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Capítulos 51
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por Sanarion_ — O apito agudo do trem ecoou pelo campo aberto e rasgou o silêncio da manhã. Os ouvidos de Mirena latejarem. Os olhos da mulher lutavam para se acostumar com a luminosidade agressiva do dia, que era filtrada pelas janelas do vagão. — Argh! Faz tempo que eu não andava de trem, minhas costas estão um pouco travadas — ela resmungou, ao se esticar. Seu corpo inteiro parecia uma dobradiça enferrujada, gritando a cada movimento brusco após a batalha exaustiva contra o Titã. Dhaha, por… por Sanarion_ — Cucca Beludo foi entregue aos médicos, que o trataram de antemão. Mirena saiu primeiro, mas Dhaha logo saiu da enfermaria de cabeça baixa, a lembrança do amigo preso a um olhar morto era demais para ele. Halvar havia os pago minutos antes, em uma mistura de felicidade por ter sobrado dinheiro com a tristeza da perda. Nem sua mãe pôde ser salva. O garoto caminhou pela cidade, e mesmo com o brilho do sol, tudo parecia escuro e cinza. O lugar não lembrava nem um pouco o que fora alguns dias… por Sanarion_ — Dhaha já conseguia ver seus ossos esmagados por aquelas mãos gigantescas, a sombra do colosso escondeu o céu e apagou sua esperança. Memórias o acertaram como pequenos cacos de vidro. Ele estava vendo sua vida passar diante dos olhos, um filme mudo e em preto e branco. Antes que o amontoado de ossos tocasse o solo para esmagá-lo, um clarão cruzou o campo de visão do garoto. O som estridente de metal colidindo com algo sólido atingiu seus ouvidos e o trouxe de volta para a realidade… por Sanarion_ — Enquanto o horror se desenrolava nas profundezas, na superfície, o silêncio do lago era uma tortura para Dhaha. — Quarenta e oito... quarenta e nove... — o garoto contava, enquanto fazia flexões sobre a grama úmida. Ele estava inquieto. Quando soube que não poderia descer para a caverna, sentiu um misto de alívio e culpa. O alívio por não encarar a água era doce, mas a angústia de abandonar aquelas pessoas era como uma bala amarga. — Setenta e um... argh... setenta e dois... —… por Sanarion_ — A colisão com os esqueletos foi rápida e curta. A horda de criaturas, embora numerosa, não passava de um amontoado de ossos mal articulados. Eles não tinham a intenção de vencer pelo intelecto, mas sim pelo cansaço. Mirena sentia o peso de cada flecha disparada. — Quem quer que seja, já sabe que estamos aqui! Mantenham a guarda alta! — gritou Cucca Beludo, sua voz ecoando nas paredes úmidas. Ele abatia dois inimigos com um arco largo de sua espada e fazia lascas de costelas voarem… por Sanarion_ — — No fundo do lago? — Cucca repetiu, a descrença estampada no rosto. — O que vamos enfrentar agora? Um boto-cor-de-rosa gigante? — Não é piada, Cucca. Eu acho que os esqueletos entraram na água, eles não precisam respirar, lembra? — Certo... respira e me explica como chegou nessa conclusão maluca — ele pediu, cruzando os braços e tentando processar. Mirena o levou de volta ao acampamento. Pegou um pedaço do peixe que sobrara e revelou o estômago esponjoso. — Veja isso: eu… por Sanarion_ — “Por que diabos colocaram cogumelos no peixe? Parece até que não limparam direito”, pensou Mirena. Ela encarava o prato de madeira, mastigando mais um pedaço com uma careta de desgosto. Não era um pequeno fungo invasor que a impediria de terminar a refeição. Afinal, uma viajante aprende a não desperdiçar comida. — Você tá brincando, né? — a voz de um dos aventureiros subiu de tom e cortou o burburinho do acampamento. As orelhas pontudas da ardenteriana se viraram no mesmo… por Sanarion_ — Daten encarava o teto branco da ala médica. O silêncio era cortado apenas pelos passos distantes dos enfermeiros e o som dos aparelhos de medição. As lembranças da manhã inundavam sua cabeça. O urso bombado metálico. Aquela mandíbula de aço se abrindo e o hálito de óleo e sangue que preencheu seus pulmões. “Eu não consegui…” Ele fechou os olhos com força, mas as imagens continuavam lá. Dhaha segurava a boca da fera, Mirena também apareceu do nada para salvá-lo. Ele, e… por Sanarion_ — — Argh! — Dhaha esfregou o braço pela enésima vez, os olhos arregalados enquanto caçava os insetos no ar. — Esses mosquitos são do tamanho de um pássaro! Por que ninguém avisou que a gente ia vir pro meio do mato? — Porque você parecia animado demais para fazer alguma pergunta — Mirena respondeu, ao desviar de uma raiz do chão. O rosto do douradiano ainda estava vermelho no lado direito, uma marca da porta que Syndona acertou nele horas atrás. A gelariana caminhava na… por Sanarion_ — A ala hospitalar era silenciosa, repleta de macas brancas e aparelhos de medição ligados aos pacientes. Não havia engrenagens, falatório ou magos prontos para matar, apenas o cheiro de antisséptico. Quando Mirena acordou, seus olhos percorreram o ambiente. Dhaha estava capotado, em seu quinto sono, enquanto Daten comia uma tigela de mingau em silêncio. “Onde eu…”, pensou a garota, a mente ainda envolta em névoa. Ao tentar se sentar, a voz de Daten a alcançou. — Ah! Cê acordou —…