Daeron convocou o treino dois dias depois da rachadura.

    Não com envelope, não com aviso formal — apareceu no café da manhã, ficou em pé perto da porta com o chá que nunca esfriava, e disse: arena, meia hora com o tom de quem estava continuando uma conversa que havia começado antes.

    Os quatro foram.

    I.

    A arena no subsolo tinha a qualidade de espaço que havia visto muita coisa e não guardava surpresa fácil. As marcas do treino anterior ainda eram visíveis — o concreto alterado no canto esquerdo onde Eiden havia liberado a Díade sem controle, o piso com textura diferente onde Raiji havia aterrisado após o Raimetsu.

    Daeron ficou no centro.

    — Treino individual acabou por enquanto. — Ele disse. — O que Mikimura exige não é poder individual. É cobertura. Coordenação. A capacidade de operar como unidade quando o ambiente está contra todos vocês ao mesmo tempo.

    — Você quer que a gente lute junto. — Raiji disse.

    — Quero que vocês parem de lutar em paralelo e comecem a lutar em conjunto. — Daeron disse. — Há diferença.

    — Qual?

    — Em paralelo, cada um cobre seu ângulo e espera que os ângulos se somem. — Daeron disse. — Em conjunto, cada um cobre o ângulo do outro antes que o outro precise pedir. A distinção parece pequena. Em campo, é a diferença entre quatro harmonistas competentes e algo que não tem lacuna.

    Mu apareceu no topo das escadas que levavam à arena, avaliou a situação com o olhar característico, e desceu dois degraus antes de decidir que aquilo era suficientemente interessante para ficar.

    II.

    O primeiro exercício foi simples na descrição e brutal na execução.

    Daeron criou quatro alvos de energia — esferas de Yang condensado que se moviam de forma imprevisível — e disse uma coisa apenas: nenhum dos quatro pode atingir o próprio alvo.

    Raiji tinha que atingir o alvo de Miyu. Miyu tinha que atingir o de Ayame. Ayame tinha que atingir o de Eiden. Eiden tinha que atingir o de Raiji.

    — Isso não faz sentido. — Raiji disse.

    — Faz. — Daeron disse. — Quando você está cobrindo o ângulo de outra pessoa, você está aprendendo como ela se move, o que ela vê, onde o campo parece para ela. — Uma pausa. — Comecem.

    O primeiro minuto foi desastre controlado.

    Raiji foi para o alvo de Miyu com velocidade que não levava em conta onde Miyu estava — ela precisou recuar duas vezes para sair da trajetória do Senko Giri. Ayame tentou cobrir o alvo de Eiden mas o alvo estava se movendo num padrão que ela ainda não havia mapeado, e a Chama Lunar atingiu o espaço onde o alvo havia estado meio segundo antes. Eiden foi para o alvo de Raiji e chegou lá — mas o alvo estava numa posição que o forçou a liberar um pulso de Yang que varrreu o campo e fez todos os outros recuarem.

    Daeron ficou assistindo com a expressão de alguém que havia esperado exatamente isso.

    — De novo. — Ele disse.

    III.

    Na quarta repetição, algo começou a mudar.

    Não nos poderes — no ritmo. Raiji parou de ir direto para o alvo de Miyu e começou a ir para onde o alvo de Miyu ia estar, o que exigia que ele lesse o padrão de movimento dela antes de agir. Ayame começou a usar a Chama Lunar não em linha direta mas em arco que levava em conta o campo de Eiden ao lado. Miyu ativou o Olho da Distorção — a pupila vertical — e começou a narrar em voz baixa o que estava vendo, não para si mesma mas para os outros.

    — Alvo de Eiden vai para cima esquerda em dois segundos. — Ela disse.

    Ayame ajustou antes do movimento acontecer.

    O alvo foi atingido.

    Raiji olhou para Miyu.

    — Faz isso de novo. — Ele disse.

    — Posso fazer para todos os alvos simultaneamente. — Ela disse. — Mas fico sem o Olho por vinte minutos depois.

    — Quanto tempo precisamos.

    — Menos de vinte minutos se vocês dois não errarem.

    — Eu nunca erro. — Raiji disse.

    — Você errou quatro vezes nas últimas três repetições.

    — Erros estratégicos.

    — Erros.

    Eiden viu Ayame esconder o sorriso atrás da mão.

    IV.

    Na sétima repetição, todos os quatro alvos foram eliminados em sequência com menos de oito segundos entre o primeiro e o último.

    Daeron ficou quieto por um momento.

    — Melhor. — Ele disse. — Agora o segundo exercício.

    Raiji olhou para ele com a expressão de alguém que havia esperado descanso e havia recebido continuação.

    — Sem o Olho da Distorção. — Daeron disse, para Miyu. — E sem que ninguém fale.

    — Sem comunicação verbal. — Miyu disse.

