Capítulo 10 — 1 Profecia (1/3)
[Dois Meses Antes]
[Extremo Leste de Remis: Condado Helmet]
A manhã chegou turbulenta naquele dia.
Os gritos da condessa ecoaram por todos os cantos, acordando todos antes do sol nascer. Ela se contorcia de dor na cama.
Seu esposo, o conde, ordenou a um dos seus vários escravos para que fosse logo chamar uma Bruxa Curandeira. Sua esposa estava grávida, afinal.
Logo, a Bruxa solicitada chegou e dirrigiu-se aos aposentos dos condes, onde a condessa ainda ofegava e se remexia como uma cobra na cama, de tanto que sentia dores. Depois de uma minuciosa análise na condessa, a Bruxa Curandeira sorriu sem preocupação e acalmou a condessa.
— Não há nada de errado com o bebé, senhora — informou. —, as dores são apenas o seu filho agitando-se, com pressa de vir ao mundo.
— “Meu filho”? Então…?
— Sim, Condessa. Será UM forte e abençoado menino. — Foi o que a Bruxa Curandeira disse naquele dia, contudo…
[Atualmente]
Era a noite do sexto dia do sexto mês do dois milésimo ducentésimo vigésimo sexto ano da quarta Época, a Era do Recomeço.
Era fácil confundir aquela noite com o dia mais iluminado; as estrelas eram o centro de todas as atenções, brilhando como nunca antes tinham brilhado, não dando espaço para as duas luas aparecerem.
O brilho das estrelas talvez não devesse ser definido meramente como “brilho”, já que era tão ofuscante que chegava perto de rivalizar com a luz do próprio sol, o que as tornava ainda mais lindas e atraentes sob aquele tecido nebuloso que eram os céus.
Mesmo quando a luz causava irritação aos olhos, ninguém conseguia desviar o olhar depois de olhar para aquelas estrelas uma única vez, era como um imã que carregava a capacidade de seduzir.
Todos tinham uma certeza em seus corações: Era aquele um evento único, portanto, ninguém se importou com mais nada e apenas ficaram parados, inundando as ruas, com as cabeças levantadas para encarar aquela beleza única. Todos olharam para manter aquilo na mente.
Nada ofuscava a luz das estrelas, absolutamente nada. Não havia nuvem nenhuma nos céus, não havia árvore nenhuma em terra que ousasse bloquear a visão de todos aqueles que queriam vislumbrar as estrelas. A situação era tão única que até mesmo a sangrenta névoa sobre o Oceano Escarlate tinha desaparecido, misteriosamente, sem deixar nenhum rastro.
Todo o protagonismo celeste, naquele dia, tinha sido cedido unicamente às estrelas, como se algum ser além da transcendência tivesse planejado que aquele dia fosse reservado apenas para elas.
Os ventos não eram escutados, não importava o quão ferozes estivessem, nem os mares, com suas grandes ondas e nem os animais faziam qualquer barulho.
Tudo estava cooperando para garantir que nada roubasse o protagonismo das estrelas lá no céu.
Debaixo daquele clima fresco, caracterizado por frentes suavemente calorosas e, ao mesmo tempo, levemente frias, à Sudeste da província de Remis, no condado de Helmet, no império Humano, o momento mais esperado por todos ali tinha chegado. O filho dos condes nasceria.
Mas, antes de partirmos para lá, devemos nos aproximar de uma pequena palhota localizada na área para os escravos, à Sudoeste do castelo principal. Alí, inúmeras outras palhotas formavam várias fileiras por uma vasta área de, talvez, setecentos e cinquenta metros quadrados. Era um terreno rectangular.
Se ninguém soubesse ao certo o que acontecia ali, seria fácil confundir aquilo com um pequeno povoado.
— Ghmmm…
Uma anciã grunhiu dentro da palhota em questão, seus olhos fechados sugeriam que ela estava mergulhada em meditação.
Sua cabeça careca estava um tanto curvada e um cocar de penas pretas e vermelhas adornava-a, dando a velha mulher um tom místico quando era associado às suas vestes de couro animal—apenas um top, um pequeno manto sobre os ombros e uma saia—, que continha ainda algum pêlo.
A pele preta dela reluzia depois de tanto que ela suou, refletindo o brilho das cinco velas que formavam um pentágono, cercando o heptágono formado por outras sete, que tinham no seu interior outras três formando um triângulo.
Shiik! Shiik! Shiik!
Seus braços balançavam para cima e para baixo, realizando movimentos sincronizados das suas unidas mãos, que prendiam algo lá dentro.
— Hmmm…
O som repentino saiu dela e suas mãos separaram-se, libertando sobre a pequena esteira de palha o que ela agitava.
Ela se mexeu de leve para se sentar melhor na pequena esteira de palha e observou os pedaços de ossos e conchas brancas que ela acabava de jogar.
— Hmmm…
A mulher tinha a íris do olho direito toda branca, era cega de um olhos, mas o olho esquerdo via perfeitamente. Suas mãos flutuavam acima dos ossos e conchas que ela jogou na esteira, impedindo que ela visse os pequenos objetos.
— Haah! — Respirou profundamente, relaxando cada célula sua, e tirou as mãos da frente. Seu rosto se contorceu na mesma hora, realçando as suas rugas profundas.
— Não! Isto não está certo — murmurou.
As conchas e os ossos estavam espalhados em sua frente, mas tinha um par que se destacava mais que os outros, um osso e uma concha. O que chamou mais atenção foi o fato de terem se separado dos demais.
— Hmm…
A anciã não pensou muito depois daquilo, recolheu os ossos e as conchas, e voltou a misturá-las entre as mãos seladas.
Shiik! Shiik! Shiik!
— Hmm…
Ela lançou os ossos e as conchas novamente.
— Parece que perdi o jeito. — Seus ombros caíram, um suspiro escapou e sua cabeça tombou para frente. Frustração pairava em seu peito. — O que isso significa?
Assim como antes, tinha um pequeno osso e uma pequena concha em frente dela. Era impossível para ela esconder a preocupação diante daquele resultado que ela não conseguia decifrar.
“Uma vez é falta de prática, duas é coincidência, mas três… três vezes é…”
Ela voltou a recolher as conchas e os ossos, os agitou mais uma vez entre as mãos, até que…
— XAMÃ!!
O corpo da anciã tremeu repentinamente, apenas uma única vez, o suficiente para enviar um arrepio pela sua espinha e obrigá-lá a abrir as mãos. Os pedaços de ossos e conchas caíram na esteira de palha.
— I-isso é… — os olhos dela arregalaram-se, viajando pelos ossos e conchas, o suor na sua pele ficou ainda mais notável e seu corpo tremia.
Ela estava conseguindo… vendo aquelas conchas agrupadas atrás de uma concha solitária, como soldados a espera dos comandos de seu líder, assim como inúmeros ossos formando um arco na frente de um osso solitário, como um exército protegendo o seu rei. Vendo aqueles dois grupos frente a frente, como dois exércitos opostos num campo de guerra, a anciã congelou. Ela conseguia ver… ela conseguia decifrar.
— Guerra…! — murmurou, ainda em choque.
Tudo o que ela viu foram dois lados opostos nascidos da mesma fonte e… ANIQUILAÇÃO!!
ANIQUILAÇÃO TOTAL E COMPLETA!!

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