Capítulo 5 - Prelúdio de Sangue
No entardecer do dia seguinte, mesmo com uma leve garoa que irritava os que caminhavam sem proteção, Michael já conseguia enxergar os portões e edifícios de Hetgusta, além do castelo do duque local. Esforçando-se para chegar ainda naquele dia, a unidade foi cumprimentada na principal avenida e encontrou o instrutor local, um homem de meia-idade de aparência cansada chamado Marus.
Ervirgius cumprimentou o colega com um aperto de mão e os dois começaram a conversar sobre o cotidiano e a viagem. O restante da tropa seguiu para suas locações para passar a noite. Michael chegou a seu quarto em uma casa velha de madeira, onde o mofo era visível no teto, e deitou-se na cama. Do lado de fora, vários homens conversavam ao redor do crepitar de uma pira. Hetgusta preservava bem sua parte histórica e populosa. A cidade parecia parada no tempo.
A avenida principal era composta de edificações erguidas sobre bases rígidas de pedregulhos, algumas com telhados de tijolos, outras de madeira e palha. O símbolo do senhorio local tremulava por toda parte: um cavaleiro montado em seu corcel, espada erguida e o sol o iluminando.
Ao clarear do dia, Michael e Will saíram para uma caminhada pelo centro da cidade antes que as preparações para seguir viagem continuassem. Will comentou:
— Isto é o mais longe que já fui de casa.
— Espero que esta frase não seja repetida tantas vezes — respondeu Michael.
O ruivo revirou os olhos diante do comentário do companheiro. Neste momento, uma criança de cerca de sete ou oito anos apareceu, com roupas cheias de furos, pouco mais que trapos. Ela pedia comida. Michael ia tirar de sua bolsa um pequeno saco contendo carne seca caseira, quando a mãe da criança correu e a puxou pelo braço. Curvando-se rapidamente, a mulher disse:
— Meu bom senhor, por favor perdoe a insolência de minha filha.
Sem dar tempo para réplica, a mulher saiu dali e dobrou a esquina. Will e Michael se entreolharam por alguns segundos, tentando entender o que havia acontecido. O estrangeiro fez um gesto com a cabeça para que seguissem a mulher. Ao dobrarem a rua, encontraram-se em outra parte da cidade e, quanto mais avançavam, pior se sentiam. Uma periferia escondida no coração do burgo. Diversos pedintes claramente empurrados para viver ali.
Mesmo vestidos com roupas comuns, os dois homens pareciam destoar completamente. Will ficava enojado e irritado. Michael disse:
— Parece que chegamos a um dos frutos da civilização.
Michael olhou para o colega e viu que ele estava claramente furioso e prestes a cometer um grande erro. Precipitadamente, colocou a mão direita na frente de Will, pedindo calma, e falou:
— Não há nada que possamos fazer em relação ao quadro geral.
— Então você vai ficar aqui e apenas observar?
Leone suspirou e replicou:
— Não. Volte ao regimento, eu resolvo aqui.
Relutantemente, o jovem fez o que Michael pediu. O estrangeiro seguiu até a mãe e a filha que haviam visto e, sem dizer nada, entregou algumas moedas de prata e o saco de carne seca. A mulher, sentada na calçada junto à menina, agarrou o braço direito de Leone, agradecendo quase em lágrimas.
Ao voltar ao quartel, Michael viu um discurso sendo proferido pelo lorde local. Ao lado do homem, havia um garoto vestindo uma armadura reluzente prateada, com belíssimos detalhes gravados. Mesmo em trajes pomposos, seu corpo era visivelmente franzino. O duque proclamava, confiante e orgulhoso:
— Futuros guerreiros de Artel, vocês terão a honra de acompanhar a gloriosa jornada de ascensão de meu filho. Vallos IV de Renstol.
Michael suspirou fortemente ao ouvir aquilo. Neste momento, sentiu uma mão em seu ombro esquerdo. Era Ervirgius, que disse em tom derrotado:
— Me desculpe, jovem.
O mestre seguiu para o palco e cumprimentou o duque e o filho com um sorriso arquitetado. O longo dia dava lugar a uma bela noite iluminada pela lua cheia. Sozinho em seu quarto, pela primeira vez em dias, Michael anotava em seu diário mental algumas construções que achara interessantes durante a marcha, diferentes armas e armaduras, e principalmente o início de seu envolvimento na guerra, tornando-se um registro pessoal do conflito.
Em um dos parágrafos, ele escreveu: “Pela primeira vez desde que cheguei, vi a miséria de verdade, a dor de não possuir nada. Em Ventria não havia pedintes. No máximo marinheiros bêbados. Os canais oficiais do Reino omitem por má-fé ou ingenuidade os podres desta nação? Ou o duque Renstol é um caso isolado? Preciso conversar melhor com os mercadores e aventureiros nas guildas.”
