Uma pressão sufocante pressionou Nicholas, prendendo-o ao chão úmido da floresta. Desorientado, ele lutou para abrir os olhos, as pálpebras pesadas como pesos de chumbo.

    O seu mundo se transformou em uma confusão rodopiante de verdes e marrons, os restos de um pesadelo agarrados à sua consciência.

    Ele se levantou com os braços trêmulos, estremecendo com a dor surda que irradiava por todo o seu corpo. Memórias fragmentadas voltaram – o clarão ofuscante de luz, a criatura monstruosa despedaçando Zoe, o estrondo ensurdecedor que o fez cair esparramado. Mas onde estava a carnificina? Onde estava a criatura, o sangue, os gritos?

    Examinou os arredores. A exuberante copa da floresta se estendia acima dele, filtrando a luz do sol através de uma tapeçaria verdejante de folhas. O ar, denso com o cheiro de terra úmida e vegetação em decomposição, carregava o chilrear de pássaros invisíveis – uma normalidade que colidiu violentamente com o momento atrás.

    Tudo estava… sereno. Muito sereno. O quadro grotesco que se desenrolava ali parecia a invenção de um sonho febril, uma alucinação.

    — Que merda… O que aconteceu?

    Assim que uma ponta de dúvida começou a invadir sua mente, um farfalhar quebrou o silêncio. Seu olhar se voltou para o som, pousando sobre um arbusto próximo. Ele tremeu ligeiramente, um movimento quase imperceptível em meio às folhas balançantes.

    Saltou de lá uma figura familiar.

    Ela tinha cabelos pretos lisos na altura dos ombros, com franja que cobria parcialmente a testa e um acessório de borboleta multicolorido ao lado esquerdo de sua cabeça. Vestia uma camiseta creme com as palavras “AVENTURA” impressas em letras escuras e em negrito na frente. Por cima da camiseta, ela usava um macacão azul claro que era usado casualmente em um ombro e um short cáqui.

    Um sorriso largo e incongruentemente alegre apareceu no rosto dela, um rubor espalhando-se por suas bochechas.

    — Olá, eu sou Zoe, a Aventureira! Perdi meu amigo Caleb, o Macaco. Você poderia me ajudar a encontrá-lo? Apenas repita comigo!

    Seus olhos castanhos, grandes e expressivos, encaravam Nicholas. Enquanto isso, o mundo girava em torno de seu eixo.

    — Caralho.


    — Nosso próximo convidado no Showman é…

    O último acorde de tambores rufando pairou pesado no ar, uma nota prolongada que levou os nervos já tensos de Emily ao ponto de ruptura. A vibração sintética das batidas da bateria pulsava pelo estúdio. Cada batida amplificada martelava um ritmo frenético contra seu peito.

    De repente, a bateria, que até pouco tempo atrás era um pulso vibrante, se reduziu a um zumbido monótono junto a voz do anfitrião.

    — O… O que foi isso?

    Emilly olhou atentamente ao redor, procurando desesperadamente por uma explicação ou pistas que explicassem o que havia causado a mudança abrupta no talk show.

    Seu olhar pousou nas enormes portas duplas na parte de trás do palco, o único ponto de entrada para os convidados. Elas estavam congeladas, um retângulo branco contra o fundo escuro.

    De repente, um zumbido baixo ressoou por trás das portas. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram quando a sensação de pavor se intensificou. O zumbido ficou mais alto, um zumbido profundo e ameaçador que vibrou nas tábuas do assoalho sob seus pés.

    Então, com um rangido alto, as portas se abriram. Uma figura emergiu das sombras. Por um único e agonizante momento, Emilly viu que o recém-chegado era humanamente normal quando a figura entrou sob o brilho intenso dos holofotes.

    O homem era alto e magro, com uma cabeleira preta curta e desgrenhada que emoldurava um rosto marcado por linhas profundas. Ele usava uma jaqueta larga marrom claro sobre uma camiseta branca lisa, as mangas ligeiramente enroladas até os antebraços, revelando diversas tatuagens desbotadas.

    Mas foram os olhos dele que prenderam o olhar de Emilly – piscinas frias e sem emoção que atravessaram o caos fabricado do cenário e fixaram-se diretamente nela. Uma única gota de suor escorria por sua têmpora como um medo primitivo enrolado na boca do estômago.

