, Kimichi clicou no link. O primeiro arquivo na pasta digitalizada era um vídeo em formato .avi, com a qualidade granulada das fitas VHS das câmeras de segurança de trinta anos atrás. No canto superior direito, o carimbo de data marcava: 19/10/1998 – 14:32:10.
Kimichi continuou encarando a tela por alguns minutos, o silêncio do quarto quebrado apenas pelo som ritmado da chuva batendo no vidro da janela. Ele olhou para o relógio da escrivaninha: 23:42. Emma provavelmente já estava dormindo, e Toiba… bem, Toiba continuava sem dar sinal de vida.
Kimichi deu o play. O vídeo mostrava o saguão de embarque do Aeroporto de Paris-Charles de Gaulle. Passageiros de terno e casacos pesados caminhavam calmamente com suas malas de couro. No centro do quadro, um jovem magro, vestindo uma jaqueta jeans larga e segurando uma mochila, andava de um lado para o outro. Era Thomas Miller.
De repente, o comportamento do rapaz mudou drasticamente. A gravação, embora sem áudio, transmitia um pânico puro. Thomas parou abruptamente, levando as duas mãos à cabeça, exatamente na região das têmporas. O movimento foi tão violento que seus óculos caíram no chão. Ele cambaleou para trás, colidindo contra um balcão de informações.
O que chamou a atenção de Kimichi foi o olhar de Thomas. Mesmo na imagem borrada, era possível ver que as pupilas do rapaz estavam dilatadas, fixas no teto, mas ele não parecia estar olhando para a estrutura do aeroporto — ele parecia estar assistindo a algo invisível no ar. Thomas começou a gritar desesperadamente, gesticulando em direção ao portão de embarque. Passageiros ao redor se afastaram, assustados. Dois guardas da segurança do aeroporto apareceram correndo no quadro. Quando tentaram segurá-lo, Thomas resistiu com uma força desproporcional, apontando para a janela que dava para a pista de pouso, até ser imobilizado no chão por três homens.
Kimichi soltou o ar que nem percebeu que prendia. Aquela reação… o aperto na cabeça, o transe, o desespero de ver uma tragédia acontecendo antes do tempo. Era idêntico ao que ele próprio sentiu em Interlagos.
Ele fechou o vídeo com as mãos trêmulas e clicou no segundo arquivo: uma gravação de áudio em formato digitalizado, vinda do gravador de rolo da delegacia de polícia do aeroporto. O som começou com um chiado forte de estática, seguido pelo barulho de uma porta pesada se fechando e o arrastar de cadeiras de metal.
(Áudio da Delegacia de Paris – 19 de Outubro de 1998)
Inspetor (Voz grossa, em francês, traduzida por legendas em inglês na tela): — Sente-se, Miller. Beba um pouco de água. Você causou um problema enorme lá fora. Sabe quantos voos foram atrasados por causa do seu chilique?
Thomas (A voz era jovem, mas estava completamente rouca, ofegante, trêmula de pavor): — Vocês… vocês não entendem. Vocês precisam mandar o mecânico voltar lá. O voo 402. A turbina direita… tem uma microfissura na base da terceira palheta de titânio. Quando o avião atingir a altitude de cruzeiro, a pressão vai expandir o metal. A palheta vai se soltar e cortar a linha de combustível. O motor vai explodir. Vai queimar todo mundo. Todo mundo vai morrer!
Inspetor (Tom de deboche, batendo papéis na mesa): — Já chega de insanidade. Os engenheiros da Air France revisaram o avião antes do embarque. Está tudo perfeito. Você teve um ataque de pânico, garoto. Consumiu alguma substância antes de vir para o aeroporto?
Thomas (Gritando, batendo as mãos na mesa): — Eu vi! Eu não imaginei, eu estava lá dentro! Eu senti o cheiro do combustível queimado, eu vi o relógio do painel central travar em 14:45! Por favor, liga para a torre, manda eles pousarem!
Inspetor (Suspirando, impaciente): — O voo 402 decolou há dez minutos, Miller. E adivinhe? Acabamos de receber a confirmação da torre de controle. O avião estabilizou na altitude de cruzeiro. Sem problemas. Sem fogo. Nada. Você está preso por perturbação da ordem pública.
Houve um longo silêncio na gravação. O único som era a respiração pesada de Thomas. Então, a voz do rapaz mudou. O desespero sumiu, dando lugar a um tom vazio, gélido e sem vida.
Thomas: — …Ele não caiu?
Inspetor: — Não. Não caiu.
Thomas: — Meu Deus… Não… não, não, não. Eu mudei. Eu avisei o técnico na entrada do portão, ele hesitou por alguns segundos antes de me ignorar… eu atrasei o fluxo… eu quebrei o tempo. Se o avião não caiu… onde a falha vai aparecer? Onde o mundo vai cobrar isso?
