Os dois parados na margem do Oceano Escarlate eram ambos da raça Hyems. Tinham dois pares de braços, dois pares de olhos—um par abaixo do outro—, uma cauda com cerca de 100 centimetros—fina e preta como um chicote, mas peluda na ponta—, os braços e pernas eram peludos e tinham um par de chifres pretos, pequenos como os de um cabrito, que creciam deitados no topo da cabeça, apontando para trás.

    — Vocês devem ser aqueles que encomendaram os Barbatanas Douradas — disse Glamich, antes de mais nada, depois de se aproximar o suficiente.

    — E vocês devem ser aqueles que deviam ter chegado há duas hora — resmungou um dos Hyems, seus braços cruzados. Ele segurava a corrente de um relógio de bolso prateado, que balança na sua mão direita superior.

    — Hohoho! Kramustek Nel. — O outro Hyem disse ao mesmo tempo em que estendia a mão direita do par inferior. A mão era peluda, não tinha unhas, nem pele e nem carne nas falanges distais, deixando em exibição ossos afiados feito garras. — Esse aí é o meu irmão gêmeo, Morstek Nel. — Glamich aceitou o cumprimento e apertou a mão robusta. — Não ligue para o que ele diz! Ele é meio rabugento.

    — Glamich Hermis. É um prazer — disse Glamich, antes de apresentar a sua equipe. —, essa é a minha filha, Vaiola e os dois são Tirius e Ferin, trabalham com…

    — Já perdemos demasiado tempo. — Morstek reclamou, seus olhos impacientes sobre o Glamich. — Vamos logo ao que interessa.

    Kramustek tinha cabelos castanhos amarrados num pequeno rabo de cavalo, tinha uma barba cheia e bigodes trançados. Suas íris alaranjadas tinham dentro um círculo feito de um padrão misterioso e mágico, assim como os olhos vermelhos do irmão.

    — Você vai espantar os nossos vendedores desse jeito, Morstek. — Kramustek bateu no ombro do irmão com a mão esquerda superior e riu para acalmar os ânimos. — Por favor, não levem para o pessoal o que ele diz, é só o jeito dele.

    — Não se preocupe. — Glamich disse sem se importar muito. Passou então a se dirigir a Kramustek. — E nos desculpem pelo atraso. Na verdade, não estava nos nossos planos realizar a encomenda de hoje, mas acabamos sendo atacados por estes Barbatanas Douradas…

    Enquanto Glamich se justificava, Kramustek o encarava fixamente com aqueles olhos que irradiavam um leve brilho místico e assim confirmava cada uma das palavras ditas como sendo verdadeiras.

    Habilidade ocular [Olho da verdade], a habilidade que todos os Hyems tinham de ver a… bem, Verdade.

    Preocupado em se justificar, Glamich sequer notava a sua filha se escondendo atrás da sua perna, a segurando como um escudo impenetrável. Ela estava desconfortável, escondendo a sua face na coxa do pai; em alguns momentos, ela até espiava para ver se alguma coisa mudava, mas continuava se deparando com a caranca do Morstek e com aqueles olhos iluminados que estavam a um bom tempo focados apenas nela. Ele parecia estar estudando a nanica minuciosamente.

    Ela não sabia a exata razão, mas sentia-se ameaçada por aqueles olhos. Era algo diferente da pressão que sentia ao olhar para a sua mãe; não que fosse tão poderoso quanto a pressão da mãe—nem de longe seria—, como se ela fosse dispida, dissecada e tivesse a alma em exposição. Era certo que ela não entendia muito bem o que era aquele sentimento, mas era algo que ela nao queria continuar sentindo.

    — Está olhando o quê? — indagou ela por fim, agarrando com mais força a perna do pai para ganhar coragem.

    — Huh!? — Só então Glamich notou a estranheza da sua filha e, como ela, levou logo os olhos até o Hyem de olhos vermelhos. Kramustek também balançou as suas tranças, nos cabelos e barba, e se virou para o irmão.

