Capítulo 71 - A Piada Final
Trinn
O som estridente de uma campainha tocou, sinalizando o início do desafio. Emilly e Dylan se olharam nervosos, enquanto as luzes piscavam em um tom vermelho-sangue. Clipes de desenhos animados começaram a passar nas telas diante deles.
O primeiro clipe mostrava um coelho branco de olhos vermelhos e arregalados sendo perseguido por uma matilha de cães. O coelho tropeçou e os cães o alcançaram. Eles morderam e arrancaram pedaços de seu corpo.
As risadas ao fundo eram histéricas, forçadas, como se estivessem sendo reproduzidas em um loop infernal.
— Isso é… um pouco demais, não acha? — ela murmurou, lançando um olhar preocupado para o anfitrião.
— Ah, vamos! É só um pouco de diversão. Pense nas legiões de espectadores famintos por entretenimento. Eles adoram esse tipo de coisa. E você não quer desapontá-los, quer?
Dylan tentou rir, mas o som saiu como um soluço.
— Certo… diversão. Claro. Vamos lá, Emilly. Podemos fazer isso.
— Ótimo espírito, Dylan!
Embora Emilly mantivesse um sorriso forçado, estava claramente desconfortável com a cena.
— Ah, o coelho… parece que ele teve um… dia ruim, não é? — Ela tentou uma piada, mas sua voz saiu vacilante.
O anfitrião se aproximou dela. Colocou as mãos sobre seus ombros e sorriu, com certa excitação em seu rosto contrastando com a crueldade em seus olhos
— Você tem uma tela em branco à sua frente, um mundo de possibilidades. E o que você faz? Rabiscos sem sentido. Você é capaz de algo realmente impactante, mas prefere se contentar com a mediocridade. Isso é decepcionante. Muito decepcionante
A voz dele era um xarope viscoso, doce e ameaçador ao mesmo tempo. Ela engoliu em seco, o coração batendo forte no peito.
— Vamos lá, se desprenda. Seja menos ridícula e chata. Nos faça rir até doer. Faça com que esqueçamos os piores problemas do mundo, mesmo que por apenas um momento.
A mente de Emilly estava acelerada, esperando sem esperança por uma epifania, uma explosão de brilhantismo que iluminaria a sala e faria todos rirem alto. No entanto, o medo e a preocupação dominavam seus pensamentos, e a péssima atmosfera do programa atrapalhava sua imaginação.
“Isso deveria ser fácil, mas… por que eu não consigo? Merda, isso é ridículo.”
— Ahem.
Dylan pigarreou antes de falar.
— Bem, que tal… a vida é como esse coelho? Um bicho branco e inocente, correndo livre pela floresta, até que… BAM! Cães famintos surgem do nada e transformam seu dia em um pesadelo. É a lei da selva, né? O forte devora o fraco. E no fim, o que resta é só… carne moída.
Houve um grande silêncio no set. As risadas nervosas do público soavam como grilos chilreando em um cemitério. O anfitrião, de sorriso torto no rosto, bateu palmas pausadamente.
— Dylan… Gostei da sua metáfora existencialista. Mas sabe de uma coisa? Está péssimo.
— Péssimo? Mas…
— Você está me dizendo que a vida é uma carnificina? Que somos todos predadores e presas? Isso é deprimente, meu amigo. As pessoas querem se divertir, não cair em depressão. Olha para aquilo.
Ele apontou para outro monitor. Sua tela exibia um medidor de humor, uma espécie de termômetro digital que oscilava entre as zonas rotuladas como “Tristeza”, “Indiferença” e “Euforia”. No momento, a agulha estava bem no azul, em Tristeza, quase explodindo na escala.
— O público está entediado. Precisamos de mais risadas, mais diversão. Vamos trocar de clipe.
Apareceu na tela um porco vestido com um uniforme militar dos Einsatzgruppen, marchando com um exército de galinhas com bandeiras nazistas entre suas asas. O porco explodiu aos bocados quando um míssil o atingiu e os seus restos transformaram-se numa mensagem escrita com sangue e entranhas coloridas: “WAR IS A PIG’S GAME”.
— Isso… Isso é de muito mau gosto.
— Ah, mas é engraçado! A guerra é um assunto sério, mas não podemos levar tudo a sério o tempo todo, não é?
— Você tá banalizando a guerra e o nazismo, porra!