O áudio terminava abruptamente com o som do inspetor ordenando que levassem Thomas para a cela.
Kimichi fechou o notebook de uma vez, o impacto da última frase ecoando em sua mente. Ele olhou para o próprio celular em cima da mesa. O grupo de mensagens continuava estático. Toiba continuava offline.
Ele se levantou e foi até a janela. A chuva forte batia contra o vidro, distorcendo as luzes dos prédios de Tóquio. “Onde o mundo vai cobrar isso?”, Thomas havia perguntado em 1998.
Kimichi engoliu em seco, sentindo um nó doloroso no estômago.
Mas o garoto estava disposto a buscar mais pistas sobre aquele caso
Kimichi voltou para a cadeira diante do notebook. A menção de que as “anomalias estatísticas começaram a surgir na região dele logo depois” era o rastro que ele precisava seguir. Se a história de Thomas Miller fosse real, o rastro de sangue e coincidências absurdas estaria registrado nos jornais locais daquela mesma semana de outubro de 1998.
Com os dedos ágeis no teclado, ele começou a cruzar dados: o nome de Thomas, a cidade de residência dele na época — uma pequena comuna nos arredores de Paris chamada Mitry-Mory — e as datas subsequentes ao dia 19 de outubro.
Os arquivos digitalizados da imprensa regional francesa começaram a carregar na tela, revelando uma sequência de manchetes que fizeram o estômago de Kimichi revirar.
20 de Outubro de 1998: “Tragédia na linha de alta tensão: Operários morrem eletrocutados após cabo de aço romper inexplicavelmente durante manutenção de rotina em Mitry-Mory.”
Kimichi clicou no artigo. A perícia técnica não conseguiu explicar como um cabo certificado para aguentar toneladas simplesmente esgarçou como linha de costura no exato segundo em que a equipe passava por baixo.
Ele rolou a página. Havia mais.
21 de Outubro de 1998: “Engavetamento na rota nacional deixa quatro vítimas fatais. Mancha de óleo de origem desconhecida na pista causou a perda de controle de um ônibus escolar e três carros de passeio.”
Não era apenas uma sequência de acidentes. Era a mesma assinatura invisível que Kimichi vinha acompanhando nos fóruns atuais: eventos com probabilidades matemáticas quase nulas de acontecerem simultaneamente, concentrados em um único ponto geográfico. O mundo estava reequilibrando a balança. O voo 402 tinha mais de duzentas pessoas a bordo; a cota de vidas que deveriam ter sido ceifadas na turbina estava sendo cobrada a conta-gotas na cidade de Thomas.
Perturbado, Kimichi mudou o foco da pesquisa. O que teria acontecido com o próprio Thomas Miller depois daquilo?
Ele digitou o nome do rapaz junto com termos como “julgamento”, “clínica” ou “obituário”. A busca foi mais difícil, pois o caso parecia ter sido abafado ou esquecido pela grande mídia, tratado apenas como um surto psicótico isolado de um jovem. Finalmente, ele encontrou um registro de admissão médica em um antigo fórum de arquivistas hospitalares franceses.
Thomas Miller havia sido transferido da cela da delegacia direto para o Hospital Psiquiátrico de Villejuif, após apresentar crises severas de pânico e episódios de automutilação induzidos por alucinações auditivas. Segundo o relatório médico vazado anos depois, o paciente alegava constantemente que “conseguia ouvir o som das engrenagens do mundo quebrando” e que a realidade estava tentando “corrigi-lo”.
O último registro oficial sobre Thomas datava de março de 2002. Uma nota curta de rodapé em um diário local informava o falecimento de um paciente de 22 anos em Villejuif devido a uma parada cardíaca súbita durante o sono, sem histórico de problemas cardíacos prévios.
Kimichi afastou-se da tela, a luz azul do monitor refletida em seus olhos arregalados. Thomas Miller estava morto. O sistema havia se corrigido por completo.
Ele olhou para o relógio: já passava das três da manhã. O silêncio do quarto parecia pesado, quase sólido. Kimichi pegou o celular e abriu o grupo de mensagens. Toiba ainda estava completamente offline. A sensação de urgência agora era um aperto físico em seu peito. Ele precisava falar com Emma assim que pisasse no colégio.
A manhã seguinte chegou sem trazer o sol. Uma névoa densa e esbranquiçada cobria Tóquio, engolindo o topo dos arranha-céus e deixando o asfalto permanentemente brilhante devido à umidade.
