Capítulo 118 — Corpos promissores.
— O que você a fez respirar?
Hegoria se aproximou de Marco olhando primeiro para Reinna.
A garota continuava apagada no colo de Marlen, pesada demais para parecer apenas adormecida. As correntes ainda prendiam partes do pescoço, dos braços e das pernas. A âncora refeita por Kalamera segurava a corrente quebrada no chão, com os braços inferiores da elfa desmontados entre metal e pedra.
Marco manteve a mão baixa. Os dedos ainda sentiam o peso da essência usada.
— Uma substância do meu mundo. Ela é usada para fazer uma pessoa dormir antes de uma cirurgia. Entra pela respiração, derruba a consciência e mantém o corpo apagado por algum tempo.
Hegoria olhou para o nariz de Reinna, a boca entreaberta e o peito subindo e descendo contra Marlen.
— Uma substância capaz de fazer humanos dormirem quase imediatamente…
Ela se agachou perto o bastante para observar, sem tocar.
— Você precisa manter no ar?
— Não o tempo todo. Mas o efeito não é permanente.
Hegoria mediu a respiração de Reinna por alguns segundos.
— Isso resolve por quanto tempo?
Marco olhou para o corpo alterado.
— Não sei. O metabolismo dela está muito acelerado pela essência. Eu usei bastante. Em um adulto comum, deveria apagar por uma hora.
Lou-reen cortou a conversa.
— Então aproveitem o tempo. Reforcem as correntes.
Os soldados se moveram de uma vez.
Lou-reen olhou para Marlen.
— Sargento.
Marlen continuou com Reinna no colo por mais um instante. A mão dela ainda segurava o rosto da filha, os dedos presos na linha do maxilar alterado, como se soltar fosse perder a confirmação que acabara de encontrar.
Lou-reen não repetiu a ordem.
Marlen fechou os olhos por um segundo. Depois soltou Reinna devagar e se levantou.
Dois soldados entraram no espaço deixado por ela. Um recebeu o peso pelo tronco, com os braços firmes sob as costas deformadas. O outro segurou a corrente do pescoço, mantendo a argola alta o bastante para não deixar a cabeça tombar de lado enquanto o corpo era tirado do colo da mãe.
Marlen deu um passo para trás.
Lou-reen apontou para o aro arrancado.
— Não usem esse como apoio principal. Duas novas ancoragens nos braços, duas nas pernas e mais uma no pescoço. Sem folga.
Kalamera manteve as peças inferiores fincadas entre a corrente e a pedra. O metal tremeu sob o esforço, mas não cedeu.
— Se ela acordar antes de terminarem, esse chão não segura outro tranco igual.
Os soldados aceleraram.
Lou-reen se virou para Hegoria.
— Você olhou o outro corpo o bastante para entender como isso funciona?
Hegoria olhou para o cadáver aberto, depois para Reinna.
— O bastante para entender que o corpo foi forçado a aceitar mais essência do que suportava. As fibras endureceram, os órgãos acompanharam mal. A estrutura começou a se corrigir pelo caminho errado.
— E dá para reverter?
— Reverter? Ainda não sei.
Hegoria observou o pescoço deformado de Reinna.
— Impedir que avance… talvez.
A resposta ficou suspensa por pouco tempo.
— Mas eu preciso saber se ainda é o mesmo processo. Para ter certeza, preciso comparar o tecido vivo com o que encontrei no outro corpo.
Hegoria voltou a observar a respiração de Reinna.
— Posso colher uma amostra da garota?
Lou-reen olhou para Reinna, depois para Marlen.
— Nada que coloque a vida dela em risco.
— Não se preocupe, general. A garota viva ainda tem muito a nos mostrar.
Lou-reen se virou para Marco e Kalamera.
— Os radares.
Marco respondeu sem tirar os olhos de Reinna.
— O segundo estava pronto quando fomos atacados.
Kalamera recolheu parte da atenção das peças presas no chão, mas não soltou a âncora.
— Montado. Nós estávamos testando.
Lou-reen olhou para os soldados terminando as novas travas. Um deles fechava o aro do pescoço. Outros dois prendiam as correntes novas nos braços e nas pernas, evitando o ponto onde a pedra tinha rachado.
— Então vamos voltar para a oficina. Eu vou com vocês.
Os soldados terminaram de puxar o corpo de Reinna para o centro da contenção. A cabeça dela tombou para a frente, presa pelo novo aro sem esmagar a garganta. Os braços ficaram abertos em ângulos diferentes, cada um preso por duas linhas de corrente. As pernas foram travadas contra o chão.
Só quando a última ancoragem fechou, Kalamera começou a recolher as peças inferiores. O metal saiu das rachaduras em pequenos estalos, soltando poeira e lascas de pedra. As placas, hastes e anéis voltaram para perto dos ombros dela, mas não remontaram os braços por completo.
Lou-reen olhou para Marlen.
— Vá descansar, sargento.
Marlen encarou Reinna por alguns segundos antes de responder.
— Eu prefiro ficar aqui com ela.
Lou-reen sustentou o olhar dela por um instante.