    A desconfiança nasceu nos corações humanos.

    — Você! — Morstek respondeu sem se importar com os olhares de desconfiança. — O que mais eu olharia, tendo algo tão interessante como você aqui? Você é naturalmente uma atração para os olhos.

    — QUÊ?!! — Os olhos do Glamich se encheram de frieza, indignação e raiva, assim como os olhos dos outros dois atrás dele. Imediatamente empurrou a filha mais para trás dele.

    — O que foi? Algum problema? — Morstek disse, ainda rabugento, parecia sentir-se com a razão.

    — “Algum problema”? — Glamich perguntou ainda mais indignado. — Vo…!

    — P-por favor, tenham calma. — Kramustek pediu, se colocando entre o irmão e o Glamich, que se aproximava.

    — Ter calma? Você ouviu o que o teu irmão…

    — Não interpretem mal as palavras dele, por favor. — Kramustek estava com as mãos levantadas para indicar que não estava para brigas. — Eu juro que as palavras dele não carregam malícia, ele só não encontrou a forma certa de se expressar.

    — Forma certa de se expressar!!?

    — É! Entenda, é só que, a Vaiola… a tua filha é uma existência um tanto… Hmmm… rara, sim, rara — disse Kramustek, depois de alguma escolha de palavras.

    — Rara? Como assim?

    — Tem algo de único nela… não! O certo seria dizer que tem algo de único na ‘Essência’ dela. — Kramustek explicou, não deixando de dar ênfase na palavra Essência.

    Glamich arregalou os olhos e, inconscientemente, ficou mais atento as palavras do Hyem. Ele sabia que a habilidade ocular dos Hyems não só via a verdade nas palavras, aquela habilidade literalmente via a verdade de todas as coisas, a verdade do mundo e todas as criaturas nele.

    — Ela tem uma Essência similar aos seus olhos… ao mesmo tempo em que ela é apenas uma, também são duas. — Kramustek acrescentou. — Uma Essência que, ao mesmo tempo que atrai, também repele na mesma intensidade. Ela parece carregar duas vontades, mas, ao mesmo tempo, essas duas vontades são, estranhamente, apenas uma. Hehehe! É algo como o Paraíso, que ao mesmo tempo é o Inferno.

    Mesmo estando atento ao que o Hyem dizia, Glamich não gostava do jeito que o Kramustek olhava para a filha, como se fosse algo a ser estudado.

    — É realmente… interessante. Uma atração para os olhos de qualquer Hyem.

    — E o que isso significa?

    — Não saberia te explicar, Glamich —  respondeu Kramustek, analisando a acanhada Vaiola. — Mas lhe garanto que não é nada que precise da tua preocupação.

    — Como eu não me preocuparia? Eu sou p…

    — Isso já é problema teu e apenas isso! — declarou Morstek, já impaciente. — Vamos terminar logo a transação. Não sei vocês, mas eu tenho coisas por fazer.

    — Vou ter de concordar com o meu irmão. Realmente temos muito por ainda fazer — acrescentou Kramustek.

    Glamich achou melhor não insistir, então apenas terminou a transação com os dois Hyems. Entregou a eles os dois corpos das Bestas Mágicas e recebeu dos irmãos uma nota de 5 Vells e outra de 1 Vell e ainda foi pago 3 Centavos pela sacola.

    Ele demorou a aceitar o valor, mas os Hyems insistiram e acabaram por convencer o pescador, afinal a Vaiola tinha sido ferida durante a pescaria.

    No fim, os gêmeos Nel embarcaram em seu pequeno barco à vela com apenas um mastro, que esteve atracado ali na margem. Parecia um pequeno barco de pesca, mas totalmente a vela. Não se via nenhum remo nele.

    Quando o barco começava a se afastar da margem, Morstek olhou para a Vaiola, seus olhos carregando uma seriedade assustadora.

    — Cuidado com as tuas amizades, garotinha — disse por fim e desapareceu na densa névoa, que parecia vapor de sangue.

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