Era mais uma noite qualquer na costa leste americana. O céu noturno estava coberto por finas nuvens que impediam a visão das estrelas, mesmo onde a poluição luminosa dava alguma brecha. Uma chuva fraca caía sem cessar.

    Não havia passado das oito horas da noite quando a porta de um apartamento nos subúrbios de Albany se abriu, revelando uma sala pequena, porém organizada.

    Um homem parado à soleira era iluminado apenas pelos postes da rua. A luz amarela dos antigos candeeiros contrastava com seus cabelos pretos. Ele hesitou por um instante antes de ligar a luz da casa. Deu alguns passos para dentro, tirou o paletó preto e o pendurou no rack perto da porta. Jogou-se no sofá e soltou um longo suspiro, murmurando:

    — Então é assim que tudo acaba?

    Suas mãos encontraram as têmporas, massageando-as com força, como se soubesse que precisava chorar, mas não conseguia. Cansado demais do dia, ele se ajeitou para dormir ali mesmo, ainda vestido com a roupa formal. Simplesmente não se importava mais.

    Entretanto, o destino tinha outros planos.

    Quando acordou, os primeiros raios de sol batiam em seu rosto. Sentiu a textura úmida da grama em suas costas. Estava no topo de um pequeno relevo, com uma enorme floresta atrás de si e, à frente, os sinais de uma estrada de terra bem demarcada. Mais adiante, onde a curvatura da terra permitia enxergar, havia indícios de construções.

    O homem piscou várias vezes, tentando compreender se estava vendo corretamente. Não estava mais em sua casa. Levantou-se rapidamente e desceu tropeçando pelo relevo, revelando uma planície composta por arbustos ocasionais, vegetação rasteira costeira e trechos de solo descoberto.

    Ainda incrédulo, caminhou por algum tempo até encontrar uma pequena lagoa cercada pela vegetação, não muito maior que uma piscina doméstica. Agachou-se perto dela e lavou o rosto, sentindo a água fria despertar seu corpo por completo. No reflexo ondulante, enxergou seu próprio rosto.

    Estava mais jovem, como se tivesse voltado à idade adulta recém-alcançada.

    — Impossível… — disse o homem para ninguém.

    Ele riu, nervoso, olhando sua imagem na água e pensou: “Devo ter perdido a cabeça de vez.”

    Ao retornar para a estrada de terra, uma solitária carroça se aproximava, carregando diversas sacolas de pano e caixas de madeira. O homem fez sinal e a carroça parou ao seu lado. O cocheiro, um senhor de aparência cansada e barba grisalha, olhou para ele e perguntou:

    — O que posso fazer por você, senhor?

    De alguma forma, o homem entendia perfeitamente as palavras, mesmo sabendo conscientemente que aquela língua era completamente diferente de tudo que já ouvira em sua vida.

    — Gostaria de uma carona até a cidade mais próxima — respondeu.

    — Certamente, senhor — disse o cocheiro, abrindo espaço ao seu lado. — Minha carroça é de um pobre mercador, por favor, releve.

    O homem, curioso com o que aquilo significava, encarou o mercador por um momento e respondeu:

    — Não se preocupe, agradeço de coração.

    — Posso perguntar seu nome, meu senhor? — indagou o cocheiro.

    — Michael… Michael Leone… — respondeu o homem, ainda incrédulo. — E o seu?

    — Flávio… Somente Flávio.

    — Onde estamos, senhor Flávio?

    O mercador respondeu, sem conseguir esconder a clara curiosidade que acabara de surgir em seu rosto.

    — Estamos a alguns minutos de distância de Ventria.

    — Ventria?

    — Sim, Ventria — repetiu Flávio, como se o nome explicasse tudo. — A maior cidade da costa sudoeste deste santo reino…

    — Hum… — murmurou Michael, pois não havia mais nada a dizer. Ele não entendia o que estava acontecendo.

    — O senhor Leone não é daqui, eu presumo… certo? — perguntou Flávio.

    — Pode-se dizer que sim.

    — Imagino que seja algum nobre do norte, dadas as roupas.

    Michael ainda vestia as roupas formais da noite anterior: uma camisa social branca de cinco botões, enfiada dentro da calça social preta, sapatos pretos e um cinto preto de couro barato. O velho mercador, por sua vez, usava uma camisa de linho branca sem botões, calças de trabalho e botas, tudo desgastado pelo uso e pelo tempo.

    — Pode-se dizer que sim… — respondeu Michael à hipótese de Flávio.

