6: Intérprete do Vazio
Dormir, ao menos para mim, sempre foi como piscar e no momento seguinte perceber que o tempo tinha passado.
Dormir era deixar de viver uma parte da minha vida.
Um mal necessário, mas de toda forma um mal.
Dessa vez foi diferente.
Minha mente não apagou simplesmente, pelo contrário, me sentia desperta, racional.
Abri os olhos.
Não estava na floresta.
Não estava em lugar nenhum.
Quando criança, lembro-me de perguntar a um cego como era enxergar tudo em preto o tempo todo.
Em resposta, ele me disse: “não enxergo o preto, pois o preto é uma cor”.
Agora eu o compreendia.
Senti algo me chamar.
Mas não sabia dizer de onde.
Naquele momento sequer sabia distinguir o em cima do de baixo.
Ainda assim me movi, não tinha pernas para andar, mas algo além da própria compreensão me guiava.
De repente, senti como se voltasse a ser.
Tinha mãos.
Tinha pernas.
Tinha corpo…
Então vieram as cores.
Os sentidos.
A percepção de espaço.
Ao dar por mim, estava parada no centro de uma imensa biblioteca envolta em sombras.
Me vi cercada por incontáveis prateleiras de livros.
Elas estendiam-se para além do campo de visão.
— O que é esse lugar?
Uma voz familiar respondeu:
— A resposta para essa pergunta varia.
Perscrutei o espaço à procura da voz.
— Porra, outra vez?!
Depois de uma eternidade procurando, uma mesa surgiu no limite do meu campo de visão.
Sentado do outro lado dela estava um homem alto e jovem, vestido completamente de preto.
Ele me ignorou e prosseguiu:
— Em aparência: uma biblioteca; em localidade: um limiar entre a existência e a inexistência; em função: um cemitério de histórias.
Não havia palavras capazes de fazer jus à sensação transmitida por aquele homem com meras palavras, mas se tivesse de descrever como me sentia ao ouvi-lo enunciar aquelas palavras — sorridente e insondável — diria estar estupefata.
Parecia humano, mas não poderia existir em canto algum do mundo outro homem como aquele.
— Eu conheço essa voz!
Meu transe se quebrou com a revelação.
— Foi você!
Era ele quem me guiou para despertar meus poderes.
Me devolveu um sorriso.
— Seja bem-vinda, a Grande Biblioteca do Vazio.
Franzi a testa.
— A Grande Biblioteca… do Vazio?
Ele gesticulou para eu me aproximar.
Fiz como pediu.
Parei diante da mesa e uma cadeira surgiu aos meus pés.
— Sente-se — pediu, cordialmente.
Um pouco desconfiada, apoiei as mãos no encosto da cadeira e sentei-me devagar.
— Bem — falei. — Vou perguntar outra vez, onde estou?
Ia repetir as mesmas palavras, manter o ar de mistério e me deixar profundamente confusa.
Era nisso que boa parte de mim acreditava.
Para minha completa desilusão, no entanto…
— Vou tentar explicar de forma simples.
Abriu uma gaveta e de lá retirou um velino, uma pena e um tinteiro.
— Isso é seu mundo.
Desenhou uma esfera.
— E isso, são os muitos outros mundos existentes.
Desenhou uma porção de outras esferas ao redor da primeira.
— Como você pode perceber pelo desenho, todos os mundos possuem fronteiras. Um limite. Dentro desse limite há regras, por exemplo: Para respirar é preciso ar, para se mover é preciso membros. Entende onde quero chegar?
De certo modo entendia.
— Fora dos limites, como não há regras, é possível pensar sem um cérebro, ou enxergar sem olhos, é essa a sua insinuação?
Ele bateu palmas.
— Precisamente! Foi isso que experimentou há pouco.
— Mas não pude enxergar nada! — protestei.
Não — corrigiu ele. — Você enxergou “o” nada.
Até fazia sentido, mas ainda não estava convencida.
Cruzei os braços.
— Estou em outro mundo então?
Ele balançou a cabeça em negação.
— Você está aqui.
Pegou outra vez a caneta e desenhou um minúsculo ponto preto no espaço vazio próximo à esfera representando meu mundo.
— Isso faz ainda menos sentido! — protestei. — Acabou de dizer que não existem regras do lado de fora, mas as coisas aqui parecem funcionar exatamente como em meu mundo.
Ele balançou a cabeça em aprovação.
— Muito perceptiva. Entenda o seguinte: este lugar é especial de muitas maneiras, você nem ao menos está fisicamente aqui.
Deixei escapar um: — Ein?
O Intérprete apenas sorriu e prosseguiu:
— Você pode até sentir como se estivesse no seu corpo, mas apenas a sua consciência está aqui. Seu corpo continua em seu mundo, em repouso.
Cocei a cabeça.
— Isso fica cada vez mais confuso.
Ele deu uma alta gargalhada.
— Hahaha… Sim, imagino que sim, mas você é a primeira humana a chegar até aqui, então sinto muito mas nunca esperei dar essa explicação.
Foi minha vez de sorrir.
— Então estava certa, você não é humano.
— De fato. Minha aparência é resultado da sua percepção, na verdade, todo esse lugar tem essa aparência, por causa da sua concepção de uma biblioteca.
O encarei incrédula.
— A aparência desse lugar muda de pessoa pra pessoa?
— Basicamente. Agora, se puder deixar a curiosidade de lado por um momento, temos coisas para discutir.
Adotou um tom sério.
Me ajeitei na cadeira.
— Bem, sou toda ouvidos.
— Deveria ser impossível para mim interagir diretamente com os residentes dos mundos, mas minha voz chegou até você. Alguma ideia de como?
Pensei por um momento.
Onde era diferente das outras pessoas?
Seriam meus olhos?