    — Sem comunicação verbal. — Ele confirmou. — O que vocês construíram agora depende de Miyu lendo o campo e distribuindo informação. Em combate real contra Mikimura, o campo vai dissolve essa capacidade. Precisam de algo que funcione sem ela.

    O silêncio que se seguiu tinha a qualidade de quatro pessoas chegando simultaneamente à mesma conclusão desconfortável.

    — Vocês se conhecem há meses. — Daeron disse. — Já estiveram em campo juntos múltiplas vezes. O conhecimento está lá — a questão é se aprenderam a confiar nele sem precisar confirmar.

    Ele recriou os quatro alvos.

    Ficou em silêncio.

    Os quatro se olharam.

    Depois foram.

    V.

    A primeira tentativa sem comunicação foi pior do que a primeira tentativa com ela.

    A segunda foi levemente melhor.

    A quinta foi diferente — não pela técnica, pela qualidade de presença. Raiji parou de olhar para o próprio alvo e começou a olhar para o grupo inteiro, tomando decisões sobre onde ir baseado no que via os outros fazendo. Ayame, que havia aprendido a ler o estado emocional das chamas ao redor como sensor, começou a usar a Getsu-Ka não apenas como ataque mas como comunicação — um pulso de chama azul em direção a um ângulo significava esse lado está coberto, um pulso de chama para cima significava preciso de espaço.

    Eiden ficou observando por dois turnos inteiros antes de agir — não hesitação, mapeamento. Depois foi para o alvo de Raiji pelo ângulo que nenhum dos outros três conseguia cobrir, usando um pulso de Yang calibrado, menor do que o habitual, sem o custo que havia custado antes.

    Três segundos de controle.

    Não dois. Três.

    O alvo caiu.

    Miyu viu. Não disse nada. Olhou de volta para o campo.

    Daeron, no canto, fez uma anotação no caderno que ninguém conseguia ler daquela distância.

    VI.

    O treino terminou quando o sol estava baixo e os quatro estavam com o tipo de cansaço que vem não de esforço físico mas de atenção sustentada — o cansaço de ter ficado completamente presente por horas.

    Daeron os dispensou com a economia habitual.

    Os quatro subiram as escadas da arena em silêncio — não o silêncio desconfortável do início, mas o silêncio de pessoas que haviam feito algo junto e estavam deixando o peso disso assentar antes de falar.

    No topo das escadas, Raiji parou.

    — Miyu. — Ele disse.

    Ela parou.

    — O pulso de chama de Ayame. — Ele disse. — Você começou a responder antes de ela terminar o movimento.

    — Sim.

    — Você já sabia o que ela ia comunicar antes de ela comunicar.

    — Aprendi o padrão dela. — Miyu disse. — Ela usa chama para cima quando precisa de espaço no lado esquerdo especificamente. Não no lado direito — no esquerdo. O ângulo é diferente.

    Raiji ficou olhando para ela.

    — Quantos dos meus padrões você mapeou.

    — Todos. — Ela disse. — Desde a terceira missão.

    Ele processou isso.

    — Isso é perturbador ou útil.

    — As duas coisas. — Ela disse. — Como a maioria das coisas úteis.

    Ayame passou por eles com o chá que havia aparecido de algum lugar que ninguém havia rastreado — dois copos, um para Eiden, um para Raiji, com a naturalidade de alguém que havia calculado quem precisava mais antes de subir as escadas.

    Raiji olhou para o chá, para Ayame, de volta para o chá.

    — Como você sabia.

    — Você sempre fica com as mãos frias quando treina muito. — Ayame disse, com o tom de quem está descrevendo dado objetivo. — Chá quente ajuda.

    Raiji ficou parado por um segundo com o copo na mão.

    — Vocês duas são aterrorizantes. — Ele disse, para as duas.

    — Obrigada. — Miyu disse.

    — Não era elogio.

    — Eu sei. — Uma pausa. — Obrigada de qualquer forma.

    VII.

    Naquela noite, Eiden ficou no quarto com a qualidade de pessoa que está cansada mas não consegue desligar.

    Três segundos de controle na arena.

    Não havia planejado. Havia simplesmente ido — com o ângulo certo, com a calibração certa, com o Yang separado do Yin por tempo suficiente para ser útil sem ser destrutivo.

    Não era técnica ainda. Era mais parecido com intuição — o tipo que aparece depois de muito tempo prestando atenção em algo sem forçar.

    Daeron havia dito: continue. Não force. Continue.

    Ele ficou olhando para o teto.

    No corredor, o Santuário tinha os sons noturnos que havia aprendido — o vento, o assentamento, algo distante que poderia ser água.

    E embaixo de tudo, muito quieto, a qualidade diferente que o pátio tinha desde que a rachadura havia aparecido.

    Como quando um ambiente muda e você não consegue nomear o que mudou, mas o corpo sabe.

    Ele fechou os olhos.

    Dormiu.

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