Capítulo 4 - Aço e Esgrima
— A vida é dura, mas o mestre Ervirgius faz ela ser ainda mais — disse um sujo e cansado Will Tebalus, enquanto observava o estrangeiro lavar meticulosamente as mãos em um barril cheio de água limpa, mesmo no inverno que não parecia querer ceder. Para o ruivo, Michael era um jovem estranho, cheio de maneirismos sem sentido.
Enquanto secava as mãos abanando-as no ar, Michael riu um pouco da indignação do companheiro e disse:
— Sabe, nos seus momentos mais sombrios, sempre lembre-se que você poderia estar em casa, aquecido, e que escolheu isto.
— Eu não escolhi nada. Meu pai queria manter a honra quase nula de nossa família de meros mercadores. — Antes de continuar a própria a frase o jovem começou a gesticular com sua mão direita —Meu avô sempre avisava: nunca passe mais tempo que o necessário com os nobres…
— Além do Duque Périgut e de Vossa Majestade, eu não conheço nenhum outro nobre.
Will encarou Michael com uma surpresa não disfarçada nos olhos e no rosto, proclamando:
— Sendo sincero, não estás perdendo nada.
— Tomara.
O veterano abriu sua amassada caixa de cigarros e pegou com delicadeza o penúltimo, acendendo-o de forma ritualística. A fumaça parecia pesar mais naquele clima. Faziam quatro dias que haviam chegado ao campo magnório, nomeado em homenagem a Mairs Périgut, um dos ancestrais do lorde local. Will presenciava a cena do estranho tubo flamejante na boca de seu colega e o questionou:
— O que é isto?
— Apenas um atestado de tristeza e péssimas decisões. — respondia Michael, dando uma tragada lenta.
— Cala a boca, cara. Não faz nem duas horas que alvoreceu.
Michael riu genuinamente e acenou como se o garoto tivesse total razão. Além do treinamento local, nos raros momentos vagos em que deveria estar descansando, o estrangeiro dedicava-se a fabricar seu próprio equipamento. Para sua sorte, o Duque havia decidido financiar os materiais de diversos recrutas como gesto de apoio ao esforço de guerra. Isso significava que Michael estava produzindo peças também para os recrutas menos afortunados, assim como ele.
O rapaz Tebalus possuía uma lâmina de família, já um pouco desgastada pelo tempo. Um modelo comum naquela nação. Michael observava com o olhar treinado por sua curta experiência em ferraria. A espada media cerca de oitenta centímetros, possuía um ricasso distinto e pesava um pouco mais de um quilo. Vários outros jovens em treinamento portavam variações daquele mesmo padrão. Leone usava-a como referência não oficial, algo a ser considerado na construção de sua própria arma.
Ao lado de sua mesa improvisada de trabalho, Michael ajustava dezenas de desenhos com medidas precisas e tolerâncias de suas experimentações, buscando transformar o processo em algo mais mecânico e ágil para a construção de cerca de vinte e poucas espadas. Era a primeira vez que estava realmente livre para fazer do seu jeito e explorar o metal em sua forma mais pura. Seus anos estudando engenharia enfrentavam agora um grande batismo de fogo.
Enquanto aprendia os básicos do caminho do espadachim, o veterano se irritava constantemente ao ver os diversos aprendizes com equipamentos tão diferentes. Não havia nenhuma regulação oficial, algo que não parecia incomodar nem mesmo o homem mais experiente presente: o Mestre Ervirgius.
Todos aqueles conscritos, lado a lado, vestiam roupas diferentes, armaduras que variavam em peso e eficiência, e portavam armas de tamanhos distintos. Michael sabia, no fundo de seu ser, que eles seriam jogados no campo de batalha como meras buchas de canhão. Ainda assim, o desaforo daquela falta de padronização não deveria ser tão óbvio.
Pedindo um grande favor a Will, o único colega em quem realmente confiava, os dois dividiram as tarefas de forma organizada na ferraria. O forasteiro dava ordens diretas e simples para facilitar o processo. Em cinco dias, já tinham no papel o molde perfeito para a lâmina. No vigésimo terceiro dia, a matriz tomou sua forma final. Na manhã do trigésimo primeiro, a primeira espada completa. E assim continuou.
Leone carregava terríveis olheiras e parecia mais um cadáver do que um homem, mas era, de longe, o mais diligente e capaz. O projeto pessoal foi concluído em dois meses, com todas as armas apresentando qualidade idêntica e construção superior.
— Você é um maníaco, sabia disso? — disse Will, extremamente surpreso com a capacidade técnica do colega. Ele inspecionava detalhadamente uma das unidades produzidas, girando a espada nas mãos sem qualquer receio.
Will colocou a arma sobre a mesa e apoiou a mão esquerda na bancada.
— Há quanto tempo você faz isso, afinal? — perguntou o ruivo.
— Acredite se quiser, mas apenas seis meses — respondeu o aprendiz de ferreiro.
— Espetacular. Se puder dar minhas duas moedas de bronze nisso… Já vi muitas armas por ter sido obrigado a trabalhar carregando e distribuindo mercadorias pro meu pai. Acho que sei do que estou falando.
— Obrigado, eu acho — falou Michael, genuinamente.
Algumas horas depois, Michael e Will estavam diante do Mestre-de-armas. O estrangeiro mantinha a postura ereta e o queixo elevado, com a disciplina militar que fora obrigado a aprender entre gritos e lama. Will, por sua vez, estava mais desleixado, pela falta de prática. Ervirgius observava Leone com uma admiração relutante.
