— VAIOLA!!! — gritou Glamich, apavorado. Logo os chifres do Chifrudo Negro  atravessariam as costas dela.

    Tudo indicava que a Vaiola não conseguiria escapar daquela situação penetrante. Contudo, para a surpresa de todos, o Chifrudo Negro  não fez o que era esperado. O peixe girou o corpo habilmente no ar e acertou a pequena com a sua cauda, devolvendo ela para o interior do barco.

    O peixe retornou ao mar de cabeça e os seus chifres cravaram-se no corpo do Barbatanas douradas. O Chifrudo Negro  parecia não ser afetado pelo calor.

    A Vaiola caiu no colo do pai e os dois caíram no convés. Ela parecia ter escapado do pior, mas algum sangue fervente— vermelho feito lava—, do Barbatanas douradas, respingou na manga da sua vestimenta.

    A manga foi rapidamente corroída e o sangue alcançou o ombro direito da nanica.

    — KYAAAAAAHHHHH…!!!!!! — Nem todos os A’s nem H’s seriam o suficiente para descrever a dor que ela sentiu ao ser atingida por aquele sangue.

    Lágrimas preencheram os olhos da Vaiola e escorreram pelo seu rosto como cascatas. Seus  dentes, depois de tanto gritar, estavam cerrados e ela lutava para suportar a dor de ter aquilo que parecia metal derretido sobre o seu ombro.

    Glamich foi rápido o suficiente para logo estender a mão para procurar por uma vasilha de agua, seu corpo tão rápido e desesperado que sequer era afetado pelos balanços do barco causados pelo fervilhar do mar.

    — Vai ficar tudo bem — disse, para acalmar a filha, enquanto rasgava a manga das suas vestes e jogava água contra o ombro dela, como uma rápida rajada que lavou todo aquele sangue fervente de uma só vez.

    — Vai ficar tudo bem — disse Glamich, mais uma vez, derramando ainda mais água sobre a queimadura que marcava a pele da pequena, de pouco em pouco, para não agravar a dor que ela sentia.

    — Peguem os arpões!! — resmungou Glamich entre dentes. Ele sabia que arpões de ferro seriam ineficientes contra um Barbatanas douradas, mas aquilo era tudo o que tinham. — Vamos aproveitar que ele já foi ferido. Temos que fazer o mar parar de ferver.

    Se continuasse daquele jeito, o barco não resistiria por muito tempo.

    Tirius e Ferin obedeceram sem questionar, seguraram os arpões que tinham com mais firmeza e se equilibraram no turbulento barco até alcançar a borda.

    Eles viram o mar ainda fervilhar sob o Borboleta, o sangue carmesim do Barbatanas Douradas tingia a fervilhante água. O Chifrudo Negro  balançou a cabeça para os lados com ferocidade e a Besta mágica foi jogada para uma pequena distância.

    O Barbatanas Douradas se debateu, sangue e mais sangue vazava, mas não foi por muito tempo. As feridas logo cucatrizaram, era fácil para uma criatura que podia aquecer toda e qualquer célula sua.

    Já estando com apenas cicatrizes, a Besta mágica abriu sua boca, revelando a sua fileira de finos e pontudos dentes. Parecia furiosa. 

    — Agora!! — gritou Tirius e lançou o seu arpão contra a Besta Mágica. Ferin fez o mesmo logo depois.

    Kikiki!

    O Barbatanas Douradas se debateu por um segundo, quando os arpões perfuraram o seu corpo, mas não demorou a recuperar-se, quando os cabos dos arpões retornaram às mãos dos seus lançadores, puxados pelas cordas que cada um segurava. A ponta dos arpões no interior da Besta Mágica já tinha derretido e as feridas cicatrizaram sem demora.

    Glamich carregou a filha nos braços, seu olhar frio—o tal olhar de congelar a alma mencionado pelo Dokin—sobre o Barbatanas douradas, que ignorou os humanos, como se eles não fossem grande ameaça, e se lançou contra o Chifrudo Negro , sua boca escancarada.

    — Huh!? — Por um momento, Glamich teve a impressão desconcentrante de ver a Besta Corrompida olhar para ele. E não foi só, ele ainda podia jurar que viu os olhos do Chifrudo Negro  passarem de vermelhos para roxos, um roxo bem escuro.

    Karakarakara!

    O som quebradisso soou quando a Besta Corrompida abriu a boca. 