Antes que a luz do dia despertasse completamente, o regimento partiu para retomar a viagem. Agora acompanhados por um futuro duque. Will comentou:
— Viramos babá de nobres?
Michael fez um gesto rápido para que o ruivo calasse a boca e sussurrou:
— Reclame em privado. Aquela mulher tinha medo nos olhos só de ver nobres. Se tratam os próprios cidadãos assim, imagina o que fariam com forasteiros.
E assim cruzaram o interior da nação, atravessando manhãs e noites pelas belas pradarias que aos poucos voltavam a prosperar. O veterano sempre observava as tropas, mantendo-as organizadas. Com a chegada do herdeiro, a cadeia de comando ficara confusa. Não havia nenhum estatuto oficial do exército, se é que poderiam se considerar verdadeiros soldados e não apenas uma milícia regional. Os homens de Hetgusta carregavam a flâmula local, respondiam a Marus e, principalmente, a Vallos. Já os treinados em Ventria respeitavam Michael e Ervirgius. O estrangeiro temia que uma rixa entre os dois grupos crescesse com a falta de liderança clara.
No décimo quinto crepúsculo desde a saída de Hetgusta, o percurso chegava ao fim. No distante horizonte, Leone vislumbrou uma grande concentração de soldados, tendas e bandeiras diversas. Era o Exército Real de Artel preparando-se para a campanha. Cerca de duzentos e oitenta recrutas cruzaram os portões da base e começaram a montar acampamento. No total, Michael calculava mentalmente cerca de trinta mil homens distribuídos entre infantaria, cavalaria e arqueiros.
— Quase perdemos a festa inteira — disse Will, genuinamente feliz por terem finalmente chegado.
— Preferia ter sido barrado na entrada — respondeu Michael, rindo do companheiro.
Mesmo há poucos momentos em que chegaram no complexo, o forasteiro ficou sabendo de diversos acontecimentos. Os dois principais duques envolvidos e presentes disputavam acirradamente sobre liderança e estratégia. Um deles, Avitus Orevastor, prometera ajudar nos esforços de guerra com sua poderosa cavalaria pesada, sob a condição de que sua filha e herdeira pudesse se casar com o herói.
— Que bagunça estamos fazendo aqui — Michael ouviu a reclamação de um soldado comum.
Leone continuou escutando, por acaso, o resto da conversa.
— Do que adianta salvar a capital de uma insurgência e não comparecer nesta campanha? — disse um homem visivelmente irritado, segurando o capacete no braço esquerdo, na altura do quadril. Seu camarada replicou:
— Hæsteinn não é tão forte a ponto de precisarmos de um herói para vencê-los. O campeão deve estar aproveitando a vida de recém-casado.
— Tanto faz, cara. Ele deveria estar aqui e ponto.
Momentos depois, enquanto compartilhavam uma refeição, Michael perguntou:
— Will, o que você sabe sobre o herói?
— Hum, o nome dele é Ed Aripelion. Todas as crianças da capital brincam fingindo ser ele. Ano passado, ainda como aluno da Academia Sacra, ele derrotou uns hereges. A história é bem famosa no reino. Você estava morando debaixo de uma pedra?
— Hã, quem dera — respondeu Leone, sarcástico.
O forasteiro acordou ao som das gotas de chuva caindo sobre a tenda e o solo. A intempérie estava apenas começando. Em questão de horas, o chão de seu quarto ficou completamente encharcado e a água escorria por todo o seu corpo. Mesmo com o clima terrível, os dois líderes se reuniram para discutir as ações futuras. Após uma discussão acalorada que durou todo o período vespertino, o único consenso foi segurar qualquer movimentação até que os céus se abrissem.
Michael aproveitou o tempo livre para caminhar pelo quartel, na esperança de aprender mais sobre seus aliados. Foi quando viu, no centro do complexo, perto das tendas mais luxuosas — cheias de móveis ostensivos —, cerca de cinquenta pessoas vestindo armaduras leves, com apenas uma peça peitoral e alguns capacetes. Todos usavam capas vermelhas sobre roupas brancas e azuis bem detalhadas. Eram majoritariamente homens, mas havia algumas mulheres.
Alguns conversavam, outros permaneciam em posição. Leone então escutou um praça qualquer falar ao seu lado:
— Estes são magos, meu jovem. Os melhores dos melhores. Formados diretamente na Sacra Academia.
— É mesmo?
— Magos são a força destrutiva de qualquer exército neste mundo.
— A magia é comum para todos?
— Hã! Nunca. Há relatos de que era mais comum antigamente, mas hoje em dia ficou restrita a alguns plebeus sortudos e nobres.
— Interessante — disse Michael, pensativo.
Magia, magos. Um assunto difícil de se estudar numa pequena cidade costeira, pensou. Ele havia lido sobre o tema, mas imaginava que o clichê havia se esvaziado nos anais da história, restrito a lendas e mitos de tempos mais gloriosos. O restante do dia esvaiu-se e o temporal não cessou.
