Ao longo das gélidas semanas, ele via cada vez mais jovens cujo rostos reconhecia graças a guilda e a loja de Hans se alistando. Eles se reuniam no largo campo dentro da residência do duque Périgut para o treinamento básico. Sempre que podia, Michael parava para observar o que conseguia através dos portões de ferro: geralmente uma seleção preliminar bastante primitiva, com um campo de obstáculos improvisados que envolvia corridas e alguns golpes em bonecos de pano e madeira, usando espadas de treino.

    O que realmente chamava sua atenção, porém, era o homem de casaco longo preto, com gola e punhos adornados por detalhes em dourado, que sempre observava tudo ao lado do instrutor dos cavaleiros locais do lorde. Michael, entretanto, tentava relevar, forçando os dedos contra os olhos para afastar qualquer pensamento que pudesse custar caro mais tarde.

    Ele não era mais um soldado. Era apenas o aprendiz de ferreiro. Ainda assim, o gosto amargo de saber, racionalmente, que aqueles garotos seriam usados com toda certeza como mera bucha de canhão e enterrados em algum lugar esquecido não saía de sua mente. Michael passava aqueles dias agonizando em silêncio, pois, no fundo, já havia tomado sua decisão desde que escutara as notícias.


    Na manhã seguinte, o veterano estrangeiro de outro mundo avisou seu patrão com a cabeça baixa, em sinal de respeito e agradecimento:

    — Senhor, me desculpe, mas irei me alistar na guerra.

    Hans suspirou e disse:

    — Estava demorando para me contar, hein. Já sabia pelos seus olhos. Não subestime a experiência de um meio anão!

    — O senhor é meio anão? — perguntou Michael, honestamente surpreso.

    — Todos os bons filhos de Myr são! — respondeu o ferreiro, gargalhando em voz alta, e continuou em tom sério, sem ironia: — Apesar da minha aparência linda e jovial… — Michael se segurou para não deixar escapar nenhuma risada — eu tenho setenta anos!

    — Certamente, senhor — disse Michael, com o humor um pouco melhor depois de ouvir aquela atrocidade.

    — Devo dizer que fiquei mal acostumado com você por perto — falou Hans, demonstrando agradecimento pelos serviços prestados da única forma que sabia. — Vá e faça o que precisa ser feito, garoto.

    Michael acenou com a cabeça uma última vez e partiu para a guilda a fim de se alistar. O que não surpreendia nem um pouco o mestre, que já havia pulado algumas etapas preventivamente para ajudar o veterano. Já na hora do almoço, Otto e o estrangeiro estavam no campo dentro da residência do duque.

    Ambos foram recebidos pelo instrutor local, que usava uma cota de malha simples junto com uma peça de couro reforçada. O cavaleiro perguntou, com o rosto e os olhos claramente exaustos pela nova rotina repentina:

    — O que posso fazer por vocês, rapazes?

    — Gostaria de entrar na tropa — disse Michael, com o rosto confiante.

    — Trouxe seu equipamento? — perguntou o instrutor.

    Michael rapidamente perdeu o semblante determinado e virou o rosto subitamente para observar os recrutas em treinamento. Todos se diferenciavam em armadura e armas: alguns carregavam cotas de malha, outros nada além de espadas. Michael havia se esquecido de que o conceito de equipamento uniforme era extemporâneo naquele mundo. Ele suspirou e respondeu:

    — Não, mas sei fazer. O velho Hans me ensinou.

    — Já serve — disse o instrutor.

    Momentos depois, ele estava correndo ao redor do campo para testar quanto tempo aguentaria, avaliando de verdade pela primeira vez seu corpo renovado. Seu fôlego estava renovado, sem nenhuma marca do vício. Passou com folga no teste e foi jogado diante de um alvo de madeira, com uma espada na mão. Ele foi sincero nos golpes que seu corpo e mente instintivamente executavam; nada surpreendente, mas que, ele e todos esperavam, causaria algum dano no inimigo.

    O instrutor então apontou para um imenso galpão improvisado com fileiras de cadeiras, onde dezenas de jovens voluntários estavam sentados, escutando uma palestra do homem misterioso que continuava usando seu casaco preto. Michael adentrou a cena sem querer chamar atenção e sentou-se perto da única entrada. O salão estava lotado. O veterano começou a escutar a preleção, que já estava claramente na metade.

    — Voluntários, o povo de Hæsteinn nos humilhou sete anos atrás. Seus pais e avôs se lembram com clareza disso. Devemos retomar a honra de nossa pátria. Esta é a oportunidade que nosso rei está nos dando: sermos parte ativa da história.