Kimichi mal conseguiu pregar os olhos no resto da madrugada. Ele caminhou até o colégio com os passos acelerados, os fones de ouvido desligados ao redor do pescoço, atento a qualquer som fora do comum na rua. Cada freada mais brusca de um carro ou oscilação nos postes de luz fazia seu estômago revirar.
Ao passar pelos portões de ferro do colégio, ele não foi para a sala. Ficou parado perto dos armários de sapatos, esperando por Emma. Quando a silhueta dela surgiu na entrada, com o guarda-chuva transparente fechado em uma das mãos e a expressão visivelmente cansada, Kimichi foi direto ao seu encontro.
— Emma. Precisamos conversar agora — falou ele, com a voz baixa, mas carregada de uma urgência que a fez parar no mesmo instante.
Emma o olhou de cima a baixo, reparando nas olheiras profundas de Kimichi.
— O que aconteceu? Teve mais alguma visão? — ela perguntou, ajeitando a mochila nas costas e caminhando com ele em direção ao corredor menos movimentado do segundo andar.
— Não. Eu descobri o que acontece com quem faz o que eu fiz — Kimichi a puxou para o canto da parede, perto das escadas de emergência. — Ontem à noite, eu não consegui dormir e comecei a pesquisar em fóruns antigos atrás de padrões. Eu achei um registro arquivado no 4chan sobre um caso idêntico em 1998, em Paris. Um cara chamado Thomas Miller.
Emma ouviu em silêncio, os olhos atentos, enquanto Kimichi resumiu rapidamente o que tinha visto: o surto no aeroporto, a gravação de áudio da delegacia e, principalmente, a sequência de acidentes estatisticamente impossíveis que devastaram a cidade natal de Thomas logo após o avião ser salvo.
— O avião que ele tentou parar não caiu porque ele causou uma hesitação de cinco segundos no portão de embarque. Mudou a vibração da turbina — explicou Kimichi, as mãos gesticularam de forma nervosa. — Mas o “débito” de mortes continuou existindo. O mundo começou a cobrar as vidas ao redor dele. Operários eletrocutados, acidentes de trânsito bizarros… tudo na mesma semana.
O rosto de Emma perdeu um pouco da cor. Ela encostou as costas na parede de concreto do corredor, processando a informação.
— Um modelo de cobrança… — murmurou Emma, olhando para o chão. — É como se o destino estivesse cobrando pelas vidas que sobreviveram com outras vidas.
— Exatamente. E tem mais — Kimichi engoliu em seco. — Thomas Miller morreu quatro anos depois. Parada cardíaca súbita, dormindo, aos 22 anos. Sem causa médica. O sistema se corrigiu por completo.
Um silêncio pesado caiu sobre os dois. O sinal estridente do colégio ecoou pelo corredor, avisando que a primeira aula estava prestes a começar. Alunos passavam por eles conversando e rindo, completamente alheios ao peso daquela conversa.
Emma ergueu os olhos para Kimichi, e a pergunta que ambos temiam finalmente foi verbalizada:
— E o Toiba?
— Ele ainda está offline. Desde ontem à tarde — Kimichi puxou o celular do bolso, mostrando a tela estática. — Se a mãe dele sofreu aquele acidente por causa do deslocamento do que eu fiz no Lollapalooza… Emma, o Toiba é o próximo alvo da correção?
Antes que ela pudesse responder, o celular de Emma vibrou em sua mão. Não era uma mensagem de texto. Era uma ligação telefônica. Na tela, o nome brilhava: Toiba.
Emma rapidamente arrastou o dedo pela tela, atendendo a ligação e colocando-a no viva-voz antes mesmo de aproximar o aparelho do ouvido. Kimichi deu um passo à frente, inclinando-se para escutar.
O som que saiu do alto-falante não era o choro desesperado que eles temiam, nem o tom brincalhão de sempre. Era um silêncio pesado, quebrado apenas pelo bipe intermitente e abafado de aparelhos hospitalares ao fundo.
— Toiba? — a voz de Emma saiu quase em um sussurro, tensa. — Você está aí? Como estão as coisas?
Houve um suspiro longo do outro lado da linha. Quando Toiba finalmente falou, sua voz parecia cansada, despida de qualquer energia, com uma calmaria que incomodou Kimichi profundamente.
— Oi, Emma. Oi, Kimichi… eu sei que ele deve estar aí com você — falou Toiba, pausadamente. — Desculpa sumir ontem. O celular descarregou no hospital e eu simplesmente esqueci da existência do mundo aqui fora.
— Como está sua mãe? — Kimichi não aguentou e interrompeu, dando um passo mais perto do telefone. — O-o que os médicos disseram?
Toiba fez uma pausa, e o som dos bipes do hospital pareceu preencher o corredor do colégio por um segundo. — Os médicos fizeram uma bateria de exames de imagem. Pois ontem ela acabou desmaiando no quarto.
