— “Ó retrato”? Uauu… o que é isso?

    — “Ó retrato”, nanica, é algo como um retrato normal, mas o diferencial de “Ó retrato” é que ele era o retrato daquela mulher cujos olhos pareciam o deserto sem fim, assim como a sua pele. Daquela mulher cujos cabelos ardiam como as chamas mais sagradas. Daquela mulher cuja b…

    — A gente já entendeu. — Glamich o interrompeu, seus olhos girando pelas órbitas.

    — Eu ía dizer boca… mas, bem, sim… o que fazia aquele retrato deixar de ser simples e ser “Ó retrato”, era porque era o retrato da minha senhora. — esclareceu.

    — O que aconteceu depois?

    — Ela nem me deu tempo de dar a minha opinião, quando dei por mim, ela já tinha saído outra vez. Contudo, eu sabia que a minha opinião não mudaria a ideia fixa na mente dela, não importasse o quanto eu tentasse…

    — Até porque você concordaria em tudo com ela, não é mesmo? — Glamich riu. Ele conhecia o amigo e sabia que ele nunca discordava da esposa.

    — Isso não está em discussão no momento. Continuando… já que eu sabia que não tinha mais nada o que se fazer, decidi fazer apenas o que ela pediu…

    — O que ela “mandou”, você quis dizer, né, Dokin!?

    — Você se acha engraçadinho, não é mesmo? — Dokin afiou os olhos, uma explícita ameaça emanando deles: “Eu te pego na próxima”. — Será que você pode me deixar terminar de narrar a história? — Glamich respondeu com um sorriso contido e levantou as mãos em rendição. — Esquerda, direita, cima, baixo… eu olhei para todas as direções e procurei em tudo o que era canto naquela pequena casa, mas não tinha nenhum prego.

    — Nenhum?

    — Pois é, pois é… mas foi aí que eu fiz uma descoberta… eu nunca comprei um prego na vida. — Vaiola logo levou a mão para o rosto e chacoalhou a cabeça, seu pai fez o mesmo. Em sua mente um pensamento reverberava: “Eu tenho um tio burro”. — Foi aí que eu decide parar de procurar o prego e usar algum meio alternativo, só precisava descobrir qual. Entretanto… outro problema tinha surgido?

    — Outro?

    — É isso aí. Eu fechei os olhos várias vezes e os abri novamente, parecia ser uma ilusão, mas era verdade… “Ó retrato” não estava mais na minha mão.

    — Quê? Mas para onde ele foi?

    — É o que eu também queria saber, nanica. Eu refiz o meu caminho todo em toda a casa e foi aí que eu descobri que tinha feito uma bagunça completa enquanto procurava os pregos que nem tinha. Eu andei para lá e para cá e arrumava tudo pelo caminho, só para não dar a Kihame dois motivos para me matar.

    — Eu passei algumas horas naquilo, mas, finalmente, só faltava a sala e provavelmente o retrato estaria lá, né? 

    — Sim, sim!

    — Bem, foi o que eu também pensei, mas o pior tinha acontecido.

    — O quê? O quê?

    — A minha senhora chegou. Eu não tinha pendurado o retrato e a sala estava toda desarrumada.

    — Xiiihh… a titia não gosta de casa bagunçada.

    — Pois é, nanica. Mas isso nem era o pior… — suspirou com algum desânimo e chacoalhou a cabeça vagarosamente. — O retrato estava nas mãos dela.

    — Quê? A titia encontrou? Isso é bom, né?

    — Seria sim, nanica, se o retrato não tivesse virado dois.

    — Quê? — soltou Glamich com espanto. — Hahahaha! Não me diga que ele estava…

    — Quebrado, pois é. — Dokin concluiu.

    — Hmm…? — Vaiola pareceu mergulhar em pensamentos profundos repentinamente, seu indicador pousado no queixo, enquanto os olhos estavam fixos num ponto imaginário no chão.

    — O que foi, nanica?

    — Como você ainda está tão bem, titio? — indagou ela, ainda pensativa. — “DOKIN TAGEAR ACTUKCI!!! EU VOU MATAR VOCÊ!!”, tenho certeza que a titia disse isso. E quando a titia ou a mamãe usam o nome todo…

    — Hahahaha!!! Sério, que tipo de educação estamos dando à nanica? — Dokin apenas gargalhou, achando a situação cômica, enquanto o Glamich fechou o rosto e deslizou a mão por ele. — Hahahaha!! Você conhece muito bem a tua tia, nanica. Ela realmente usou exatamente essas palavras.

    — Então, como tudo acabou?

    — Isso é simples… — Dokin abriu a palma esquerda e a colocou no centro, adotando uma pose de quem ia começar a narrar uma história de ação e aventura. — Parecia que ali seria o meu fim, eu até sentia o ar ficar mais denso a cada segundo e parecia que a terra estava engolindo os meus pés, mas…

    — O quê? o quê?

    — Você vai ter que vir outro dia se quiser saber o final — finalizou Dokin.

    — Quê? Mas…

    — Sem mas, nanica. Já está ficando tarde. Precisamos trabalhar.

    — O seu tio tem razão, pequena — concordou Glamich.

    — Viu!? É como eu disse, venha aqui noutro dia, que eu te conto como tudo acabou. — Ajudou a Vaiola a se levantar e fez o mesmo em seguida, suas mãos logo ganhando a ocupação de sacudir a areia apegada às calças dele. — Foi bom vos ver, mas tenho de ir.

    Dokin se despediu, deixando um beijo no topo da cabeça da pequena Vaiola e não pôde ir sem dar um último abraço ao seu irmão de coração. Logo, ele se distanciou, deixando para trás uma Vaiola curiosa e ansiosa para saber o final da história.

    — O que será que a titia Kihame fez? — Vaiola indagou, enquanto o seu pai sacudia alguma areia presa às roupas dela e penteava os seus cabelos com os dedos.

    — Eu não faço a mínima ideia. É difícil saber, ela é um tanto… imprevisível. — Glamich comentou, seu foco estava em amarrar aqueles cabelos num coque para que não atrapalhassem a pequena. — É como o teu tio disse, você vai ter de vir para saber.

    — Eu posso?

    — Claro. Sempre que você quiser.

    — Ebááá…!!!

    — Agora vamos! Quero te apresentar o ‘Borboleta’.

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