— É só uma piada. — O anfitrião deu de ombros. — Afinal, o que é a história senão uma longa série de piadas cruéis?
A tela mudou para o próximo clipe. Um gato azul e um rato marrom estavam em uma perseguição frenética. O gato capturou o rato e começou a devorá-lo vivo. Sangue e tripas escorriam pelo chão.
Dylan abriu um sorriso forçado e tentou, mais uma vez, manter a compostura.
— Parece que o gato finalmente conseguiu o jantar, hein? Hahaha.
Sua risada foi seca e forçada, tentando mascarar seu desconforto. No entanto, o medidor subiu, passando ligeiramente da Tristeza e se aproximando da Indiferença.
O anfitrião riu mais alto, uma risada que não tinha nada de genuína.
— Ah, Dylan, você é um verdadeiro comediante. Continue assim, ou o Rei ficará muito desapontado. Ele está nos assistindo.
O clipe seguinte foi um frenesi de penas e explosões. Pássaros antropomorfizados, vestindo uniformes militares e balançando bandeiras, envolveram-se em uma guerra absurda e caricata. Eles bombardeavam seus próprios ninhos e atacavam com bicos cortantes.
— Hum, vejam só. Uma guerra entre aves. Algo me diz que os pacifistas não vão gostar desse final. — Fez uma pausa para pensar na sua resposta. — A guerra nunca muda, apenas os combatentes.
A princípio, o público riu acanhadamente. Mas a reação, medida com precisão pelos sensores do palco, não foi a esperada. O medidor de humor oscilou para baixo, como uma pena diante de uma brisa inesperada.
Dylan sentiu um aperto no peito. A decepção era evidente no olhar do anfitrião. Ele esperava uma reação mais visceral, mais engajada. Aquele público, acostumado a rir de tudo, parecia ter se cansado da piada. Ou talvez a piada fosse ele mesmo, repetindo a mesma fórmula, esperando resultados diferentes.
— Tsk, tsk. Eu costumava acreditar que a arte tinha o poder de despertar, questionar e mudar o mundo. Mas agora, olhando para os senhores, acho que a única coisa que realmente mudou foi nosso senso crítico. Se antes ficávamos irritados com as injustiças do mundo, agora ficamos irritados com os artistas.
Como se estivesse observando as telas piscando no palco, Dylan olhava para Emilly com a mesma intensidade. Havia algo diferente em seu olhar, uma névoa que obscurecia a quem realmente era. A pergunta escapou de seus lábios antes mesmo que ele pudesse considerar as consequências.
— O que foi?
Ela ergueu os olhos, mas eles não brilhavam como antes. Um véu de infelicidade os cobria, como uma fina camada de poeira em um espelho.
— Nada. É bobagem.
Nada. A palavra repercutiu na mente de Dylan, vazia e tênue como um eco em um poço sem fundo. Emilly havia respondido com a mesma concisão de sempre quando não queria se abrir. Mas, dessa vez, havia algo diferente em seu tom, uma fragilidade que se contrapunha à simplicidade habitual de sua voz.
Um abismo estava se abrindo entre eles, mais profundo do que qualquer discussão ou desacordo. O abismo era um fosso de emoções reprimidas, medos e inseguranças que ela guardava para si mesma. Com sua fachada de indiferença, Emilly era como um iceberg, com uma parte pequena visível e uma massa imensa escondida sob a superfície.
— Seja menos ridícula e chata.
Essas palavras ressoavam na mente dela. Ela sempre lutou para ser única, para se sobressair de alguma maneira, acreditando que a extravagância e a diversão eram as únicas formas de ser notada e valorizada.
No entanto, a realidade era que, por trás de cada gargalhada estridente e atitude teatral, escondia-se um redemoinho de emoções não resolvidas.
A verdade oculta sob a máscara de indiferença era um redemoinho de sentimentos, um anseio profundo por conexão, por ser reconhecida. Ela sempre buscou ser a mais engraçada, a mais fascinante, mas, no íntimo, tudo o que desejava era ser entendida. Ser amada por sua verdadeira essência, e não pela persona que projetava.
No meio da dor, contudo, uma clareza inesperada se fez presente. Talvez fosse o momento de largar a máscara e permitir que sua essência verdadeira viesse à tona.
— Você tá bem estranha. Certeza que está tudo bem contigo?
