Capítulo 2 - Uma Nova Vida
— Parece que foi ontem que você chegou aqui na forja, com aquelas roupas de nobre, pedindo pra trabalhar — disse Hans, sem tirar os olhos da limpeza da loja.
— Sabe, também me impressiona. Principalmente a parte em que sobrevivi às suas demandas — respondeu Michael, que agora já não era tão estrangeiro. Residente e aprendiz de ferreiro em Ventria havia quatro meses, o viajante interdimensional havia aprendido desde o avivamento do fogo até o recozimento. Sua antiga vida disciplinada trouxera consequências inesperadas, como a de se tornar um bom ferreiro em outro mundo.
Michael pegou sua jaqueta de lã simples e se arrumou para sair. As encomendas do dia já estavam prontas. A cidade se preparava para o inverno que só iria piorar, mas também para as festividades de fim de ano, uma tradição que aparentemente seguia todas as formas de civilização, em qualquer lugar.
— Ainda vai pra biblioteca ler? — perguntou Hans. — Não sei o que tem de tão interessante lá, rapaz.
— O básico… lá tem o básico — respondeu Michael.
Hans apenas murmurou algo sobre a peculiaridade de seu funcionário, em tom depreciativo. Michael ignorou os comentários, já acostumado, e observou a rua, onde uma fina nevasca caía, cobrindo a cidade com uma película de neve. “Quatro meses, hein…”, pensou o tenente, com o rosto mergulhado em melancolia. Ele agora usava uma camisa de linho comum para o trabalho, comprada de um lojista nativo. Estava se adaptando à nova vida em uma velocidade assustadora.
Suas prioridades agora seguiam uma ordem estranha: em primeiro lugar, arrumar mais tabaco. Algo que o irritava e o obrigava a economizar, seu maço agora continha apenas mais três unidades, que ele acendia quando a dependência apertava com mais força. Em segundo lugar, claramente a sobrevivência, uma questão praticamente resolvida com a fonte de renda segura.
Aquele dia era um daqueles em que ele precisava se dar a esses pequenos luxos. Parado em frente à loja do senhor Hans, observava as crianças tentando brincar nos tímidos flocos de neve na linda praça diante da residência do lorde de Ventria. Apesar do anacronismo em sua perspectiva, aquela era uma boa cidade: localização costeira, bons serviços públicos e infraestrutura, além de um povo caloroso. O duque Emmon Périgut era, pelo pouco que Michael havia observado, um administrador que se preocupava com seus cidadãos. Com dificuldade, seu isqueiro acendeu a ponta do cigarro, permitindo que o gosto familiar do vício entrasse em seus pulmões renovados.
Várias famílias subiam e desciam a via principal, o maior ponto comercial da cidade, onde se misturavam lojas de queijos e peixes, as paixões locais, com as ferramentas que Michael aprendia a usar no seu dia a dia. E muitos que reconheciam Michael o cumprimentavam com gestos e palavras bondosas, agradecendo pelos serviços prestados. Desde sua contratação, ele havia feito desde foices a lanças, conhecendo muitas pessoas diferentes no processo. O estrangeiro apenas balançava sua cabeça e com um sorriso de boca fechada repetia: —Não há de quê.
Michael apagou a bituca na sola do sapato e a jogou no bueiro, seguindo em direção à “Sacra Biblioteca de Bovarde”, criada havia mais de duzentos anos. Ali ele se tornara um leitor ávido, buscando descobrir mais sobre aquele mundo.
Os livros na escrita nativa ele conseguia ler com tranquilidade, como se sua alma a tivesse como língua materna. Já as estrangeiras era bem mais difícil: conseguia compreender apenas palavras claramente influenciadas pelo arteliano. Esforçava-se para aprender, principalmente o alstadiano, idioma falado por seu patrão Hans, embora o ferreiro o usasse apenas quando queria xingar algum cliente sem que este entendesse, sem imaginar que o veterano estava começando a entender palavra por palavra.
A leitura daquele dia seria leve. Não queria forçar a cabeça no clima de festividade, mesmo numa festa cujo significado ainda descobria. Era o mês da fundação mística de Artel: o reino inteiro se juntava e celebrava por dias. O calendário começava com o mês do Deus Sol-Criador, Andras, e terminava com sua maior obra, Artel. Na capital, era tradição realizar um grande festival com a presença do rei no último dia.
O livro escolhido era um tratado sobre os maiores cultivos do sul do Reino , o grande celeiro do povo, fonte de frutas, vinhedos e cereais diversos, como trigo e aveia. Após ler cerca de quarenta páginas e anotar tudo em seu diário pessoal, Michael se espreguiçou e se levantou, agradecendo à velha senhora bibliotecária que administrava o local. Ele voltou para descansar em seu quarto alugado na guilda.
No dia seguinte, as ruas estavam cobertas com alguns milímetros a mais de neve, mas o movimento continuava, agora de forma mais caótica e aglomerada. Michael caminhava em direção ao seu local de trabalho e se questionava o que estava acontecendo. Na mesma praça da tarde anterior, havia um grande palco de madeira improvisado. Sobre ele, um homem em posição de orador segurava um pedaço de papel com força, como se sua vida dependesse disso. O orador vestia uma jaqueta de lã azul visivelmente cara, com detalhes dourados. Ao seu redor, vários cavaleiros com armaduras de placas prateadas, estampadas com o símbolo do sol no peito, o guardavam com lanças, todos visivelmente nervosos e preocupados.