E assim seguiram por mais três dias, entre garoas e tempestades que impediam o avanço da tropa.
Até que, no quinto dia, Michael escutou um cavalo galopando apressadamente sobre os campos. Seu montador vestia uma couraça esplêndida, embora estivesse encharcada de chuva e lama. O cavaleiro solitário parou abruptamente no centro do quartel e conversou em privado com os comandantes. Minutos depois, Avitus subiu em seu cavalo e gritou para todos ouvirem:
— Santos guerreiros de Artel! Parece que os deuses não nos abandonaram. Na verdade, sorriram para nós! O inimigo avançou em nosso território e já cruzou o Rio Tapamac. Porém, não temam! Nós os interceptaremos em sua rota com um ataque surpresa. A vitória será nossa!
Os soldados explodiram em gritos e aclamações, assobiando e erguendo os braços. Alguns batiam espadas contra escudos e armaduras. A cena ficou gravada na memória de Michael. Amanhã seria seu batismo de fogo.
— Parece que os deuses realmente nos favoreceram — disse Will, ao ver que o céu agora estava de um azul tão forte que chegava a doer os olhos.
— Algo não me parece certo, Will — respondeu Michael, visivelmente pensativo. — O inimigo não avançaria preventivamente sem uma boa estratégia ou, no mínimo, um bom reconhecimento da área.
— Você tem razão, jovem Leone — interveio o mestre-de-armas Ervirgius, surgindo na conversa. — A culpa é inteiramente nossa por termos declarado nossas intenções de invasão no auge do inverno e só agirmos na primavera — completou o cansado instrutor.
— Como eu desejava que homens como você estivessem à frente disto — confessou o senhor Athabas.
— Agradeço o elogio, mas minha linha de raciocínio é a mais básica que existe neste contexto — replicou Michael.
— Às vezes, até o óbvio precisa ser esclarecido, senhor Leone — retrucou o especialista.
No mesmo instante, os sinos da pequena igreja da vila de Vesangres começaram a tocar. Os três se locomoveram para entender melhor o que estava acontecendo. Leone avistou milhares de cavaleiros equipados com armaduras pesadas, muitos com proteção até mesmo para os cavalos, descendo o campo abaixo. À frente de todos seguia o duque Orevastor. Logo atrás vinham o restante das tropas do lorde: sua infantaria e algumas centenas de arqueiros, marchando em colunas organizadas.
— Alguém ficou sabendo de alguma coisa? — perguntou Michael, honestamente.
— Não — responderam em uníssono Will e o instrutor.
Uma trombeta soou perto deles, o toque de preparação para a batalha. Os regimentos de Ventria e Hetgusta foram colocados sob o comando do duque Vitazi, que detinha a maior parte dos conscritos. Sua força de elite era composta por mercenários estrangeiros. O trio correu para seus aposentos e pegou seus equipamentos. Michael vestiu a opção mais básica disponível: uma armadura de couro reforçada com cota de malha.
O forasteiro seguiu para sua unidade, encontrou rostos familiares, cumprimentou a todos e lhes desejou boa sorte antes de partirem para acompanhar as forças de Avitus. Era por volta do meio-dia quando cruzaram cerca de doze quilômetros em direção ao sul, sobre solo encharcado e lamacento. Michael e Will avistaram, no horizonte, uma imensa floresta que se estendia dos dois lados de um caminho natural estreito, com pouco mais de cento e poucos metros de largura.
Estacionados à frente do único caminho estavam os homens sob o senhorio dos Orevastor. Do outro lado, mesmo com a copa das árvores bloqueando parcialmente a visão, havia uma grande concentração de tropas inimigas carregando os símbolos de Hæsteinn. Seus números exatos e composição permaneciam um mistério.
No total, as forças de Artel presentes somavam cerca de dezoito mil homens, distribuídos entre os dois líderes. Avitus Orevastor tomou a dianteira e proclamou a seus homens:
— O inimigo está à frente e não esperava por nós. Enquanto preparam suas inúteis defesas, eu lhes imploro: Homens, sigam-me mais uma vez em batalha e eu lhes trarei a vitória!
Michael enquanto raciocinava o discurso, recebia ordens de um capitão dos Vitazi, um homem com forte sotaque ao falar arteliano:
— Instrutor, leve seus homens para o flanco esquerdo, como guarnição. Evitem a floresta e protejam a retaguarda.
Ervirgius acenou com a cabeça e seguiu conforme ordenado. A milícia dos Renstol recebeu instruções idênticas. Michael apontou para um pequeno planalto mais preservado das últimas chuvas, de frente para uma leve inclinação a favor deles e voltado para a mata. O problema era que qualquer avistamento de um avanço, tanto inimigo quanto aliado, seria quase nulo naquele terreno.
Quando finalmente tomaram suas posições defensivas, Will, Ervirgius e Leone ouviram o toque de uma trombeta da cavalaria aliada, ordenando o avanço…

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