    O resto da viagem transcorreu em silêncio absoluto. Michael observava os campos abertos e as pessoas trabalhando em seus pequenos lotes. Não havia uma única nuvem no céu azul iluminado pelo sol. O cenário era de tirar o fôlego; em outro contexto, ele estaria aproveitando a mudança de ares.

    Após vinte e cinco minutos de viagem, Michael ergueu o olhar para os portões da cidade de Ventria. Pequenas bandeirolas douradas tremulavam por toda a muralha. Acima dos dois guardas que vigiavam a entrada, havia duas grandes flâmulas. À direita, uma com fundo dourado ostentava uma águia bicéfala negra cujo peito exibia um escudo mostrando um guerreiro preparando um golpe com sua espada, iluminado pelo sol. À esquerda, um fundo azul-claro exibia um leão prateado segurando uma espada.

    Os símbolos não eram nada que Michael havia visto em sua vida, nem mesmo em livros de história. Enquanto se indagava onde estava, ele puxou do bolso esquerdo um maço de cigarros, a caixa amarela com detalhes azuis e o desenho ilustrativo de um camelo. Tirou um dos últimos oito do pacote e acendeu com seu isqueiro prateado clássico, cujo metal gravado exibia o logo dos Fuzileiros Navais americanos.

    Flávio olhou de canto de olho o objeto estranho, mas continuou conversando com os guardas, que liberavam a passagem tranquilamente.

    Enquanto puxava a fumaça de nicotina e tabaco para dentro dos pulmões, Michael perguntou ao cocheiro:

    — Flávio, onde o senhor está indo?

    — Para a guilda, entregar a mercadoria da semana.

    — Hum. Tem problema eu estar junto?

    — Nenhum, senhor. Até agradeceria, na verdade. Minhas costas vêm doendo cada vez mais nestes últimos anos.

    — A idade sempre chega uma hora ou outra — disse Michael, dando uma pequena risada e esquecendo-se, por um instante, de que havia rejuvenescido.

    — Hã! — riu Flávio. — Nessa idade e já falando coisas do tipo?

    — É… — falava Michael, de forma desconfortável, sem puder rebater.


    A cidade, que não deveria ter mais de cinquenta mil habitantes, possuía ruas de paralelepípedo e construções que se diferenciavam pela época em que foram erguidas. Algumas mais antigas haviam sobrevivido à passagem do tempo, feitas de pedra bruta e madeira com técnicas antiquadas; outras, mais modernas, utilizavam tijolos, ainda que variassem entre si. Sua população andava livremente pelas ruas, a maioria vestida no mesmo estilo simples do velho Flávio. Alguns, porém, carregavam espadas nas bainhas presas à cintura e trajavam roupas mais exóticas, capas e peças de armadura.

    Ao chegarem à guilda, Michael viu um pequeno prédio de tijolos com dois andares, num estilo que ele reconhecia como algo saído do auge do domínio inglês sobre as treze colônias. Atrás da estrutura anacrônica — embora tudo naquela cidade fosse, de certa forma —, havia um depósito no formato de celeiro, feito de madeira.

    O mercador guiou sua carroça até a frente da construção e desceu. Michael o seguiu. Diante do portão de madeira do edifício, um homem de meia-idade esperava encostado na parede. Ao ver Flávio, ele abriu a boca e disse, aliviado, com um tom de voz grave:

    — Graças aos deuses você chegou.

    — As chuvas fazem as planícies serem traiçoeiras, Mestre da Guilda Otto.

    — Eu imagino — respondeu Otto, enquanto observava a figura de Michael, que estava de costas, examinando o prédio da guilda. — É raro você ter companhia — complementou o mestre da guilda.

    — Conheci ele menos de uma hora atrás — respondeu Flávio, enquanto já começava a descarregar a carroça.

    Otto ergueu as sobrancelhas e ajudou o mercador, seguido por Michael, que havia terminado seu cigarro. Os três homens trabalharam sem conversa fiada, organizando os sacos de grãos, as caixas de vinho, perfumes e ferramentas. Quando finalmente terminaram, Otto abriu a boca e perguntou ao estranho:

    — És nobre?

    Michael virou-se e respondeu:

    — Não. — Ele hesitou por um instante antes de continuar: — É somente a segunda vez que alguém me pergunta isso. Poderia me dizer o porquê?

    — Bom, suas roupas e seu corpo forte para a pouca idade — disse Otto, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

    Michael suspirou e deixou o assunto morrer. Ele ainda não fazia ideia do que estava acontecendo. Depois do trabalho braçal, os três seguiram para o prédio principal. Na frente havia uma placa com a inscrição: “Guilda dos Aventureiros de Artel – Filial de Ventria”. Mais uma vez, era uma língua desconhecida para Michael, mas que ele conseguia ler perfeitamente.