Emma franziu o cenho, trocando um olhar confuso e apreensivo com Kimichi.
— E o que deu? — ela perguntou.
— Eles acharam um tumor — a voz de Toiba não tremeu, mas o peso daquelas palavras caiu como chumbo sobre os dois amigos. — Os médicos disseram que é uma anomalia agressiva, que estava se desenvolvendo de forma silenciosa e rápida.
Toiba soltou uma risada fraca, sem humor nenhum.
— É bizarro…
Kimichi sentiu um calafrio violento percorrer sua espinha, mas, dessa vez, não veio acompanhado de enxaqueca. Ele olhou para Emma, cujos olhos estavam arregalados em choque.
— Enfim, terei que ficar como acompanhante da minha mãe por alguns dias — continuou a voz do garoto, mais baixa. — O tratamento deve começar logo. Eu ligo para vocês se tiver novidades. Valeu por se preocuparem.
A ligação caiu. O bipe estático do hospital foi substituído pelo silêncio do corredor do colégio. Emma lentamente baixou o braço, encarando a tela preta do celular.
— Um tumor agressivo e silencioso… que apareceu do nada — murmurou Kimichi, sentindo um nó apertar sua garganta. — Emma, isso não foi um milagre.
— Não — concordou ela, os olhos fixos no vazio. — O caso de Thomas Miller em 1998 teve acidentes físicos: cabos rompendo, óleo na pista. Mas o que aconteceu em Interlagos foi diferente. Nós mexemos com o fluxo biológico de centenas de pessoas que deveriam ter parado de respirar naquele segundo. A compensação na física gera acidentes. A compensação na biologia… gera anomalias celulares.
O sinal para o início das aulas tocou novamente, um som estridente que parecia vir de muito longe. Eles sabiam que não conseguiriam focar em nada naquele dia. Passaram as horas seguintes trocando bilhetes discretos por baixo das carteiras, fingindo anotar a matéria do professor Tomioka.
Assim que as aulas terminaram, Kimichi correu direto para casa. O céu de Tóquio continuava sufocado por uma névoa densa. Trancado em seu quarto, ele ignorou a comida e abriu o notebook, acessando novamente a thread arquivada do 4chan sobre o caso de 1998. Ele precisava cavar mais fundo nos arquivos deletados do servidor da Islândia.
Ele usou um software de recuperação de metadados e começou a filtrar os comentários que haviam sido apagados pelos moderadores do fórum anos atrás por serem considerados “delírios excessivos”.
Por volta das duas da manhã, ele encontrou o que procurava. Um usuário anônimo, que afirmava ter sido enfermeiro no Hospital Psiquiátrico de Villejuif na época em que Thomas Miller esteve internado, havia postado trechos do diário pessoal que o jovem mantinha na cela médica.
Kimichi aproximou-se da tela, traduzindo o texto do francês com o coração batendo na linha do pescoço:
“04 de Novembro de 2001 — O sistema cansa de usar o ambiente. Quando as coincidências na rua não são suficientes para fechar a conta, ele começa a reescrever o interior. Minha tia manifestou uma esclerose inexplicável em duas semanas. O médico disse que os nervos dela simplesmente esqueceram como funciona. A realidade está corroendo os meus de dentro para fora para pagar o que gastei no aeroporto.”
Kimichi sentiu o sangue congelar.
No entanto, ao rolar a página até o último fragmento recuperado do diário de Thomas, datado de poucas semanas antes de sua morte em 2002, Kimichi encontrou uma anotação circulada em pixels vermelhos pelo arquivista do fórum. Thomas Miller tinha descoberto uma saída.
No último fragmento recuperado do diário de Thomas, datado de poucas semanas antes de sua morte em 2002, Kimichi encontrou a conclusão definitiva do rapaz. Não havia um plano de fuga, não havia um método para vencer o sistema. Havia apenas uma constatação gélida.
“12 de Fevereiro de 2002 — Eu tentei calcular todas as saídas, tentei achar uma brecha na física, mas a verdade é que o universo não comete erros de subtração. O desvio que criei no aeroporto foi apenas um adiamento. O destino não é uma linha que pode ser cortada; é uma corda que se tensiona até arrebentar. Quanto mais tempo tentamos resistir ou desviar o fluxo, mais violenta é a resposta do sistema quando ele finalmente se ajusta. Não há como escapar do destino. A única escolha que me resta é parar de lutar e deixar a conta fechar.”
Kimichi afastou-se da cadeira, a respiração pesada, encarando as palavras na tela. A ilusão de que ele era um “herói” que havia salvo seus amigos em Interlagos desmoronou completamente.