    Ela levantou sua guarda. Estava em uma posição defensiva, considerando que o homem fosse uma ameaça.

    — Ei, ei! — Ergueu as mãos em rendição. — Calma. Fica calma, tá bom? Não vamos ficar nervosos aqui.

    Ele observava o cenário ao redor, visualizando a equipe congelada e o vazio absoluto da plateia.
    — Olha, eu não estou com eles. Estou do seu lado. Na verdade, estou aqui por causa deles.

    Deu um passo cauteloso à frente. Emilly permaneceu não convencida, seu olhar se estreitou em uma fenda cética. A aparência desgrenhada do homem, a energia negativa que irradiava dele – tudo parecia encenado.

    — Confie em mim. Eu vi coisas que você nem pode imaginar. Horrores além dos seus pesadelos mais selvagens.

    Ele deu outro passo à frente, seu olhar se voltou para as enormes portas duplas na parte de trás do palco, como se esperasse que algo iria passar por elas a qualquer momento.

    — Quero ajudar. Só que precisamos conversar primeiro, pode ser?

    Uma centelha de suspeita pairou nos olhos de Emilly.

    — Tá. — Ela concedeu relutantemente. — Mas fale rápido. E mantenha as mãos onde eu possa vê-las.

    — Certinho. Primeiro de tudo, o meu nome é Dylan. Dylan Scottish, na verdade. Costumava trabalhar aqui nesta, uh, nesta… — Ele hesitou, procurando por uma palavra que não soasse patética. — Esta glorificada fábrica exploradora de funcionários antes de as coisas irem direto para o inferno. Provavelmente é por isso que parece que não durmo há uma semana, haha.

    Um sorriso tenso torceu seus lábios por um breve momento antes de se transformar em uma careta.

    — Eu sei que tudo isso parece loucura, como um enredo ruim de romance. Mas acredite em mim, é real. Essas coisas… Os personagens de desenhos animados… eles não são mais o que deveriam ser.

    Dylan deu mais um passo à frente.

    — Não sei quem você é ou o que deveria fazer neste programa, mas isso não importa mais. O que quer que a porra do Joseph tenha planejado, deu errado. E se quisermos sair daqui vivos, nós…

    — Espere. — Ela interrompeu, sua voz afiada com suspeita. — Há quanto tempo você está aqui? E como diabos você ainda está vivo? Porque, quando cheguei aqui, não havia nada disso. Nenhum sinal de vida.

    O ceticismo de Emilly permaneceu gravado em seu rosto. Dylan foi surpreendido pelas perguntas.

    — Uh, b-bem… — gaguejou, seus olhos percorrendo o set como se procurasse uma resposta. — Já faz um tempo. Semanas, meses, sei lá, porra. Perdi a noção do tempo depois… Depois que tudo aconteceu. E eu não sei como estou vivo. Sorte, talvez?

    Emilly franziu ainda mais sua testa. Sua mente estava acelerada enquanto comparava as palavras de Dylan com a crescente evidência de algo muito mais sinistro em jogo.

    — E todo esse tempo, você só esteve… se escondendo? Enquanto essas coisas…

    Apontou para as figuras congeladas amontoadas.

    — Essas coisas aí… Eles são espertos. Esses merdas conseguem sentir o medo. Tipo tubarões, você sabe? Então ficar quieto, ficar escondido, foi assim que consegui garantir minha sobrevivência, porque esse infelizes não me deixavam em paz.

    Um bufo sem humor escapou de seus lábios.

    Respirando fundo, Emily olhou para Dylan com uma suspeita que não se dissipou totalmente.

    — Tá. Tudo bem — disse relutantemente. — Digamos que estou disposto a contar sua história por enquanto. Mas isso não significa que estou embarcando no trem maluco ainda.

    Ele visivelmente cedeu de alívio.

    — É isso mesmo que quero descobrir. Sei que existe um papel importante. Ele vai ajudar a gente de uma forma ridícula.

    — Sério? Um pedaço de papel? — Respirou fundo. — Olha, Dylan, acabei de perder meu parceiro, e a droga de um papel é a menor das minhas preocupações agora. Se você tem um plano, cuspa fora. Caso contrário, tô fora daqui.