Nunca os vi em mais ninguém, além de minha mãe, é claro.
Duvidava muito, não era o caso.
Não, só havia uma opção.
— A veia em meu coração, não é?
Ele me lançou um olhar satisfeito.
— Exato! O poder em suas mãos, milênios atrás, recebeu o nome de Veia de Mana. A forma mais antiga e imprevisível da magia.
Coloquei a mão sobre o peito, um reflexo involuntário.
Lá estava.
Aquele não era meu corpo real, mas lá estava ela no exato local onde meu coração costumava residir.
Ele apontou para meu peito.
— O fato de sua Veia estar aí é prova de que ela já faz parte de você.
— A forma mais antiga da magia… — repeti atônita. — Como minha vó conseguiu criar algo assim?
Ele reclinou a cabeça de forma trágica.
— Essa parte da história é uma incógnita até para mim. Mas o fato é: ela o fez e muito em breve as consequências vão começar a aparecer.
Meu semblante tornou-se sombrio.
— Não se preocupe, você não está doente — ele tranquilizou. — Mas o despertar de uma Veia de Mana irá causar o despertar de incontáveis outras.
A cena atravessou minha mente.
Um exército de pessoas com habilidades idênticas às minhas.
Isso com certeza seria um problemão.
— Ahh… — gruni. — Da dor de cabeça só de imaginar.
Ele balançou o dedo em negação.
— Está equivocada quanto a um detalhe, todas as veias possuem habilidades diferentes. Todos os povos inteligentes em seu mundo têm pela frente o desafio de lidar com um inevitável enxame de habilidades imprevisíveis.
Merda.
Era uma péssima notícia.
Esse tipo de poder… nas mãos erradas…
O bibliotecário levantou de sua cadeira e parou ao meu lado.
Com a mão colocada sobre meu ombro comentou:
— Bem… já mencionei os problemas, falemos agora da parte boa!
Gesticulou para segui-lo.
Fiz como pediu.
Caminhei às suas costas por alguns instantes, até ele parar e se virar para a estante à sua esquerda, elevar a mão até a altura da quarta prateleira e retirar de lá um livro de capa azul.
Ele estendeu o braço e me entregou o livro.
Parecia recente. Diferente de tantos outros naquela prateleira, não estava empoeirado.
Escolhi uma página aleatória e comecei a ler.
Não era escrito com palavras.
Conforme meus olhos percorriam a página, o conhecimento adentrava minha mente.
Era o livro da história do meu mundo.
Curiosamente tinha acabado de ler sobre o dia do ataque há oito anos, ao menos agora eu sabia o nome da maldita bruxa.
— Vera — comentei. — Vou me lembrar deste nome.
— Não me daria ao trabalho se fosse você.
Deu um passo em minha direção e pegou o livro outra vez.
Cruzei os braços.
— Como espera que ignore o que ela fez?
— Não espero, mas logo vai perceber o quão desnecessário é o esforço.
Avançou algumas páginas e me entregou novamente o livro.
— Aqui, veja isto.
A página em questão representava os eventos do orfanato.
Bem no meio dela, havia uma marca vermelha fluorescente.
— Porra…
Ele sorriu.
— Com muito esforço, é comum um grupo de indivíduos extraordinários conseguirem mudar o destino. A marca nesse livro, no entanto, é a prova viva de que sem a mínima dificuldade você o destruiu.
Contemplei o significado de suas palavras.
Destruiu.
Ele não usou o termo sem motivo.
Havia uma diferença entre o meu feito e o dos heróis do passado.
O encarei e esperei por uma resposta.
— Esse é seu poder — ele disse por fim. —Destruição em forma de energia. Tudo que sua magia toca se torna frágil, rói, quebra, esfarela. Enfim, parece algo simples na teoria, mas a destruição é um conceito e conceitos muitas vezes possuem limites incertos.
A realização me bateu.
— Por isso estou aqui! Essa marca em vermelho — apontei para ela — está bem em cima do momento que ouvi sua voz pela primeira vez. De alguma forma eu destruí a barreira impedindo nossa comunicação.
Ele se reclinou em uma longa reverência.
Parecia-se bastante com um mordomo naquele momento.
— Apresentar-me ei agora: ao longo das eras tive muitos nomes, testemunhei incontáveis histórias e vi em primeira mão o inevitável fim de tantos mundos. Por milênios fui observador imparcial e agora pela primeira vez sou personagem. Sou o Intérprete do Vazio e você Luísa, tem minha gratidão.
Tinha todas as justificativas possíveis para estar tensa, chocada, em pânico, ansiosa e preocupada.
Mas foi o êxtase que preencheu minha mente.
Podia sentir.
Estava frente a frente com oportunidades extraordinárias.
Bastava dar um passo e minha vida tomaria um rumo impremeditável.
O Intérprete leu através dos meus pensamentos e correspondeu à minha euforia com um vasto sorriso.
Tinha dúvidas se ao menos era possível reproduzir um sorriso daqueles no mundo real.
— Devo dizer, estou impressionado com sua positividade. Não sei dizer quanto dela se deve a sua habilidade e quanto sempre esteve em ti, mas no fim das contas é irrelevante.
Fechou o livro e guardou-o novamente na estante, então virou-se para mim.
— Por hora, é melhor você voltar, não deixe seus amigos preocupados.
Verdade seja dita, estava tão preocupada com eles quanto eles deveriam estar comigo.
Mas antes precisava garantir uma coisa.
— Como faço para voltar aqui? E, pensando bem, também não sei como sair.
— Desta vez eu mesmo te envio de volta, quanto às próximas… pensarei em uma solução que não envolva você estar desacordada.
Estendeu a mão.
Eu devolvi o gesto em um aperto e senti minha consciência ser puxada de volta ao corpo.

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