O garoto sentiu o sangue sumir do rosto enquanto lia as últimas linhas do post do fórum. O autor, um usuário anônimo que se identificava como um ex-funcionário do hospital psiquiátrico onde Thomas Miller esteve internado, transcreveu o que seriam as últimas anotações do diário do jovem visionário.
O texto estava granulado, fruto de uma foto de má qualidade da folha de caderno original, mas as palavras eram claras o suficiente para Kimichi entender a teoria final e desesperada de Thomas.
“…eu tentei de tudo. Tentei avisar o técnico, tentei gritar, tentei até lutar com os guardas. Eu ACHEI que salvar as pessoas era o certo. Mas o mundo não aceita. O destino não é uma linha que pode ser cortada; é uma corda que se tensiona até arrebentar. O erro não foi o que eu fiz na ponte de embarque. O erro foi QUEM salvou. O erro sou EU. Se o visionário é o ponto de origem do desvio, se somos nós que quebramos a simetria… talvez a única forma de fechar a linha de causalidade sem que todos os outros paguem o preço… é o visionário mesmo partir.”
O post continuava com a anotação de Thomas, ainda mais sombria:
“Eu não confirmo isso. É apenas uma teoria. Uma hipótese final de um homem quebrado que não aguenta mais ouvir as engrenagens do mundo quebrando as vidas ao seu redor. Eu não tenho coragem. Eu tentei me machucar, tentei acabar com isso, mas o pânico me paralisou. Mas se alguém, em algum lugar, estiver passando pelo que eu passei… talvez essa seja a única forma de salvar quem você ama. Me perdoem por isso.”
Kimichi afastou-se do notebook, com a respiração ofegante e o coração batendo com tanta força que parecia querer sair do peito
Ele pegou o celular para mandar uma mensagem para Emma, mas seus dedos tremeram tanto que ele mal conseguia digitar. O grupo estava silencioso. Toiba continuava offline. Kimichi sentiu o peso do mundo caindo sobre seus ombros, e a única saída parecia ser a mais sombria de todas.
No dia seguinte, o cheiro de antisséptico e o som abafado dos sapatos no piso de borracha do Hospital Universitário de Tóquio faziam o estômago de Kimichi revirar. Ele segurava uma sacola plástica com alguns doces de feijão vermelho que havia comprado na estação, a contragosto de Emma, que insistia que eles deveriam levar algo mais “prático”.
Quando empurraram a porta do quarto 402, a cena que encontraram quebrou um pouco da tensão que Kimichi carregava no peito. Toiba estava sentado em uma cadeira de plástico ao lado da cama da mãe, tentando equilibrar uma colher de plástico no nariz para fazê-la rir. A sra. Toiba, embora estivesse com o rosto pálido e o acesso do soro preso ao dorso da mão, soltou uma risada fraca antes de notar a presença dos jovens.
— Ah, vejam só se não são os dois intelectuais — Toiba exclamou, deixando a colher cair e se levantando com o sorriso de sempre, embora os olhos estivessem nitidamente cansados. — Entrem, entrem. Eu estava quase convencendo a minha mãe de que o hospital tem um fantasma no corredor do terceiro andar.
— Deixe de bobagens, menino — a sra. Toiba repreendeu com carinho, ajeitando os óculos. Ela olhou para Kimichi e Emma com um sorriso acolhedor. — Fico tão feliz que tenham vindo. Esse garoto não sai do meu lado, aposto que está usando a minha internação como desculpa para não entregar os relatórios de biologia do Tomioka-sensei.
— Mãe, que calúnia! Eu sou um estudante exemplar — Toiba colocou a mão no peito, fingindo ofensa, enquanto puxava mais duas cadeiras para os amigos.
Kimichi entregou a sacola de doces, sentando-se logo em seguida. Ele olhou para o monitor ao lado da cama; os bipes eram calmos.
— E como estão os exames, sra. Toiba? — Emma perguntou, adotando o tom focado de sempre, mas seus olhos examinavam discretamente o prontuário pendurado nos pés da cama.
— Os médicos disseram que o primeiro ciclo de medicamentos começa na semana que vem — ela explicou de forma leve, sem querer alarmar os jovens. — É um processo demorado, mas o médico chefe disse que foi um milagre termos descoberto agora. Ele até me perguntou se eu costumo ter pressentimentos, porque o desmaio aconteceu no momento exato em que o tumor começou a se expandir.
Kimichi sentiu um nó travar em sua garganta. Ele desviou o olhar para a janela, onde a névoa de Tóquio começava a ser cortada pelas primeiras gotas de uma nova chuva.
— Bom, milagre ou não, o que importa é que a senhora vai ter que aguentar o Toiba cozinhando para o meu pai pelas próximas semanas — brincou Toiba, dando de ombros. — Ontem eu tentei fazer arroz e quase queimei a panela elétrica.
