— XAMÃ!!

    A voz de antes soou com ainda mais desespero que antes, arrancando de imediato a anciã do seu transe.

    — XAMÃ, POR FAVOR, SE APRESSE! A CONDESSA… precisa de ajuda.

    — Estou indo. — A anciã respondeu simplesmente, um segundo depois de se recuperar dos acontecimentos de antes. Ela não demorou para esquecer os ossos e as conchas.

    Já sabendo qual deveria ser a emergência, já que era sobre a grávida Condessa, a anciã se levantou rápido, nem se dando tempo de apagar as velas, e foi até à porta.

    — Vamos rápido! — disse a mulher negra que viera buscar a anciã. Ela também não tinha cabelos e vestia simples roupas de couro.

    As duas saíram sem demora, depois que a anciã deixou para trás o seu cocar, e a porta da palhota se fechou logo em seguida. 

    Uma risada reverberou no interior da palhota escura.

    — Kukukukukekeke!!! — As velas se apagaram todas de uma só vez e uma voz sinistra, carregada de terror e insanidade, soou. — Quase que aquela velha viu mais do que devia. — Repentinamente, no chão, a escuridão se contorceu com violência, formando um vórtice similar a um redemoinho… não! Dois vórtices, dois redemoinhos.

    Logo, os dois vórtices aquietaram-se e daquela escuridão se abriram dois olhos vermelhos, que brilhavam tanto quanto as estrelas naquela noite. O brilho daqueles olhos era tão intenso que chegava a iluminar boa parte do interior daquela palhota.

    — Vocês não gostariam de receber spoilers tão cedo, né não? Kukukukukekekeke!!! — As trevas se acumularam sobre a esteira de palha, se contorceram e formaram um braço longo e cadavérico conectado a uma mão nebulosa com garras enormes. — Está na hora do verdadeiro protagonista desta história nascer. — A voz do ser soava como uma frequência de rádio com problemas, onde inúmeros demônios falavam ao mesmo tempo. A mão de trevas deslizou pela esteira, deixando uma trilha de névoa preta para trás, seu dedo indicador esticou a garra e tocou no osso principal que era “protegido” pelos demais. — “Osso principal”? Sério Narrador? Podia ao menos chamá-lo “Osso Profético”, né não? 

    Nem fodendo.

    — Kukukukekeke!! Você não muda mesmo, né não!?! Bem, vamos logo ao que interessa. Seja bem-vindo de volta, Primordial!!

    Ditas aquelas palavras, o osso tocado foi consumido pelas trevas, tornando-se totalmente preto.

    Depois daquela sentença, a palhota foi consumida pelo silêncio.


    Inconscientes do que acontecia na palhota, a xamã e a jovem que a buscara corriam pelos corredores do castelo, iluminados por candeeiros cheios de cristais luminosos vermelhos, que davam um ar crepuscular ao lugar.

    Elas subiram rapidamente os lances de escada até o segundo andar, que era infiltrado pela luz das estrelas.

    Elas não precisaram aproximar-se muito do quarto principal, protegido por dois soldados à porta, para escutar os gemidos e grunhidos de dor. A Condessa, dentro daqueles aposentos, parecia estar sofrendo imensamente, ofegando uma e outra vez.

    — Senhor, a parteira! — gritou um dos soldados que guardavam a porta, depois de permitir que as duas entrassem.

    Quem entrou primeiro foi a Marta, a escrava que buscou a anciã. Ela se curvou quando deu a volta pela cortina, guiando a xamã, e viu o homem que segurava com força a mão da mulher que se contorcia na cama.

    — Por que demoraram tanto!!? — O homem na cama gritou, sua face se contorcendo numa mistura de ansiedade, preocupação, medo e raiva. — É meu filho quem vai nascer e vocês ousam levar todo esse tempo!!!

    — Perdão, conde — A anciã se curvou. — as nossas palhotas estão demasiado distan…

    Plam!!

    — Não quero saber!! — O homem, de pele branca, cabelos loiros e olhos verdes, rosnou diante da xamã, depois de esbofeteá-la com as costas daquela mão com um anel em cada dedo. — E é melhor que o meu filho nasça saudável, ou esse será o vosso último dia de vida.

    A bochecha da anciã foi tingida de vermelho depois daquele golpe, era um hematoma bem feio, e o canto direito dos seus lábios expeliu sangue. Contudo, as duas apenas responderam com um aceno positivo de cabeça e curvaram-se, quando o homem foi embora.

    O que se seguiu foram gritos e mais gritos daquela mulher que tentava de tudo para tirar o filho do ventre. Ela cravava com todas as forças os dedos na cama, toda encharcada pelo seu próprio suor.

    Depois de trinta minutos, a xamã e a Marta trocaram olhares, suas sobrancelhas caídas e suas expressões pesadas. Contrariamente ao que devia fazer, a genital da mulher não estava expelindo um bebê, mas sangue e mais sangue, transformando os lençois brancos em vermelhos.

    Depois de uma hora, a Condessa perdeu todas as forças e desmaiou sem conseguir dar à luz.

    Preocupada, Marta pensava se o bebé teria morrido no ventre da mãe, mas a xamã dizia com convicção que sentia uma vida dentro do ventre da Condessa.

    Quando a Condessa, de cabelos ruivos, não podia mais empurrar para fora o seu filho, a xamã não perdeu mais tempo, aqueceu uma faca, usando uma vela, e abriu o ventre da mulher para extrair o bebê. 

    BADHUMM!!

    Os corações das duas escravas falharam e seus olhos arregalaram-se. Elas cambalearam um passo para trás e quase se esqueceram de respirar. O choque era enorme.

    Três, era esse o número de surpresas que elas receberam ali.

    O primeiro choque se dava pelo fato de tudo estar seguindo para um caminho diferente do previsto pela Bruxa Curandeira. Não era uma só criança, eram dois meninos nada parecidos.

    “Como pode? Nunca uma Bruxa curandeira falhou nisso.”— Marta pensou.

    O segundo assombro veio quando a razão da falha do parto normal chegou aos seus olhos. Os dois bebês, os gêmeos nada parecidos, tinham enrolado um ao outro com os seus cordões umbilicais. Eles pareciam abraçar-se, mas bastava olhar com um pouquinho mais de atenção para perceber o que acontecera.

    “E-eles estavam… lutando?”

    O terceiro abalo foi o que mais causou estranheza nas duas. Os dois pais das crianças, os Condes de Helmet, tinham ambos pele branca, mas, mesmo assim, um dos bebês tinha nascido negro.

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