Era uma vez…

    Numa noite de tempestade…

    Como uma mãe de primeira viagem que acabara de perder o seu único filho, os céus choravam numa mistura de fúria e tristeza. Os trovões soavam como berros de desespero e ódio, enquanto feixes de dor e amargura reluziam nos céus em forma de relâmpagos. E os vendavais eram tal igual uma agitação histérica que destruía tudo no seu caminho.

    Tudo abaixo dos céus não estava só mergulhado na tempestade, mas também naquela fria escuridão trazida pelas nuvens negras sempre que os relâmpagos não brilhavam. As ondas, sopradas para todos os lados pelos furiosos ventos, mais pareciam ser mãos gigantescas de alguma divindade determinada a arrancar um pedaço das Terras Centrais.

    Coitados eram os moradores do Leste das Terras Centrais, que viram as suas casas sendo varridas e feitas em pedaços pelos ventos similares a espadas nas mãos de um mestre espadachim, fatiando todos os edifícios no seu caminho como se de manteiga fossem feitos.

    Gritos de lamentação e choros apavorados ecoavam por todos os cantos. Eram crianças. Algumas eram levadas pelas correntezas da enchente e outras lutavam para se agarrar aos seus pais e familiares, que tentavam o seu máximo para trepar às árvores mais próximas e fugir das ruas inundadas, mas o seu infortúnio era tanto que até mesmo as árvores cediam depois de algum tempo.

    Aqueles com forças para nadar estavam lutando contra a correnteza, fugindo das inundadas terras baixas em direção a floresta no extremo Leste das Terras Centrais, onde as chances de sobrevivência pareciam ser maiores.

    Ao mesmo tempo, enquanto a tempestade devastava e as pessoas lutavam contra ela, já estava na floresta uma mulher que enfrentava outro tipo de batalha.

    A mulher estava deitada de costas sobre os ramos de uma robusta e imponente árvore, suas pernas dobradas e abertas, seu tronco levemente arqueado e a cabeça e os ombros escorados no tronco da árvore. Ela lutava para trazer ao mundo uma nova vida.

    — KNGHAAHHHH!!!!! 

    Ela gritava com tudo o que tinha, suas mãos esmagando dois ramos ao seu lado.

    Ela rangia os dentes e grunhia de dor, soltando um grito estridente logo em seguida, mas o ser no seu ventre ainda se recusava a sair.

    Sua respiração acompanhava a velocidade do vento, tão irregular quanto as marteladas frenéticas do seu coração. Suas pernas tremulavam e eram seguradas por mãos ainda mais trêmulas do homem que encarava desesperado a sua genital, aguardando algum sinal do ser que sairia por ali, voltando a fitar o rosto distorcido dela instantes depois.

    A chuva tinha e continuava molhando o homem, mas não se comparava ao tanto de suor que seus poros tinham expelindo. Visto de longe, qualquer um podia jurar que ele era quem carregava uma vida no ventre.

    Tendo zero experiências semelhantes, ele estava mais perdido que cego em tiroteio e com tanto medo de cometer um erro e perder aquela chance de ser pai.

    Todavia, o medo do homem foi disperso quando o cenário foi repentinamente pintado de roxo e ficou todo iluminado. Ele olhou para os arredores e sorriu ao vislumbrar a fonte daquele brilho, eram as borboletas-de-cristal-roxo—obviamente, eram de cristal roxo e tão grandes quanto a palma de um homem adulto—, também conhecidas pelo simples nome: “Zinl”. Elas estavam por todos os lados, inúmeras, dando o brilho alegre que aquela cena merecia.

    A mulher se encheu de determinação e força, cerrou os dentes e os ramos que segurava quebraram-se, quando ela grunhiu. O seu grito ecoou por toda a floresta, levado para todos os lados pelos ventos. Até que tudo silenciou-se.

    — UHH-NHÉÉÉÉÉ…!!!

    A chuva, os trovões, os vendavais e os relâmpagos, tudo silenciou-se, como se nunca tivesse existido. Foi como se aquelas forças da natureza tivessem recebido uma ordem superior, quando o contínuo e agudo choro reverberou por toda aquela área.

    O homem não pôde segurar a alegria, seus lábios separaram-se para formar um largo sorriso, seu coração aconchegado por um calor sem igual e lágrimas cobriram seu rosto já encharcado. Ele estava com a filha em mãos.

    — Ela é linda — disse ele, já apaixonado por aquele serzinho. Sua boca quase se rasgava de tanto que ele sorria. E, com uma faca, cortou o cordão umbilical; espremeu um pano que trazia e usou o tecido úmido para cobrir o bebé, antes de entregar a pequena à mãe.

    — Nossa pequena… — murmurou ela, seu corpo ainda fraco por conta do esforço e sua respiração ainda no processo para estabilizar-se. Descansou a bebé no seu colo, para a amamentar, seu polegar direito deslizando pela cabecinha lisa da pequena. — Heh Heh! Olha só o que você fez com a nossa filha, Glamich.