A conversa seguiu leve por mais alguns minutos. Eles falaram sobre as fofocas do colégio, sobre como o professor de história havia dormido durante a apresentação de um trabalho e sobre os prazos dos exames finais. Por um instante, Kimichi quase conseguiu esquecer a thread do 4chan,
Quando o horário de visitas da tarde chegou ao fim, Toiba os acompanhou até o corredor dos elevadores. O sorriso dele sumiu assim que a porta do quarto se fechou, revelando o cansaço real que ele estava escondendo da mãe.
— Obrigado por virem. Sério — Toiba encostou as costas na parede do corredor, cruzando os braços. — Estar ali dentro fingindo que está tudo bem é… exaustivo.
— Você está indo bem, Toiba — Emma colocou a mão no ombro dele, com uma empatia genuína. — Se precisar de qualquer coisa, resumos das aulas, ou se precisar que a gente traga comida de verdade para você não incendiar a casa, é só avisar.
— Vou cobrar o almoço, hein? — Toiba tentou rir, mas logo olhou para Kimichi, notando o silêncio do amigo. — E você, cara? Está mais quieto que o normal. Aquelas suas enxaquecas melhoraram? Você está com uma cara de quem foi atropelado por um caminhão.
Kimichi olhou para o amigo. A ironia da pergunta quase o fez rir de nervoso.
— Estou bem… só não tenho dormido muito — Kimichi respondeu, forçando uma voz firme. — Vá descansar um pouco quando puder. A gente se vê no colégio quando você for buscar os papéis da secretaria, certo?
— Com certeza. Acho que vou lá amanhã dar uma limpada no meu armário e pegar as apostilas. Nos vemos lá.
O elevador chegou com um bipe mecânico. Kimichi e Emma entraram, e as portas de metal se fecharam, separando-os de Toiba.
Dentro da cabine em movimento, Kimichi sentiu a primeira pontada familiar começar a pulsar atrás de sua têmpora esquerda. Sutil, mas persistente.
As portas do elevador abriram no térreo, revelando o saguão movimentado do hospital. Kimichi pressionou os dedos contra sua testa, tentando conter a pulsação incômoda que começava a ganhar força.
Emma percebeu o gesto imediatamente. Ela esperou que eles passassem pelas portas giratórias de vidro e chegassem à calçada, sob a garoa fina de Tóquio, antes de falar.
— A enxaqueca voltou, não foi? — ela perguntou, abrindo o guarda-chuva e inclinando-o para cobrir os dois.
— Sim. Mas está diferente — Kimichi murmurou, ajustando a alça da mochila. — Não é como em Interlagos, parece mais forte.
Eles começaram a caminhar em direção à estação de metrô. Ao redor deles, pequenos detalhes no ambiente urbano pareciam ligeiramente fora de sincronia. As luzes dos postes de iluminação pública piscaram simultaneamente quando eles passaram por baixo delas, e o painel eletrônico de um ônibus que cruzava a avenida distorceu os caracteres por alguns segundos antes de voltar ao normal.
— Não parece que esse tempo ruim vai parar em breve, não concorda? — Emma indagou. — Às vezes me sinto preocupada demais com você, Kimichi. Acho que todo esse problema tá te deixando muito mal.
— Não precisa de toda essa preocupação — Kimichi respondeu, apertando os passos. — Depois de ver que a mãe de Toiba ficou doente por minha causa, isso já virou pessoal. Se for necessário desafiar a morte, então farei. Pelo Toiba.
Emma parou por um instante, carregando consigo o que parecia ser um choro leve. — Seu idiota, como voce pode falar isso com tanta naturalidade?
— Hm? — Kimichi olhou para trás sem entender. — Como assim?
Rapidamente, Emma abraçou Kimichi com todas as suas forças descarregando seu choro. — Eu não quero ver você falando esse tipo de coisa. Você não vai morrer e a mãe do Toiba vai ficar bem. Dessa vez, eu quem vou jurar isso a você.
Kimichi ficou vermelho, — Emma… não precisa disso, eu sei que vai dar tudo certo — respondeu, abraçando ela.
— Olha pra mim — falou erguendo o rosto de Emma, limpando seus olhos lacrimejados. — Eu não vou deixar nada acontecer com você e com o Toiba. Eu prometo, e não quero ver mais você desse jeito tão bom?
Emma assentiu com um sim com a cabeça, se afastando.
Logo, Kimichi fez sinal para um táxi próximo, que parou na beira da calçada. — Eu tenho que ir, a gente se fala amanhã. Tchau Emma.