    Ao adentrar o local, alguns aventureiros almoçavam e bebiam nas mesas de madeira circulares. O prédio estava bem renovado; nas paredes, diversos retratos pintados de aventureiros famosos e reis. Os aventureiros eram homens na faixa dos trinta aos cinquenta anos, cheios de cicatrizes de batalha, e não se diferenciavam muito de mercenários em suas vestimentas e modo de falar.

    Otto guiou os dois até o balcão da recepção e registrou a entrega das encomendas, entregando o dinheiro a Flávio. O mercador agradeceu com um aperto de mão. O mestre da guilda então perguntou a Michael:

    — Garoto, tem algum lugar para ficar?

    — Na verdade, não — respondeu Michael.

    — Por uma moeda de prata, te deixo ficar em um dos nossos quartos — explicou Otto.

    — Eu agradeço, senhor, mas eu não tenho nenhum dinheiro comigo — disse Michael.

    Flávio, ao ouvir aquilo, abriu o saco de moedas e entregou cinco ao aparentemente jovem rapaz. O mercador completou, dando tapas nas costas de Michael enquanto ria:

    — Obrigado pela ajuda, rapaz. Está cada vez mais difícil encontrar jovens como você neste reino.

    — Eu que agradeço, senhor Flávio.

    — E ainda é educado! — exclamou Flávio, rindo.

    — Bom… — disse Michael, virando-se para o Mestre da Guilda — aquela oferta ainda está de pé? — perguntou com um sorriso contido.

    — É claro.

    Michael e os dois homens sentaram-se a uma mesa para almoçar. O mercador comia um ensopado de carne com batata, o mestre da guilda devorava um pernil suíno assado. Michael, por sua vez, apenas observava de braços cruzados, sem dinheiro e, por coincidência, sem fome. Otto e Flávio faziam muitas perguntas ao jovem rapaz que havia trabalhado como se fizesse aquilo há anos, e sem reclamar.

    — De onde você veio? Da capital ou de Porto Áureo? — perguntou o mestre, sem rodeios.

    — Eu vim de Albany, Nova Iorque. Ou melhor, do Estado de Nova Iorque.

    Otto fez uma expressão meio incrédula e curiosa e disse:

    — Nunca ouvi falar.

    Era a vez de Flávio questionar:

    — Já trabalhou na vida?

    — Bom, apesar da minha aparência jovem — ele se forçou a lembrar disso —, eu na verdade sou Primeiro-Tenente do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, na Primeira Divisão de Fuzileiros. Apesar de ter pegado uma licença recentemente por problemas pessoais… — respondeu Michael, com uma pontada de orgulho que se traduzia em um sorriso de canto de lábio.

    — Hum… — concordou Flávio, que claramente não entendia nada do que fora dito.

    Michael suspirou. Ele tinha cada vez mais certeza de algo que tentava negar com sua racionalidade. Precisava fazer apenas uma pergunta para confirmar de vez.

    — Vocês podem dizer em que continente, país e ano estamos?

    O mercador e o mestre se encararam por alguns segundos, bocas entreabertas, surpresos com a pergunta idiota. Otto limpou a garganta e respondeu:

    — Vigésimo terceiro dia do mês de Nora, ano de mil setecentos e setenta e nove depois da aparição do maldito demônio. — Flávio fez um sinal claramente religioso ao ouvir aquilo. Otto pareceu cuspir veneno falando isto e continuava: — Estamos no ducado de Boverna, do Santíssimo Reino de Artel, no continente de Artoria.

    Michael apenas balançou a cabeça, “confirmando” as informações, seguido de uma respiração profunda e um suspiro. O homem de outro mundo pensou finalmente: “Eu estou em outro mundo, não estou?”

    Michael levantou-se lentamente, dizendo que precisava descansar da viagem, e subiu para o quarto alugado no segundo andar. Abriu a porta com a chave que lhe fora dada e viu o quarto de estilo medievalista, mas estranhamente aconchegante e confortável. Foi até a janela e observou o céu azul inalterado, rindo sozinho com cinismo: “Espero voltar antes da licença acabar…”


    A tarde seguia seu curso, indiferente aos problemas do estrangeiro. Michael desceu para o andar de baixo com a face mais confiante e decidida. Dirigiu-se diretamente ao mestre da guilda e perguntou:

    — Onde posso arrumar algum emprego na cidade?

