Klaus

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    • por Klaus Havia noites em Virellium que não pertenciam ao tempo.Não podiam ser medidas por relógios nem sentidas na pele como frio ou calor. Eram noites que não começavam nem terminavam — apenas surgiam, como pensamentos esquecidos à beira do sono. Era uma dessas que cobria a cidade quando Cael abriu os olhos.Estava deitado, mas não dormia. Não sonhava. Seu corpo ainda, os olhos fixos no teto, esperando algo. Leor e Senna dormiam nos quartos adjacentes, embalados por cansaços diferentes. Cael, porém,…
    • por Klaus O silêncio entre os quatro parecia tecido à mão, ponto por ponto, como se cada palavra não dita fosse cuidadosamente alinhavada entre os gestos e os olhares. Senna sentou-se no parapeito de pedra ao lado. Não tirava os olhos da velha, mas parecia cada vez mais distante — como se já não escutasse tudo que era dito. — O que acontece com quem atravessa e tenta voltar? — perguntou Cael, sem olhar diretamente para ela. A mulher sorriu. — Ninguém volta. O que volta é o que…
    • por Klaus Virellium respirava pelas frestas. Não como uma cidade viva, mas como uma criatura adormecida, que sonhava consigo mesma e se esquecia a cada ciclo. As ruas estavam mais silenciosas do que o habitual, como se o som estivesse preso atrás das paredes, hesitando em atravessar. Era fim de tarde quando Cael, Senna e Leor deixaram a hospedaria. Não tinham um destino exato, apenas a necessidade de sair, de respirar longe das frases que apareciam sozinhas nos vidros do quarto e das páginas que viravam…
    • por Klaus O dia em Virellium amanhecera sem sol. Apenas uma luz opaca se esgueirava entre os prédios de pedra, como se o próprio céu hesitasse em revelar demais. Era o tipo de luz que deixava as coisas visíveis, mas não compreensíveis. Cael Thornwald caminhava em silêncio pelas margens do bairro Sul-Cinzel, com Senna e Leor alguns passos atrás. Nenhum deles falava. Havia uma tensão suspensa entre as palavras — não entre eles, mas dentro do próprio mundo. Como se a cidade, em seus alicerces,…
    • por Klaus Virellium estava mais quieta do que nunca.Não com o silêncio de um cemitério, mas com o silêncio de uma biblioteca em ruínas. Um silêncio de páginas que não foram lidas, de nomes que foram riscados com pressa, de promessas murmuradas por trás das paredes que se lembram. Cael caminhava sozinho pela Travessa das Molduras Veladas — uma rua que jamais existia da mesma forma duas vezes. Diziam que ali viviam colecionadores de reflexos. Gente que comprava espelhos não para se ver, mas para…
    • por Klaus Compilado dos Arquivos Não-Reconhecidos do Compêndio Menor dos Caels Perdidos. Este documento não é considerado canônico pela Última Página. Sua leitura é autossabotagem. E ainda assim, inevitável. I. Introdução ao Erro Persistente Há versões de Cael Thornwald que falharam em reescrever o mundo. Elas não são lembradas.Não por escolha.Mas por autodefesa da narrativa. Cada tentativa de alterar o fluxo do real sem pleno domínio da pena resultou em colapso:Do autor.Do mundo.Ou…
    • por Klaus Havia algo perversamente reconfortante na taverna “Os Três Epitáfios”. O cheiro de madeira encharcada, o chiado baixo da lareira sempre acesa, o rumor das conversas que preenchiam o espaço como velhos livros abertos — tudo conspirava para criar a ilusão de que o mundo ainda funcionava. Ou fingia funcionar. Cael entrou primeiro, o sobretudo marcado por fragmentos de palavras coladas pela névoa. Leor o seguiu com passos lentos, o olhar girando em torno do ambiente como se cada cliente ali…
    • por Klaus Virellium não dormia mais. Não como antes. A cidade respirava em espasmos. As vielas se curvavam como lombadas de livros antigos, as janelas piscavam em sincronia com sussurros que ninguém queria ouvir. Palavras apagadas escorriam pelas rachaduras das pedras, e os lampiões acesos tremeluziam com a ansiedade de velas em vigília fúnebre. Era como se a cidade estivesse tentando esquecer algo que ainda não havia acontecido. Ou alguém. Cael Thornwald caminhava sozinho pelas ruas — sem…
    • por Klaus I. O Nome que Nunca foi Escolhido "Cael Thornwald" não era o único nome escrito para ele. Havia outros. Outras tentativas, outros batismos negados. Khael Ombros: Aquele que seria traidor antes do fim. Sylver Wren: O bibliotecário que morreria sem jamais ter lido seu próprio epitáfio. Caelum Verrian: O Arauto da Última Canção. Cada nome um destino. Cada nome, uma história abortada. Mas em cada reescrita, apenas "Cael" persistiu. Ou, talvez, apenas o que restou de…
    • por Klaus O amanhecer em Virellium era cinza como carvão dissolvido. As ruas, antes carregadas de névoa silenciosa, agora fervilhavam com palavras soltas.Sílabas que se enroscavam nos becos como heras proibidas.Verbos que caíam dos telhados com o peso de velhos pecados.Substantivos rachados entulhavam os bueiros, como se as entranhas da cidade expelissem a própria memória corrompida. O ar carregava um novo peso: o peso da possibilidade. Era como se, a cada respiração, Cael Thornwald inalasse ecos de…
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