— Até logo…
No dia seguinte, a atmosfera na escola estava estranhamente carregada. Durante a aula de literatura, o som da chuva constante nas janelas parecia abafado. Kimichi passou o tempo todo observando os cantos das paredes e o teto da sala. Ele notou uma infiltração sutil perto da calha da janela, onde pequenas gotas de água começavam a moldar o gesso antigo.
O sinal para o intervalo ecoou pelo prédio, mas o som parecia distorcido, vibrando de um jeito incômodo nos ouvidos de Kimichi. Os alunos começaram a se levantar, guardando os materiais e conversando alto enquanto saíam em direção ao corredor.
Emma se aproximou da mesa de Kimichi, ajeitando a mochila nas costas.
— O Toiba mandou mensagem dizendo que já está subindo as escadas — disse ela, tentando manter o tom de voz calmo, mas com os olhos atentos às reações dele. — Vamos até o corredor esperar por ele.
Kimichi se levantou, sentindo um latejar atrás dos olhos ficar ainda mais forte. Os dois caminharam até o corredor do segundo andar, que já estava movimentado com o fluxo de estudantes. A chuva do lado fora batia com tanta força contra a fachada do colégio que o vidro das janelas vibrava de forma contínua.
Lá na ponta do corredor, perto da escadaria principal, a silhueta de Toiba surgiu. Ele carregava a pasta de plástico azul sob o armário e, ao ver os amigos, ergueu o braço livre para acenar, exibindo o mesmo sorriso espontâneo de sempre.
— Ei! Consegui pegar tudo na secretaria! — Toiba chamou, apertando o passo na direção deles.
Emma sorriu e deu alguns passos à frente para ir de encontro ao amigo.
No milissegundo em que Emma se posicionou bem no centro do corredor, perto da viga de sustentação antiga, um estalo seco e violento vindo do teto ecoou acima do barulho da tempestade. Não era o som de um trovão. Era o som de concreto e ferro cedendo sob o peso da água acumulada nas calhas.
A enxaqueca de Kimichi explodiu com uma força avassaladora, e o tempo ao seu redor pareceu congelar em um estalo seco. O ruído das conversas dos alunos sumiu. O bater da chuva nas janelas transformou-se em um eco estático e arrastado.
A última visão se impôs diante de seus olhos como uma projeção violenta da realidade.
Na visão, os próximos segundos se desenrolaram com uma clareza aterrorizante. Kimichi viu a imensa calha de concreto do teto, completamente sobrecarregada pelas semanas de tempestade, ceder por inteiro. O gesso e a fiação elétrica rasgaram no ar. Naquela linha temporal distorcida, Emma e Toiba não tinham tempo de reagir; a estrutura pesada desabou diretamente sobre os dois, atingindo-os em cheio no centro do corredor enquanto o pó cinzento engoliu os dois.
Com um baque mental, a visão se desfez e o tempo voltou ao ritmo normal. O estalo real do concreto partindo ecoou acima de suas cabeças. Emma e Toiba continuavam no mesmo lugar, dando o passo que os levaria exatamente para debaixo do desabamento. Kimichi não hesitou. Com toda a velocidade e força que restavam em seu corpo, ele disparou pelo piso de linóleo.
— Emma! Toiba! — o grito saiu rasgado de sua garganta.
No instante exato em que a estrutura cedeu lá no alto, Kimichi saltou para a frente com os braços estendidos. O impacto de suas mãos atingiu o peito de Toiba e os ombros de Emma com violência, empurrando-os com tudo para trás, arremessando-os contra os armários de metal na zona segura do corredor. No segundo seguinte, o teto veio abaixo.
Um estrondo ensurdecedor de concreto ferroso e gesso quebrando ecoou por todo o prédio. Uma cortina densa de poeira cinzenta e água acumulada despencou do teto, cobrindo o corredor e bloqueando a visão de tudo. O alarme de emergência do colégio começou a berrar de forma estridente, misturado aos gritos de pânico dos outros alunos que corriam pelas extremidades.
Emma caiu sentada, tossindo por causa da fuligem que invadiu seus pulmões. Ela piscou os olhos repetidamente, tentando enxergar através da névoa de poeira. A pasta azul de Toiba estava caída a poucos centímetros dela, amassada sob alguns pedaços menores de reboco.
— Toiba… — ela tossiu, tateando o chão até encontrar o braço do amigo, que tentava se levantar, atordoado e em choque. — Toiba, você está bem?
— Estou… eu acho que sim — Toiba respondeu, com a voz trêmula, olhando para o teto destruído acima deles. — O que foi isso?!
Emma olhou para a frente, onde a pilha principal de concreto e fiação bloqueava o caminho. O coração dela parou por um instante.
— Kimichi… — o sussurro dela foi engolido pelo som do alarme. Ela se arrastou desesperadamente em direção aos escombros. — Kimichi!!