Na mão do instrutor havia um dos exemplares trabalhados pela dupla. Ele apontou para Michael de forma tranquila e disse:
— Ótimo trabalho, garoto. Me diga, é algum nobre falido ou coisa do tipo?
— Não que eu saiba, senhor.
— Hum. Você de fato é um talento a se considerar nesta unidade. Ouvi dizer dos outros novatos o que fez na marcha para o acampamento.
— Fiz o que deveria ser feito, senhor.
— Diligente e disciplinado. Está tentando conquistar o coração de pedra deste velho homem? — riu o senhor Athabas.
Michael, de braços cruzados, olhou para fora da tenda dos oficiais e percebeu o horizonte nas planícies, onde o gelo derretia visivelmente com o retorno das chuvas, marcando a transição para a primavera. Ervirgius parou de rir, olhou para Michael e, como se lesse seus pensamentos, disse em voz alta:
— Partiremos em duas semanas. Temos que aproveitar a transição do inverno para a primavera e chegar com força no fronte.
O veterano foi pego de surpresa e respondeu:
— Certamente, senhor. Marcharemos para o oeste?
— Exatamente, em direção à fronteira final, o rio Tapamac… — respondeu o instrutor, suspirando cansado. — Michael, você me ajudará. Estamos com uma falta imensa de autoridades em campo. Dito isso, os dois estão dispensados.
Instintivamente, Michael prestou continência de forma perfeita antes de sair. Will copiou o gesto de modo apressado. Já do lado de fora, o ruivo falou empolgado:
— Aquele homem tem alma? Ele te elogiou e ainda te “promoveu” tecnicamente.
Michael riu e balançou a cabeça.
— Ele é um bom instrutor. O problema é que ele é consciente demais. Sabe exatamente o que vamos passar.
— Isto não deveria ser bom?
— Se ele tivesse poder de decisão, sim. Mas aqui só causa ansiedade e dor adiantada.
— Novamente você querendo dar uma de intelectual.
— Está no meu sangue — respondeu Michael, brincando e abrindo um meio sorriso.
As semanas prometidas se passaram, e Michael completou formalmente seu treinamento como espadachim dentro do Exército de Artel. Não possuía talento ou força para se tornar uma figura de contos arturianos, mas era terrivelmente esperto e seguia ordens como ninguém em todo o regimento. Ervirgius havia declarado a todos que Michael era um “Ajudante de Marcha”, por falta de termo melhor.
Na manhã do dia anterior, um mensageiro real chegara e entregara uma carta a Ervirgius, revelando o local onde o exército se reuniria. No alvorecer da jornada, cento e treze homens gritavam e assobiavam entusiasmados — a hora havia chegado. Ao longo dos três meses, cerca de quinze homens foram feridos por gangrena ou hipotermia, com três mortos.
Michael estava de braços cruzados ao lado dos dois instrutores. Calistus e o Senhor Athabas, montados a cavalo, deram o sinal e a longa marcha começou, acompanhada por duas carroças cheias de suprimentos. As planícies estavam lamacentas com o derretimento da neve, tornando o avanço horrível.
O estrangeiro posicionou-se estrategicamente no centro de toda a fileira, no lado direito, fora das colunas, observando toda a movimentação. Michael ficava a cargo de manter o moral e a organização da tropa, caminhando sob sol ou chuva com o semblante confiante e conversando com os colegas, oferecendo incentivos.
— Parece que ganhamos mais dignidade desde a última vez — comentou Will, sentado numa caixa de madeira improvisada como banco, durante a primeira noite da marcha. Michael, que bebia água de um cantil, quase cuspiu ao ouvir o comentário sarcástico.
— Não se preocupe, estaremos na lama já, já — respondeu Leone.
— Assim espero. Temo que, de tanto passar tempo com você, eu fique irreconhecível para os meus pais — questionou o ruivo.
— Cala a boca, cara — falou Michael, rindo. — Apenas não deixe sua esperteza subir para essa sua cabeça vazia — complementou, gesticulando.
Neste momento, o Mestre Ervirgius adentrou a tenda dos dois e proclamou:
— Senhores, desculpem interromper o descanso, mas precisamos discutir nossos próximos passos.
O instrutor tirou um mapa da região e o abriu sobre a caixa onde Will estava sentado. Michael cruzou os braços e observou atentamente. O mapa mostrava toda a região sul do reino. O senhor Athabas apontou para uma cidade chamada Hetgusta e disse:
— Estamos a um dia e meio de marcha de Hetgusta. De lá, nos reuniremos com os voluntários do Ducado de Agrilate. Eles devem ter mais que o dobro de nossa tropa, considerando o tamanho da capital regional.
Michael acenou positivamente. Ervirgius continuou:
— Depois disso, marcharemos por mais uma semana até… — Ele procurou atentamente no mapa o nome do local e, quando encontrou, arrastou o dedo sobre o papel. — Vesangres, uma pacata vila perto da fronteira delimitada pelo rio Tapamac. Os nobres definiram a base para a campanha ali.
— Senhor, quantos teremos no total? — perguntou Michael com sinceridade.
— Essa informação é algo que eu não possuo, jovem Leone.
Michael suspirou e levantou o braço direito, apoiando o queixo num gesto de raciocínio. Percebendo que seria uma preocupação sem resultado imediato, relaxou a postura e abriu novamente seu cantil de água.

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