Capítulo 09.1 — 1 Variável
[Algures no Oceano Escarlate]
A névoa de sangue ía ficando cada vez mais densa, quanto mais o pequeno barco dos gêmeos Nel navegava para o centro do Oceano.
O Oceano Escarlate era o segundo maior de toda a Dimensão Amarela, estava localizado no extremo Noroeste, sendo o responsável por separar os continentes Norte e Sudoeste, onde estavam o reino dos Hyems e Lihyfs, respectivamente.
O misterioso Oceano Escarlate era conhecido pela névoa vermelha que paira sobre aquelas águas, uma névoa que nem mesmo a mais poderosa magia já criada conseguia dissipar. Ninguém sabe como nem quando a névoa vermelha surgiu e ainda existem aqueles que procuram decifrar os segredos daquela névoa.
O caminho a frente estava completamente obstruído pela névoa escarlate e qualquer um se perderia fácil naquele mar, mas não era assim para nenhum Hyem que tenha despertado a habilidade ocular daquela raça. Para eles, era como se a névoa nem existisse.
Os irmãos trocaram olhares depois de algum tempo de navegação, quando apareceu diante deles um enorme Galeão preto com o nome “Liberdade” pintado na proa.
Kramustek olhou para o navio, para os inúmeros canhões que viravam para lá e para cá e para o mastro principal, onde uma bandeira preta balançava com o vento, agitando a imagem de uma caveira com machados cruzados atrás, uma Jolly Roger.
O barco dos gêmeos se aproximou timidamente do casco do Galeão e foi naquele momento que o Kramustek assobiou; uma escada de cordas foi lançada para eles, e outros dois pares de cordas que eles amarraram no barco para que fosse puxado para o convés.
Já no convés, os irmãos receberam as boas-vindas de toda a tripulação ali presente, inclusive de duas Hyems especiais para os dois, que os receberam com abraços e beijos.
Em contraste com o enorme navio, a tripulação do Liberdade era bem pequena, sendo composta por dois casais de Hyems, dois casais de Lihyfs e uma criança e o restante eram todos humanos negros, sete mulheres e treze homens.
Depois de cumprimentar a todos, os gêmeos deixaram para trás a tripulação e foram até a cabine principal, onde foram logo recebidos.
— Conseguiram? — Uma voz grave reverberou pelas paredes da cabine, assim que a porta foi fechada atrás dos dois irmãos. Diante dos gêmeos estava uma silhueta preta com olhos azuis, que eram incrivelmente brilhantes, tão intensos quanto estrelas.
— Os barbatanas douradas já podem ser riscados da lista, capitão. — Kramustek respondeu e a silhueta pareceu sorrir. Não estava bem visível, mas dava para sentir que era um sorriso genuíno de esperança e alegria.
— Bom, muito bom. — A voz soou animada. — Agora só nos faltam três elementos da lista.
— Vai ser impossível encontrá-los na Dimensão Amarela, capitão. — Kramustek abordou.
— Eu sei. E é por isso que irei enviá-los para ‘aquele lugar’, assim que descobrimos uma entrada. — A voz respondeu com alguma ansiedade.
— Tem mais uma coisa, capitão. — Morstek foi quem falou. — Conhecemos uma garota hoje.
— Uma garota?
— Ela é um tanto… interessante. — Morstek acrescentou.
— Explique!
— É um pouco complexo. Só posso dizer que a alma dela é turbulenta, mas estranhamente calma. — Morstek tentou explicar, mas não se aprofundou muito. — O que eu quero dizer é que ela é uma variável em nossos planos, desconhecida e imprevisível.
— Uma garotinha? — O capitão pareceu pensativo. — Me diga, Morstek, por que falar dela?
— Julgo que talvez ela se transforme numa ameaça caso cresça, capitão — acrescentou Morstek, o que levou o irmão a arregalar os olhos e mirá-lo com descrença.
— O que você está dizendo, Morstek? — Kramustek indagou, seu tom e expressão carregados de uma solenidade extrema. — É de uma criança que estamos falando. Pensa mesmo em fazer algo contra uma criança? — Morstek nada respondeu, mesmo diante do olhar do irmão, apenas continuou aguardando a resposta do capitão. — Capitão…?!
— Bem… você tem uma certa razão, Morstek. — O capitão começou. — Uma variável a esta altura será mesmo um problema. — O capitão fez uma pequena pausa depois daquela fala, parecia ainda analisar todas as probabilidades, em busca de um caminho melhor para a sua tripulação. — Contudo, seria ir contra os nossos princípios se fizéssemos o que você sugere. A garotinha nada nos fez, afinal. Qual o nome dela?
— Vaiola… — Morstek foi quem respondeu. — Vaiola Hermis.
— Hermês? Você disse Hermês?
— É Hermis, capitão. — Kramustek esclareceu, um tanto surpreso e confuso pela reação do capitão, que pareceu se surpreender com a informação.
— Hmmmm… — Mergulhado em pensamentos, o capitão se virou de costas para os gêmeos. — Pois bem, mantenham a Vaiola Hermis sob vigilância enquanto os nossos planos não se cumprem, mas não façam nenhum mal a ela enquanto ela não for contra nós.
— Claro, capitão. — Kramustek não demorou a assentir. Seu capitão ainda era sensato.
— Sendo assim, acho que só me resta dar um passeio. — Morstek terminou, seu sorriso e olhar irradiado alguma insanidade e frustração.
E foi assim, naquele dia, o sexto do sexto mês do segundo milésimo ducentésimo quinquagésimo sexto ano da Era do Recomeço, que os caminhos de dois dos protagonistas deste mundo se cruzaram.
O que será que eles fariam se soubessem que seus caminhos ainda se cruzariam inúmeras vezes?
Hohoho! Já estou curioso para saber quem vai matar quem, ou se serão aliados depois de tudo.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.