Sob a parte da viga que havia desabado em um ângulo inclinado, apoiada torta contra a parede lateral, Kimichi estava caído de lado. O impacto físico havia sido severo, deixando-o gravemente ferido, e a força do trauma gerou um pane absoluto em seus sentidos.
Quando ele abriu os olhos lentamente, encarando a chuva que agora caía direto do céu cinzento para dentro do corredor do colégio, um silêncio profundo e desconhecido tomou conta de sua mente.
A dor de cabeça constante atrás de sua têmpora havia sumido.
Quando ele abriu os olhos lentamente, tudo ao seu redor estava branco e o som do alarme do colégio havia sumido, substituído pelo bipe de um monitor cardíaco. Kimichi piscou várias vezes, tentando focar a visão. O teto de gesso destruído deu lugar às placas brancas e estéreis de um quarto de hospital. Ele tentou mover a cabeça, mas uma pontada de dor o fez desistir. Ao lado da cama, Emma e Toiba se levantaram rapidamente das cadeiras, com expressões mistas de alívio e ansiedade.
Logo em seguida, um médico de jaleco branco entrou no quarto, segurando uma prancheta e checando os aparelhos. Ele olhou para Kimichi com um sorriso calmo.
— Que bom que finalmente acordou. Você passou os últimos dias em um coma induzido para que seu corpo pudesse se recuperar — explicou o médico, ajustando o suporte do soro. — Você sofreu uma pancada muito forte na cabeça. Felizmente, os exames mostram que o pior já passou, mas o trauma foi severo.
Kimichi olhou para o médico e depois para os dois jovens ao lado da cama. Ele franziu a testa, sentindo um vazio estranho no peito. A mente dele parecia uma folha em branco.
— Onde… quem são vocês? — a voz de Kimichi saiu fraca, quase um sussurro.
Emma deu um passo à frente, com os olhos marejados, mas segurando o choro. Toiba engoliu em seco, trocando um olhar preocupado com o médico.
Kimichi não se lembrava de nada.
Uma semana após receber alta, a rotina na casa de Kimichi havia ganhado um ritmo calmo. O apartamento estava silencioso, iluminado pela luz suave do fim da tarde que entrava pela janela da sala. Kimichi estava sentado no sofá, com uma xícara de chá quente entre as mãos. Sua mãe estava ao lado dele, terminando de dobrar algumas roupas limpas, enquanto a televisão ligada ao fundo preenchia o ambiente com o som morno do jornal local.
— Você tem certeza de que não está sentindo nenhuma tontura hoje, querido? — perguntou a mãe, olhando-o com um carinho zeloso. — O médico disse que o repouso precisa ser levado a sério.
— Estou bem, mãe. De verdade — Kimichi respondeu, esboçando um sorriso tranquilo. — A cabeça não dói mais. É só uma sensação de… esquecimento, mas o cansaço sumiu.
A mãe sorriu, aliviada, e voltou a atenção para as roupas. No entanto, o tom do apresentador do telejornal mudou bruscamente, adotando uma nota de urgência que imediatamente atraiu os olhos de Kimichi para a tela.
A imagem cortou para uma transmissão ao vivo, com helicópteros sobrevoando uma linha férrea nos arredores de Tóquio. As tarjas vermelhas na parte inferior da tela piscavam com o aviso de “Plantão de Emergência”.
“Atenção para as informações que chegam agora. Um trem de passageiros da linha principal descarrilhou há poucos minutos ao se aproximar da plataforma de embarque de uma das estações mais movimentadas da região metropolitana. O impacto lançou os primeiros vagões para fora dos trilhos, colidindo contra a estrutura de contenção. Equipes de resgate já estão no local. Há relatos de dezenas de feridos graves, e o tráfego ferroviário está completamente interrompido…”
As imagens na TV mostravam o metal retorcido, o reflexo das luzes das ambulâncias e a fumaça subindo sob a mesma chuva fina que persistia na cidade. Kimichi estacou com a xícara a meio caminho da boca. Ele encarou a tela, observando o cenário de destruição, as equipes correndo e o desespero das pessoas ao redor da linha férrea.
Por um instante, apenas por um milésimo de segundo, uma sensação estranha e familiar arrepiou a base de sua nuca.
— Que horror… — murmurou a mãe, cobrindo a boca com a mão diante das imagens. — Um acidente desses, do nada… O mundo parece tão imprevisível às vezes.
Kimichi piscou, quebrando o transe, e olhou para a xícara em suas mãos. O reflexo da TV oscilava na superfície do chá. A tela do televisor continuou a brilhar na penumbra da sala, deixando a resposta oculta no fluxo silencioso do tempo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.