Ponto de vista de Noelle:

    De forma imprudente, Saki andou lentamente até a criatura esquelética à nossa frente e, sem mover um músculo, ela olhava para o fundo de nossas almas. A intenção assassina era transmitida em seu olhar. Qualquer movimento errado custaria nossas vidas.

    Saki estava a menos de 3 metros do inimigo, distância suficiente para que ele puxasse seu martelo lentamente para trás e se preparasse para um ataque.

    Meu coração gelou naquele momento, mas, antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, aquela arma enorme se moveu em um piscar de olhos. Tudo que consegui ouvir foram 2 fortes impactos.

    Quando ergui meus olhos, Saki já não estava mais lá e uma marca de sangue surgiu no meio do martelo.

    — Saki! — eu e Akira gritamos preocupados.

    Os olhos do monstro se voltaram para nós dois, preparando seu próximo golpe.

    — Porra… Que merda foi essa? — Saki exclamou se levantando de um grande buraco feito na parede.

    De seus braços cruzados, os quais acabaram de defender um forte golpe, faziam a poeira em volta subir como um pequeno tufão, quase que imperceptível.

    Co… mo? — Sua expressão desacreditada se virou para Saki.

    A confusão se transformou em ira e um grito diabólico fez nossos ouvidos tremerem.

    — Vem pra cima, seu merda! — disse, com sangue escorrendo por todo o seu braço.

    “Parando pra pensar, ele se moveu rápido demais com uma arma desse tamanho, além de que já não faz sentido seu corpo ter tanta força assim… O que tá acontecendo?” Não tinha reparado antes por conta do medo, mas, analisando friamente, algo estava errado.

    Akira rangia os dentes, nervoso, e, enquanto Saki o provocava, eu tentava encontrar lógica para o que meus olhos viam.

    — É ISSO!

    — O que essa idiota pensa que tá fazendo?

    — Akira! — gritei ao correr para o seu lado.

    — O quê?

    Contei para ele as confusões em minha mente.

    — Sim, também reparei nisso.

    — Agora olha bem, ele não tá nem encostando na sua arma.

    Akira olhou atentamente para os braços da besta e notou que o martelo flutuava entre o vão das suas mãos.

    — É verdade! Então tudo que precisamos fazer é desarmá-lo.

    — Na teoria, sim, mas não sabemos o seu estilo mágico. Um usuário do vento experiente, independentemente da sua postura, é muito forte.

    — Temos que arriscar. Eu tenho um plano.

    EU EXIJO UM JULGAMENTO POR COMBATE!

    — ISSO É TUDO QUE SABE DIZER? — Saki disparou para cima do corpo deplorável da criatura.

    O martelo estava pronto para desferir o ataque, o vento corria rápido pelo salão e antes que os dois atacassem, Akira gritou.

    PISTOLA FÊNIX! — Usando apenas o dedo indicador, um pequeno pássaro de fogo foi atirado nas costas do inimigo.

    Ambos pararam seus ataques e, nesse momento, eu corri até Saki rapidamente. Ao encostar em seu ombro, acabei dando um choque por conta da eletricidade em meu corpo, mas nem me dei conta por causa da situação.

    — Ai — ela grunhiu.

    — Noelle! Esse cara é um manipulador do ar, ele o usa pra balançar essa coisa enorme por aí.

    — Peraí, você já sabia? — perguntei, confusa.

    — Nunca que um corpo assim conseguiria segurar isso, mas eu só consegui reparar quando me aproximei.

    — O importante é que temos um plano.

    — Ótimo. O que a gente vai fazer pra acabar com esse cara?

    — Vamos destruir aquele martelo!

    Felizmente, a atenção dele foi voltada para Akira, que continuava atirando pássaros de fogo.

    Seus golpes não faziam efeito algum, o cadáver ambulante andava lentamente em sua direção, arrastando o martelo ao seu lado e usando uma de suas mãos para dispersar as chamas.

    — Droga! Fogo não vai ajudar em nada! Andem logo!

    Novamente, o martelo foi jogado aos céus e o impacto fez com que mais partes do templo caíssem em nossas cabeças.

     — AGORA! — gritou Akira.

    Assim que as pedras caíram, Saki correu em direção ao martelo derrubado no chão, mirando seu punho como um arco e flecha. Chegando perto o suficiente de seu alvo, ela desferiu seu golpe, mas não acertou em nada.

    A arma voltou para a mão de seu dono em instantes. Nosso plano falhou.

    — Droga! É muito rápido!

    — Minhas chamas são completamente inúteis contra ele. Que frustrante!

    — Eu vou ter que acelerar…

    — Acelerar? Como assim?

