Jota

    Histórias 1
    Capítulos 117
    Palavras 253,5 K
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    Tempo de Leitura 14 horas, 5 minutos14 hrs, 5 m
    • Capítulo 117 - Homens Livres

      Capítulo 117 - Homens Livres Capa
      por Jota O primeiro estouro fez Sebastião derrubar a tenaz no chão de terra da forja. O barulho não veio da bigorna, nem de um pedaço de metal superaquecido rachando. Veio da casa-grande. Ele saiu para o pátio, a camisa de linho colada ao peito pelo calor da fornalha, os olhos arregalados. A visão era de um pesadelo invertido. A casa-grande, o símbolo imóvel de um poder que ele pensava eterno, vomitava chamas e fumaça para o céu noturno. O rugido que se seguiu, vindo da floresta, não era de fogo. Era…
    • Capítulo 116 - Esperança Parte II

      Capítulo 116 - Esperança Parte II Capa
      por Jota Vários soldados desceram a colina em sua direção. Ainda em silêncio. Seus rostos, iluminados pelas chamas distantes, eram sérios, focados, mas não cruéis. Não havia sorrisos de sadismo, apenas a expressão contida de quem completara uma tarefa difícil. Um deles, um homem mais velho com marcas de queimadura cobrindo um lado do rosto como um mapa de dor antiga. Ele parou a uma distância segura, mas não ameaçadora, seus olhos escaneando o grupo de escravos aterrorizados. Quando finalmente…
    • Capítulo 115 - Esperança Parte I

      Capítulo 115 - Esperança Parte I Capa
      por Jota O despertar de Luiza não começava com a luz, mas com o cheiro. Uma sinfonia nauseante que havia se tornado a trilha sonora de sua existência: o odor doce-azedo da cana fermentada, que impregnava até a água turva que bebiam; o mofo úmido da palha podre que servia de cama e travesseiro; o fedor pungente do balde coletivo no canto mais escuro da senzala — um tonel de madeira rachado, sempre transbordando, onde a vergonha de homens, mulheres e crianças se misturava num líquido amarelo e fétido que…
    • Capítulo 114 - Fim da Passividade

      Capítulo 114 - Fim da Passividade Capa
      por Jota O ar frio da madrugada nordestina entrava nos pulmões de Nzambi como lâminas finas. Cada inspiração doía, cada expiração saía como uma nuvem fantasma na penumbra pré-alvorecente. Ele corria, ou melhor, tentava correr — seus pés pareciam de chumbo, arrastando-se na terra batida do pátio de treinamento. O novo quartel do Exército da República, incrustado no coração do Mocambo do Tatu, era um monstro de concreto que mal conhecia a sombra. Os altos muros cinzentos, pareciam observá-lo com…
    • Capítulo 113 - Volta a Casa

      Capítulo 113 - Volta a Casa Capa
      por Jota A viagem de volta, sob um céu noturno salpicado de estrelas, foi mais silenciosa, mas eletrizada pela conversa que haviam tido. O ar noturno, mais fresco, trazia o cheiro da terra úmida, da vegetação noturna e o canto constante dos insetos. As lanternas das carroças balançavam, projetando sombras dançantes no caminho. Dentro da carroça, Tassi quebrou o silêncio, sua voz um sussurro no escuro. — Obrigada, Carlos. De verdade. Por ter confiado em mim para explicar. E por... por ter feito o…
    • Capítulo 112 - Espada

      Capítulo 112 - Espada Capa
      por Jota O ar na sala pareceu mudar assim que a porta se fechou atrás de Dom Orsini. A formalidade cerimonial deu lugar a uma tensão diferente — mais íntima, carregada de segredos e possibilidades perigosas. A luz da tarde, agora dourada e oblíqua, entrava pelas altas janelas, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar pesado. Carlos esperou alguns segundos, sua audição aguçada tentando captar qualquer som do corredor. Então, olhou para Paula. — Consegue verificar se há ouvidos…
    • Capítulo 111 - Cruz

      Capítulo 111 - Cruz Capa
      por Jota O sol nordestino martelava implacável sobre a estrada de terra batida que serpenteava entre canaviais intermináveis e manchas esparsas de mata atlântica. Carlos viajava numa carroça aberta, o calor um manto úmido e pesado sobre seus ombros. O suor escorria em filetes teimosos por suas têmporas, misturando-se à poeira fina e avermelhada levantada pelas rodas. Duas carroças compunham o comboio da República, uma delas carregando a carga mais preciosa: Tassi, Espectro, Sombra e ele mesmo. Atrás,…
    • Capítulo 110 - Frutos

      Capítulo 110 - Frutos Capa
      por Jota O ar nos campos experimentais de Tassi carregava uma promessa doce. Não era mais o cheiro agridoce de fracasso e terra ressecada que Carlos conhecia de suas visitas anteriores. Agora, uma fragrância complexa dançava na brisa da tarde — o perfume floral das frutíferas em flor misturado ao aroma terroso de solo saudável e à nota herbácea das folhas verdes. A luz do sol, já mais baixa no céu, pintava tudo com tons de âmbar e ouro. Carlos caminhava entre os canteiros transformados quando a viu.…
    • Capítulo 109 - Encurralada

      Capítulo 109 - Encurralada Capa
      por Jota — Vossa Santidade — disse Luzia, com uma pequena reverência. — Dom Mateus Orsini está no escritório. Ele solicita uma audiência. Paula sentiu um frio súbito percorrer sua espinha, um contraste com o calor do entusiasmo científico de momentos antes. "Chegou a hora", pensou, secando as mãos no avental. "O verdadeiro jogador entra em cena." Ela conhecia Orsini por reputação. "Um velho raposa", continuou seu monólogo interno enquanto seguia Luzia pelos corredores. "Dizem que negociou a…
    • Capítulo 108 - Hereges

      Capítulo 108 - Hereges Capa
      por Jota O sol da tarde banhava o pátio atrás da igreja com uma luz dourada e oblíqua que fazia as poeiras de cimento e os grãos de areia brilharem como partículas de ouro suspensas no ar. A Papisa Paula estava no meio do canteiro experimental onde testavam novas argamassas quando a Irmã Luzia se aproximou, seu hábito de linho fino pairando suavemente sobre os tijolos dispostos no chão. — Vossa Santidade — chamou a Irmã, com uma ligeira inclinação. — Os novos assistentes enviados pelo Papa…
    Nota