    — Hahahaha!! Pelo menos, assim, ninguém vai negar que ela é minha filha. — Ele ria ao ponto de distorcer o rosto de tanta alegria, sua mão acarinhando a sua cabeça careca.

    — Você é tão linda… — Mesmo cansada, a mulher não continha a sua alegria, seus sorrisos tão largos quanto os do marido. — Huh!? — Franziu o sobrolho, um tanto atônita, quando a pequena, como se quisesse ver quem a elogiava, abriu os olhos e fitou a sua mãe. A forma como ela sugava os mamilos com tanta necessidade mostrava o quão saudável e faminta ela estava.

    — Algo errado? — perguntou Glamich, seus olhos verdes carregados de muita preocupação. — Você está sentindo alguma coisa?

    — Não! Não é nada — respondeu ela, ainda parecia confusa. — Acho que só estou um pouco cansada… estou vendo os olhos dela a dobrar.

    — Hã!? — Glamich se aproximou. — Lavina… — Seus olhos arregalaram-se.

    Não! Não era o cansaço influenciando a visão da Lavina, aquela menininha realmente tinha quatro círculos em cada olho—duas íris e duas pupilas—, ela tinha Policoria em ambos os olhos. E não era só; aqueles olhos peculiares também apresentavam dois pares de cores. As íris no olho esquerdo eram violetas e aquelas no olho direito eram de um belo azul-marinho. Ela tinha Heterocromia.

    — Você é o ser mais lindo que eu já vi. — Lavina logo entendeu a situação, mas o seu amor continuou intacto. Sorriu e fitou os lindos olhinhos da filha.

    A pequena, no entanto, como se estivesse satisfeita com o que vira e ouvira, fechou os olhos e continuou se alimentando.

    — Você vai se chamar… — Olhou para os arredores. Depois que a tempestade passou e as nuvens negras começaram a dispersar-se, dando espaço a tímida luz solar, o brilho das Zinls começou a suavizar a sua tonalidade, tornando-se violeta. — Vaiola. Você se chamará Vaiola.

    — Vaiola? — Glamich olhou mais uma vez para a filha, seus olhos mergulhando em ternura e amor. — É um lindo nome. — Depositou um beijo nos lábios da esposa e outro na testa da bebé. — Seja bem-vinda, nossa pequena e careca Vaiola Hermis.


    [Ao Mesmo Tempo]

    [Templo de Zaghrath]

    Os corredores daquele majestoso e imponente edifício antigo eram iluminados por tochas, o que dava algum espaço para a penumbra.

    As chamas serpenteavam, gerando sombras dançantes que pareciam dar as boas vindas para o homem que caminhava com alguma lerdeza e solenidade por ali.

    O homem tinha o seu corpo alto e robusto coberto por uma túnica já há muito gasta, castanha e quase já sem cor, com marcas de diversos remendos.

    Sua face quadrada e perfeitamente esculpida tinha alguma barba que tentava arrumar um lugar ali e seus olhos estavam com uma venda branca perfeitamente limpa. No centro da venda estava estampado o Emblema Sagrado da Vida: era como uma flor de lótus, mas as pétalas eram várias mãos e sobre estas mãos abertas estava deitado um bebê iluminado por um brilho dourado.

    O homem caminhou até a entrada, que não tinha porta alguma, do único salão naquele templo.

    No interior do  salão, também iluminado por tochas, estava uma única grande mesa retangular de bronze preto. Nas laterais da mesa havia dez tronos de pedra majestosamente esculpidos e acolchoados, cinco de cada lado, e, no lugar de honra, no canto superior da mesa, um trono com lindos detalhes no espaldar alto.

    O homem caminhou ao lado da mesa, parecia não notar os outros seis homens e mulheres que estavam parados em frente a alguns assentos nas laterais da mesa, mas os notava perfeitamente.

    Todos estavam vestidos de forma similar ao homem, apenas com diferenças nas cores das túnicas e nos Emblemas Sagrados em suas vendas.

    — Me perdoem pelo atraso — começou o homem, parado diante do assento de honra. —, tive alguns contratempos.

    Ele virou a cabeça para os dois lados e sentou-se, todos fizeram o mesmo logo em seguida.

    — Se estão todos aqui, significa que já devem ter sido informados… — disse o homem, seus cotovelos sobre a mesa e os dedos entrelaçados em frente ao queixo. — Tempos difíceis se aproximam e nós temos o dever de, ao menos, minimizar as perdas. Portanto, Profetas e Profetizas… sugestões para como devemos lidar com o Monarca Sombrio que acaba de nascer?

    Todos ali tinham recebido uma mensagem de sua respectiva divindade e a mensagem era simples e direta: 

    [O Desejo dos demônios ganhou forma, um Rei nasceu para liderá-los].

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