    Diante de suas palavras, Dylan estremeceu, com um traço de vergonha em suas bochechas. Ele passou a palma da mão na testa, revelando uma mancha do que parecia ser tinta azul – um resquício de sua vida anterior como artista.

    — Sem piadas, eu prometo. Havia um figurão que eles estavam esperando, algum tipo de herói supostamente vindo para acabar com toda essa bagunça. Achei que talvez…

    Um clarão ofuscante irrompeu dos holofotes. A repentina explosão de luz os sobrecarregou momentaneamente, forçando-os a proteger os olhos. À medida que sua visão se ajustava, eles viram o set do Showman retomando à sua atividade.

    O equipamento com defeito voltou à vida, emitindo um zumbido reconfortante, quase tranquilizador. Mas a mudança mais chocante foi o retorno das risadas entusiasmadas e pré-gravadas do público que enchiam as ondas de rádio.

    — Eeeeestamos de volta, pessoal! — exclamou, seu tom transbordando de alegria fabricada. — Parece que tivemos uma pequena dificuldade técnica, mas não tema, o espírito Showman está de volta e mais forte do que nuuuuuunca!

    Um holofote ganhou vida, iluminando um elegante pódio cromado posicionado no centro do palco. Parado atrás dele, com um largo sorriso estampado no rosto, estava o anfitrião.

    Seu cabelo perfeitamente penteado brilhava sob as luzes fortes, e seus dentes brancos e perolados brilhavam na luminosidade artificial. Vestia um terno feito sob medida, de um tom vibrante de vermelho, mas, estranhamente, estava apenas de cueca detalhada com estrelas.

    — E agora vamos dar calorosas boas-vindas ao nosso convidado especial, o talentoso artista, Sr. Dyyyyyyylan Scottish!

    Um holofote se acendeu, revelando Dylan parado desajeitadamente no lado oposto do palco.

    — Juntando-se a ele está nossa mais nova desafiante, a Sra. Eeeeeemilly Jones! Pessoal, preparem-se para um Show de Piadas que você não vai esquecer!

    Ao lado dele, outro holofote acendeu, iluminando Emilly. Ao contrário de Dylan, ela era mais alta que ele. Um indício do que poderia ter sido raiva brilhou nos olhos dele, mas logo foi compensado por um sorriso.

    — Você parece pequeno. — disse, com um tom gotejando de sarcasmo..

    — Tem só uma diferença mínima.

    Os aplausos pré-gravados tomaram conta deles. O sorriso de Emilly permaneceu fixo, mas seus olhos se estreitaram, o brilho tempestuoso se intensificando. Ela não estava comprando a alegria fabricada ou a tentativa de leviandade do anfitrião.

    “Como é que ele mudou? E… por que a cueca?”

    O anfitrião bateu palmas, seu sorriso se alargando de forma impossível.

    — Ah, Sra. Jones! Vá direto ao ponto, entendo! Agradecemos seu… entusiasmo. — Sua voz assumiu um tom paternalista. — Mas não se preocupe, você logo entenderá as maravilhas do The Showman! Ora, é um lugar onde sonhos são feitos e pesadelos. Eles podem ser surpreendentemente divertidos, não concorda, Sr. Escocês?

    Ele olhou para Dylan, que foi pego de surpresa.

    — Uh, sim. Divertido, claro.

    O estúdio explodiu em uma onda de risadas pré-gravadas. Emilly, no entanto, permaneceu imperturbável.

    — Uma dica. Evita quaisquer perguntas. — cochichou ele. — Eles parecem detestar ser lembrados de algo que não devia. Quando isso acontece…

    O anfitrião, alheio à conversa latente sob a superfície, bateu palmas outra vez com entusiasmo forçado.

    — É hora do nosso primeiro desafio: O Show de Piadas! Agora, é aqui que as coisas ficam reais. Mostraremos aos nossos competidores uma série de clipes de desenhos animados, e eles terão que criar a legenda mais engraçada na hora. E a penalidade pelo fracasso?

    Um silêncio pesado cobriu a sala. O rosto do anfitrião se transformou, seu comportamento jovial se desfez para revelar uma seriedade sombria.

    — Suas almas serão entregues para o nosso Rei.

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