— Então fique com Venia. Fora do alcance das correntes.
Marlen assentiu uma vez e foi se sentar ao lado da secretária.
Hegoria puxou um pano limpo da lateral da mesa e cobriu o outro corpo.
— Vou até minha sala buscar algumas ferramentas para examinar a garota com calma.
Lou-reen passou os olhos pelo galpão uma última vez.
— Se ela acordar, ninguém chega perto sem me chamar.
Os soldados responderam com continências curtas.
Lou-reen saiu primeiro. Marco e Kalamera seguiram.
Hegoria foi com eles até o corredor. Diante da primeira bifurcação, virou para o lado oposto.
— Minha sala fica por aqui.
Lou-reen não parou.
— Traga o que precisar.
Hegoria seguiu pelo corredor estreito.
Marco olhou uma vez para trás, mas a doutora já desaparecia na curva.
***
A porta da oficina abriu.
O pilar ainda tinha a marca do projétil. Ferramentas estavam fora do lugar, peças metálicas permaneciam espalhadas perto da bancada e uma faixa de fuligem cortava o chão onde a explosão da atacante tinha aberto passagem.
Marco foi direto para a mesa do fundo e pegou o segundo radar.
— Ainda está aqui.
Kalamera foi para a caixa de peças ao lado da bancada. Os quatro braços já estavam montados de novo, mas os inferiores não fechavam direito. Uma das placas do antebraço esquerdo estava amassada, dois anéis do punho direito tinham perdido alinhamento e uma haste fina vibrava sempre que ela mexia os dedos.
Ela abriu a tampa com o braço superior direito e começou a trocar o que tinha entortado. Tirou a placa amassada, soltou os anéis gastos, puxou uma haste nova e prendeu tudo no lugar com pequenos ajustes de essência.
Lou-reen pegou o aparelho na mão do Marco.
O disco de vidro refletiu a luz da fornalha, atravessado por uma linha fina presa sob a superfície.
Ela virou a peça uma vez na mão.
— Como funciona mesmo?
Marco se inclinou, agarrado à parte que ainda conseguia explicar.
— Você imbui essência aqui, em pulso curto. O aparelho emite, recebe o retorno e compara com a sintonia que já está presa nele. Se não encontrar nada parecido por perto, a linha corre limpa e volta para o centro.
Lou-reen olhou para o disco.
— E se encontrar?
— A linha entorta na direção do retorno. Não mostra distância exata, só puxa para onde a assinatura parece mais forte.
Kalamera fechou a caixa de peças com uma das mãos superiores.
— E precisa ir devagar. Isso não funciona como o colar de rastreio que o Marco usa. Lá, uma peça chama e a outra responde. Aqui, o aparelho precisa procurar eco.
Lou-reen segurou o radar com a mão esquerda.
— Vou começar pela rua da casa da Halikah.
A esfera de selenita vibrou dentro do bolso interno da capa.
Lou-reen parou.
A voz saiu abafada pelo tecido, leve demais para aquele silêncio.
— General Egalyn.
Marco olhou para o bolso dela, e Kalamera ficou imóvel ao lado da bancada.
Lou-reen puxou a esfera de dentro da capa e a ergueu diante do rosto.
— Quem fala?
Por um instante, só veio o chiado baixo da selenita, então a voz voltou.
Era feminina, controlada. Marco sentiu um incômodo atravessar a nuca. Aquela cadência era familiar, mesmo que ele ainda não soubesse de onde.
— O que achou dos meus brinquedos?
Os dedos de Lou-reen se fecharam em torno da esfera.
— Pessoas não são brinquedos.
— Tem razão. Em Taeris, costumam chamá-las de armas quando estão apontadas para os inimigos certos.
O calor no ar subiu um pouco.
— Por que está fazendo isso?
A voz demorou a responder, como se a pergunta tivesse divertido mais do que ofendido.
— Nunca parou para pensar até onde o corpo aguenta ser melhorado com essência?
Lou-reen ficou imóvel.
— Você está sequestrando crianças.
— Estou escolhendo corpos promissores.
— Crianças.
— Corpos que ainda crescem, que ainda se adaptam e que ainda não aprenderam todos os limites que adultos defendem como se fossem virtudes.
Lou-reen deu um passo para longe da bancada. A voz dela saiu baixa.
— Diga onde está.
A esfera vibrou entre os dedos da general. A voz riu baixo.
— O Império nunca me deixaria ir tão longe. Tantas regras, tantos limites. Tanta reverência por corpos frágeis.
A selenita vibrou mais forte por um instante.
— Eu sempre quis descobrir o que havia depois deles. Felizmente, encontrei novos amigos. Eles estavam tão curiosos quanto eu.
Lou-reen apertou mais.
— Eu vou encontrar você. E vou parar tudo isso.
— É claro que vai, general. Assim como protegeu Ga-el durante as Olimpíadas?
O maxilar de Lou-reen travou.
Marco deu meio passo.
— Lou-reen.
Ela não respondeu.
A voz se divertiu no silêncio.
— Mas não se preocupe. Vou enviar outro brinquedo para você logo, logo.
A esfera apagou.

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