    Aclamações e gritos ecoavam pelo lugar, rapidamente interrompidos por um gesto simples do homem, que ergueu a mão direita à altura do peito. Ele continuou:

    — Treinaremos juntos por meses, até que este rigoroso inverno acabe. Então marcharemos rumo à glória. Amanhã partiremos para um campo no norte e ficaremos lá.


    No dia seguinte, uma fria nevasca atingia a costa do continente. Os recrutas estavam reunidos ao redor de uma grande fogueira improvisada na praça da cidade. Muitos se questionavam o que estavam fazendo ali naquele frio. Michael permanecia de braços cruzados, usando o melhor casaco que possuía, tentando manter a temperatura corporal. Era o único, além do instrutor e do estranho homem de trajes pretos, que mantinha o semblante determinado a seguir em frente. O estrangeiro escutava os garotos ao redor reclamando.

    Um jovem de cabelos ruivos, que não passava dos dezoito anos, falou com voz rouca ao lado do veterano:

    — Chegamos nem a treinar e já vamos morrer de hipotermia…

    Michael riu ao ouvir a indignação do rapaz, aproximou-se dele e disse em tom humorado:

    — Será que vão contar nossas mortes como baixas de guerra ou apenas como mortes comuns?

    — Espero que seja baixa do conflito. Fica mais bonito no papel — respondeu o jovem.

    — Michael Leone — apresentou-se o veterano, estendendo a mão.

    O ruivo cumprimentou-o e respondeu:

    — Will… Will Tebalus.

    Neste momento, a atenção de ambos foi chamada pelo instrutor, que finalmente declarou que começariam a marcha. Vários recrutas se despediram de suas famílias, que rodeavam o local, e partiram de forma desorganizada em direção aos portões setentrionais. Michael, no meio da massa humana que sofria com o frio, não conseguia deixar de pensar que pareciam mais prisioneiros de guerra numa marcha forçada do que recrutas. Deixaram Ventria para trás próximo do meio-dia.

    O homem de casaco preto liderava o caminho montado em seu cavalo. Por cerca de cinco horas, caminharam pelas planícies congeladas. Até que Michael avistou fumaça ao longe, junto com uma claridade, duas grandes tochas flamejantes diante de um umbral, com um sentinela entediado observando o pouco que restava da luz solar deixar o frígido dia.

    Vários homens haviam caído no caminho e eram carregados em macas improvisadas com pedaços de madeira ou amontoados nas carroças. Michael permanecia no fundo da retaguarda da coluna e, graças à falta de oficiais, ficava responsável por liderar a ajuda aos jovens que desfaleciam ou paravam, esforçando-se para não deixar ninguém para trás.

    Em duas vidas, aquela era a pior marcha que já havia enfrentado. Mesmo com seus anos de experiência, ele penou para seguir em frente e, ao mesmo tempo, ajudar seus companheiros. Quando finalmente cruzaram a cerca de madeira e chegaram ao espaço de treinamento, dos quase cento e trinta recrutas, apenas cinquenta estavam aptos a treinar imediatamente.

    O instrutor falou em tom firme enquanto os novatos se aqueciam:

    — Homens, lhes apresento o homem que fará de vocês verdadeiros soldados desta gloriosa nação. O mestre-de-armas, Senhor Ervirgius Athabas.

    Ervirgius era o nome do misterioso companheiro do instrutor. Após clarear a garganta, ele declarou:

    — Esta é a nova casa de vocês, um dos campos magnórios destas lindas pradarias. Ao redor de toda a nação, recrutas como vocês estão treinando diariamente para lutarem por Andras e por Vossa Majestade. Eu e o senhor Calistus guiaremos vocês nesta jornada.

    Michael observava atentamente o homem discursar, posicionado na primeira fila. Foi então que o estrangeiro percebeu que o mestre possuía um olho falso no lado esquerdo do rosto. Depois disso, todos ali compartilharam uma refeição de caldo quente e seguiram para seus aposentos. Michael foi designado para a seção mais ao sul. Ao chegar na pequena tenda, arrumou suas poucas coisas perto de sua beliche. Foi então que sentiu alguém entrando na tenda junto com ele. O veterano olhou para trás e viu o ruivo Will.

    Will riu e disse:

    — Parece que estamos destinados a formar uma amizade, senhor Leone. Estou nesta tenda também.

    — Bom saber que um nome conhecido é meu colega.

    — Mesmo um conhecido de algumas horas?

    — Estes são os melhores.

    A situação toda era estranhamente nostálgica para Michael. Talvez porque, de fato, era a segunda vez que vivia como recruta. Já deitado na cama, prestes a encerrar o dia, ele pensou: “Pelo menos, desta vez, as coisas precisam ser diferentes.”

    Amanhã seria outro dia. Uma velha vida se repetia, agora, em outro mundo.

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