    — Mas que… — Glamich deixou escapar. O Chifrudo Negro  tinha aumentado de tamanho, ficando do tamanho de um tubarão adulto.

    O Barbatanas Douradas hesitou por um segundo ao ver o tamanho da Besta Corrompida aumentar e aquele mísero segundo foi tempo suficiente para o Chifrudo Negro  agir. No instante seguinte, o Barbatanas Douradas só viu um enorme chifre a milímetros do seu olho e a escuridão eterna veio em seguida.

    O chifre da Besta Corrompida tinha atravessado a cabeça da Besta Mágica, cravando-se por um olho e saindo pelo outro.

    — Morreu? — Ferin perguntou e a resposta veio quando o Chifrudo Negro  voltou a chacoalhar a cabeça. O Barbatanas Douradas flutuou na superfície burbulhante do mar.

    — Ainda está fervendo… — Ferin sussurrou, o alívio que dava sinais de vir tinha sido devorado por aquelas bolhas ainda maiores no mar. — Está fervendo ainda mais forte!!! — gritou.

    — Tem outro? — questionou Glamich com preocupação. As suas chances de sobrevivência estavam diminuindo cada vez mais e ainda tinha a Besta Corrompida.

    “Espera! Tem uma Besta Corrompida aqui e eu estou preocupado com uma Besta Mágica?”— Se questionou em pensamentos. 

    Era senso comum que as Bestas Corrompidas eram mais hostis que as Bestas Mágicas. Era dito que as Bestas Mágicas só atacavam quando eram atacadas primeiro. 

    “Por que eu não me preocupei com o Chifrudo em momento algum? Eu nem o estava contando como perigo.”

    O Chifrudo Negro  devia ter sido sua prioridade desde o começo, mas Glamich o estava vendo como um aliado desde quando ele apareceu em cena. Será que era por que a Besta Mágica foi a primeira a atacá-los e a Besta Corrompida apenas atacou o Barbatanas douradas?

    “Ele salvou a minha filha.”

    Aquele devia ser o maior dos motivos para ele não sentir nenhuma hostilidade contra a Besta Corrompida.

    “Será que é essa a razão? Gratidão?”

    — Não se preocupe, pequena, vamos sair logo daqui — confortou a sua quieta filha, que apenas gemia apertando o braço com força. — Vai ficar tudo b…

    BAM!!!!!

    O barco foi mais uma vez atingido e a força usada fora tanta que empurou o barco para alguns metros.

    Glamich cambaleou, assim como os outros dois, mas o barco foi tão bem empurrado que ele logo se equilibrou, então…

    Splash!!

    Outro Barbatanas Douradas pulou para fora do mar, como um dragão chinês, bem maior que a Besta Mágica já morta. O Barbatanas Douradas parecia voar e entre as suas mandíbulas estava a cauda do Chifrudo Negro .

    — Era pra ser a gente ali. — Ferin comentou, confuso.

    — Você está dizendo que… — Tirius não conseguia acreditar.

    “O Chifrudo nos salvou.” 

    Glamich murmurou, em pensamentos, o que ninguém conseguia colocar em palavras.

    — Aquela parece ser a mãe do outro. — Glamich disse, para mudar de assunto. Bestas Corrompidas matavam humanos, era essa a “programação primária” delas. Elas não salvavam humanos.

    — Parece que s…

    — DÓI!!! — Vaiola disse algo enfim, mas só serviu para deixar todos mais preocupados ainda. — Dói muito… isso dói… dói muito… dói muito…!!!

    — Vaiola…? — A pequena estava encolhida e contorcida no colo do pai. Parecia que todo o seu corpo doía. Ela parecia nem ligar mais para o ferimento no ombro.

    — Está me rasgando… está me rasgando… dói muito… dói muito…

    Glamich queria ajudar, mas só conseguia ficar confuso e ainda mais preocupado. O que estava acontecendo?

    — Os dentes dele… — disse ela, tremendo. — Me ajuda… — Levantou a cabeça e fixou seus olhos nos do pai, seus lábios contorcidos, o sobrolho franzido e o rosto encharcado. Seus olhos estavam abertos, cheios de tristeza, dor e ardiam como nunca arderam. — Pai!

    Os olhos do Glamich se escancararam arregalados, sua respiração pausou por um segundo, até que ele confirmou: o par de íris que devia ser violeta estava todo roxo, tão escuro que era fácil confundir com preto. 

    “Esses olhos…”— Glamich não entendia. —“São os mesmo que os do Chifrudo.”

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