Emilly estava ciente de que o caminho seria árduo, que se abrir implicaria confrontar seus maiores temores, mas havia uma necessidade premente de fazer a tentativa.
— Não precisa se preocupar comigo.
Na sequência, o clipe apresentava um demônio e uma súcubo fazendo sexo. Ele a puxava pelos cabelos, apertando-a com força, dominado por uma expressão de prazer. A súcubo, em um momento de êxtase, gritou: “Meu Deus, que delícia!”. O demônio parou abruptamente e desceu da cama. Ele cobriu a boca com uma das mãos, os ombros ligeiramente encolhidos, um ar de arrependimento e constrangimento tomando conta de seu rosto.
— E então, seus inúteis? Vamos, me faça rir de verdade! Ou estão prontos para pagar o preço?
O olhar de Emilly se voltou para Dylan, em busca de uma explicação ou contexto para a estranha animação. Mesmo assim, com confiança, ela disse:
— Quando você percebe que até no inferno não se escapa do climão de chamar a ex pelo nome errado.
Tudo parou. A gravidade do erro quase dominou Emilly. O sorriso que antes brilhava em seus lábios deu lugar a um mar de remorso. No entanto, gradualmente, como uma onda suave na areia, o silêncio foi superado.
Primeiro veio uma bufada, seguida de um sorriso tímido e, por fim, uma explosão de risos. O ridículo da situação, a amarga ironia do destino, tudo convergiu em um hino de riso redentor.
Era como se todo o universo estivesse se divertindo com a cena, como se a catarse compartilhada fosse um ritual para expurgar o choque inicial. E no epicentro estava Emilly, perplexa, mas de alguma forma, inexplicavelmente, confortada.
Junto com as risadas, o anfitrião riu histericamente, como um demente celebrando uma alma condenada.
O medidor de humor havia explodido, transformando a sala em um caldeirão borbulhante de euforia e bagunça.
— Você sabia que, quando comecei como animador, meu objetivo era bem mais simples? — disse Dylan, olhando para ela. — Eu só queria fazer as pessoas rirem, ver os sorrisos genuínos e o brilho em seus olhos. De alguma forma, eu queria mudar o mundo, mesmo que fosse um pouquinho de cada vez.
Emilly se inclinou para frente, demonstrando interesse.
— Talvez você tenha conseguido. Isso já é grande coisa.
Dylan sorriu, mas seus olhos, voltados para o público, carregavam uma sombra de melancolia.
— É, mas às vezes acho que as pessoas enxergam apenas a superfície. Elas veem o cara engraçado, o animador sempre pronto para uma piada ou uma palhaçada. Mas tem mais em mim, sabe? Existe um desejo de…
Gotas de tinta preta salpicaram sua bochecha. Ao se virar, viu que Emilly tinha estourado o anfitrião, considerando que sua mão esquerda estava desprotegida.
— Puta merda, o que você fez?!
— Ele morreu de rir. Só isso.
Um tremor balançou seus corpos. Uma voz ecoou de algum lugar distante, uma presença etérea que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo.
DE NOVO. DE NOVO. SERÁ QUE EU TEREI QUE MATÁ-LOS?
A voz ecoava pelo ambiente, carregada de uma raiva reprimida e uma profunda tristeza. As luzes do cenário piscaram violentamente. As sombras nas paredes começaram a se contorcer e expandir, como se nutrissem da escuridão ao redor.
— Precisamos sair daqui, agora!
Mas o chão estava instável, quase desmoronando. Toda a estrutura estava começando a desabar, com pedaços do teto caindo ao redor deles, enquanto a voz distante ecoava, tornando-se cada vez mais próxima e ameaçadora.
VOCÊS NÃO PODEM ESCAPAR. VOCÊS NÃO PODEM ESCAPAR. VOCÊS NÃO PODEM ESCAPAR.
Emilly tentou se mover, mas suas pernas estavam pesadas, como se estivessem presas por correntes invisíveis.
— Não consigo!
Eles se arrastaram em direção à saída, e não havia movimento que não fosse uma batalha contra o pânico paralisante que os cercava. As sombras ao redor deles se contorciam, criando formas grotescas que surgiam como se viessem das profundezas de seus pesadelos.
Antes que pudessem escapar, o chão cedeu com a fragilidade de um castelo de cartas, abrindo-se em um abismo negro e insondável.

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