    — A guilda sempre está com falta de mão de obra, rapaz.

    — Michael é o nome, senhor Otto.

    — Bem, jovem Michael. Sempre precisamos de aventureiros.

    — Receio que lutar com uma espada seja o mesmo que já estar morto.

    Otto riu da honestidade do homem.

    — Bom, nesse caso… O velho ferreiro Hans, que sempre ajuda os aventureiros, está há algum tempo procurando um ajudante. Acho que você vai passar no teste dele. Aquele filho de Myr é um ranzinza completo, mas é ótimo no trabalho. A forja dele fica descendo esta rua.

    — Verei o que posso fazer — disse Michael, agradecendo Otto com um firme aperto de mão.

    Agora sozinho na cidade desconhecida, Michael organizava mentalmente um plano muito simples: sobrevivência. Aquele mundo não era tão diferente do dele nesse quesito, principalmente porque o dinheiro não tinha ressalvas em salvar ou destruir vidas. O veterano caminhava tranquilo, sem pressa, pelas ruas de um continente desconhecido — um acaso completo que ele ainda questionava se não seria apenas o fado inescapável.

    O estrangeiro ergueu a cabeça para enxergar o horizonte e viu, ao longe, um palácio que claramente servia de residência aos senhores daquele ducado. Em pouco tempo, Michael batia na porta da “Forja Alstadia”, sendo recebido com um grito rouco:

    — Já vai!

    O homem que abriu a porta era o velho Hans, mais baixo que Michael, com barbas longas e grisalhas enroladas em tranças. Hans olhou para cima para encarar o rapaz e perguntou:

    — O que quer, fidalgo?

    — Um trabalho… O mestre Otto disse que o senhor está procurando alguém.

    — Hum… — murmurou Hans. — Sabe alguma coisa de forjar metal, rapaz?

    — Não — respondeu honestamente o veterano. — Mas aprendo rápido, posso lhe garantir.

    — Hã! — riu Hans. — Honesto, pelo menos. Gosto disso. Venha, rapaz.

    Michael observou a forja, uma estrutura bem montada na frente da casa do senhor Hans. A fornalha incandescente pedia mais carvão, uma bigorna bem posicionada dominava o centro, baldes d’água estavam espalhados pelo chão e diversas ferramentas pendiam das paredes. A fuligem era tangível sob os pés.

    O ferreiro imediatamente começou a jogar combustível na forja. Hans chamou o veterano e ordenou que mantivesse o fogo na altura ideal, jogando o carvão para o lado ou aumentando a quantidade. Michael não tinha medo de mexer no fogo com o espeto de ferro. As ordens continuavam, e o estrangeiro as seguia com perfeição, impressionando Hans.

    Após entregar luvas térmicas para Michael, ele pediu que o rapaz trouxesse o pedaço de aço na temperatura ideal e o colocasse sobre a bigorna para começar os trabalhos. O que restava da tarde foi consumido por isso. Michael observava e ajudava de perto a produção de uma adaga. Hans falou sem ter sido perguntado:

    — O duque quer presentear o filho dele com essa adaga. Ela é funcional, mas é mais por questões cerimoniais.

    — Imagino que faça algumas gravuras na lâmina então.

    — Exatamente.

    O céu se escurecia quando Hans terminou a forma da lâmina. Ele dispensou Michael, não sem antes dizer finalmente:

    — Você é muito bom, garoto. Pode vir amanhã, vou te pagar por isso.

    — Obrigado, senhor.

    — Não agradeça ainda. Você vai trabalhar até cansar de escutar o fogo crepitando.

    Michael sorriu de boca fechada antes de se despedir. “Agora tenho uma fonte de renda”, pensou o estrangeiro enquanto caminhava de volta à guilda, menos preocupado.

    O estrangeiro acordava e demorava a se acostumar com onde estava, mas não havia tempo para pensar demais: já havia arrumado compromissos naquele lugar. Naquele dia ele ajudou o ferreiro a fazer o cabo da lâmina, com detalhes em dourado. Depois auxiliou nas gravuras da lâmina e aprendeu a polir a mesma.

    Uma semana se passou assim, e a adaga foi finalmente entregue ao senhor duque. Michael recebeu seu primeiro salário na nova vida: cerca de setenta moedas de prata. Finalmente poderia comer algo além do pão que a guilda distribuía gratuitamente e das caridades de seus novos conhecidos.

    Foi ali que ele percebeu que talvez tivesse ido para ficar, mesmo sem saber o que aquilo realmente significava e sem ter escolha no processo…

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