O homem no palco gritou em alto e bom tom:
— Cidadãos deste Santo Reino! O rei envia uma mensagem a toda a nação. Quando o inverno acabar, marcharemos sobre Hæsteinn e tomaremos o que é nosso por direito. Glória a Artel!
Apenas um pensamento vinha à cabeça de Michael naquele momento. Ele estava no fundo da multidão, de braços cruzados, observando a movimentação dos guardas e o senhor Périgut, pensativo, ao lado do mensageiro. “Por quê?”, uma dúvida tão simples que carregava todo o sentido do mundo naquela situação.
Tentando em vão esvaziar a mente, o veterano suspirou e entrou para o trabalho. O velho Hans estava de costas para Michael, alimentando a fornalha com mais carvão. Sem tirar os olhos do trabalho, ele disse:
— Primeira vez vendo isso?
— Como é, senhor?
— Imaginei que fosse. Não se preocupe, garoto. Em toda década, aparentemente, precisamos sacrificar sangue jovem. É a quarta vez em minha vida que declaram guerra ao meu país natal.
— E o senhor não sente nada em relação a isso?
— No começo, sim. Mas essa história sempre termina ruim para o povo deste reino. Vocês é que deviam estar preocupados na verdade… Porém não precisa. Ventria é muito longe para ser afetada.
— Espero que sim — respondeu Michael, com o olhar incrédulo voltado para fora, vendo o mensageiro gesticular com paixão e raiva.
O restante do dia passou lentamente. O estrangeiro não conseguia se concentrar em sua batalha diária por informações nos livros. Ao anoitecer, ele partiu para uma caminhada noturna pela cidade, iluminada em várias regiões secundárias apenas pela luz da lua que o céu permitia atravessar. Sem a poluição da vida moderna, era possível enxergar melhor o dançar milenar das estrelas e planetas. As constelações eram completamente diferentes das que ele havia memorizado na Academia Naval como forma de navegação primitiva para o norte ou sul; e, portanto, a única que nunca falharia.
“Parece que a guerra me persegue”, o pensamento era persistente em sua cabeça. Ele se negava a relembrar sua vida anterior antes de chegar em Ventria. Talvez fosse assim que ele havia se adaptado tão rápido. Nunca saberia, e não queria saber.
Os dias de festividade transcorriam com um gosto amargo na boca. Michael tomava a única decisão que lhe restava: conhecer e se preparar. O hábito de condicionar o corpo o acompanhava desde que se tornara cadete. Seus registros se transformavam em fatos e curiosidades da terra, anotados de forma descontraída e animada para um estudo metódico do que poderia acontecer, baseado na extensa lista de conflitos recentes.
Dentro da guilda, os sentimentos eram mistos. Os poucos jovens que seguiam a carreira de aventureiro se animavam com a possibilidade de serem contratados como mercenários eventualmente, preferencialmente pelo lado de sua pátria. Já os mais experientes oscilavam entre indiferença e temor. Nas poucas vezes em que conseguiam almoçar juntos, Michael sempre gostava de conversar com o Mestre Otto. Este lhe perguntou diretamente:
— Jovem Leone, vai participar disto?
Michael, que estava escrevendo suas novas informações, parou por um instante, pensou e respondeu sem tirar os olhos do que fazia:
— Meu coração diz que não, mas meu cérebro sabe que vou ser arrastado para isso de alguma forma.
— Visão cínica, mas vamos rezar para que algum pingo de sorte caia sobre você.
O veterano levantou a cabeça e soltou um pouco de ar pelas narinas, acompanhado de um sorriso de canto de lábio.
— Eu agradeço.
— Bom, se é de seu interesse, o duque pediu para eu ajudar na campanha de recrutamento. A guilda vai servir como ponto de alistamento.
— Manterei em mente.
Neste momento, entrou na guilda uma figura conhecida. Era o mercador Flávio, com os ombros cobertos de neve, vestindo toca e dois casacos grossos. Mesmo assim, mantinha os braços cruzados de frio. Ele havia voltado da última entrega de suprimentos para o inverno.
— Bom dia, senhores — disse Flávio, com as mandíbulas tremendo.
— Venha aqui. Deixamos uma sopa quente — falou Otto, apontando com a cabeça para a terceira cadeira vazia na mesa.
— O senhor é divino — agradeceu o mercador, que rapidamente começou a devorar a comida aquecida.
— Me diga, Flávio, o que viu desde que soube das últimas notícias? — perguntou o mestre.
— O de sempre, uma repetição do que aconteceu sete anos atrás. As cidades mais próximas da capital já estão começando a se organizar para suprimentos e recrutas. Os nobres poderosos também — explicou o comerciante.
— Sente que algo vai ser diferente? — indagou Otto, com um cansaço profundo no olhar.
— Não sei porque pergunta se já sabe a resposta. Talvez, na verdade, seja até pior — respondeu Flávio, sem temor.
Otto suspirou e disse:
— Tem razão. As coisas só pioraram desde então…
E essa frase deixava Michael inquieto. Na tarde após o trabalho, o estrangeiro encontrou panfletos simples pendurados nas árvores, candeeiros e nas fachadas de estabelecimentos. Neles, escrita de forma grosseira e apressada, via-se apenas a frase “Lute por Artel!” seguida das informações dos locais onde era possível se alistar. Michael guardou um deles no bolso.

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