    — Perguntas depois! Preciso que vocês o ataquem pelas costas! Ele não consegue lutar contra três sozinho.

    Os pés de Saki começaram a emanar um brilho violeta e assim ela voltou à luta.

    — Aí, otário! Vamo ver se você me acerta agora! — provocou, surgindo na frente do inimigo.

    Em resposta, o assassino a atacou rapidamente com seu martelo. Para nossa surpresa, Saki conseguiu sair ilesa, a mesma parecia não acreditar no que fez.

    — Isso vai ser divertido — com um sorriso debochado.

    Enquanto desviava dos golpes velozes, Saki nos dava abertura para atacar pelas costas, mas nada que fazíamos ajudava. As chamas de Akira nem mesmo o alcançavam e sua mana era forte demais para deixá-lo preso com a “Teia de Aranha”.

    — Não tá perfeito ainda, mas eu vou ter que tentar.

    — Tentar? Tentar o quê? — Perguntou Akira.

    — SAKI, É COM VOCÊ!

    — Espera, O QUÊ? — 

    GIRO TROVEJANTE! — Com o peso do meu próprio corpo, saltei, jogando meus braços para o lado e usando raios para me impulsionar, girei em meu próprio eixo como um peão em direção à criatura.

    Ele olhou para trás e viu a chance de me acertar. Um único golpe acabaria comigo. Quando estava pronta para o fim, Saki agarrou a oportunidade que lhe dei e rapidamente apareceu ao meu lado.

    De frente para o martelo gigante, ela ergueu o seu punho e gritou seu golpe, acertando um soco certeiro no centro da arma.

    O impacto dos ataques me empurrou para longe e felizmente, consegui cair segura no chão. A colisão criada pelos dois fez com que uma grande onda de choque corresse por todo o ambiente. Saki empurrava seu punho contra o martelo, que lentamente foi criando rachaduras.

    — Quebra… desgraça! — rangendo seus dentes, acertou seu outro punho, conseguindo explodir o martelo gigante em vários pedaços.

    Ambos ficaram parados no mesmo lugar, o braço direito de Saki tremia, ensanguentado. Eu corri para ver seu estado, mesmo com o assassino ainda de pé.

    — Saki, tá tudo bem?

    — Sim, isso não foi nada!

    — Mas… é muito sangue.

    — Relaxa.

    — Deixa eu ver — Akira chegou erguendo o braço ferido.

    — Aí! Eu disse que não foi nada!

    — Para de teimosia, você tomou uma porrada em cheio daquele martelo e ainda por cima bateu de frente com ele.

    — Por acaso você é médico?

    — Cala a boca e fica parada — uma pequena chama se formou em seu dedo indicador — o quartzo fez um corte bem fundo no seu ombro, vou fazer isso enquanto dá tempo.

    — Vai me curar com fogo? Achei que precisava de bastante treino pra poder fazer isso.

    — Claro, pra fazer com perfeição exige muito tempo e estudo, mas eu sou tão habilidoso assim ainda, então pode doer.

    — Temos tempo pra isso? — perguntei preocupada — Esse cara tá parado aqui tem uns 2 minutos, pode ser uma armadilha.

    — Não tem como saber, farei rápido.

    — Sou mais forte do que você pensa, manda ver! — A arrogância de Saki me preocupou, tinha medo do que isso traria no futuro.

    — Lá vai.

    Akira pôs a chama em seu dedo sobre a ferida de Saki, parando o sangramento.

    — AAAH! — Saki gritou de dor.

    — Peraí, não se mexe.

    — Droga, vai ficar uma cicatriz.

    — Eu falei pra ficar quieta.

    Ponto de vista de Akira:

    “Sério que isso é tudo que posso fazer? Que inútil.”

    A chama curativa é uma técnica de extrema dificuldade, só consegui aprendê-la por conta do Mestre Elliot, mas ainda me faltava muito.

    Meus ataques não serviam de nada, aquele cara simplesmente tirava todo o oxigênio das minhas chamas. Não tinha nada que eu pudesse fazer.

    — Ainda não acabou, mas ele deve estar mais fraco por ter perdido sua arma.

    — O que vamos fazer?

    — Melhor imobilizá-lo antes que se mexa, temos sorte de ele não ter feito um movimento sequer.

    “Ele é muito rápido para eu lutar com o bastão, o que me resta é dar suporte pra essas duas.”

    Ponto de Vista de Noelle:

    — É com você agora, Noelle — Saki sorriu para mim enquanto dizia aquilo.

    — Certo!

    — Galliard? Acabou? — Akira perguntou.

    “…”

    — Tsc! O que é que ele tá fazendo? — resmungou.

    Teia de Aranha — eu disparei minha rede de raios corretamente em sua direção, mas antes mesmo que percebêssemos, ele havia sumido de repente.

    Todos nós sentimos uma sede de sangue diabólica vindo de trás, olhamos assustados e lá estava ele, levantando a poeira, fazendo uma correnteza de vento carregar as pedras de quartzo pelo salão.

    Fi… nalmente, Li… berdade.

    — Mas que merda é essa? Minhas pernas não se mexem — disse Akira, batendo em suas pernas na tentativa de fazê-las funcionar.

    — A pressão elemental dele… não é nada comparada ao que eu senti… mas ainda assim é assustador.

    — Ele tá carregando alguma coisa?

    Olhando atentamente, percebi que suas mãos estavam fechadas como se estivessem segurando duas espadas.

    Subitamente, senti algo vindo em minha direção, porém eu não conseguia ver o que era.

    — Noelle! — Saki me envolveu em seus braços, nos jogando para o lado.

    Um corte superficial foi feito próximo ao meu olho direito, graças a Saki, eu não perdi metade da minha cabeça.

    — Presta bem atenção, ele condensou o ar em suas mãos.

    As partículas ao nosso redor estavam se concentrando, formando duas lâminas afiadas. Se eu perdesse o foco por um momento, não seria capaz de ver seus ataques.

    — E-Ele tá voando? — perguntou Akira.

    De fato, o assassino começou a lentamente se erguer aos céus.

    — Vamos de novo, não temos escolha — o braço direito de Saki estava tremendo mesmo não fazendo nada — MERDA! — suas pernas fraquejaram no momento em que se levantou.

    — Saki!

    — Eu treinei tanto e só consegui isso? Que desgraça!

    — Não se esforce demais, vamos pensar em outra coisa — tentei acalmá-la, mas ela parecia frustrada demais.

    — Isso não era pra ser apenas um teste? — Akira estava indignado.

    “Sr. Galliard… Onde você está?”

    Ponto de Vista de Galliard:

    — E-Eu li tudo! É surreal! Isso vai revolucionar o estudo da magia.

    — Tudo isso escondido em um livro comum na biblioteca…

    — Tsc! Precisa de mais análises. É uma pena que ela vai embora em breve.

    — Ainda vamos ouvir muito sobre ela, não tem com o que se preocupar.

    — Você tem bastante esperança nela, não é? Até parece a Elena que eu conheci há mais 30 anos.

    — Talvez eu tenha… mas sua arrogância pode ser um problema.

    — Mesmo?

    — E a tal da Noelle? Já contou a ela sobre aquilo?

    — Não… Isso poderia afetar seu rendimento na simulação.

    — … — 

    — DROGA! Eu esqueci completamente — me levantei, desesperado atrás da esfera dimensional.

    — Relaxa, eles ainda devem estar atrás da chave.

    Com a esfera entre os dedos, abri uma janela de espectador e, na hora, não acreditei no que vi.

    — Mas o quê? — Elena quase não conseguia segurar o riso.

    — Eles nem deveriam estar lutando contra Njord nessa forma!

    Ponto de vista de Noelle:

    Enquanto tudo que conseguimos fazer era assistir ao assassino flutuar no ar, um breu tomou conta do ambiente mais uma vez.

    — O quê? Acabou? — questionou Akira.

    “Simulação encerrada. Voltando à realidade”

    — Simulação encerrada? Só agora? — eu não compreendia o que estava acontecendo, apenas senti meu corpo sendo arrastado para fora daquele lugar da mesma forma que entrei.

    Quando saímos completamente da dimensão em que estávamos, fomos jogados bruscamente no chão. Ao erguer meus olhos, encontrei Galliard olhando para nós, preocupado, enquanto Elena ria da situação.

    — Galliard! O que aconteceu?

    — É… aconteceu uma coisa… e eu acabei me esquecendo completamente de vocês.

    — A gente podia ter morrido! — gritou Saki.

    — Saki? — Assim que desviei o olhar para ela, notei que suas feridas haviam sumido — seu braço não estava sangrando?

    — Hum? Verdade! Seu rosto… Aquele cara também tinha cortado, não?

    — Os machucados feitos na simulação não são reais, apenas a sensação da dor.

    — Então não íamos morrer?

     — Não, mas se soubessem disso, não teriam medo.

    — É exatamente isso que eu queria.

    — Não aprendeu nada do que eu te ensinei, pirralha? — Elena interrompeu agressivamente — Uma pessoa sem medo não é nada além de um suicida.

    — … — Saki se calou.

    — De qualquer forma, me desculpem. Logo, vou dar os resultados do teste.

    Um silêncio estranho se instalou ao nosso redor, que logo foi quebrado ao rirmos juntos. Aliviada, esperei ansiosa pelos resultados.

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